Aos chorões, poema de Augusto Meyer

26 09 2010

Vitórias Régias e chorões em lago, 1916

Claude Monet ( França, 1840-1926)

óleo sobre tela, 160 x 180 cm

Lycée Claude Monet, Paris

Aos Chorões

                        Augusto Meyer

Chorões da praia de Belas

Molhando as folhas no rio.,

sois pescadores de estrelas

ao crepúsculo tardio.

O mais velhinho, já torto

ao peso de tantas mágoas

lembra um pensamento absorto

debruçado sobre as águas.

Salgueiros trêmulos, belos,

meus camaradas tão bons,

diz o poeta, violoncelos

onde o vento acorda os sons.

Sois, à beira da enseada,

um bando de poetas boêmios,

e fitais na água espelhada

vossos companheiros gêmeos…

Mas se alguma brisa agita

a copa descabelada,

ondula, salta, palpita

vossa imagem assustada…

Augusto Meyer Júnior (Porto Alegre,1902 — Rio de Janeiro,1970) Pseudônimo: Guido Leal, Jornalista, ensaísta, poeta, memorialista e folclorista brasileiro. Em 1935 assumiu a direção da Biblioteca Pública de Porto Alegre. Em 1938, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde passou a colaborar em jornais e revistas com poemas e ensaios críticos. Fez parte do Modernismo gaúcho, quando dá à poesia um toque regionalista. Membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Filologia.

Obras:

A Chave e a Máscara,  1964  

A Forma Secreta, 1965  

À Sombra da Estante, 1947  

Camões, o Bruxo e Outros Estudos, 1958  

Cancioneiro Gaúcho, 1952  

Coração Verde, 1926  

Duas Orações, 1928  

Gaúcho, História de uma Palavra, 1957  

Giraluz, 1928  

Guia do Folclore Gaúcho, 1951  

Ilusão Querida, 1923   

Le Bateau Ivre. Análise e Interpretação, 1955  

Literatura e Poesia, 1931  

Machado de Assis, 1935  

No Tempo da Flor, 1966  

Notas Camonianas, 1955  

Poemas de Bilu, 1929  

Poesias (1922-1955), 1957  

Preto e Branco, 1956  

Prosa dos Pagos, 1943  

Segredos da Infância, 1949  

Seleta em Prosa e Verso, 1973  

Sorriso Interior, 1930  

Últimos Poemas, 1955





Tombo, poesia infantil de Maria Dinorah

8 09 2010
Pato Donald leva um tombo, ilustração Walt Disney.

Tombo

                                             Maria Dinorah

 

A rua ri

de meu tombo.

Henrique

ri que se rola.

João se rola de rir.

Levanto

meio sem jeito

e rio

riso sem graça,

enquanto,

de tanto riso

se sacode toda a praça!

Em: Poesia fora da estante, Ed. Vera Aguiar e Simone Assumpção, Porto Alegre, Projeto: 2007

 

 

 

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Maria Dinorah Luz do Prado (Porto Alegre, 1925 — Porto Alegre, 2007) professora e escritora de livros infanto-juvenis.  Escreveu aproximadamente cem títulos.

Algumas obras:

Alvorecer

Boi Boá

Bom-dia, Maria

A caranguejola do Zeca e outras estórias

O Cata-vento

Chapéu de vento

O coelho Dim-dim

Coração de papel

A coragem de crescer

Coragem de sonhar

O desafio da liberdade

Dobrando o silêncio

Dom Gato

Ensinando com poesia

A Fábrica das gaiolas

Felpudo e olhogrande

Festa no Parcão

A flauta do silêncio

A flautinha do Pirulin

O galo superdotado

A gaitinha do sseu Zé

Os gêmeos

Geometria de sombra

Giroflê giroflá

Guardados de afeto: repensando a alfabetização

Histórias de fadas e prendas

Hora nua

Iara Aruana

A lagoa encantada

O livro infantil e a formação do leitor

O livro na sala de aula

O macaco preguiçoso e outras estórias

Mata-tira-tirarei

A medida do sorriso

Menino na avenida

Meu verde mar azul

O ontem do amanhã

Um pai para Vinícius

Panela no fogo, barriga vazia

Piá também conta causo

Pinto verde e outras estórias

Pitangas e vaga-lumes

O poema da flor

Poesia Sapeca

Pra falar de amor

Quando explodem as estrelas

Que falta que ela nos faz

A Semente Mágica

Seu Zé

Simplesmente Maria

Solidão e mel

Tem que dar certo

O Território da infância

Três voltas de ciranda

Uma e una

O ursinho azul

Ver de ver

Verso e reverso: poemas de Natal

Vinte pontos de uma vez

O vôo do pássaro e  outras histórias





Parece mesmo que vem chuva — poesia de Sílvio Ribeiro de Castro

11 08 2010

Um dia de chuva em Lexington, KY, 1898

Paul Sawyier (EUA, 1865-1917)

Parece mesmo que vem chuva

                                            Sílvio Ribeiro de Castro

Banho morno na banheira

ensopado cozinhando na panela

alvoroço nas folhas da palmeira

vento sul entrou pela janela

antes do almoço, uma bagaceira

a tarde chegou num barco à vela

Parece mesmo que vem chuva

doce de banana com canela

na fruteira, um cacho de uvas

desenho inacabado numa tela

esquecido na cadeira, um par de luvas

sente saudades das mãos dela

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Bule de café na mesa, cesta de pão

um vaso de rosas amarelas

cachorrinho dormindo no chão

o livro de sonetos de Florbela

noite no meu quarto, solidão

um rosto de mulher numa aquarela

Em: Poesia Simplesmente, diversos autores, prefácio de Roberto Pontes, 1999.





A língua do Nhem — poesia infantil de Cecília Meireles

6 08 2010

 

 

 Ilustração, Maurício de Sousa.
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A língua do Nhem

                                         Cecília Meireles

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Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém.

E estava sempre em casa
a boa velhinha
resmungando sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também

a miar nessa língua
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

Depois veio o cachorro
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além,

e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,

ficou toda contente,
pois mal a boca abria
tudo lhe respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

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Em: Ou isto ou aquilo, Cecília Meireles, Rio de Janeiro, Nova Fronteira:

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Veja este poema musicado numa animação infantil em homenagem à maturidade, com poesia de Cecília Meireles e música de Dércio Marques.

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Quadrinha infantil para o Dia dos Pais

4 08 2010

Pai – nome bem pequenino

Que encerra tanto valor:

Traduz confiança, carinho,

 Força, bondade e amor.

(Walter Nieble de Freitas)





Quadrinha da Nossa Terra de Fagundes Varela

31 07 2010
Floresta tropical, ilustração de Robert Casilla.

Ó selvas de minha terra!

Ó meu céu de azul cetim!

Regatos de argênteas ondas!

Verdes campinas sem fim!

(Fagundes Varela)





Se ela soubesse ler, poema de Agenor Silveira

17 07 2010
Cartão postal, anúncio inglês para uma marca de chá.

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Se ela soubesse ler

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                                                 Agenor Silveira

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Se ela soubesse ler — que bom seria!

                Que bom!  com que prazer

E comoção meus madrigais leria,

                Se ela soubesse ler!

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Se soubesse escrever – oh!  que alegria

                Não havia de ser!

Que páginas de amor me escreveria

                Se soubesse escrever!

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Mas quantas outras, quantas, não podia

De estranha procedência receber!

E então – que horror!  Que grande horror seria,

Podia a todas elas responder,

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Permita o justo céu que a desalmada,

Que assim me soube o coração prender,

Aprenda a amar-me apenas, e mais nada,

Porque mais nada lhe convém saber…

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Agenor Silveira ( São Paulo, SP 1880 )– contista, poeta, filólogo, diplomado em direito, jornalista e advogado.

Obras: 

Quatro contos: Moeda antiga, 1912

Versos de bom e mau humor, 1919

Rimas, 1919

Colocação de Pronomes, 1920

Ouro de 24, 1927





Cantadeiras, de Joaquim Cardozo, poesia para crianças

7 07 2010

 

Vendedores de palmito e de samburás, 1834-1839

Jean-Baptiste Debret ( França, 1768-1848)

Gravura baseada em aquarela, original c. 1825

Da publicação: Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil

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Cantadeiras

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                                                          Joaquim Cardozo

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Vendedor de mel de engenho

Vem voltando vem com cinco

Canequinhos pendurados

Nos grandes bules de zinco.

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Vendendo vem mel de engenho

Que se come com farinha,

Que se bebe dissolvido,

Nas águas da fontainha.

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Ao seu lado caminhando

Também vem o farinheiro

Que fugiu de Muribeca

Sem recurso, sem dinheiro.

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É farinha de mandioca

Da mais branca, da mais limpa,

Que misturada com mel,

Dá gosto mesmo supimpa.

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E os dois vem juntos, bem juntos

E todo o cuidado têm

Pois se não há precaução

Não há mel para ninguém.

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Joaquim Maria Moreira Cardoso (PE,  1897 — 1978) Poeta, contista, desenhista, engenheiro civil, professor universitário e editor de revistas especializadas em arte e arquitetura.

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Obras  

Chuva de caju, 1947  

De uma noite de festa  1971  

O capataz de Salema. Antônio Conselheiro. Marechal, boi de carro.  1975  

O Coronel de Macambira  1963  

O Interior da matéria  1975  

Os Anjos e os demônios de Deus  1973  

Pequena antologia pernambucana  1948  

Poemas  1947  

Poemas selecionados  1996  

Poesias completas  1971  

Prelúdio e elegia de uma despedida  1952  

Signo estrelado  1960  

Um livro aceso e nove canções sombrias  1981 [póstuma]





Quadrinha infantil sobre a abelha

21 06 2010

A abelha trabalha sempre,

Não pára, não é vadia;

Faz esse mel tão gostoso

Que toda gente aprecia.





Corrente de formiguinhas, poesia infantil de Henriqueta Lisboa

15 06 2010

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Corrente de formiguinhas
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                                                                      Henriqueta Lisboa

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Caminho de formiguinhas,

fiozinho de caminho.

Caminho de lá vai um,

atrás de uma lá vai outra.

Uma, duas argolinhas,

corrente de formiguinhas.

 

Corrente de formiguinhas,

centenas de pontos pretos,

cabecinhas de alfinete

rezando contas de terço.

 

Nas costas das formiguinhas

de cinturinhas fininhas

pesam grandes folhas mortas

que oscilam a cada passo.

Nas costas das formiguinhas

que lá vão subindo o morro

igual ao morro da igreja,

folhas mortas são andores

nesta procissão dos Passos.

 

 

Em: O mundo da criança: poemas e rimas, vol I, Rio de Janeiro, Delta: s/d.

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Henriqueta Lisboa (MG 1901- MG 1985), poeta mineira.  Escritora, ensaísta,  tradutora professora de literatura,  Com Enternecimento (1929), recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras.  Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.

 Obras:

Fogo-fátuo (1925)

Enternecimento (1929)

Velário (1936)

Prisioneira da noite (1941)

O menino poeta (1943)

A face lívida (1945) — à memória de Mário de Andrade, falecido nesse ano

Flor da morte (1949)

Madrinha Lua (1952)

Azul profundo (1955);

Lírica (1958)

Montanha viva (1959)

Além da imagem (1963)

Nova Lírica ((1971)

Belo Horizonte bem querer (1972)

O alvo humano (1973)

Reverberações (1976)

Miradouro e outros poemas (1976)

Celebração dos elementos: água, ar, fogo, terra (1977)

Pousada do ser (1982)

Poesia Geral (1985), reunião de poemas selecionados pela autora do conjunto de toda a obra, publicada uma semana após o seu falecimento