As questões eternas… Marcelo Gleiser

28 05 2019

 

 

 

A-Surprise-GuestUm visitante inesperado, ilustração de Roy Keister.

 

 

“Encantei-me com o Universo e construí uma carreira como físico teórico, interessado por questões que, até recentemente, não eram consideradas científicas. Como o Universo surgiu? De onde veio a matéria que compõe as estrelas, os planetas e as pessoas? Como que átomos inanimados viraram criaturas vivas, algumas delas capazes de refletir sobre sua própria existência? E se a vida existe aqui, será que existe em outros lugares? Será que a imensidão cósmica esconde outras criaturas inteligentes?

Comecei a me interessar por essas questões quando era ainda um adolescente, seduzido pelo poder da mente e por sua capacidade de ponderar assuntos que, aparentemente, eram imponderáveis. Mesmo que, em muitos casos, as respostas a essas perguntas sejam incompletas, o que importa é participar do processo da descoberta, da busca pelo conhecimento. É nossa curiosidade que nos ergue acima da banalidade do igual, da rotina de todos os dias; é nossa curiosidade que nos define enquanto criaturas pensantes.”

 

Em: A simples beleza do inesperado: um filósofo natural em busca de trutas e do sentido da vida, Marcelo Gleiser, Rio de Janeiro, Record: 2017, p. 13.





“Os livros de amor”, texto de Luís Sepúlveda

8 02 2018

 

 

 

Ferdinand Hodler - Reading priestPadre lendo

Ferdinand Hodler (Suíça, 1853-1918)

óleo sobre tela, 71 x 51 cm

 

 

“O livro nas mãos do padre foi como isca para os olhos de Antonio José Bolívar. Pacientemente, esperou até que o padre, vencido pelo sono, o deixasse cair de um lado.

Era uma biografia de são Francisco, a qual ele examinou furtivamente, sentindo que ao fazê-lo cometia um pequeno roubo.

Juntava as sílabas, e à medida que o fazia, o desejo de compreender tudo o que havia naquelas páginas o levou a repetir a meia voz as palavras capturadas.

O padre despertou e observou, divertido, Antonio José Bolívar com o nariz metido no livro.

— É interessante? — perguntou.

— Desculpe, eminência.  Mas eu o vi dormindo, e não quis incomodá-lo.

— Interessa-lhe? — repetiu o padre.

— Parece que fala muito de animais — respondeu timidamente.

— São Francisco amava os animais. Amava todas as criaturas de Deus.

— Eu também gosto deles.  À minha maneira. O senhor conhece são Francisco?

— Não.  Deus me privou de tal prazer. São Francisco morreu há muitíssimos anos. Quer dizer, deixou a vida terrena e agora vive eternamente junto ao criador.

— Como sabe disso?

— Porque li o livro. É um dos meus preferidos.

O padre enfatizava suas palavras acariciando a rafada brochura. Antonio José Bolívar o olhava enlevado, sentindo a coceira da inveja.

— O senhor leu muitos livros?

— Uma porção. Antes, quando ainda era jovem e meus olhos não se cansavam, devorava toda obra que parasse em minhas mãos.

— Todos os livros tratam de santos?

— Não. No mundo há milhões e milhões de livros. Em todas as línguas, e abrangem todos os temas, inclusive alguns que deveriam estar proibidos aos homens.

Antonio José Bolívar não entendeu aquela censura e continuou com os olhos cravados nas mãos do padre, mãos gorduchas, brancas sobre a brochura escura.

— De que falam os outros livros?

— Já lhe disse. De todos os temas. Há livros de aventuras, de ciência, histórias de seres virtuosos, de técnica, de amor…

O último interessou-lhe. Conhecia do amor aquilo que ouvia nas canções, especialmente nos pasillos cantados por Jurito Jaramillo, cuja voz de guaiaquilenho pobre às vezes escapava de um rádio de pilhas tornando os homens taciturnos. Segundo os pasillos, o amor era como uma picada de um inseto invisível, mas procurado por todos.

— Como são os livros de amor?

— Temo que não possa lhe falar disso. Não li mais que  um par.

— Não importa. Como são?

— Bem, contam a história de duas pessoas que se conhecem, se amam e lutam para vencer as dificuldades que os impede de ser felizes. ”

 

Em: Um velho que lia romances de amor, Luís Sepúlveda, tradução de Josely Vianna Baptista, São Paulo, Editora Ática: 1995, pp 42-43.

 





“A visita do policial”, texto de Joanna Cannon

12 01 2018

 

 

1d5ca3b98fdfb62477f9d3a9c020039b--police-jaydenilustração década de 1960

 

 

“Ela se senta à luz do dia, filtrada pela cortina. O sol fraco de novembro atravessa o tecido e elimina as sombras. As cortinas estavam fechadas há duas semanas, e mantinham a casa em suspenso entre a perda e a aceitação. Ela as fechou assim que o policial saiu, observando-o se afastar enquanto as puxava. Ele se revelara um rapaz compassivo, mas inseguro e claramente em dúvida quanto à etiqueta que deveria usar para informar a alguém que seu recém-falecido marido usufruía da companhia de uma passageira feminina, adquirida em algum lugar entre o posto de gasolina de Chiswick Flyover e a autoestrada. Ela teve vontade de deixá-lo mais à vontade, de dizer-lhe que há muito tempo sabia daquela passageira, que os últimos quinze anos tinham sido vividos à sombra dela, e de falar do imenso esforço necessário para criar uma vida em torno da sua existência. Teve vontade de oferecer ao guarda outra xícara de chá e de suavizar as arestas da conversa para que pudessem enfrentar juntos aquele constrangimento. Mas o policial precisava se ater a um inventário, ao questionário que era obrigado a preencher antes de se permitir abandonar a ponta da cadeira e a xícara intacta.

Ernest nem gostava dos New Seekers, ela havia dito, em busca de uma saída que pudesse trazê-lo de volta dos mortos.

O guarda fabricara um grupo de pequenos pigarros no fundo de sua garganta e explicara que a passageira feminina havia sobrevivido. Mais do que sobrevivido, estava naquele momento sentada no Pronto-socorro do Royal Berkshire Hospital, tomando chá num copo de plástico e explicando tudo a um de seus colegas.

Sinto muito, disse ele, embora ela não soubesse exatamente se ele estava lamentando a morte de seu marido ou se desculpando porque a amante havia sobrevivido.

Enquanto o observava se afastando, ela soube. Soube que ele contaria à esposa naquela mesma noite enquanto jantavam, recostando-se na cadeira, mastigando os detalhes da vida dela a cada garfada. E, no dia seguinte,  a mulher dele se sentaria na cadeira de um salão de beleza e diria você não pode contar isso a ninguém, e a cabelereira [sic] seguraria um pente entre os dentes e arrumaria mechas de cabelo em volta de rolos de plástico azul, imaginando a quem contaria primeiro. E soube com que facilidade todos ficariam sabendo do segredo que tanto se esforçara para manter oculto.”

 

 

Em: Entre cabras e ovelhas, Joanna Cannon, tradução de Celina Portocarrero, São Paulo, Editora Morro Branco: 2017, pp. 440-441.

 

 





“A sombra do jardineiro”, texto de Joanna Cannon

10 01 2018

 

 

 

jardim, jardineiro, jardinagem, primavera, Pierre Brissaud, House and Garden 1930-03Jardinagem, ilustração  Pierre Brissaud, capa de House & Garden, março, 1930.

 

 

 

“Ficamos ao lado de um canteiro, delimitado  com barbantes e estacas num ziguezague de misteriosa organização.

Eric Lamb cruzou os braços e olhou para o horizonte.

— Qual a coisa mais importante em um jardim? — perguntou.

Também cruzamos os braços para nos ajudar a pensar.

— Água? — sugeri

— Sol? — arriscou Tilly.

Eric Lamb sorriu e balançou a cabeça.

— Barbante? — falei num ato de puro desespero.

Quando ele parou de rir, descruzou os braços e disse:

— A coisa mais importante em um jardim  é a sombra de um jardineiro.

Cheguei então à conclusão de que Eric Lamb era muito esperto, se bem que ainda não soubesse exatamente por quê. Havia nele uma desenvoltura, uma sabedoria sem pressa que se alongava pelo chão como sua sombra. Olhei para o jardim e vi borboletas brancas dançando em torno de dálias, frésias e gerânios. Havia um coral de cores cantando para atrair minha atenção e era como se eu o ouvisse pela primeira vez. Pensei, então, na fileira de cenouras que tinha plantado um ano antes (cenouras que nunca sobreviveram, porque eu as desenterrava sem parar para conferir se ainda estavam vivas) e me senti meio agoniada.

— Como você sabe onde plantar as coisas? — perguntei. — Como sabe onde vão crescer?

Eric Lamb botou as mãos na cintura, observou o jardim justo conosco e então acenou com a cabeça para o horizonte. Eu podia ver onde a terra havia comido seus dedos e se instalado nas fissuras de sua pele.

— Planta-se igual com igual — ele respondeu. — Não faz sentido plantar um anêmona num campo cheio de girassóis, não é mesmo?

Tilly e eu respondemos ao mesmo tempo:

— Não.

— O que é uma anêmona? — sussurrou Tilly.

— Não tenho ideia — sussurrei de volta.

Acho que Eric Lamb percebeu.

— Porque a anêmona morreria — explicou. — Ela precisa de coisas diferentes. Para cada coisa existe um lugar lógico, e se uma coisa estiver onde deveria estar, então vai florescer.

— Mas como você sabe? — indagou Tilly. –, como você sabe se uma coisa está no lugar certo?

Experiência.

Ele apontou para nossas silhuetas, que se derramavam pelo cimento. A dele, grande e sábia, como um carvalho, e a minha e de Tilly, finas, esguias e incertas.

— Continuem a criar sombras — disse ele. — Se criarem sombras suficientes, chegará a hora em que saberão todas as respostas.”

 

 

Em: Entre cabras e ovelhas, Joanna Cannon, tradução de Celina Portocarrero, São Paulo, Editora Morro Branco: 2017, pp. 236-237.





“Verão”, texto de Joanna Cannon

1 01 2018

 

 

 

verão, donald zolanVerão, David Zolan.

 

 

 

“O cheiro de asfalto quente me beliscou o nariz e mudei as pernas de posição, afastando-as do calor dos tijolos. Não havia lugar algum onde se pudesse fugir do calor.  Ele estava lá todos os dias, ao acordarmos, insistente e constante, pairando no ar como uma discussão inacabada. Escoava os dias das pessoas para as calçadas e os pátios e incapazes de nos contermos entre tijolos e cimento, nos derretíamos do lado de fora, trazendo conosco nossas vidas. Refeições, conversas, debates, tudo despertava, perdia as amarras e era permitido ao ar livre. Até a vila estava mudada. Rachaduras gigantes abertas no chão, cheias de grama amarela, pareciam macias e instáveis. Coisas que haviam sido sólidas e confiáveis eram agora maleáveis e duvidosas. Nada mais parecia seguro. Os laços que mantinham as coisas coesas foram destruídos pela temperatura — foi o que disse meu pai –, mas parecia mais sinistro do que isso. Parecia que a vila inteira se transformava, se distendia e tentava fugir de si mesma.”

 

 

Em: Entre cabras e ovelhas, Joanna Cannon, tradução de Celina Portocarrero, São Paulo, Editora Morro Branco:2017, p. 16-17.

 

 





“Uma amor inigualável”, texto de Olivier Bourdeault

27 06 2017

 

 

Cid Morrone (Itália, 1956) leitura, ostLeitura

Cid Morrone (Itália, 1956)

óleo sobre tela

 

“Seu comportamento extravagante preenchera toda a minha vida, ele viera se aninhar em cada recanto, ocupava todo o quadrante do relógio, devorando cada instante. Acolhi essa loucura de braços abertos, depois os fechei para apertá-la com força e dela me impregnar, mas temia que uma loucura mansa como esta não fosse eterna. Para ela, o real não existia. Eu tinha encontrado um Dom Quixote de saias e botas, que, toda manhã, com os olhos recém-abertos e ainda inchados, pulava sobre seu pangaré, freneticamente lhe batia nos flancos e saía a galope para investir contra seus distantes moinhos cotidianos. Ela conseguira dar um sentido à minha vida, transformando-a numa balbúrdia perpétua. Sua trajetória era clara, tinha mil direções, milhões de horizontes,  meu papel consistia em fazer a intendência seguir, em cadência, em lhe dar os meios de viver suas demências e não se preocupar com coisa nenhuma. Quando na África avistamos uma grou ferida à beira de uma trilha, ela desejou pegá-la para cuidar dela. Tivemos de prolongar nossa estada uns dez dias, e depois, uma vez a ave curada, ela quis trazê-la para Paris, mas não entendeu que era preciso obter certificados, cobri-los de carimbos, assinaturas, preencher montanhas de formulários para passar pela fronteira.

— Por que todas essas maluquices? Não me diga que toda vez que essa ave sobrevoa as fronteiras tem de preencher este formulário e deve aguentar todos esses funcionários!  Até a vida dos pássaros é um calvário! — ela vociferara, exasperada, enquanto batia com o carimbo na mesa do veterinário.”

 

Em: Esperando Bojangles, Olivier Bourdeault, Belo Horizonte, Autêntica: 2017, tradução de Rosa Freire de Aguiar, páginas 45-6.





“No meu mundo”, texto de Luís Jardim

27 10 2016

 

 

haddon-hubbard-sundblom-eua-1899-1976menino-na-arvore-1929ost-20-x-33cm-anuncio-para-cream-of-wheat-1929Menino na árvore, 1929

Haddon Hubbard Sundblom (EUA,  1899-1976)

óleo sobre tela, 20 x 33cm

[usado para anúncio de Cream of Wheat, 1929]

 

 

“Vejo nesse comportamento o mesmo menino pálido que eu era. Menino que desprezava brinquedos reais para fazer de conta, por exemplo, que o jambeiro da minha casa era uma criatura e com ela entender-me bem melhor do que me entendia com minha irmã. Trepar-me nos galhos dele, falar com as nuvens e guardar segredos que nunca me foram contados. Fugir das pessoas que me cercavam, detestar-lhes a compreensão lógica e férrea por obediência à vida real. E zangar-me, tornar-me furioso quando, inventando palavras cujo sentido só eu mesmo percebia, destinadas a coisas por mim mesmo idealizadas, notava que todo o mundo as tomava como articulações sem sentido de um tolo ou de um alucinado. E por isso evitava o contato dos meus, sumindo-me para os lugares ermos e resguardados, ambiente propício para conceber o mundo se alargando em maiores e melhores mistérios. Eu não queria nenhum finito visual. Nenhum limite no pensamento, e a razão também sujeita às fantasias. O reino admirável das coisas impossíveis, esfera de outras dimensões. Para que subordinar-me às relações conhecidas, se a vida só me era boa assim: fazendo de conta? Vem daí com certeza o adulto absurdo que eu era, não aceitando as regras comuns, as normas estabelecidas, pois eu queria a vida medida a palmos, exatamente porque as mãos são desiguais.”

 

 

Em: As confissões do meu tio Gonzaga, Luís Jardim, Rio de Janeiro, José Olympio: 1976 [Coleção Sagarana], 3ª edição, página 37





Instrumento musical desconhecido, texto de Dai Sijie

11 10 2016

 

 

antique-village-original-chinese-landscape-by-1804creationVelha aldeia, 1804

Aquarela

 

 

“O chefe da aldeia, homem de seus cinquenta anos, sentado no chão bem no meio do cômodo, perto do carvão que ardia num buraco escavado na terra, revistava meu violino. Na bagagem dos dois “rapazes da cidade” — pois assim eu e Luo fomos considerados — aquele era o único objeto do qual emanava um sabor estranho, um cheiro de civilização capaz de provocar suspeita nos aldeões.

Um camponês aproximou um candeeiro para facilitar a identificação do objeto. O chefe suspendeu verticalmente o violino e sondou o orifício negro da caixa, como um aduaneiro minucioso à procura de drogas. Observei que em seu olho esquerdo havia três gotas de sangue, uma grande e duas pequenas, todas do mesmo rubi.

Levantando o violino à altura dos olhos, sacudiu-o, como se esperasse que alguma coisa caísse do fundo negro da caixa sonora. Tive a impressão de que as cordas iam se quebrar com o impacto e as cravelhas partir-se em pedaços.

Quase toda a aldeia estava presente, debaixo daquela casa sobre pilotis, perdida no alto da montanha. Homens, mulheres e crianças fervilhavam lá dentro, agarrando-se às janelas, acotovelando-se diante da porta. Já que não havia nada no instrumento, o chefe enfiou o nariz no buraco para sentir-lhe o cheiro. Os grossos e longos pelos sujos que saíam de suas narinas puseram-se a vibrar.

Ainda não encontrara nenhum indício.

Escorregou os dedos calosos sobre uma ou outra corda… Aquele som desconhecido infundiu tal respeito que a multidão logo se petrificou.

— É um brinquedo — disse o chefe solenemente.

Esse veredicto deixou-nos, a mim e a Luo, sem fala. Trocamos um olhar furtivo, mas inquieto. Queríamos saber como tudo aquilo iria acabar.

Um camponês o “brinquedo” das mãos do chefe, socou as costas da caixa, em seguida entregou-o a outro homem. Durante alguns minutos meu violino passou de mão em mão. Ninguém mais se interessou por nós, rapazes da cidade, frágeis, magros, cansados e ridículos. Tínhamos caminhado o dia todo na montanha, e nossas roupas, rostos e cabelos estavam cobertos de lama. Parecíamos dois soldadinhos reacionários de filme de propaganda, capturados por um bando de camponeses comunistas, depois de uma batalha perdida.

— É um brinquedo idiota — disse uma mulher de voz rouca.

— Não — corrigiu o chefe –, é um brinquedo burguês, da cidade.

Gelei apesar do fogo aceso no meio da sala. Ouvi o chefe acrescentar:

— É preciso queimá-lo!

A ordem provocou de imediato forte reação no grupo. Todos falavam, gritavam, empurravam-se. Queriam agarrar o “brinquedo” só pelo prazer de atirá-lo ao fogo com as próprias mãos.

— Chefe, isso é um instrumento musical — disse Luo com desembaraço. — Meu amigo é um bom músico, sem brincadeira.

O chefe pegou de novo o violino e, mais uma vez, o revistou para em seguida devolvê-lo a mim:

— Lamento, chefe — disse constrangido. — Não toco muito bem.

De repente, percebi que Luo me fazia um sinal. Espantado, peguei o violino e comecei a afiná-lo.

— Vocês vão ouvir uma sonata de Mozart, chefe — anunciou Luo tão tranquilo quanto estivera antes.

Fiquei aturdido. Ele estava doido. Há anos todas as obras de Mozart, assim como a de qualquer outro autor ocidental, estavam proibidas em todo o país. Meus pés úmidos, dentro dos calçados encharcados, estavam gélidos. Mas uma vez o frio me invadiu.

— O que é uma sonata — perguntou o chefe, desconfiado.

— Não sei — respondi gaguejando.

— Um troço ocidental.

— Uma canção?

— Mais ou menos — respondi.

Imediatamente a vigilância de bom comunista reacendeu-se no olhar do chefe, e sua voz se fez hostil.

— Como é que se chama essa canção?

— Parece uma canção mas é uma sonata.

— Estou perguntando o nome dela! — gritou, olhando-me diretamente nos olhos.

E, de novo, as três gotas de sangue no olho esquerdo me deram medo.

Mozart … — hesitei.

Mozart o quê?

Mozart pensa no presidente Mao — completou Luo em meu lugar.

Que audácia!  Mas deu resultado. Como se tivesse ouvido algo miraculoso, o rosto ameaçador do chefe, abrandou-se.

Os olhos se comprimiram num sorriso de gozo.

— Mozart ainda pensa no presidente Mao — repetiu.

— Sim, ainda, confirmou Luo.

Quando tensionei as crinas do arco, a sala explodiu em calorosos aplausos que me amedrontaram. Meus dedos entorpecidos começaram a percorrer as cordas, e as frases de Mozart retornaram como amigos fieis. Os rostos dos camponeses até então fechados, foram-se pouco a pouco enternecendo sob a límpida alegria de Mozart, tal como um chão ressecado se umedece com a chuva. Depois sob a luz vacilante do lampião, foram perdendo o contorno.

Toquei durante algum tempo, enquanto Luo acendia um cigarro e fumava como um homem.

Assim, foi nosso primeiro dia de reeducação. Luo tinha dezoito anos e eu, dezessete.”

Em: Balzac e a costureirinha chinesa, Dai Sijie, Rio de Janeiro, Objetiva: 2000, páginas 5-8. Tradução de Vera Lucia dos Reis.

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Mudança de estação, texto de Nagai Kafu

27 09 2016

 

 

tsuchiya-koitsu-woodblock-print-teahouse-yotsuya-arakiCasa de chá, Yotsuya, Araki, 1937

Tsuchiya Koitsu, (Japão, 1870-1949)

xilogravura policromada

 

 

 

“Com o inverno se aproximando, as pessoas já não usavam mais quimonos leves. Os perfumados shimeji já não eram o prato mais requisitado do cardápio no restaurante Kagetsu, e os matsutake, caríssimos no início do outono, agora serviam para dar gosto aos ensopados na Casa Matsumoto. Os crisântemos, que até pouco tempo atrás haviam atraído multidões ao parque de Hibiya, desapareceram, dando lugar às folhas secas que o vento levava pelos caminhos de cascalho onde os meninos jogavam bola. O parlamento reabrira, e aos clientes habituais das casas de chá de Shinbashi vieram se somar as caras caipiras dos políticos do interior. Todos os estabelecimentos estavam lotados com financistas, ou ainda com convidados de importantes homens de negócios, vindos de reuniões de diretoria que aconteciam no bairro contíguo de Marunouchi. Aumentava o número de boatos sobre quais aprendizes haviam se tornado gueixas do ano passado para cá. Em Ginza, as folhas dos salgueiros já estavam amarelas, mas ainda não haviam começado a cair. As decorações das lojas mudaram, e viam-se aqui e ali flâmulas vermelhas e azuis, anunciando as promoções de fim de ano. As bandinhas musicais ocupavam as esquinas, e as pessoas apressavam o passo ao passarem pelo barulho. Nas manchetes gritadas pelos jornaleiros, as edições extras dos jornais anunciavam o início da temporada de sumô. As gueixas começavam a fazer as contas para os preparativos do Ano Novo, e, mesmo diante dos clientes, não hesitavam em pegar a caderneta e puxar do obi um lápis com a ponta por fazer, lambendo o grafite para anotarem os compromissos da primavera.”

 

 

Em: Guerra das Gueixas, Nagai Kafu, tradução de Andrei Cunha, São Paulo, Estação Liberdade: 2016, página 134 [original de 1918]

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O bicho, texto de Judith Schalansky

25 04 2016

 

 

morcego, ilustração em preto e brancoIlustração anônima.

 

 

“Lohmark ficara acordada na última noite. Devia ser antes das quatro da manhã. Ainda estava tudo escuro. Uma corrente de ar acariciou seu rosto.Uma vez. Outra vez. O pulso de repente a cento e oitenta. Palpitação. Uma borboleta grande? Uma mariposa-beija-flor, mas, na verdade, era tarde demais para uma dessas. Então, paz. Talvez tivesse pousado. Talvez também não estivesse mais lá. Ela precisou tatear por um tempo até alcançar o interruptor da luminária no criado-mudo. Quando finalmente clareou, o bicho lançou-se me pânico pelo quarto. Voava em grandes círculos. Oitos imaginários, três palmos abaixo do teto. Revoada de trem fantasma. Um morcego! Um jovem morcego-anão que se perdera. O sistema de radar falhou, seu sentido de orientação infalível o deixou na mão. A bocarra estava aberta, ele gritava. Mas não se ouvia o grito.

Talvez sua inteligência bastasse para que ele voasse pela janela entreaberta e reconhecesse que ali não era um buraco em um celeiro, nem uma fenda de árvore ou uma abertura num muro de alguma central de energia, mas não para encontrar novamente a da janela e assim a saída. Deveria ter vindo de uma colônia-berçário que agora, no fim do verão, se dissolveu. Cada animal estava por conta própria. Em busca de um novo lar.

Lohmark apagou a luz e foi em silêncio para o porão. Por segurança, puxou o cobertor sobre a cabeça. Bom que Wolfgang tinha um sono tão profundo. Teria se apavorado com a visão. Um fantasma em sua ronda noturna. Ela ainda ouviu os roncos quando parou diante da estante com os potes a vácuo.

Então, foi tudo muito rápido. Provavelmente o animal sentiu que ela era sua salvação. Escapuliu algumas vezes, mas, quando ela quis cobrir seu pequeno corpo com o vidro, se rendeu por puro medo. Por um instante ele se debateu, em seguida dobrou as asas e a encarou. Parecia morto. Empalhado. Muito frágil: marrom com pelo grossos de rato. A membrana fina das asas. Articulações vermelhas salientes. As garras pretas dos polegares alongadas. A cabeça achatada. Um focinho brilhante, úmido. Dentes mínimos vampirescos. A boca aterrorizada de um recém-nascido. Olhos parados de medo. Tanto medo. Pareciam mais aparentados com seres humanos do que com camundongos. O mesmo conjunto de ossos: antebraço, rádio, cúbito e carpos. Nas orelhas afuniladas, a mesma cartilagem. Além disso, órgãos sexuais anatomicamente idênticos. Um par de tetas no peito. O pênis pendia. Um ou dois filhotes ao ano. E nasciam quase totalmente pelados.

Por um instante, ela ainda pensou se poderia usar o morcego em aula. Apresentar à nova classe uma típica espécie sinantrópica. O menor de todos os mamíferos. Mas ela quis se livrar o mais rápido possível da criatura. Abriu a janela. E, então, o vidro. Bem devagar, o animal esgueirou-se para fora, primeiro caiu, então se endireitou, estendeu as asas e desapareceu na escuridão, para algum lugar na direção da garagem. Rapidamente, ela fechou a janela e voltou a se deitar. Apenas quando começou a clarear foi que finalmente adormeceu.”

 

 

Em: O pescoço da girafa, de Judith Schalansky, tradução de Petê Rissatti, Rio de Janeiro, Alfaguara:2016, pp: 55-59.