Rosa Montero sobre a resposta a seu livro: “A ridícula ideia de nunca mais te ver”

9 02 2026

Leitura na poltrona

Alfonso Cuñado  (Espanha, 1953)

óleo sobre tela, 50 x 50 cm 

 

“Nossos mortos e nossos filhos são as coisas mais importantes que nos acontecem na vida. Sempre recebo muitas mensagens, porque sou bastante acessível. Mas com esse livro foram muitíssimas. E 90% das pessoas me escreviam para contar histórias de mortes próximas. O extraordinário é que essas histórias não eram tristes, eram preciosas, celebravam o amor. Acho que essas pessoas não tinham podido contar isso a ninguém, nem sequer podiam reconhecer que havia alguma beleza ali, porque, quando há uma morte, temos a cabeça mergulhada na dor. Então, o meu livro, sem que eu tivesse a intenção, proporcionou aos leitores o resgate da beleza das mortes próximas.”

 

Essa foi a resposta do público que Rosa Montero recebeu depois da publicação de seu livro: A ridícula ideia de nunca mais te ver, tradução de Mariana Sanchez, Editora Todavia: 2019

 

Citação encontrada no livro: Sobre a ficção, Ricardo Viel, Companhia das Letras: 2025





Nossa era, Byung-Chul Han

4 02 2026
Imagem gerada por IA.

 

 

“Cada época possui suas enfermidades fundamentais. Desse modo, temos uma época bacterológica, que chegou ao seu fim com a descoberta dos antibióticos.  Apesar do medo imenso que temos hoje de uma pandemia gripal, não vivemos numa época viral. Graças à técnica imunológica, já deixamos para trás essa época. Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal. Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (TDAH), transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a síndrome de burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI. Não são infecções, mas enfartos, provocados não pela negatividade de algo imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade. Assim, eles escapam a qualquer técnica imunológica, que tem a função de afastar a negatividade daquilo que é estranho.”

 

Parágrafo introdutório.

Sociedade do cansaço,  Byung-Chul Han, tradução Enio Paulo Giachini, Petrópolis, Vozes: 2024.





O “influencer” do passado, texto de Marcel Proust

21 01 2026

Músicos

Ricardo Medeiros (Brasil, 1955)

acrílica sobre tela

 

 

“Pois Saint-Loup pertencia a essa classe de rapazes aristocratas colocados numa altura onde é possível que brotem essas expressões: “É o que tem de bom, esse é o seu lado bom”, sementes assaz preciosas que logo determinam uma maneira de conceber as coisas, na qual não se vale nada e o “povo” vale tudo, quer dizer, exatamente o contrário do orgulho plebeu. Pelo que me contava Robert, não era possível imaginar como o seu tio, quando jovem, dava o tom e ditava a lei a todo mundo.

— Ele, da sua parte, fazia sempre o que lhe parecia mais agradável e cômodo, mas logo o imitavam os esnobes. Se lhe acontecia ter sede quando no teatro e mandava que lhe trouxessem alguma bebida ao camarote, já se sabia que na semana seguinte haveria refrescos em todos os corredores. Num verão muito chuvoso, sentiu-se um pouco reumático, e encomendou um sobretudo de vicunha muito fina, mas bastante quente, que só se emprega para mantas de viagem e respeitou o padrão do tecido, de listras azuis e laranja. Os grandes alfaiates receberam imediatamente encomendas de casacos de listras e bastante quentes. Se por qualquer motivo queria tirar toda solenidade a uma refeição em casa de campo onde estava passando o dia, e, para indicar esse matiz, não vestia casaca e sentava-se à mesa de jaqueta, ficava em moda jantar de jaqueta nas casas de campo. Se comia um doce e, em vez de colher, usava garfo ou um talher de sua invenção que havia encomendado a um ourives, ou o pegava com os dedos, já não era lícito fazer de outra maneira. Sentiu desejos de ouvir de novo certos quartetos de Beethoven, pois, com todas as suas ideias absurdas, não é nenhum bruto e tem talento, e encarregou uns músicos que fossem à sua casa um dia por semana, para executar aquelas obras, que ouvia com alguns amigos. E naquele ano considerou-se como suprema elegância dar reuniões íntimas em que se executava música de câmara. Parece-me que não deve ter-se aborrecido neste mundo! Com o seu belo tipo, não lhe devem ter faltado mulheres! Apenas não se sabe quais, pois é muito discreto. Bem sei que enganou bastante à minha pobre tia. O que não impediu que fosse muito bom com ela, que ela o adorasse, e que ele a tenha chorado por muitos anos. Quando está em Paris, vai quase diariamente ao cemitério.”

Em: À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana





Nossas tempestades, trecho de José Jorge Letria

19 01 2026

Mulher com cachorro

Sonya Grassmann (Bulgária-Brasil, 1933-1997)

óleo sobre eucatex, 40 x 30 cm

“Restava-me o amparo dos livros. Abrigava-me neles da tempestade de todas as dúvidas, e para ali ficava, esquecido das horas, esquecido de mim, observando a paz nocturna dos cães dormindo à minha volta com a serenidade de quem nunca estará de mal com o mundo”

José Jorge Letria, A Mão Esquerda de Cervantes: Contos





O Siroco, texto de Jenny Erpenbeck

11 01 2026

O Siroco, 1909

Jan Ciaglinski (Polônia, 1858-1912)

óleo sobre tela, 29 x 37 cm

Museu Nacional da Cracóvia

 

 

 

“Richard então se lembra de que, passeando entre videiras com um colega vienense por ocasião de um simpósio no sul da Áustria, o colega de repente se deteve, inspirou profundamente o ar e perguntou-lhe se também ele estava sentindo o cheiro: o siroco vem da África, disse, atravessa os Alpes e, às vezes, chega mesmo a trazer consigo areia do deserto. E, de fato, nas folhas das videiras podia-se ver uma fina camada de poeira avermelhada vinda da África. Richard passou o dedo por uma das folhas e notou como aquele pequeno gesto de súbito deslocava seu ângulo de visão e seu senso de medida.”

Em: Eu vou, tu vais, ele vai, Jenny Erpenbeck, tradução de Sergio Tellaroli, Cia das Letras: 2024

 

 

Duas notas:

1 – Esse talvez tenha sido o livro que li em 2025 que mais me impactou. Certamente estaria entre os três primeiros do ano passado, no início do ano.  Recomendo.  Esse meu final de ano foi tão conturbado, e ainda não está normal, que nem a lista dos melhores do ano eu fiz.  Que vergonha!

 

2 – Conheci o Siroco no ano em que morei na Norte da África acompanhando meu marido professor convidado pela Universidade de Oran.  É realmente um fenômeno sem igual.  O céu se torna avermelhado com o colorido do sol se pondo.  É a nuvem de areia do deserto que passa muito acima da terra, em direção à Europa.  Deixa, de fato, uma finíssima camada de pó (não é areia) avermelhado ao longo do caminho que faz em direção norte. 





Religião no país, texto de Luiz Felipe Pondé

10 01 2026

Anjos, 1965

Raimundo de Oliveira  (Brasil, 1930-1966)

óleo sobre tela, 80 x 120 cm

 

 

 

 

“Olhe para o Brasil em termos de religião. O que é o Brasil? Aqui, como dizia Guimarães Rosa, quanto mais religião, melhor; você tem um amigo judeu, você pede para o rabino dele lhe abençoar, você tem um amigo do candomblé, você pede para a mãe de santo dele dar uma bênção, ao amigo muçulmano, você pede uma intervenção do xeique, padre, pastor, o que vier está valendo. Essa é bem a mentalidade brasileira religiosa. Antropólogos dizem que isso é possivelmente herdado dos índios brasileiros, que continuavam a praticar as suas crenças, mas, quando o padre vinha, aprendiam o pai-nosso, e quando o padre ia embora, retornavam às suas crenças. Então a gente ficou meio vadio com religião. Você assimila a religião que melhor pegar naquele momento. É claro que, quando se introduz a cunha do mercado, como a gente vive hoje, tudo vira produto.”

Em: Diálogos sobre a natureza humana: Perfectibilidade e Imperfectibilidade, Luiz Felipe Pondé, Versos Editora: 2023





Um engano, texto de Marcel Proust

7 01 2026

Cena de rua em Paris, 1885

Jean Béraud (França, 1849-1936)

óleo sobre madeira, 39 x 27 cm

Metropolitan, NY

 

 

“É muito possível, porque nunca na minha vida encontrei moças tão deliciosas como naqueles dias em que estava com uma pessoa muito grave, de quem não podia separar-me apesar dos mil pretextos que inventava; em Paris, alguns anos depois da minha primeira viagem a Balbec, ia eu de carro com um amigo de meu pai quando vi uma mulher andando muito depressa na escuridão da noite; ocorreu-me que seria tolice perder por uma questão de cortesia a minha parte de felicidade na única vida que sem dúvida existe; desci sem desculpa alguma e lancei-me em busca da desconhecida; perdi-a num cruzamento de ruas, dei com ela no seguinte, e afinal, sem fôlego, me vi cara a cara com a velha sra. Verdurin, da qual eu sempre fugia, e que me disse, muito contente e admirada: “Que amabilidade a sua, correr para vir cumprimentar-me!”

 

Em: À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana





A infância de Charles Bovary, trecho

2 01 2026

A vaca que escapou, 1885

Julien Dupré (França, 1851-1910)

óleo sobre tela, 100 x 139 cm 

Museu D’Orsay, Paris

 

 

 

“…e a criança vagabundeava pela aldeia. Ele acompanhava os lavradores e espantava, atirando torrões, os corvos que alçavam voo. Comia amoras ao longo das valetas, guardava os perus com uma vara, revolvia o feno na ceifa, corria pelos bosques, jogava amarelinha no pórtico da igreja nos dias de chuva e, nas grandes festas, suplicava ao sacristão que lhe deixasse bater os sinos, para se dependurar com todo o corpo à grande corda e sentir-se levar por ela no balanço.

Assim, ele cresceu como um carvalho.”

 

Em: Madame Bovary, Gustave Flaubert, Tradução de Mário Laranjeira: Penguin Classicos





Minutos de sabedoria: Emerson

4 12 2025

A carta

David Hettinger (EUA, 1946)

óleo sobre tela,  76  x 102 cm

 

 

“Termine cada dia e o dê por encerrado. Você fez o que podia. Sem dúvida, alguns erros e absurdos se infiltraram; esqueça-os assim que puder. Amanhã é um novo dia. Você deve começá-lo serenamente e com um espírito elevado demais para se deixar sobrecarregar com suas velhas bobagens.”

 

Ralph Waldo Emerson (EUA, 1802-1882)





Morte de Fernando Pessoa, nota de Miguel Torga

3 12 2025

Procissão funerária 

Markenzy Julius Cesar (Haiti-EUA, 1974)

óleo sobre tela, 76 x 101 cm

 

“Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era.”

 

Miguel Torga, Diário, vol.I