Bar Flora, rua da Carioca, 1990
Botelho (Brasil, 1946)
óleo sobre tela, 61 x 46 cm
Coleção Particular
Bar Flora, rua da Carioca, 1990
Botelho (Brasil, 1946)
óleo sobre tela, 61 x 46 cm
Coleção Particular
Igreja de Nossa Senhora do Brasil, Urca, década de 1940
Felizberto Ranzini (Itália/Brasil, 1881 – 1976)
aquarela sobre papel, 49 x 32 cm
Gérson [de Azeredo] Coutinho (Brasil, 1900-1967)
óleo sobre eucatex, 18 x 25 cm
Guilherme Matter (Brasil, 1904-1978)
óleo sobre tela
Machado de Assis *
Vi os pinheiros no alto da montanha
Ouriçados e velhos;
E ao sopé da montanha, abrindo as flores
Os cálices vermelhos.
Contemplando os pinheiros da montanha,
As flores tresloucadas
Zombam deles enchendo o espaço em torno
De alegres gargalhadas.
Quando o outono voltou, vi na montanha
Os meus pinheiros vivos,
Brancos de neve, e meneando ao vento
Os galhos pensativos.
Volvi o olhar ao sítio onde escutara
Os risos mofadores;
Procurei-as em vão; tinham morrido
As zombeteiras flores.
*Este poema é a tradução de Machado de Assis do poema publicado em francês do poeta chinês Tin-Tun-Sing.
Em: Antologia Poética para a Infância e a Juventude, selecionado por Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro:1961,p. 173.
Três VW em Copacabana e Ipanema, 2008
Rubem Duailibi (Brasil, 1935)
Acrílica e silkscreen colada sobre tela, 100 x 100 cm
Rua Primeiro de Março, RJ, 1895
[Capela Imperial, antiga Sé, à direita]
Benno Treidler (Alemanha/Brasil, 1857-1931)
Aquarela sobre papel, 23 x 35 cm
PESP [Pinacoteca do Estado de São Paulo]
“A Capela Imperial… Ah! a mais bela coisa do Rio de Janeiro, nos começos do século passado, foram, sem dúvida alguma, as solenidades da famosa Capela. D. João VI, curiosa mistura de Rei e de frade, mandou decorá-la suntuosamente. Vieram trabalhar nela os nomes mais brilhantes da época. José de Oliveira pintou as paredes. Manuel da Cunha, o teto. Raimundo da Costa e Silva, a “Ceia”. E José Leandro, o célebre José Leandro, figura culminante do tempo, a grande tela do Altar-Mor. D. João VI, como todos os Braganças, adorava as pompas religiosas. Com generosidade de nababo, gastando às mãos cheias, el-Rei mandava buscar na Europa artistas reputadíssimos, compositores e músicos, castrati de larga fama, a fim de abrilhantar com eles as festas de sua Capela. Naquele recinto, com efeito, nos dias de gala, fremiu muita vez o gênio do padre José Maurício. Flamejou o talento magnífico de Neukomm. Ecoou a larga inspiração de Marcos Portugal. Ali, nas grandes cerimônias da religião, retumbou muita vez a voz de Mazziotti e de Tanners, os dois famosos contraltos italianos. Ali foram admirados e louvados, com grande entusiasmo para o bairrismo dos brasileiros, o tenor Cândido Inácio, que era a mais doce e a mais sonora garganta de Minas, assim como o baixo João dos Reis, cuja voz poderosa, da mais larga ressonância, fazia tremer nos caixilhos as vidraças da Capela.
Havia, portanto, razões de monta, e de sobejo, para que D. Domitila de Castro ansiasse por assistir à missa de domingo. O que mais a seduzia, porém não era, seguramente, o ir ver, entre os entalhes dourados da Capela, os painéis de José Leandro; nem escutar a música do padre mulato que enchia a Corte com a fama de seu gênio; nem tampouco ouvir a flamância de Mont’Alverne,o apregoado orador franciscano, cuja glória, que subira tão alto, começava então a crescer. O que a seduzia, o que a espicaçava mais agudamente, tornando-a tão alvoroçada por assistir àquela missa era poder — enfim um dia! — contempla a Corte bem de perto, misturar-se com orgulho às Damas do Paço, roçar por entre aquelas fidalgas emproadas, e mostrar, do alto de uma tribuna, acintosamente, as graças e os feitiços de sua mocidade e do seu fascínio.
Ah! Os requintes que pôs a perturbante senhora em se alindar para tão suspirado triunfo! As águas de cheiro! Os pós de França! As luvas de doze botões! O leque de marfim e ouro! Madame de Saissait, a modista francesa da rua do Ouvidor, preparou-lhe um vestido ousadamente bizarro, à Zamperini, moderníssimo, cor de cenoura, de corpete muito teso, com imensa e donairosa sobre-saia, caindo em ondas largas, bordado a fio de prata. E que apuro de detalhes… Desde o penteado alto, com o trepa-moleque de safiras, até o escarpim pequenino, de fivela dourada, tudo nela era encantador. E quando, diante do toucador, depois de empoada e perfumada, a cintilar de joias, D. Domitila se remirou no seu espelho de Veneza, correu-lhe a epiderme um arrepio voluptuoso, seus lábios sorriram o sorriso da vaidade. Estava magnífica! Olhos úmidos e negros, boca sangrenta, talhe ondeante, todo pluma, aqueles vinte e quatro anos, quentes, sazonados, irradiavam frescura e trescalavam juventude. “
Em: A Marquesa de Santos, romance histórico, Paulo Setúbal, Rio de Janeiro, Cia Editora Nacional: 1984, 12ª edição, pp, 76,77. Originalmente publicado em 1925.
A chegada da Família Real à Bahia, 1952
Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)
Painel, óleo sobre tela, 381 x 580 cm
Banco BBM, Rio de Janeiro
Obra executada para decorar uma das salas da sede do Banco da Bahia, Salvador, Bahia.
“E foi o desembarque.
Conde da Ponte, o fiel, o velho, o prudente governador, já bem prevenido — pelos ingleses — da vinda de tantos hóspedes importantes, havia providenciado tudo, da melhor forma que lhes fora possível.
Até bom suprimento de água potável e para a limpeza geral (tão urgente para quem trazia dois meses de carências e desconfortos), já se acumulava em tinas, pipotes e barris pelos quatro cantos da cidade enfeitada em ansiedades.
Do interior da província chegavam, a cada instante, as coisas mais inesperadas como reforço suplementar de manutenção.
Na subida da Montanha, ladeira por onde começara a desfilar o séquito real em emperrados trânsitos, sinos bimbalhando folganças em toda a redondeza, espalhava-se grosso povo em guardadas roupas (militares, frades, escravos, mucamas…) de domingo.
Mendigos.
Buscando evidências de importante separação, nobres da terra, de espadins e chapéus de fivela, desviavam seus cavalos, apeando-se com graça estudada nos requintes pretensiosos, de cima de seus selins ornados pretensiosamente com muita prata de lei. — Era a colônia a querer dar a nota de sociedade esmerada em preciosismos de educação. Nos becos onde sapateiros e outros ambulantes já haviam topado sítios bons para ver o desfile, acoitavam-se vendedores de comida com seus tabuleiros asseados em panos da costa e de rendas.
Nenhum local próximo andava devoluto. A população primava em berrantes presenças.
No adro da Conceição da Praia (sinos refrescando alegrias), estacionavam palanquins e serpentinas profusos em ouros, tetos de esmalte pintados ao gosto do tempo do senhor D. José, e cortinas riscadas de seda-china.
Os estufins e liteirinhas guardadas por dentuços moleques escravos, jogando aius na areia do chão a canela varrido, maganos moleques de tricórnios de plumas, casacas azuis, luvas branquinhas de anil e potassa nos fios de Escócia, ufanamente de pés no chão; os estufins e liteirinhas, nas festas ingênuas da colônia em sorriso, abrigavam a curiosidade espantada de muitos olhos negros, peludos olhões da rica mestiçagem na terra brotada.
Botinas-gracinhas, atacadas até aos tornozelos morenos, sacudiam impaciências do lado de fora, pelas frestas das sanefas ciosamente corridas.
Impaciências também ondulavam nas escondidas ancas armadas das senhorinhas passageiras enquanto escondiam assanhamentos, amuadas pela demora do cortejo.
E afogavam os ligeiros peitinhos cheirando a macela-alfazema, aperreados nos sonsos decotes dos espartilhos marotos da Europa importados. …”
Em: Carlota Joaquina a rainha devassa, de João Felício dos Santos, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira: 1968, pp:65-66