Trova da realidade…

1 10 2014

 

lá se vai uma fortuna Tio Patinhas desconfia das contas a pagar. Ilustração de Walt Disney.

 

 

Na terra do cambalacho,

há sempre um jeitinho novo,

por lei ou simples despacho,

de dar o “cano” no povo…

 

(Thereza Costa Val)





Eco, poesia de Henriqueta Lisboa

29 09 2014

 

picture-1Ilustração de Nicoletta Ceccoli.

 

 

Eco

 

Henriqueta Lisboa

 

Papagaio verde

deu um grito agudo.

Rocha numa raiva

brusca, respondeu.

 

Ganhou a floresta

um grande escarcéu.

Papagaios mil

o grito gritaram

rocha repetiu.

 

De um e de outro lado

metralhando o espaço

os gritos choveram

e choveram, de aço.

 

Gritos agudíssimos!

 

Mas ninguém morreu.

 

Em: Nova Lírica, Henriqueta Lisboa, Belo Horizonte, Imprensa Oficial: 1971, p. 38





Trova do entardecer

25 09 2014

 

passarinhos no galho, muitos, jkwCartão postal, K. Nixon.

 

 

Sopra um vento suave, brando,

ondulando capinzais,

e os passarinhos, em bando,

se aninham nos matagais.

 

(Décio Valente)





Trova da ajuda

22 09 2014

 

 

ajudar, possoPorquinho quer ajudar, ilustração de Walt Disney.

 

No mundo nada terás,

se não socorres alguém.

Ajuda, espera, e verás

como é bom fazer o bem!

 

(Almeida Corrêa)





As árvores e os livros, poesia de Jorge Sousa Braga

21 09 2014

 

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As árvores e os livros

 

 

Jorge Sousa Braga

 

As árvores como os livros têm folhas

e margens lisas ou recortadas,

e capas (isto é copas) e capítulos

de flores e letras de oiro nas lombadas.

 

E são histórias de reis, histórias de fadas,

as mais fantásticas aventuras,

que se podem ler nas suas páginas,

no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

 

As florestas são imensas bibliotecas,

e até há florestas especializadas,

com faias, bétulas e um letreiro

a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

 

É evidente que não podes plantar

no teu quarto, plátanos ou azinheiras.

Para começar a construir uma biblioteca,

basta um vaso de sardinheiras.

 

 

Em: Herbário, Jorge Sousa Braga, Lisboa, Assírio & Alvim: 1999





Trova da ingratidão

19 09 2014

 

brigs, ilustração T. CorbellaIlustração de T. Corbella.

 

 

Não vem dos nossos rivais

a ingratidão que exaspera.

— Geralmente a que dói mais

vem de quem menos se espera.

 

(Severino Uchôa)

 





Infinito, poesia de Renato Travassos

18 09 2014

 

Paisagem,Georgina Albuquerque - óleo sobre tela sem data, PESPPaisagem, s/d

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)

óleo sobre tela

PESP –Pinacoteca do Estado de São Paulo, SP

 

 

Infinito

 

Renato Travassos

 

Um delicioso anseio me atordoa,

Netas lindas manhãs de primavera;

Em mim não me contenho, pois quisera

ter asas para voar sem rumo, à toa!

 

Os olhos pondo na azulada esfera,

Toda ave invejo que, liberta, voa:

Como seria, sendo livre, boa

A vida que me prende e desespera!

 

Nestas manhãs de luz maravilhosas

Em que sorrindo, desabrocham rosas,

Quem me dera dispor de duas asas, —

 

Para, contente, voar do vale à serra;

Para, louvando o que existir na terra,

A um tempo além pairar das coisas rasas!

 

 

Em: Oração ao Sol: obra completa, Renato Travassos, Rio de Janeiro, José Olympio: 1946, 3ª edição, p. 97.





Trova dos livros

17 09 2014

 

 

Volando entre libros (ilustración de Cecco MarinielloIlustração Cecco Mariniello.

 

De livros encham-se as casas,

eis um conselho excelente,

pois o livro, aberto em asas,

põe asas na alma da gente.

 

(Orlando Brito)





O que se escuta numa velha caixa de música, poesia de Martins Fontes

15 09 2014

 

 

Carolus-Duran_-_Le_BaiserO beijo, 1868

Carolus Duran (França, 1837-1917)

óleo sobre tela

Museu de Belas Artes, Lille

 

 

O que se escuta numa velha caixa de música

 

Martins Fontes

 

Nunca roubei um beijo. O beijo dá-se,

ou permuta-se, mas naturalmente.

Em seu sabor seria diferente

se, em vez de ser trocado, se furtasse.

 

Todo beijo de amor, longo ou fugace,

deve ser um prazer que a ambos contente.

Quando, encantado, o coração consente,

beija-se a boca, não se beija a face.

 

Não toquemos na flor maravilhosa,

seja qual for a sedução do ensejo,

vendo-a ofertar-se, fácil e formosa.

 

Como os árabes, loucos de desejo,

amemos a roseira, olhando a rosa,

roubemos a mulher e não o beijo.

 

(A Flauta Encantada)

 

Em: Nossos Clássicos: Martins Fontes,poesia, Rio de Janeiro, Agir: 1959, p. 53





Generosidade, poesia de Cyra de Queiroz Barbosa

10 09 2014

 

 

gb_panneau aPanneau decorativo, 1921

Guttmann Bicho (Brasil, 1888-1955)

óleo sobre tela, 153 x 148 cm

MNBA — Museu Nacional de Belas Artes, RJ

 

 

Generosidade

 

Cyra de Queiroz Barbosa

 

à tia Nida

 

Os gatos da vizinhança

faminto, órfãos, pelados,

achavam pouso e aconchego

junto dela em nossa casa,

Mimoso, Dina, Miquito,

tantos outros — nem me lembro!

Ah! tinha a gata Pretinha

que lhe dava tão fecunda

cada vez ninhada inteira.

 

Era leite no pratinho

ou dado na mamadeira.

Enroscavam-se na colcha

de retalhos costurados,

cresciam e para ela

de miau! Miau! Miau!

serenata era cantada.

 

Não só de gatos gostava

a boa titia Nida.

Seus sobrinhos eram seus filhos

e mais outro de outro sangue

em amor reconheceu.

Por eles se abriu em risos

por eles muito sofreu.

Nada pedindo ou cobrando,

generosamente dando

a vida — tudo o que tinha —

para quem nem era seu.

 

 

Em: Moenda: painéis e poemas interiorizados, Cyra de Queiroz Barbosa, Rio de Janeiro, Rocco:1980, pp. 49-50