Trova do rio

30 05 2015

 

 

rio pedregoso, hergéTintim e Milu sobem o rio pedregoso, ilustração de Hergé.

 

Já repararam que o rio,

quando vai a caminhar,

é nas pedras do caminho

que mais parece cantar?

 

 

(Albercyr Camargo)





Um poema — para todos — de Miguel Torga

26 05 2015

 

 

leitura, distração, georges lepape, vogueDistração, gravura George Lepape.

 

 

Um poema

Miguel Torga


Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço…
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz…


Miguel Torga, Diário XIII





Trova dos teus olhos

21 05 2015

 

 

jovem com colarIlustração, autoria desconhecida.

 

 

Os teus olhos (quem diria?)

São ladrões de profissão;

Me roubaram noutro dia,

num olhar, meu coração.

 

 

(Josué Silva)

 

 





Sonatina lunar, poema para crianças de Mário Quintana

19 05 2015

 

 

noite, Yan Nascimbene casaNoite, ilustração de Yan Nascimbene.

 

Sonatina lunar

 

Mário Quintana

 

Os padeiros da lua
Derrubam farinha
Na noite retinta.
Quem ganha? É o chão
Que se pinta e repinta
De giz e carvão.
Rendilha de aranha
Na face encantada,
Moedinha de prata
Escondida na mão,
Minh’alma menina
Fugiu para a mata.
Meu coração
bate sozinho
no velho moinho
da solidão.
Até eu me fujo…
Eu sou o corujo,
Olhar enorme
Que nunca dorme.
Nana, nana
Nina, nina,
Alma menina…
E sonha comigo
Como eu era dantes!
Os padeiros da lua
Derrubam farinha…
O chão se repinta
De giz e carvão…
Sonha, Menina,
Na mata assombrada
Enquanto o moinho
Vai rangendo em vão.

 

Em: Apontamentos de história sobrenatural, Mário Quintana, Rio de Janeiro, Objetiva:2012





Pitangueira, poesia de Palmira Wanderley

14 05 2015

 

TúlioMugnaini (Brasil, 1895-1975), Paisagem,ostcm, 27x 30cmColeção ParticularPaisagem

Túlio Mugnaini (Brasil, 1895-1975)

Óleo sobre tela colado em madeira, 27 x 30 cm

Coleção Particular

 

 

Pitangueira
 

Palmira Wanderley

 

 

Termina Agosto… A pitangueira flora…

A úmbela verde cobre-se de alvura;

E, antes que Setembro finde a aurora,

Enrubece a pitanga… Está madura.

 

Da flor, o fruto é de esmeralda, agora…

Num topázio, depois, se transfigura,

E, pouco a pouco, um sol de estio a cora,

Dando a cor dos rubis à canadura.

 

A pele é fina, a carne é veludosa,

Vermelha como o sangue, perfumosa

Como se humana a sua carne fosse…

 

Do fruto, às vezes, roxo como o espargo,

A polpa tem um travo doce-amargo,

— O sabor da Saudade, amargo e doce…

 

 

Em: Panorama da Poesia Norte- Rio-Grandense, Rômulo C. Wanderley, Rio de Janeiro, Edições do Val: 1965, p. 144-5.





Quadrinha do pescador

12 05 2015

 

???????????????????????????????Bolinha e os meninos vão pescar.

 

Bem cedinho, o pescador,

No rio, foi apanhar

Esse peixe apetitoso

Que eu vou comer no jantar.

 

 

Em: 1001 Quadrinhas Escolares, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Difusora Cultural:1965

 





Trova do sabiá

9 05 2015

 

 

mapa-passaro Jason LaFerrera,Ilustração de Jason La Ferrera, colagem de antigos mapas.

 

 

Sabiá põe em seu canto
tal ternura que ao cantar,
mais parece um acalanto
para a alma cochilar.

 

(Amália Max)





Crepúsculo, soneto de Agnelo de Souza

6 05 2015

 

 

Night-Taos-Pueblo-by-Pedro-Joseph-de-LemosNoite, Pueblo Taos, 1921

Pedro Joseph de Lemos (EUA, 1882-1954)

pastel e carvão sobre papel tecido cinza

 

 

Crespúsculo

 

 

Agnelo de Souza

 

 

Hora crepuscular! Tarde. Agonia.

Dobres de sinos, murmurar de prece!

Luz benfazeja que desaparece,

Deixando na alma funda nostalgia.

 

Serenamente vai morrendo o dia

E o véu da noite sobre a terra desce!

É o véu sombrio que ela mesma tece

Para o noivado da melancolia!

 

Hora de tédio e de recolhimento,

Hora criada para o meu tormento,

Hora feita de prantos e gemidos!…

 

Dentro de ti e pela noite densa,

Passam gemendo, nessa mágoa imensa,

Sonhos desfeitos, corações partidos.

 

 

Em: Panorama da poesia norte-rio-grandense, Rômulo C. Wanderley, Rio de Janeiro, Edições do Val: 1965, p. 155.





As doces rosas-dos-ventos, poesia de Stella Leonardos

1 05 2015

 

 

vendedor-de-cataventos, sérgio bastosVendedor de cataventos, Sérgio Bastos.

 

 

As doces rosas-dos-ventos

 

Stella Leonardos

 

 

— Onde estás, vendedor de pirulitos,

Fazedor das ventoinhas de papel?

Daqueles cataventos tão bonitos?

Daquelas gostosuras cor de mel?

Tu que adoças as ruas com teus gritos

E que marcas os ventos nas calçadas:

Me dá de novo os sonhos infinitos

Das tuas rosas que são quase aladas!

— Queres minhas ventoinhas? Há-de tê-las.

Criança grande! Por que te agradam tanto?

— Não são ventoinhas: são almas de estrelas

De um céu ingênuo que foi céu de encanto.

 

 

Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p.79





Uma história, poesia de Menotti del Picchia

29 04 2015

 

 

melancholyMelancolia, 1894

Edward Munch (Noruega, 1863-1944)

óleo sobre tela, 81 x 100 cm

Rasmus Meyer Collection

The Bergen Art Museum

 

 

Uma história

 

Menotti del Picchia

 

História simples: ela rica e bela,

eu moço e pobre… Fados bem diversos!

Ela dona de dois olhos bem perversos

e eu namorado dos dois olhos dela.

 

Gostava tanto vê-la na janela

com seus dois olhos na tristeza imersos…

Tinha eu vinte anos, rabiscava versos,

era moço, era alegre e tagarela.

 

— Porque essa moça é assim tão merencórea?

(Num soneto eu chamara-a: D. Doente…)

Ai! amava outro e de outro era querida!

 

Casou-se e acabou a minha história,

E desde então, ela ficou contente,

e eu fiquei triste para toda vida…

 

 

Em: Entardecer, Menotti del Picchia, São Paulo, MPM propaganda: 1978, p. 56.