Tintim e Milu sobem o rio pedregoso, ilustração de Hergé.
Já repararam que o rio,
quando vai a caminhar,
é nas pedras do caminho
que mais parece cantar?
(Albercyr Camargo)
Tintim e Milu sobem o rio pedregoso, ilustração de Hergé.
Já repararam que o rio,
quando vai a caminhar,
é nas pedras do caminho
que mais parece cantar?
(Albercyr Camargo)
Distração, gravura George Lepape.
Miguel Torga
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Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço…
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz…
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Miguel Torga, Diário XIII
Ilustração, autoria desconhecida.
Os teus olhos (quem diria?)
São ladrões de profissão;
Me roubaram noutro dia,
num olhar, meu coração.
(Josué Silva)
Noite, ilustração de Yan Nascimbene.
Mário Quintana
Os padeiros da lua
Derrubam farinha
Na noite retinta.
Quem ganha? É o chão
Que se pinta e repinta
De giz e carvão.
Rendilha de aranha
Na face encantada,
Moedinha de prata
Escondida na mão,
Minh’alma menina
Fugiu para a mata.
Meu coração
bate sozinho
no velho moinho
da solidão.
Até eu me fujo…
Eu sou o corujo,
Olhar enorme
Que nunca dorme.
Nana, nana
Nina, nina,
Alma menina…
E sonha comigo
Como eu era dantes!
Os padeiros da lua
Derrubam farinha…
O chão se repinta
De giz e carvão…
Sonha, Menina,
Na mata assombrada
Enquanto o moinho
Vai rangendo em vão.
Em: Apontamentos de história sobrenatural, Mário Quintana, Rio de Janeiro, Objetiva:2012
Túlio Mugnaini (Brasil, 1895-1975)
Óleo sobre tela colado em madeira, 27 x 30 cm
Coleção Particular
Palmira Wanderley
Termina Agosto… A pitangueira flora…
A úmbela verde cobre-se de alvura;
E, antes que Setembro finde a aurora,
Enrubece a pitanga… Está madura.
Da flor, o fruto é de esmeralda, agora…
Num topázio, depois, se transfigura,
E, pouco a pouco, um sol de estio a cora,
Dando a cor dos rubis à canadura.
A pele é fina, a carne é veludosa,
Vermelha como o sangue, perfumosa
Como se humana a sua carne fosse…
Do fruto, às vezes, roxo como o espargo,
A polpa tem um travo doce-amargo,
— O sabor da Saudade, amargo e doce…
Em: Panorama da Poesia Norte- Rio-Grandense, Rômulo C. Wanderley, Rio de Janeiro, Edições do Val: 1965, p. 144-5.
Bolinha e os meninos vão pescar.
Bem cedinho, o pescador,
No rio, foi apanhar
Esse peixe apetitoso
Que eu vou comer no jantar.
Em: 1001 Quadrinhas Escolares, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Difusora Cultural:1965
Ilustração de Jason La Ferrera, colagem de antigos mapas.
Sabiá põe em seu canto
tal ternura que ao cantar,
mais parece um acalanto
para a alma cochilar.
(Amália Max)
Pedro Joseph de Lemos (EUA, 1882-1954)
pastel e carvão sobre papel tecido cinza
Agnelo de Souza
Hora crepuscular! Tarde. Agonia.
Dobres de sinos, murmurar de prece!
Luz benfazeja que desaparece,
Deixando na alma funda nostalgia.
Serenamente vai morrendo o dia
E o véu da noite sobre a terra desce!
É o véu sombrio que ela mesma tece
Para o noivado da melancolia!
Hora de tédio e de recolhimento,
Hora criada para o meu tormento,
Hora feita de prantos e gemidos!…
Dentro de ti e pela noite densa,
Passam gemendo, nessa mágoa imensa,
Sonhos desfeitos, corações partidos.
Em: Panorama da poesia norte-rio-grandense, Rômulo C. Wanderley, Rio de Janeiro, Edições do Val: 1965, p. 155.
Vendedor de cataventos, Sérgio Bastos.
Stella Leonardos
— Onde estás, vendedor de pirulitos,
Fazedor das ventoinhas de papel?
Daqueles cataventos tão bonitos?
Daquelas gostosuras cor de mel?
Tu que adoças as ruas com teus gritos
E que marcas os ventos nas calçadas:
Me dá de novo os sonhos infinitos
Das tuas rosas que são quase aladas!
— Queres minhas ventoinhas? Há-de tê-las.
Criança grande! Por que te agradam tanto?
— Não são ventoinhas: são almas de estrelas
De um céu ingênuo que foi céu de encanto.
Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p.79
Edward Munch (Noruega, 1863-1944)
óleo sobre tela, 81 x 100 cm
Rasmus Meyer Collection
The Bergen Art Museum
Menotti del Picchia
História simples: ela rica e bela,
eu moço e pobre… Fados bem diversos!
Ela dona de dois olhos bem perversos
e eu namorado dos dois olhos dela.
Gostava tanto vê-la na janela
com seus dois olhos na tristeza imersos…
Tinha eu vinte anos, rabiscava versos,
era moço, era alegre e tagarela.
— Porque essa moça é assim tão merencórea?
(Num soneto eu chamara-a: D. Doente…)
Ai! amava outro e de outro era querida!
Casou-se e acabou a minha história,
E desde então, ela ficou contente,
e eu fiquei triste para toda vida…
Em: Entardecer, Menotti del Picchia, São Paulo, MPM propaganda: 1978, p. 56.