Ilustração de Richard Sargent (1911-1978)
Sábio nenhum há completo
Neste mundo, assim entendo:
Por mais que seja correto,
O sábio morre aprendendo…
(Sabino de Campos)
Ilustração de Richard Sargent (1911-1978)
Sábio nenhum há completo
Neste mundo, assim entendo:
Por mais que seja correto,
O sábio morre aprendendo…
(Sabino de Campos)
O relógio de pêndulo, 1881
De Scott Evans (EUA, 1847–1898)
óleo sobre tela, 116 x 73 cm
Coleção Particular
Joaquim José Teixeira
A um relógio dava corda
Chavinha de áureo metal,
E mui vaidosa do impulso
Parar não quis afinal.
Forçou, pois, e desta força
Dentro a mola arrebentou,
E do tempo o mecanismo
Sem movimento ficou.
Resolvam, mandem governos
Nas raias do seu poder,
Vejam bem nesta chavinha
Que não basta o só querer.
Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Jnaeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 143
Joaquim José Teixeira nasceu no Rio de Janeiro em 27 de agosto de 1811 e faleceu também no Rio de Janeiro em 1º de janeiro de 1885. Foi advogado, poeta, romancista, dramaturgo,teatrólogo, tradutor, conferencista, oficial da Ordem da Rosa, sócio-fundador do Instituto dos Advogados Brasileiros e sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Colaborou em vários jornais e revistas. Traduziu Goethe, Molière, Fontaine entre outros.
Obras:
Elogio dramático, 1840
Fábulas, 1865
Versos, 1865
Pensamentos, (versos) 1878
Ilustração de Auguste Vimar (1851-1916)
Olavo Bilac
Pastava um touro enorme e forte, à beira d’água.
Vendo-o tão grande, a rã, cheia de inveja e mágoa,
Disse: “Por que razão hei de ser tão pequena,
Que os outros animais só faça nojo e pena?
Vamos! quero ser grande! Incharei tanto, tanto,
Que imensa, causarei às outras rãs espanto!”
Pôs-se a comer e a inchar. E inchava, inchava, inchava!…
Mas em vão! Tanto inchou que num tremendo estouro
Rebentou e morreu, sem ficar como um touro.
Essa tola ambição da rã que quer ser forte
Muitos homens conduz ao desespero e à morte.
Gente pobre, invejando a gente que é mais rica,
Quer como ela gastar, e inda mais pobre fica:
— Gasta tudo que tem, o que não tem consome,
E, por querer ter mais, vem a morrer de fome.
Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 127-8
Oma Koti, 1934
Martha Wendelin (Finlândia. 1893-1986)
óleo sobre tela
Três poemas de José Ildone
Tome este remédio.
É excelente,
Cura dores reumáticas,
traumáticas, gramáticas
e matemáticas.
Nada é tão longe
que não se chegue
lá.
(Mesmo a morte)
Entre grades
passa
o canto
-manco.
Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p. 243-4
Parque com figuras
Edgar Walter (Brasil, 1917-1994)
óleo sobre tela, 54 x 72 cm
Olavo Bilac
Olhas estas velhas árvores, — mais belas,
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas…
O homem, a fera e o inseto à sombra delas
Vivem livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E alegria das aves tagarelas…
É preciso, desde a infância,
Ir preparando o futuro;
Para chegar à abundância,
É preciso semear…
Não nasce a planta perfeita,
Não nasce o fruto maduro;
E, para ter a colheita,
É preciso semear…
Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 115-116
Tarde de domingo, 2014
Jesser Valzacchi (Brasil, 1983)
óleo sobre tela, 90 x 70 cm
Luís de Camões
Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.
Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já não me fica mais de resto.
Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, tudo é vosso,
E o proveito disso eu só o levo.
Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.
Ilustração Sung Kim.
Faustino Nascimento
Do seio da floresta secular,
Ao abrigo do sol mais inclemente,
Gota por gota, vê-se derivar
A fonte cristalina e refulgente.
Deitada no seu leito, a murmurar.
Talvez. uma canção de amor fremente,
Reflete, no seu prisma, ao sol e ao luar,
Tudo que a cerca, a plácida corrente.
Repousa, assim, no leito, a correnteza,
Aos embalos sutis da natureza,
Como encantada Ninfa, em seu ritual.
Dorme… Depois, num sobressalto, acorda
E, como que a fremir de amor, transborda
E se espreguiça pelo branco areal…
Em: Antologia Poética, Faustino Nascimento, Rio de Janeiro, Freitas Bastos: 1960, p. 15
Antônio Faustino Nascimento (Missão Velha, CE, 1901-) advogado, magistrado, escritor, poeta, ensaísta, jornalista, tradutor. Em Fortaleza, fundou a revista Argus.
Obras
Juvenília, poesia, 1927
As Cosmogonias, ensaio, 1929
Paisagens sonoras, poesia, 1937
Ritmos do novo continente, poesia, 1939, 1943
Elogio do amor e da ilusão, poesia, 1941
Cantos da paz e da guerra, poesia, 1943
O refúgio sublime, poesia, 1945
Exortação, soneto em cinco idiomas, 1949
O sonho do fauno, poesia, 1950
Cântico ao nordeste, poesia, 1954
Caminhos do Infinito, poesia, 1956
A fonte de Afrodite, poesia, 1958
A Alvorada, cântico a Brasília, 1958
Antologia poética, 1960
A vida, o amor e a ilusão, poesia, 1962
A terra de Israel, ensaios, 1967
Oriente e ocidente, história, 1973
Paisagem praiana
Hugo Adami (Brasil, 1899 — 1999)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
Luiz Peixoto
Eu vou pra beira do mar
esperar uma sereia,
que canta as canções do Vento,
que canta as canções do Mar.
Em noite de lua-cheia,
com ela vou me casar.
No leito branco da areia,
com ela vou me deitar.
E todo o amor que incendeia
meu coração vou lhe dar.
Quando a última candeia
das estrelas se apagar,
bem sei que ela irá embora,
mas um dia há de voltar.
As sereias vão e voltam,
São como as ondas do mar…
Em: Poesia de Luiz Peixoto, Rio de Janeiro, Editora Brasil-América:1964, p. 96
Tintin ia viajar, ilustração de Hergé. (O trem para Nyon?… Muito tarde, Senhores: lá vai ele, agora mesmo.)
Quem vai sem fé… sem coragem,
no embarque do trem da vida,
decreta o fim da viagem
antes mesmo da partida!
(José Almir Loures)
Ilustração de Kathy Wolmack
Abel Silva
Sou destituído de fé religiosa
mas confio. Não tenho alternativas.
Eu não conheço o engenheiro
mas entro neste prédio.
Não conheço o piloto
e embarco no avião.
Não sei quem plantou
colheu ou preparou:
mas bebo o vinho
e como o pão.
Em: Mundo delirante: poesias, Abel Silva, Rio de Janeiro, Europa: 1990, p. 18