Resenha: Pátria, de Fernando Aramburu

21 08 2020

Lendo

Monica Castanys (Espanha, 1973)

 

Por motivos profissionais de meu marido, passei algum tempo na antiga Iugoslávia, saindo de lá na semana em que a guerra da independência dos estados e eventualmente da Sérvia contra a Bósnia começou. No período que estivemos lá um dos mais incompreensíveis comportamentos que testemunhamos foi o ódio de uns pelos outros muitas vezes por crimes acontecidos há dois ou três séculos, quando aldeias inteiras de um grupo guerreavam contra aldeias de diferentes religiões ou etnias.  Lembro-me de acreditar que sentimentos de ódio de tal maneira entranhados  na cultura de um lugar são mais tipicamente encontrados na Europa do que em qualquer país do Novo Mundo.  A razão é simples: imigrantes que vieram do Velho Mundo deixaram para trás não só a terra natal, mas os hábitos e os ódios centenários para se adaptar a novas realidades.  Ler Pátria de Fernando Aramburu [tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht] lembrou-me dessas características do Velho Mundo, quase inexplicáveis para aqueles que de lá emigraram.  Rusgas políticas, ódios e desprezo podem e frequentemente tomam conta de aspectos vitais do relacionamento social de grupos étnicos, principalmente quando imaginam que na conta está a identidade nacional, mesmo que esta seja mais teórica do que prática.

Pátria trata do movimento terrorista separatista do País Basco, uma região que cobre parte da Espanha e da França, que um quarto da população fala uma das mais antigas línguas do mundo e que se imaginava capaz de ser um país independente.   Lugar pequeno, com língua esdrúxula, população de dois milhões, mas portador de um ego extraordinário, imaginando-se possuidor de importância. Se independente teria que competir com países vizinhos, na indústria, na educação, na saúde e em tudo aquilo que os identificava. Conseguiriam?  Não. Contavam, claro, com uso pleno de enormes fundos da Comunidade Europeia.  Ou seja, impostos pagos pelos alemães, franceses, ingleses, espanhóis e demais para que eles, os bascos, mantivessem sua identidade independente.  Fantasia. Desvario socio-cultural.   Impossível justificar-se.  Nem a eles mesmos o ETA [Movimento separatista] conseguiu captar a imaginação de toda a população. Apelaram, então, pelo recurso das milícias: ou você participa do nosso plano pagando uma mensalidade ao movimento separatista ou morre.  Nenhum movimento de independência pode ter sucesso desta maneira. É preciso incendiar imaginações.  É preciso oferecer realidade melhor do que a existente. Eles tampouco tiveram, desistindo oficialmente da separação em 2018.

 

 

 

Para mostrar o exagero miliciano do movimento separatista basco, Fernando Aramburu foca em duas famílias, cujas matriarcas eram as melhores amigas desde criança. Casaram-se, tiveram filhos. Cada qual cumpre seu destino: uma enriquece através do sucesso empresarial do marido, outra se dedica ao movimento separatista, são pobres e invejosos. As amigas se separam. Passam a se odiar. Quando o assassinato do empresário ocorre, a viúva encontra problemas ao voltar para o lugar em que moravam. É nesse ponto que encontramos pela primeira vez os principais personagens de Aramburu. A trama é envolvente. Com capítulos curtos vamos e voltamos no tempo cobrindo aquilo que foi acontecendo — dramas físicos e emocionais dos personagens.

Mas, por mais que detalhes do dia a dia sejam retratados vemos que os personagens pensam sempre no passado, ninguém supera as maldades que sofreu ou que impôs aos outros. As família retratadas quase vivem em função uma da outra, alimentando o ódio assim como os habitantes da antiga Iugoslávia me pareceram fazer sobre acontecimentos enraizados há séculos nas aldeias do país. Ninguém consegue sair do passado. Ninguém consegue esquecer. Perdoar seria necessário para crescerem, para se livrarem. Resta saber se os personagens serão grandes bastante para fazê-lo.

Fernando Aramburu

No entanto, a leitura é dificultada por excesso de palavras em basco (realmente, precisamos de um dicionário no final de um romance?). É detalhada demais, o leitor atenta ao que pode ou não ser importante (se um vaso de planta é um gerânio, se as pedras de um bracelete são verdes) que pode ou não ser relevante. Como tantos livros publicados nos últimos anos, faltou o trabalho de um bom editor que cortasse pelo menos umas cento e oitenta páginas dessa obra de mais de quinhentas. Não há necessidade disso tudo.

Fora isso é uma boa leitura. Não entendo o motivo de ter se tornado “leitura obrigatória da intelectualidade carioca”. Mas reconheço que em tempos de pandemia, todos com tempo de sobra, um livro com uma boa história, mesmo por demais longo, possa preencher as manhãs, tardes e noites de isolamento social. Aprende-se um bocado sobre o país basco, além das paixões humanas.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: “Me chame pelo seu nome”, André Aciman

5 07 2020

 

 

 

Wladimir Lindenberg Der Lesende, 1952, TemperaO leitor, 1952

Wladimir Lindenberg (Alemanha, ?-?)

Têmpera

 

Antes deste livro se tornar popular, e antes mesmo de virar filme, conheci a prosa de André Aciman através de três livros: Out of Egypt, memórias; um ensaio sobre imigração, no livro Letters of Transit, onde ao lado de Eva Hoffman, Bharati Mukherjee, Edward Said e Charles Simic o tema da identidade no exílio é abordado; mais tarde, em veio semelhante, li False papers: essays on exile and memory. Na época eu me dedicava a questões sobre  exílio e identidade cultural. Por este motivo com exceção de Charles Simic, me familiarizei com os autores mencionados.  Deles, Aciman surpreendeu. Sua habilidade de ser incisivo dando espaço para linguagem poética se fez sentir em todos os textos. Mas o autor que conheci através desses livros não me deixou vislumbrar o romancista.  O que há em comum entre este romance e os textos que li anteriormente?  Cuidado com as palavras,  leveza  de expressão, profundo conhecimento de textos clássicos.  E ainda, prosa fluida, que se mantém entre realidade e memória; explorando a melancolia inerente àquilo que se perdeu.

A ampla linguagem poética continua usada em Me chame pelo seu nome, [tradução de Alessandra Esteche]. É ela que faz sonho e realidade deslizarem de um momento para outro, se imiscuírem e mesclarem, numa dança sedutora, onde nada é preciso. Mais vale o subentendido, a ambivalência.  Diálogos são dissimulados; passagem de tempo incerta. Sabe-se simplesmente que é verão.  É um verão.  A ação se desenvolve no período das férias escolares americanas, de meados de maio a agosto. Mas é Itália. Cidade linda, quase anônima, de identidade misteriosa, referida por uma única consoante, mas exposta indiretamente aos curiosos, quando se descobre ser o local da morte por afogamento do poeta inglês Shelley [Percy Bysshe Shelley, 1792- 1822].  Portanto é a pequenina Lerici, voltada para o azul do Mediterrâneo, ao sul da Riviera Italiana.

Por três quartos do livro, não gostei da leitura.  Mas as últimas sessenta páginas redimiram o sacrifício inicial, quando a trama dá uma virada impressionante.  De repente, gostei de seu  desenvolvimento. Subitamente chega-se a um final belíssimo e coerente. E não foi por acaso que fechei o livro com a certeza de algo ter-se movido em meu âmago.

 

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Trata-se de um livro de passagem,  da chegada à idade adulta, de descoberta da sexualidade, de amor, de paixão, até mesmo de obsessão.  Elio Perlman, rapaz de dezessete anos, se descobre enamorado de Oliver, americano, que passava as férias de verão na Itália.  Erudito, acadêmico, Oliver recebe estadia gratuita na casa dos pais de Elio. Em troca, serve de secretário para o dono da casa. O esquema funciona há anos, cada vez com uma pessoa diferente e continua por depois desse verão.

Ainda que Elio pareça ser o personagem principal, já que vemos o mundo através de seus olhos, é Oliver, quem traz a energia que movimenta a trama. Sua presença, desde a chegada à vila dos Perlman, agiliza o texto e, por mais lacônico que seja, possivelmente por isso mesmo, ativa a curiosidade de Elio.  Oliver o fascina, o instiga. É aí, neste ponto, que desfrutamos, sem perceber, do grande e profundo conhecimento da literatura clássica, por André Aciman. O livro nos comove, nos toca a alma, em parte porque sua estrutura espelha a dos mitos da antiguidade, enraizados no inconsciente do leitor ocidental.  Oliver aparece nesta trama no papel de Hermes.  Mercúrio.  Por ele, e com ele, Elio é iniciado a outro mundo, ao autoconhecimento, à totalidade, à plenitude.  Oliver, como Hermes é sedutor. De espírito livre, não pode ser definido facilmente; inteligente, culto, atraente, bissexual, destro no tênis e perito no pôquer, inconstante, desfruta de noites e telefonemas enigmáticos; ambivalente, inacessível, esfíngico o americano torna-se foco da atenção de Elio, que se encanta e o deseja. Sonha com sua atenção, almeja a união com o indecifrável visitante. Em sua visão Oliver é o que ele gostaria de ser. É o ser que tem dentro de si. Não descansa até formar um vínculo estreito com ele, até ter sua intimidade trespassada. Eventualmente os dois se encontram e têm um relacionamento tórrido, absorvente, que dura pouco.  Mas traz a Elio a sensação do todo, de plenitude e perfeição.  Logrou conhecer-se, completar-se.  A união com este outro ser, que o reflete, está representada no próprio título: Me chame pelo seu nome, clímax da plenitude alcançada, da união que o torna conhecer a si mesmo.  Logo, Oliver retorna à América, tendo desempenhado o papel que lhe cabia, psicopompo.  A história deste verão, portanto não é só a iniciação sexual de Elio, é a porta do conhecimento de si mesmo.

Então, porque não gostei de uma parte tão grande do livro? A obsessão de Elio com Oliver é longa, detalhada, interminável. Cada pormenor é descrito: do arco do pé de Oliver, às cores de seus calções de banho às quais Elio atribui vários estados de espírito do visitante. Essas descrições delicadas, sensíveis, inspiradas, suaves e sedutoras tornam-se infindáveis. Levantam a dúvida sobre sua necessidade e mesmo agora, depois de terminada a leitura, acredito que Aciman foi indulgente consigo mesmo, talvez fascinado pela novidade de escrever sobre a atração de um homem por outro.  Por fim, quando Elio e Oliver se encontram e se amam apaixonadamente, a linguagem poética de Aciman se perde. Desaparece.  Nos encontramos com uma das mais crassas descrições de um relacionamento a dois. Ela me levou a imaginar como teria sido bela e sensível esta passagem nas palavras D. H. Lawrence, porque Aciman sujeita o leitor a ponderar sobre o desconforto físico de Elio após a iniciação sexual e a considerar o grotesco do prazer carnal. O que aconteceu com aquele escritor da primeira parte, com toda a bela e poética prosa?  Ela retorna no final, depois de um interlúdio literário, numa viagem a Roma, que não exerce nenhuma função significativa no desenrolar da história.

Só então, no regresso à casa, quando o desejo de Elio retorna, quando o anseio reaparece, quando seu apetite, ânsia, espera, sede reacendem, ressurge também  a prosa poética na qual Aciman se distingue. É aí, neste ponto, na fala do Sr. Perlman, pai de Elio, ao aconselhar-lhe sobre a vida, que Aciman leva o texto ao seu ápice. Não me surpreenderia se esse trecho da obra, passasse a ser reconhecido por si só. Aplaudido.  Independente.

 

índiceAndré Aciman

 

O que permaneceu comigo foi algo sobre as possibilidades perdidas e as conquistadas; foi a constatação da miríade de oportunidades que nos é oferecida numa vida comum. Pensei nas portas que abrimos e fechamos, nas vezes que dizemos não ao autoconhecimento.  Medo.  Medo do sofrimento que traz conhecimento de si, da vida e dos outros. Pensei no que é amor, paixão, curiosidade.  Na fascinação de cruzar as fronteiras para outros mundos, físicos ou imaginários, e até mesmo psicológicos.  Pude refletir sobre o medo de viver, das novas experiências. Talvez pela própria ambiguidade do texto, tantas perguntas possam ter aparecido. É um livro de perguntas, mais do que respostas e parte de seu encanto está em nos conhecermos através desse próprio questionamento.

Designar Me chame pelo meu nome como um livro homossexual, pertencente à literatura gay é reduzi-lo a um pequeno círculo de leitores.  É sim, a história de amor de um homem por outro.  Mas é maior do que isso, é uma viagem ao mundo de nossa psiquê que ao ser descoberta nos une, nos faz inteiros.  É, portanto, um livro para todos, pois irá repercutir no âmago de nossas almas.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: “A distância entre nós”, Thrity Umrigar

25 06 2020

 

 

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Vishalandra Dakur (India, contemporâneo)

óleo sobre madeira, 24 x20 cm

 

Na geometria projetiva duas linhas paralelas se encontram no infinito.  No livro A distância entre nós de  Thrity Umrigar elas não só se encontram como colidem por volta da página trezentos.  Trata-se da história de duas famílias lideradas por mulheres viúvas, na maior e mais importante cidade indiana, Bombaim.  Sera Dubash é uma mulher de classe média alta, parsi, que vive confortavelmente num apartamento na zona residencial da metrópole.  Tem uma filha, casada, passando pela primeira gravidez e cuida da sogra idosa e acamada.  Sera tem uma empregada doméstica há mais de vinte anos, Bhima, com mais de sessenta anos, cujas dores do corpo maltratado precisa ignorar para trabalhar e manter a neta estudando.  Bhima é extremamente pobre. Vive numa favela na cidade, numa casa sem banheiro próprio. Necessita usar o sanitário comum do local e,  sem móveis, dorme no chão.

Ainda que Sera e Bhima vivam em mundos distantes, cada qual, à sua maneira, trata da outra, conhecendo os segredos que cada uma esconde, a vergonha social que as domina.  Sera foi protagonista de casamento violento e foi constantemente maltratada pela sogra que hoje depende de sua assistência. Bhima foi abandonada pelo marido, que ao sair de casa levou com ele o filho, deixando para trás a pequena irmã do menino.  Ao longo das décadas de serviço as duas mulheres vieram a se solidarizar com os sacrifícios que sabiam a outra fazia.  Bhima perde a filha e o genro para a AIDS e cria, agora, nos últimos anos de vida a neta, que, recipiente da generosidade de Sera, estuda na universidade, o que seria impossível de outra forma.  No entanto, quando o livro inicia, sabemos que uma grande desgraça acontece com Maya, neta de Bhima.  Ela engravida ainda solteira, enquanto cursa a faculdade e  Bhima se vê sem meios de resolver o problema a não ser com a ajuda de Sera e sua família. A solução e as razões evocadas para tal são fonte de grande conflito interior para Bhima e Maya e só no final, entendemos perfeitamente os motivos de tanto sofrimento.

 

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Temos, portanto, uma prato cheio de emoções conflitantes. agravadas por preconceitos sociais, pobreza, intolerância e separação de castas sociais culturalmente mantidas, a despeito da constituição indiana de 1947, que as abole.

Thrity Umrigar é excelente escritora.  Mantém bom ritmo na narrativa, descreve, através dos pensamentos dos personagens, ambientes à sua volta. Diálogos e linhas de pensamento, reflexões sobre eventos passados abrem a porta para vislumbramos conflitos presentes. O texto corre solto, sem soluços,  visita cada família esboçada, e reflete das dúvidas às ações nem sempre dignas dos personagens.  Em menos tempo do que se imagina, é possível ver que as duas famílias se espelham e o paralelismo entre as realidades é conduzido com maestria.

 

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Há leitores e leitores. Nos meus grupos de leitura A distância entre nós teve aprovação quase unânime.  O livro foi considerado repleto de questões relevantes, uma entrada para a cultura milenar da Índia, reflexivo sobre as emoções humanas mais conhecidas, arrebatadoras. Amor, traição, decepção, esperança, sacrifício, felicidade são todas emoções fortes, tratadas no desenvolver da história.  Sinto revelar que fui a voz da discórdia. Justamente porque há leitores e leitores.  A mim, agradam textos mais sutis. A meia palavra fere mais do que a altercação. Querelas sentimentais me cansam.  Não sou adepta da novela, muito menos das explosões emotivas tradicionalmente retratadas nos seriados mexicanos, por exemplo.  Arroubos de emoção (seja ela a que for) me distanciam.  Acho-os de difícil empatia. E a escrita de Thrity Umrigar, neste livro, detalha as fortes emoções que levam a decisões extremas.  Um pouco fora da minha preferência.

Mas, se você acredita nas emoções violentas, nas emoções mais básicas do ser humano, do amor à traição e não se incomoda com os dramalhões.  Se você é noveleiro, se entende e simpatiza com o sofrimento escancarado dos personagens, este livro é para você. Boa história, resolução final esperançosa.  Vá em frente. Você vai gostar.

 

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Resenha: A paciente silenciosa, de Alex Michaelides

5 06 2020

 

 

 

Andrew Ganley - Brigit Ganley - Pintora irlandesa (1909-2002)O dramaturgo Andrew Ganley

Brigit Ganley (Irlanda, 1909 – 2002)

óleo sobre tela

 

Em 1926,  Agatha Christie publicou seu primeiro grande sucesso de vendas: O assassinato de Roger Ackroyd. Em 2013, a Associação de Escritores Britânicos de Crime elegeu esta obra como a melhor história de crime já escrita.  Este mistério é considerado um dos livros de maior influência no gênero, mesmo que tenha gerado controvérsia pela virada no final na trama.  Não pude deixar de me lembrar de Roger Ackroyd  ao terminar a leitura de A paciente silenciosa, do escritor britânico, nascido em Chipre, Alex Michaelides, publicado em 2019, para uma carreira de sucesso imediato.  Como o livro de Agatha Christie, este também ganhou inúmeros prêmios inclusive o Prêmio do site Goodreads  para mistérios e suspense no mesmo ano de lançamento. Além disso os dois livros são repletos de suspense, mistério e de finais surpreendentes.

Diferente do que aconteceu comigo na leitura do  livro de Agatha Christie, não consegui gostar nem me identificar com qualquer dos personagens envolvidos na trama de Michaelides. A narrativa me pareceu distante e artificial, assim como os dramas pessoais dos personagens me pareceram desde o início forjados, um tanto teatrais.

 

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Não obstante, A paciente silenciosa tem ritmo acelerado que ao longo do tempo torna-se trepidante, causa incertezas aumentando ansiedades no leitor, certo de que há algo muito errado, sem conseguir perceber claramente o que acontece.  Há passagens arrepiantes, repletas de situações aterrorizadoras, principalmente na descrição da perseguição [stalking] de um dos personagens.

Alex Michaelides usa de diversos métodos de narrativa para elaborar a trama.  Neste ponto, o livro é de grande riqueza, pois passamos da narrativa em primeira pessoa, às notas em diários, conversas, pintura e silêncio como meios de comunicação para a evolução do enredo e desta maneira consegue iludir o leitor, quando precisa, sobre as elipses que irão permitir a reviravolta final.  Neste ponto, A paciente silenciosa  é uma obra de grande auxílio àqueles que desejariam escrever uma história de suspense.

 

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O livro gera questões sobre ética de trabalho de profissionais como psicólogos, psicanalistas e psiquiatras, assim como segurança nas instituições de acolhimento daqueles que necessitam de tratamento mental.  Há também a questão de confiabilidade, transparência e genuíno cuidado de pacientes mentais.

A paciente silenciosa é bom entretenimento, leitura feita para um fim de semana, para um dia de chuva.  Diverte, ajuda a passar o tempo, retém a atenção do leitor. Com este fim, recomendo.

 

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Resenha: A maçã envenenada, Michel Laub

1 06 2020

 

 

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Monika Luniak (Alemanha, contemporânea)

óleo sobre tela

 

Há escritores que surpreendem com a justaposição de eventos que escolhem para nos revelar a trama de um romance. Com isso mostram sua maneira de pensar, como retêm o que veem, a essência do que os preocupa. Formam uma colcha de retalhos que os leva  à sabedoria, à lição do que observaram.  Fora do Brasil, Julian Barnes é um escritor que seduz com similaridades que descobre em coisas aparentemente assimétricas. Este tipo de narrativa faz parte do charme da prata da casa, o escritor brasileiro Michel Laub.  Seguir paralelos que não apresentam conexão imediata é um dos prazeres de seus livros e de A maçã envenenada.

Narrado na primeira pessoa, o personagem, jornalista de quarenta anos,  procura respostas, para entender o motivo do suicídio de sua primeira namorada, Valéria. Oscilando entre dois eventos que, justapostos, o intrigam: o suicídio do músico Kurt Cobain e a entrevista de Immaculée Ilibagiza, sobrevivente do genocídio de Ruanda ele transita entre essas duas forças cujo ponto em comum é a preservação ou não da própria vida. Há,  de um lado, um cantor, compositor, músico de sucesso,  admirado no mundo inteiro, ídolo de uma geração, que despreza a vida e se suicida.  De outro está a jovem africana, desconhecida e pobre, feita heroína pelas circunstâncias, porque preza a vida a ponto de sobreviver nas piores condições imagináveis, por um longo tempo. É no equilíbrio entre essas duas forças que o jornalista encontra o caminho da ponderação sobre eventos e sentimentos.

 

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Fragmentos  da letra Drain me, de Kurt Cobain, são usadas, para titular duas partes da narrativa.  ‘A não ser que seja sobre mim’  [I don’t care what you think unless it is about me], apropriada para descrever a narcisista Valéria, e ‘Que sorte ter encontrado você’, ironicamente, aplicável ao nosso narrador [One baby to another says: I’m lucky I’ve met you]. Enquanto o título A maçã envenenada continua a referência à letra da música de Kurt Cobain, é usado  em contraposição,  [You’ve taught me everything without a poison apple]; pois o suicídio de Valéria é de fato verdadeira maçã envenenada para o homem maduro que revive a juventude, em busca do significado do suicídio de Valéria.

Ainda que estas referências sejam óbvias, a mim, a procura do protagonista e sua conclusão sobre o que é o suicídio, o que significou o suicídio de Valéria e o efeito que tem sobre os que estão à volta de quem o comete,  lembrou duas conhecidas frases do escritor Patrick Ness “Nós somos as escolhas que fazemos” do livro The Knife of Never Letting Go e “Dizer que você não teve escolha é omitir sua responsabilidade”, do livro Monsters of Men.

 

fotografia-do-editorial-mondadori-do-escritor-brasileiro-michel-laub-1364849951116_300x420Michel Laub

 

Este é o terceiro livro de Laub que leio.  Ainda que seja parte de uma trilogia pode  ser lido separadamente.  Com ele termino o grupo.  Para mim, dos três, o livro imperdível é Diário da Queda, que me encantou e comoveu. É o mais emotivo dos três, revelando, com genuína delicadeza, a fragilidade do narrador.  Depois, a Maçã envenenada, que trabalha o texto de uma forma mais intelectual, com emoções menos explícitas e por fim O tribunal da quinta-feira, cuja óbvia dor psicológica do personagem principal é transmitida com ironia e distanciamento.  De qualquer jeito, recomendo a leitura dos três livros em qualquer ordem que você queira colocá-los.

 

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Resenha: “Nenhum olhar” de José Luís Peixoto

26 04 2020

 

 

 

Pedro Buisel (Portugal, contemporâneo) , Monsaraz, 2001, ost, 53 x 80 cmMonsaraz, 2001

Pedro Buisel (Portugal, contemporâneo)

óleo sobre tela, 53 x 80 cm

 

 

Confesso que comecei a leitura de Nenhum Olhar de José Luís Peixoto com certa apreensão.  Eu havia gostado tanto, tanto, de seu Livro, que tinha medo de me decepcionar com qualquer outra obra do autor.  Dei tempo entre os dois e caí de amores mais uma vez por este autor que surpreende com a habilidade de encantar com a utilização de palavras comuns, que eu, você, nós todos sabemos e aplicamos diariamente.  Em sua escrita esses vocábulos comuns tornam-se elementos de uma  narrativa lúdica e poética capaz de abordar delicadas e violentas emoções de modo único e sensível.  Chega a ser difícil acreditar que temos  em comum as mesmas palavras, no número finito das existentes na língua portuguesa, porque José Luís Peixoto não inventa novos vocábulos, mas consegue construir  linguagem única,  que entendemos pelas ausências,  no avesso ou como se lêssemos pelo espelho.  Frases curtas trazem à tona reticências eloquentes. Silêncios  soturnos envolvem o leitor com um cordão mágico invisível que o amarra ao texto.  E imergimos num mundo fantástico e real, plausível, mágico.  Enigmático.

José Luís Peixoto canta uma aldeia. Cantar é a palavra que melhor descreve a prosa-poética, ou a poesia em prosa, da narrativa sobre esta aldeia portuguesa, que parece perdida no tempo, solitária no espaço, contida em si mesma, isolada na  imensa extensão agreste, bruta, bravia e rústica do Alentejo.  Sente-se o lugar.  É hostil, habitantes abrutalhados, sem  possibilidades de mudança.  Vivem sob o pesado manto dos séculos de isolamento e conformismo.  Nem todos são gente comum.  Há um tanto de mágica local. Mas há falta de perspectiva,  seus habitantes não veem o  horizonte além.  ‘Nenhum olhar’ atravessa a distância,  supera a realidade desolada do lugar.

 

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Gosto particularmente da capa desta edição da Dublinense de  Samir Machado  de Machado. Gosto porque desta janela do aposento de onde a foto foi tirada, não há horizonte visível.  Há telhados. E céu.  O olhar atravessa a janela e para.  Para  logo ali adiante.  Ali pertinho.  Ali, na casa ao lado, no vizinho vigilante, na vereda deserta, no silêncio impenetrável dos vigiados seguidos por trás das cortinas em seus mais corriqueiros movimentos. O olhar para ali,  sem qualquer esperança, para no muro e nas telhas.  Isso reflete a asfixia da aldeia.  A falta de espaço tão bem representada pelos irmãos siameses;  a exiguidade a despeito da imensidão algarvia que a rodeia.  Esta aridez externa ecoa na população retratada, do gigante à mulher estuprada, do pastor de ovelhas à mulher cega. E como num deserto, onde ocasionalmente vemos uma planta esboçar um alento, aqui também há amor.  Silencioso, profundo, dramático.  Talvez esses excessos nos levem a aceitar com maior encantamento a virada de perspectivas que ocasionalmente nos obriga a parar e pensar. “Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra como um céu, e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.” [123-24]

 

jlpJosé Luís Peixoto

 

Os eventos que compõem a história dessa aldeia podem ser contados repetidamente, de maneira poética ou objetiva. E no entrar e sair do sonho, no abraçar ou abandonar o onírico, temos entendimento mais completo da agonizante e ferrenha determinação de seus  habitantes pela sobrevivência física e emocional. Esdrúxulas como a própria paisagem que as gera, essas pessoas parecem habitar o mundo das alegorias.  Seus nomes, vindos dos Novo e Velho testamento aparentam ser maiores do que os seres que os carregam e dão aos acontecimentos, junto com os personagens fantasiosos, um ar simbólico que em vão tentamos decifrar.

Essa é a história de uma aldeia. Belíssima narrativa ainda que extremamente triste.  Recomendo.

 

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Resenha: “A vida pela frente” de Émile Ajar

21 04 2020

 

 

 

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Adam Clague ( EUA, contemporâneo)

óleo sobre tela, 59 x 30 cm

 

 

Alguns amigos perguntaram porque dei três estrelas de cinco para A vida pela frente, de Émile Ajar,  tradução  de  André  Telles,  originalmente publicado em 1975, e ganhador do Prix Goncourt.  A surpresa vem pelas muitas de resenhas superlativas desta obra.   Há também um grande trabalho de marketing,  desde seu lançamento em 2019.  Aqui no Rio de Janeiro, a maioria das livrarias físicas tem este livro empilhado na primeira bancada, e  compras via internet sempre trazem este livro como opção para suas compras,  na primeira página.

Há uma  incompatibilidade de gênios  entre a obra e a leitora.  A vida pela frente é sentimental,  idealista  e parece acreditar num mundo muito mais perfeito do que imagino possível.  Parece  estranho dizer isso quando se trata da história de um menino árabe, muito pobre, criado por uma cafetina judia,  num  bairro de prostituição em Paris e trabalhar temas da eutanásia ao aborto, exploração dos seres humanos, discriminação, injustiça social, violência. Incongruente, você poderá achar. Mas não é.

 

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Somos apresentados a esse mundo através de um menino que talvez tenha dez a onze anos, que não sabe ao certo quando nasceu.  A voz é de espanto, delicada e tem a intenção de nos seduzir por sua inocência.  Infelizmente para a narrativa logo no primeiro capítulo ele pergunta: “– Seu Hamil, é possível viver sem amor?”  Congelei.  Estava frente à  chave de abertura de mundo paralelo. Entrava num texto próprio  para um filme de Walt Disney, com a  necessidade de explorar escandalosamente meus mais finos sentimentos.  Já sabia estar na companhia de um menino carente e agora ele iria me ensinar as coisas importantes da vida.  Não, não faz sentido. Não me agrada ser sensibilizada dessa maneira, manipulada, só faltava ouvir os violinos ao fundo tocando uma canção suave.

Mas continuei a leitura.  Dois de meus grupos de leitura haviam independentemente escolhido este livro para discussão.  Eu tinha que chegar ao fim.  O que veio foi previsível.  Um texto para nos mostrar valores essenciais  para a humanidade.  Romance de formação?  Não vejo assim.  Romance com a intenção de formar, moralizar o leitor.  Já saí da escola há tempos, minha formação já está sedimentada. Não preciso disso.

 

emile ajarÉmile Ajar, pseudônimo de Romain Gary

 

Não gosto de histórias moralizantes. Histórias que querem abertamente me fazer engolir valores,  ensinamentos, frases bonitas, nada mais que revestidos lugares comuns, feitos para sensibilizar o leitor às platitudes insensatamente repetidas na modernidade como se fossem profundas conclusões sobre o ser humano: a necessidade de amarmos uns aos outros, a sobrevivência pela solidariedade; necessária coragem para a vida no âmbito marginalizado.  Sinto muito.  Isso não é profundidade de texto.  Mostre-me.  Não me guie.

Textos como este lembram-me do Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry,  que não passam de uma visão romântica do comportamento que devemos ter com os outros, conosco mesmo, mas a nível superficial.  São bonitinhos.  Pretendem profundidade. Pretendem posições filosóficas. Pretendem enunciar verdades, “para um mundo moderno que perdeu seus valores”.  Não acho isso.  Não tenho essa visão.  É um livro pretensioso. Não é para mim.  Há muito passei  da  fase  de achar que frases bonitas refletem profundidade.

Quanto mais escrevo, mais sinto vontade de diminuir o número de estrelas que dei. Não  recomendo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: “Os segredos que guardamos” de Lara Prescott

10 04 2020

 

 

(jack_vettriano_night_moves)Armadilha noturna

Jack Vettriano (Escócia, 1951)

óleo sobre tela, 40 x 30 cm

 

 

Cheguei a me surpreender avaliando em quatro estrelas este livro.  É nota alta.  Apesar de uma dezena de problemas Os segredos que guardamos de Lara Prescott, traduzido por Alessandra Esteche, tem pontos de interesse que pesam a favor no balanço final.  Seguimos duas mulheres: Irina Drozdov, jovem americana, filha de imigrantes russos que inicia a vida profissional, nos anos 50 do século passado, como datilógrafa na CIA e acaba tornando-se agente secreta; e Olga Vsevolodovna  Invinskaya, dedicada amante do escritor russo Boris Pasternak, que serviu de musa para Lara, personagem principal do livro Doutor Jivago ao longo dos treze anos em que foram amigos e amantes.

Fluente em russo, Irina chama atenção de seus superiores que a escolhem para trabalhar como agente secreta.  Ela é treinada e eventualmente participa de uma operação secreta americana que leva ao publico russo a obra de Pasternak que havia sido proibida pelo governo da União Soviética de ser publicada, pois oferecia ao leitor críticas ao sistema imposto na Rússia sob domínio comunista.

Seguimos a vida de Olga Invinskaya do momento em que vai para prisão por se associar a Pasternak e não ceder ao inquérito governamental sobre o conteúdo do romance que seu amante escrevia.  Trabalhos forçados em Gulag por ser presa política dão fim a três anos de sua vida. Na volta para casa, Olga retoma o caso de amor com Boris.

 

OS_SEGREDOS_QUE_GUARDAMOS_ FABIANA

 

Lara Prescott nos dá uma breve biografia do escritor Boris Pasternak  e mostra a importância que essa obra, que eu só conheço pelo cinema, teve para o próprio autor.  Acompanhar o caso amoroso que mantém com Olga nem sempre conta a favor de Pasternak, e me lembrou que devemos simplesmente julgar a obra e nunca seu autor.  Falta a ele comprometimento para com a mulher amada,  mesmo tendo sido Olga a grande paixão de sua vida. Mas, por outro lado, escreveu o livro que o levou ao Prêmio Nobel em 1958, e ao aplauso internacional, mesmo obrigado pelo regime comunista a recusar o prêmio.

Além desses temas há a narrativa de espionagem internacional feita por mulheres,  tema que aparece mais assíduo na literatura contemporânea de entretenimento, principalmente depois do best-seller O tempo entre costuras, de Maria Dueñas, que abriu o caminho para outros sucessos.  Mantendo-se no campo das novidades: esta é ficção que aborda, levemente, a discriminação contra o homossexualismo na CIA assim como possivelmente nos outros conhecidos serviços de espionagem. como o britânico MI6.  Este é o segundo romance que leio este ano que aborda o tema do amor lésbico. Interessante reviravolta na produção literária de vasto consumo.

 

lara-prescott_credit_trevor-paul_1500x2250_1579818005497Lara Prescott

 

Tive dificuldade de seguir as vozes narrativas de cada capítulo narrado na primeira voz.  Nem sempre fica claro na primeira metade do livro cuja vida estamos seguindo.  Maior número de situações de espionagem poderia aumentar o interesse na narrativa que se apega demais à biografia de Pasternak.

A leitura é rápida. Pequenos capítulos. Biografia, ação,  romance. Surpresas. Poderia ir mais a fundo. Faltou suspense, o tema pedia.  Acaba abruptamente como se o  interesse da autora fosse cobrir uma única ação de subversão do comunismo através da cultura, como planejara a CIA.  Outras ações mencionadas não dão sustância ao tema de espionagem. Como romance histórico deixa a desejar. Finais fechados.  Livro pronto para a grande audiência de entretenimento com um aceno aos temas da atualidade.

 

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Resenha: “4321”, Paul Auster

7 03 2020

 

 

98e8c60069554ace32cacb59e0c1d074Crianças Amish

 

 

Ler um livro de mais de oitocentas páginas duas vezes em dois anos seguidos não é comum para mim.  Mais extraordinário ainda é mudar de opinião sobre obra lida tão recente. De boa passei-a para excelente, colocando-a finalmente entre meus favoritos.  Aconteceu com 4321 de Paul Auster, livro controverso que gerou defensores e críticos ferrenhos desde que publicado em 2017, nos EUA. Havia visto uma entrevista com Paul Auster no programa da televisão francesa La Grande Librairie, talvez pelo encantamento da conversa gerada naquela noite por François Busnel, talvez pela simpatia de Auster e a sua fluência na língua francesa, fato não muito comum entre escritores americanos, resolvi ler a obra, o que fiz na versão americana, em e-book.  Menos de um ano depois um dos meus grupos de leitura decidiu por votação abraçar esse volume como o livro da virada de ano, quando no lugar de quatro, temos seis semanas para leitura, permitindo envolvimento com obras mais longas.  Desta vez, li em português.  Mas voltei na segunda metade do livro à versão em inglês, porque no kindle as mais de oitocentas páginas não pesam na bolsa.  Esta experiência provou para mim, o quanto é importante o momento psicológico do leitor para apreciação de qualquer leitura. Em menos de dezoito meses meu entendimento e apreciação da obra mudou.

4321é um romance de formação (bildungsroman) multiplicado por quatro.  Explora quatro possibilidades de vida de um garoto, do mesmo garoto, Archibald Isaac Ferguson. Retratado com os mesmos pais e avós, o mesmo contexto social no início de vida.  À medida que cresce, eventos e o acaso interferem em cada uma das vidas, mudando-as singularmente.  São quatro histórias em uma. Muitas características de seu DNA são mantidas: o gosto pela leitura,  a facilidade de escrever, o amor aos esportes. Cada um dos Fergusons explora suas habilidades. Cada um reage a incidentes à sua maneira.  Fixos em suas vidas há os pais, Stanley e Rose, que também agem de modo diverso dependendo do destino do casal, os tios de Ferguson, com especial louvor a tia Mildred, e presente em todas as vidas, Amy Schneiderman às vezes como amiga, às vezes como irmã de criação, sempre fascinante para leitor e Ferguson. O acaso determina cada uma das vidas de Ferguson mas não o restringe. O extemporâneo determina as circunstâncias  e afeta o que é externo.

Dizem que conhecer leva ao amor. Se você um dia se perguntou como casamentos arranjados, praxe nos séculos anteriores, podiam levar ao amor, Paul Auster mostra o caminho.  Conhecemos Archie Ferguson tão bem através de suas vidas separadas e paralelas que a partir de um certo ponto o amamos, queremos que eles deem certo, que Ferguson tenha sucesso, qualquer um dos Fergusons.  E ao final, nas últimas páginas do convívio com este rapaz cujo crescimento escolar, sexual e emocional compartilhamos,  quatro vezes diferente, quando damos adeus ao livro,  sentimos pesar, luto.  O vácuo emocional com que ficamos, testemunhas dessa vida comum e extraordinária, é imenso.

 

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4321 também é um romance histórico, detalhando, em minúcia excepcional, as décadas cinquenta e sessenta, os conturbados anos da Guerra do Vietnã, do movimento negro, da política, dos assassinatos de Kennedy e Martin Luther King nos Estados Unidos e em Nova York, especialmente.  Auster surpreende.  A mim, surpreendeu mais, pois em duas ocasiões anteriores eu havia abandonado a leitura de seus livros, sem interesse de chegar ao fim de qualquer deles.  E aqui não só li, como reli.  Sinto que conheci este rapaz, cuja vida deixamos de acompanhar no início dos anos setenta.  Dizem que 4321  difere dos romances anteriores de Auster. E grande parte da crítica negativa que recebeu foi daqueles que esperavam um obra como as que a precederam e encontraram ali algo diferente.

Mas 4321 também é um romance de escritor para escritores. De escritor para seus seguidores.  É um compêndio de aulas de escrita, além de ter a lista mais detalhada que já encontrei dos livros que devemos ler para uma educação primorosa e sabermos como escrever e pensar.  Vemos todas as possibilidades da escrita, da reportagem jornalística às memórias,  cobertura de eventos esportivos, poesia, biografias, prosa, jogos de palavras, imitação de estilos, traduções, toda a gama de caminhos  caso você possa e se interesse em ser escritor. Mostra também a dedicação necessária para que isso aconteça e maneiras diferentes de como se tornar um escritor. Paul Auster educa os leitores, orienta seus seguidores com ambições no campo da escrita.  Ajuda a formar escritores e leitores.

 

Paul_Auster_BBF_2010_Shankbone_small-1Paul Auster

 

Na minha primeira leitura assinalei pontos que considerei negativos.  Achei o livro indulgente.  Com muitos elementos desnecessários, entre eles as infindáveis descrições de jogos de basebol.  Há também a ficção dentro da ficção: somos apresentados a criações literárias inteiras de algum Ferguson.  Não bastou nos dizer que escreveu um conto sobre sapatos.  Não.  Teve que incluir o conto inteiro, do início ao fim.  Enquanto esse aspecto me deixou de fria a irritada, na segunda leitura tive a sensação de que essas produções de Ferguson nos ajudam a entender o rapaz que se desvenda aos nossos olhos.

Qualquer senão que tive sobre 4321,  desapareceu na segunda leitura; enquanto pontos positivos se consolidaram.  É obra de grande fôlego. Fácil de ler.  A força narrativa de Auster ultrapassa até traduções.  Sua prosa, com as mais longas sentenças que lembro ter lido na literatura contemporânea americana, são um deleite para o leitor, lembram as extraordinárias narrativas europeias do século passado, quando ainda se atentava à produção da literatura com estilo e conteúdo. O tema é complexo e rico, explorando a versatilidade do ser humano.  Na segunda metade do século XIX Darwin revolucionou o pensamento ocidental quando disse “Não  é a espécie mais forte que sobrevive, nem a mais inteligente, mas a que melhor responde às mudanças.”  Paul Auster nos mostra isso através de 4321.  Muitas vezes parece que Auster está engajado num diálogo com seus predecessores, com escritores e pensamentos do passado, americanos [e aqui abro um parêntese para mencionar não só Emerson mas Henry Adams] assim como escritores europeus, de Dickens a Balzac.  Auster faz literatura com o homem comum.  Constrói seus personagens lidando com problemas corriqueiros do dia a dia.  Eles crescem aos nossos olhos, conhecemos suas sagas, tão semelhantes às nossas vitórias e derrotas cotidianas.  Assim como nós, eles selecionam, às vezes bem às vezes não tão bem, as batalhas para lutar.  Humano como o leitor, Ferguson seduz.  Nessa simplicidade de escolhas, nas batalhas vencidas e nas derrotas, torna-se universal.  Nasceu um clássico.

 

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Resenha: ” O quarto azul” de Georges Simenon

24 02 2020

 

 

Carole Rabe, (EUA, contemporânea) O quarto azul, ost, 60 x 45 cmO quarto azul

Carole Rabe, (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela,  60 x 45 cm

 

 

Georges Simenon escreveu mais de quatrocentas obras tanto em seu nome quanto sob dezoito pseudônimos. Mais de cem pertencem ao que se denomina romances duros.  Diferente dos livros em que figura o inspetor chefe da polícia francesa, Maigret, os romances duros, publicados através da vida do autor, tratam com cuidado do drama psicológico de seus personagens. O quarto azul é um deles.

Conheci os livros de Simenon ainda na adolescência, nas longas férias de verão, com mistérios e resolução de crimes.  Só recentemente dei atenção aos romances duros, através da publicação de mais de um título pela Cia das Letras. [Em francês há a publicação da obra completa dos romances duros,compilados por décadas de publicação, diversos volumes]. E me apaixonei por essa faceta de Simenon que considerava sua produção subdividida: romances policiais, como os que têm Maigret como chefe de polícia; e as obras que considerava não serem comerciais, os romances duros, onde não precisava ter um fundo moral ou atender ao gosto do público.

 

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O quarto azul trata da aventura amorosa fora do casamento de dois personagens que se encontram regularmente — oito vezes em onze meses — no quarto azul de um hotel, na pequena Triant, aldeia francesa nas redondezas de Paris.   Enquanto para Tony, naturalmente lacônico em seu diálogo com a amante, essa aventura parecia não criar raízes profundas, para Andrée as poucas palavras enunciadas pelo homem com quem acabara de ter um encontro fogoso vinham carregadas de potente significado.  Essa diferença de interpretação de uma situação fora dos parâmetros morais, acaba com surpreendente desfecho de mortes e problemas para Tony.  É  no questionamento policial de Tony que então entendemos a complexidade dos personagens envolvidos.

 

1498698218_b745cc0ad3Georges Simenon

 

Um romance com meras cento e trinta e seis páginas não deveria ser capaz de detalhar fortes emoções criando empatia pelos personagens, nem fornecer ao leitor detalhes da vida pregressa de cada elemento da trama fazendo-os tridimensionais de maneira sucinta. Aí está a arte de Georges Simenon, que não acreditava na narrativa longa, nem em frases bonitas.  Sabe-se que sua maneira de editar era retirar tudo que fosse bonito, deixando apenas o essencial.  Esta narrativa dá impacto a uma trama simples, esparsamente descrita com palavras carregadas de significado.  Gostei imensamente do livro e recomendo.  Mas não espere um mistério do gênero do Inspetor Maigret.

 

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