A dignidade na vida e na morte: “Acabadora” de Michela Murgia

20 07 2013

Pablo Picasso, A vida, 1903, Cleveland Museum

A vida, 1903

Pablo Picasso (Espanha, 1881 – 1973)

Óleo sobre tela, 196 x 129 cm

Cleveland Museum of Fine Arts, EUA

Não me surpreende que Michela Murgia tenha ganhado diversos prêmios literários na sua terra natal, a Itália, com o livro Acabadora.  Sua escrita é poética, sensível, retrata uma realidade que sabemos verdadeira apesar de parecer um sonho enevoado e o faz  com sedução, guiando o leitor pela mão, a ponderar sobre a vida, seu valor; sobre o que é bondade;  a morte,  a traição, a eutanásia e a dignidade humana.

Passado em uma pequena vila da Sardenha,  na década de 1950, o romance está centrado nas figuras de Bonaria Urrai e Maria Listru.  Maria foi adotada.  Quarta filha de uma família pobre com muitos filhos é dada à Bonaria para educá-la.  Bonaria tem uma vida dupla de costureira durante o dia e  de facilitadora da morte, para aqueles que se encontram em seus últimos momentos de vida.  Este segundo ofício é conhecido e aceito por todos os habitantes do vilarejo. Mas não é falado.  Assim Maria cresce sem saber da delicada profissão noturna de sua mãe adotiva.  Bonaria é uma boa mãe. Educa Maria em casa e na escola.  Tira-lhe o hábito dos pequenos roubos.  Incentiva-lhe a aplicação aos estudos.  Mas espera o momento apropriado para contar á Maria o que faz nas noites em que sai de casa.  Maria descobre antes de Bonaria lhe contar. Descobre  por outros,  e sentindo-se traída, quando se vê como  a única no vilarejo que não conhecia o ofício de Bonaria,  não perdoa  a velha senhora. E se afasta.  Há pelo menos dois sentimentos que Maria tem que resolver: o desgosto pelo que Bonaria faz, e a traição.

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O mais interessante dessa narrativa é que não somos levados a questionar a retidão de caráter de Bonaria.  Ela é  dura, honesta, resistente à adversidade, rígida, fiel a seus princípios morais. Conhecedora, como ninguém, dos personagens do vilarejo, Bonaria não tem dúvidas sobre a necessidade de seu ofício. E não vacila ao aplicar a sua ética.  Os vizinhos concordam em silêncio, assim como todas as outras pessoas no vilarejo. Bonaria, afinal, traz paz aos que dela necessitam.   Bonaria, no entanto é seduzida a se desviar de sua ética uma única vez, e é justamente nesse momento que Maria descobre a profissão de sua mãe de criação.

A rejeição de Maria à Bonaria é imediata.  Mas por muito tempo ficamos sem saber se esta rejeição é por se sentir traída, não sabendo tudo sobre sua mãe de criação, ou se é por rejeição completa ao ofício de Bonaria. Não importa, eventualmente,  Maria chega a uma solução que não desmerece tudo que aprendeu com a velha senhora. E faz as pazes com os parâmetros de sua existência.

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A minha reserva quanto ao livro está justamente nos capítulos em que Maria, deixando a Sardenha, consegue um emprego como babá. Não pareceram viáveis.  Foi uma maneira da autora resolver alguns conflitos internos de Maria, mas os personagens não parecem críveis, não convencem.  Pena.  Cento e sessenta páginas e um discurso poético que seduz, encanta e corta, pois obriga o leitor a ponderar sobre seu posicionamento sobre dignidade humana,  na vida e na morte. Sobre a dignidade da vida quando o ser humano sofre uma limitação física acabrunhadora.  Um belo texto.

AVISO: os comentários a esta resenha não estão abertos a qualquer discussão sobre a eutanásia, a favor ou contra, qualquer postura religiosa ou política.  Nenhum comentário será aceito que se revele portador desses assuntos.  Comentários não serão publicados ou serão removidos.





As fases da vida: “O verão sem homens” de Siri Hustvedt

17 07 2013

602px-Gustav_Klimt_020As três idades da mulher, 1905

Gustav Klimt (Áustria, 1862-1918 )

óleo sobre tela, 180 x 180 cm

Galeria Nacional de Arte Moderna, Roma

Há uma fase em que a maioria das mulheres se encontra na difícil posição de Mia Fredrickson, personagem principal em O verão sem homens: presa entre pais octogenários e filhos adolescentes ou jovens adultos, todos requerendo atenção.  Além disso,  essas mulheres precisam  gerenciar suas carreiras, lidar com as mudanças físicas da menopausa.  Dúvidas sobre a própria sensualidade pós-climatério são muitas vezes acentuadas pelo conformismo de um longo casamento, onde o parceiro já nem sempre está atento, carinhoso ou interessado.  O terreno é fértil para qualquer novelista e em grande parte, Siri Hustvedt consegue explorar bem os diversos aspectos dessa fase.

Sua estratégia foi colocar Mia Fredrickson, personagem principal do romance, poeta laureada e professora, abandonada pelo marido depois de 30 anos de casados, rodeada de mulheres nas mais diversas fases da vida, por um verão.  Para se restabelecer do choque da separação Mia aluga uma casa numa pequena cidade onde sua mãe mora num asilo para idosos e arranja um  trabalho de verão, dando aulas de poesia para um grupo de adolescentes.  Sua única amizade fora este círculo é com a vizinha, mãe de dois filhos pequenos, entre eles uma adorável menina.  Um arranjo perfeito:  todas as fases mais importantes na vida de uma mulher representadas.  Ótima idéia.  Da menina sonhadora  de poucos anos,  filha da vizinha ao grupo de adolescentes sensíveis e maldosas ;  da filha de Mia começando uma carreira artística à  vizinha, mulher m fase reprodutora, casada; da poeta já na menopausa e à mãe no final da vida, todas as fases da vida de uma mulher estão  representadas e dialogam entre si.   Como o título sugere este é um livro sem homens, ainda que muito aconteça por causa das ações dos homens vislumbrados.  Digo vislumbrados porque são representados sem profundidade, quase caricaturalmente.

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Sarcástica, mordaz no humor, Siri Hustvedt tem momentos brilhantes na narrativa.  E confesso que li ávida e com muito prazer os primeiros dois terços do livro.  Mas Mia Fredrickson não cativa como personagem.  Lá pelas tantas não me interessava mais o que aconteceria com ela.  Foi aí que percebi que muito mais importante do que uma história bem  contada, para a autora, o que  importou foram as teorias sobre o comportamento feminino nas diversas etapas da vida, examinadas com frieza intelectual.

Há momentos de grande sensibilidade e clareza, principalmente as precisas observações sobre o envelhecer.  Mas  tanto o grupo de adolescentes quanto o grupo de senhoras do asilo são caracterizadas de maneira simplista e é difícil de mantê-las separadas.  Sabemos os nomes de todas, mas seus perfis não se salientam o suficiente para se tornarem  personagens fora do grupo.  O texto é intercalado também de  muitas citações literárias.  Relevantes.  E há também diversas formas narrativas, inclusive, a de direcionar observações ao “Caro Leitor”, que nem sempre deixa o texto correr imune à interferência.  Aos poucos a Siri Hutsvedt, intelectual analítica, aparece demais, deixando de lado a voz narrativa da romancista.  Mas há, nesse pequeno livro, uma interessante descrição sobre diferenças entre os sexos, além da menção de diversos estudos científicos.  Isso, no entanto, enfraquece o impacto do texto.

SiriHustvedt-small6Siri Hutsvedt

Híbrido, nem romance,  nem ensaio.  O resultado é a combinação de uma tese sobre a condição feminina e um romance: nem um nem outro totalmente.  Se ensaio peca pela ficção e pela abundância de personagens.  Se romance peca pelo distanciamento intelectual, pelas inúmeras citações científicas e literárias. Acaba afetado e artificial, quase pretensioso.  O que o salva o texto são o humor de algumas passagens, e a série de citações de artigos científicos que suportam o texto, que é de um  feminismo, suave, de terceira geração, que se apoia nas diferenças de comportamento entre os sexos.   Apesar disso é uma história de leitura leve, perfeita para um verão na praia, com ou sem homens.





As surpreendentes aventuras de um centenário sueco

11 07 2013

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Idoso com chapéu de palha, 2012

Brad Schwede (Austrália, 1980)

Óleo

www.bradoilpainting.com

Tinha que vir da Suécia a idéia de contar a história do século XX através das aventuras de um homem que faz bombas.   Conversando com  um amigo, num encontro semanal, fui lembrada  da importância que a dinamite tem para a Suécia. O assunto veio à baila quando contava a ele a incrível aventura de ler O ancião que saiu pela janela e desapareceu, de Jonas Jonasson, escritor sueco,  ex-jornalista, cujo primeiro romance já encantou mais de 4,5 milhões de leitores de acordo com a capa do livro.  Foi aí que, de repente, ganhei uma nova  visão do livro que eu acabara de ler.  Por não ter me lembrado que Alfred B. Nobel, hoje famoso por ser  criador do Prêmio Nobel, havia feito fortuna com a invenção da dinamite, perdi a conexão óbvia do ponto de vista da história do mundo através de olhos suecos.  E por que isso seria importante para gostar ainda mais do livro?  Não é importante.  O livro é delicioso mesmo que se ignore esse fato.  Mas lembrar disso enriquece o prazer, contextualiza a narrativa que tem como subtexto  a evolução do século XX através dos olhos de quem construía bombas.

O ancião que saiu pela janela e desapareceu é escrito no tom  impassível de quem conta histórias hilariantes com a seriedade dos acontecimentos reais.   Esse tom nos induz a um sorriso largo e à expectativa a uma provável gargalhada, pois logo após as primeiras páginas percebemos que em seguida virá uma série interminável de aventuras cujo protagonista será um velhinho centenário.  Isso é feito  em dois tempos: as aventuras de Karl Karlsson no mês de maio de 2005, quando ele foge de um asilo onde uma festa para comemorar o seu centenário está prestes a começar e viaja com uma mala de cheia de dinheiro que não lhe pertence.  E em capítulos entremeados, conhecemos  a história de Karl Karlsson, especialista na fabricação de bombas, desde sua infância até o presente.  Ambas são uma corrente sem fim de aventuras, altamente improváveis, que deliciam o leitor.

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Karl Karlsson é aquele homem que parece cair de pára-quedas nas situações mais inesperadas e sair delas com uma boa dose de atrevimento e fleuma.  Acreditando que a vida é o que ela é,  Karlsson encara o imprevisível  tomando decisões simples e sagazes aplicadas de maneira impassível.  Imperturbável, Karlsson acaba sendo de grande valia para os mais importantes líderes do século XX: Truman, Churchill, Mao, Lenine, Stalin entre outros.   Ele se infiltra e contribui de maneira surpreendente até mesmo para o “Manhattan Project” durante o fabrico da primeira bomba atômica.   Mas Karlsson só participa desses numerosos eventos, que mudam o rumo da história no século XX, pelo lado do avesso, pelas coxias, nos corredores palacianos; tudo porque está sempre metido em tanta confusão que precisa sistematicamente sair de uma situação difícil que o levará ao exílio ou à prisão.  Eventualmente Karlsson se torna um poliglota que se sai bem das mais inverossímeis situações em qualquer canto do mundo.  Vivendo perpetuamente em perigo, e saindo-se inalterado graças à própria ingenuidade  Karlsson é um protótipo do anti-herói.  O equilíbrio entre sua habilidade de prover governos com soluções  que requerem sigilo, perigo e espionagem e a necessidade de fugir de um problema pessoal de grande desconforto – como a prisão – este jogo entre opostos,  faz parte da brilhante narrativa que nos leva às gargalhadas.

AVT_Jonas-Jonasson_316.pjpegJonas Jonasson

Nessas circunstâncias há dezenas de ilegalidades cometidas, prevaricação, roubo e inverdades dia sim outro também, como deve acontecer em livros de aventuras.  Quanto mais aventura maiores as mentiras, maiores as encrencas.  O humor surge justamente do contraste entre o que o anti-herói faz e a moralidade do leitor das peripécias. Se você quer se divertir nesse inverno, sente-se em lugar confortável, debaixo de manta quentinha e divirta-se com esse senhor intrépido que aos cem anos de idade, ainda gosta de uma aventura e  nada mais tem a perder.  Vale a pena é puro divertimento.





Como folhas ao léu: O silêncio das montanhas de Khaled Hosseini

17 06 2013

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Uma aldeia no Afeganistão

Jawid Altaf (Afeganistão, contemporâneo)

Óleo sobre tela

www.talents-of-afghanistan.com

Gostei mais de O silêncio das montanhas do que de O caçador de pipas.  Além do autor em comum, esses dois romances têm o Afeganistão como ponto de partida e a cultura afegã norteia ambas histórias. As semelhanças acabam aí.  Contrária à sinopse do livro, esta não é a história de dois irmãos.  Esta é a história de um deles, de Pari, a menina que aos quatro anos de idade se vê separada do irmão Abdullah, a quem ama. Para acompanhá-la seguimos as vidas daqueles que serão importantes em sua vida. Nem sempre porque a conhecem ou porque interferem diretamente no curso de seu destino.  Alguns, os conhecemos, porque apesar de parecerem distantes da trama principal, são responsáveis por ações ou decisões que indiretamente interferem na vida de Pari. Informações que inicialmente parecem extemporâneas, gratuitas mesmo, se mostram de grande valia com o passar das páginas e Khaled Hosseini nos orienta, por entre labirintos temáticos num estilo que lembra  as narrativas longas e redundantes das culturas orais, a prestar atenção ao rumo daquela que ele elegeu para nos guiar nessa trama, a menina, a jovem e depois a senhora Pari.  As histórias detalhadas, vívidas e pungentes desses personagens secundários, de suas conexões próximas ou não à nossa heroína, são  fonte de um esplêndido trabalho de contextualização, que encanta, surpreende e nos leva a ponderar sobre a influência do acaso nos nossos destinos.

Com surpreendente destreza Khaled Hosseini nos revela a beleza crua, trágica, sem polimento, da luta pela sobrevivência, da batalha que engaja todos nós, diariamente, cada qual à sua maneira, mesmo quando não a percebemos. Seus personagens são ricos em detalhes e tridimensionais.  Têm sonhos, aspirações e lutam para realizá-los na medida do possível, com as ferramentas a seu dispor, dentro das circunstâncias que lhes são impostas.  Por quê?  E por quem?  Não importa.  Como nós, eles estão ao sabor do acaso, folhas ao léu, abandonados em seus destinos, tomando as melhores decisões dentro de seus limites. Tudo nesse caso parece válido: traição, assassinato, guerra, crueldade. Como cada um sobrevive é ditado muitas vezes pela tradição e pela oportunidade.  Como manter um resquício de dignidade e aceitar o seu quinhão é a alma da sobrevivência.  É também o que os faz humanos.

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Para quem acredita que trabalho árduo e perseverança — acompanhados do bom caráter —abrem portas para o sucesso, O silêncio das montanhas será frustrante.  Nele a fortuna tem papel importante: dá rasteiras, inebria, é cruel. A vida é injusta: “Adel não era ingênuo a ponto de não saber que o mundo era basicamente um lugar injusto; bastava olhar pela janela do quarto” (pág. 234).  Não há personagens que não tenham que se submeter aos improváveis caprichos do destino: “A beleza é uma dádiva imensa e imerecida, distribuída aleatória e estupidamente” (pág. 284).  Nem mesmo o amor escapa sua interferência.  É a linda moça desfigurada por um cachorro; é o menino que descobre seu pai não ser o herói que imaginava; é a doença incurável que retira a vida prematuramente. São os amores impossíveis, as pequenas e grandes traições que trazem o inesperado a todas as vidas, a todos os seres. A sucessão de desencontros é permanente e avassaladora, e só é domada pela persistência da memória entre os que se amam. Uma memória com imperfeições, igualmente aleatória, mas que dá vida, profundidade e significado às existências. A memória aparece vital para a sobrevivência, mesmo que seus pesadelos escravizem e assombrem.

Khaled-HosseiniKhaled Hosseini

Também surpreende nesse romance a habilidade demonstrada por Hosseini para a variedade narrativa.  Ele consegue misturar diversos modos narrativos sem prejudicar a evolução da história.  Vamos da epístola à entrevista, da fábula ao diálogo contemporâneo, do passado ao presente e de volta ao passado. Uma bela colcha de retalhos tecida pela narrativa e gerenciada com desembaraço e precisão.  Especial menção também deve ser feita à tradução de Cláudio Carina, que passa suave, sem estranhamento, dando ao texto o movimento característico do bom português.

O silêncio das montanhas [And the Mountains Echoed] tem um título inspirado em um verso de William Blake, “And all the hills echoed,” [E todas as colinas fizeram eco] com a palavra ‘hill’ substituída por ‘mountain’ [montanha]. Na nossa versão, o título sugere que as montanhas testemunham o que se passa no primeiro capítulo do livro, impulsionando a ação. Impassíveis, indiferentes, elas compartilham silenciosas do passar das nossas vidas.  De fato o título parece um sumário do espírito desse romance: a indiferença da natureza à nossa sina, aos nossos desejos.






Katherine Pancol e a ficção encantada para adultos

14 02 2013

family-ties-ruben-ubiera, acrilica sobre madeira, caixas de charutos, tampas.

Laços de família, s/d

Ruben Ubiera (República Dominicana, 1975)

acrílica sobre madeira

[tampas de caixas de charutos]

www.urbanpopsoul.com

Um milhão de franceses compraram e leram, presume-se, Os olhos amarelos dos crocodilos de Katherine Pancol. Quando soube desses números pensei estarmos falando de um livro para adolescentes.  Tamanha popularidade nos dias de hoje atribui-se com frequência a esses novos leitores. Mas nesse Carnaval arrisquei sua leitura, já que me veio recomendado por uma boa amiga.  Que prazer!

Trata-se de um romance sobre gente comum, fazendo coisas comuns, tomando decisões nem sempre sábias, chegando a resultados surpreendentes.  Essas páginas retratam uma família: uma família e seus correlatos. No centro da narrativa estão duas irmãs – Joséphine e Iris —  que não poderiam ser mais opostas em temperamento,  aparência física, posição social e interesses. Conhecemos seus filhos, seus pais, seus maridos, o padrasto e outros personagens que compõem esse cosmos urbano: amigos, amantes, namorados.   É uma história contemporânea, com personagens que, se não conhecemos, poderíamos vir a conhecer, entre nossos amigos e familiares.  São professores, advogados, comerciantes, adolescentes, cabeleireiros, vendedores, todos de maior ou menor sucesso profissional e, certamente, todos à procura do bem estar, da felicidade.  Katherine Pancol consegue gerenciar um bom leque de personalidades, mostrando como se víssemos numa lâmina de microscópio, um retrato das fragilidades e solidez dos valores da classe média.  Aqui, da classe média francesa, mas cujos objetivos, preocupações e limitações são típicas de qualquer lugar do mundo.

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Mas não é só um retrato da classe média.  Não.  Nessa receita de sucesso há também alguns ingredientes quase fantásticos que nos lembram que uma boa história precisa de mocinhos e vilões, de traição e de amor.  Se analisarmos alguns segmentos poderíamos traçar paralelos com muitos contos de fadas que povoaram nossa infância e que são apreciados até hoje por todos – veja-se o exemplo dos parques de diversões, onde Cinderela e Branca de Neve são sucesso absoluto.  Não que Katherine Pancol esteja contando uma história da carochinha para adultos. Não, não é isso.  Mas nesse romance há cobiça, afronta, roubo, más intenções, injúria tudo na dosagem certa para ser eventualmente corrigido e de extrema satisfação para o leitor.

No centro da história está Joséphine, a anti-heroína por excelência. Um patinho feio.  Um rato de biblioteca. Explorada por todos.  Reticente, compreensiva demais, apagada. Indecisa, altruísta, meditativa. Mas, por quem torcemos do início ao fim.  Nossa Gata Borralheira tem uma paixão: a Idade Média, o século XII.  Sonha com as heroínas da época, com as aventuras dos cavaleiros, com as Cruzadas, com os vilarejos do reino de Aquitânia.  Sua paixão, sua fascinação intelectual, é desprezada por todos à sua volta. Incompreendida, ela quase passa a vida em brancas nuvens, soçobrando de porto em porto, das filhas ao marido, à mãe, à irmã. E no entanto, sabemos que, se há justiça nesse mundo, ela será vingada, assim como acontece com todas as heroínas dos contos clássicos do folclore europeu de onde vieram os contos de Grimm e Andersen.

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Katherine Pancol

A história de Joséphine também dá grande satisfação ao leitor – e acredito que a maioria dos leitores desse romance sejam mulheres – porque é uma história, em que diferentemente dos contos de fadas, o poder transformador, o elemento que eventualmente altera a imagem que Joséphine tem de si mesma, não lhe vem através de fadas madrinhas, mas através de seu crescimento interno, crescimento emocional e descobertas sobre sua própria habilidade de controlar as vicissitudes, os obstáculos imprevisíveis que aparecem em seu caminho. À semelhança de muitos pequenos heróis, de muitos desportistas, políticos, pessoas que chegam a um lugar de prestígio, Joséphine terá que vencer seus próprios medos, seus próprios monstros, para se tornar a mulher cujo potencial antevemos, mas que seus pares não lhe creditam. Uma ótima narrativa, deliciosa mesmo, com um ritmo maravilhoso e algumas lições de vida.  Não se pode esperar mais de um bom entretenimento; afinal um milhão de franceses não poderiam estar errados.





História contada ou romance histórico? Café Amargo de José Carlos Tórtima

5 02 2013

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Sentados à mesa, s/d

Sílvia Reali Servadei (Brasil, 1949)

óleo sobre tela, 26 x 30 cm

Geralmente quando dou três estrelas a um romance, não escrevo uma resenha  sobre ele.  Três estrelas de cinco, significa médio: é o caso do meio cheio, meio vazio, ou seja,  vai depender do leitor.  Esta leitora pode não ter visto o que outros verão.  Em geral, eu me abstenho da resenha, por não querer melindrar e por achar que talvez a falta de empatia com o autor da narrativa seja só minha.

Mas o livro Café Amargo, de José Carlos Tórtima sugeriu tantas questões a respeito do que é um romance histórico, que gostaria de reabrir um debate iniciado há dois anos, no blog, sobre literatura que tem embutida um objetivo, uma mensagem de cunho político, religioso, ou outro, em oposição à que se apresenta sobretudo como uma boa história.  Poucos são os escritores que conseguem fazer com a primeira um bom produto.  A intenção da mensagem acaba comprometendo o resultado.  Isso me leva a considerar a diferença entre o contador de causos e o romancista. Há escritores como José Carlos Tórtima que são excelentes contadores de causos.  Eles têm a habilidade de fazer um apanhado das etapas relevantes de um acontecimento histórico ou anedótico e engatá-las numa corrente que nos mostra como uma época ou um evento se desenrolou.  É nessa categoria que vejo a maior parte dos escritores de romances históricos brasileiros.

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No caso específico de Café Amargo o romance pertence à primeira categoria, à narrativa de causos com um objetivo: mostrar como se vivia na época da ditadura de Getúlio Vargas; revelar, para quem ainda não conhecia, os meios de ação da polícia de Filinto Müller;  lembrar como a política era personalizada e trazer à baila a conhecida obsessão de Vargas pela vedete Virginia Lane [aqui dignamente escondida sob pseudônimo].  Ficam claras, ao longo da história, as conseqüências colhidas por aqueles que contrariavam os desejos do ditador.  É uma época riquíssima de mandos e desmandos, um período complexo da história brasileira, com muitos causos para serem contados e tecidos em romance.  Pouco explorada pelos escritores, talvez porque nem todos queiram relembrar ou trazer à tona os desmandos dessa ditadura este parece ser o momento perfeito para se  retirar os véus de um regime que é visto até hoje com dubiedade,  por se apresentar também como “protetor do trabalhador”.  Essa “boa-vontade” brasileira com o poder autoritário encontra abrigo no silêncio de escritores e intelectuais que frequentemente simpatizam com a militância de esquerda, que insiste em fechar os olhos aos desmandos da era Vargas.

Sou grande apreciadora de romances históricos, de época. São um meio maravilhoso de nos apossarmos da pesquisa dos outros, de absorvê-la e com ela colorir os nossos conhecimentos de história.  Vemos o passado pelos olhos do escritor que o estudou, que se dedicou a levantar dados. E nos enriquecemos.  O que vejo em Café Amargo e, deixe-me deixar claro em muitos romances históricos brasileiros, é uma maneira de ver os eventos e personagens da História como centro da narrativa.  Como se os eventos por si só bastassem, fossem de interesse. O resultado prejudica  o desenvolvimento de uma trama mais densa, de maior peso.  Essa atenção ao evento histórico simplifica  os personagens, tornando-os tão leves quanto papel. Mesmo nesse romance, onde abundam detalhes periféricos, detalhes precisos, endereços, números de linhas de transportes públicos,  esquinas do centro da cidade, até novelas de rádio mais populares, o ambiente criado não é suficiente para dar densidade, força ao romance.  Esses detalhes não criam um ambiente que os personagens habitem com credibilidade, que ajam com suas características únicas. Falta-lhes tridimensionalidade, emoções que nos seduzam.  A leitura é fria. Não me importei com o que iria acontecer, mas segui em frente, porque a prosa é boa, flui.  Mas não cativa.  Era como ouvir uma história num fim de tarde, o que aconteceu com meu amigo na rua, no ônibus.  O relato de um evento.  Faltaram tramas, subtramas, intrigas, emoções escondidas e outra desvendadas pelas ações dos personagens.  Faltou conspiração. Onde estão os personagens feitos de carne e osso, com defeitos e qualidades, com emoções e desconexões?  Faltou vida.

jose-carlos-tortimaJosé Carlos Tórtima

Não quero desencorajar o escritor.  Muito pelo contrário.  Gostaria de ver o romance histórico no Brasil mais comum e mais sofisticado.  A leitura de romances históricos de outras terras nos dá algumas dicas.  Criar um personagem menor que testemunhe os eventos é uma das soluções encontradas por Bernard Cornwell, por exemplo com Richard Sharp,soldado inglês  nas  guerras napoleônicas.  Philippa Gregory no livro  Earthly Joys * (não traduzido) concentra sua atenção num personagem histórico de menor importância, um jardineiro, John Tradescant,  viajante, um homem comum, com quem os leitores conseguem se identificar, que agindo dentro da sua limitada esfera de influência, nos oferece  uma rica visão da Inglaterra do século XVII.  Arnau Estanyol  também é um personagem fictício que nos ensina sobre a dura realidade da vida em Barcelona da Idade Média, na época da construção da Catedral do Mar. Ele foi criado por Ildefonso Falcones, que assim como José Carlos Tórtima deixou a vida de advogado para a de romancista.  Existem inúmeros exemplos de densidade de trama em romances históricos, onde personagens fictícios conseguem nos seduzir e nos fazer entender os porquês de certos acontecimentos.   Acredito que José Carlos Tórtima, com sua extensa experiência de advogado criminalista, esteja corretíssimo nos detalhes de tudo que relata no romance.  E isso já é mais do que meio caminho andado.   Agora, gostaria de vê-lo desenvolver o que aprendeu nas cortes brasileiras sobre as vicissitudes humanas e explorar essas emoções para nos presentear com um ou mais romances históricos do calibre que merecemos ter.

* Agradeço à leitora Tereza pela sugestão de que o título dessa publicação havia sido traduzido como Terra Virgem. Mas Terra Virgem é a tradução de Wide Acre, e não de Earthly Joys.




O intocável, de John Banville: retrato do homem, do espião e de uma era.

3 02 2013

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O espião que sabia demais [Tinker Taylor Soldier Spy]

Nop Briex (Holanda, 1965)

óleo sobre tela

www.briex.eu

Há muito eu tinha curiosidade sobre o duplo espião britânico, Anthony Blunt.  Conheci-o como historiador da arte especializado na pintura européia do século XVIII; diretor de um dos mais sérios centros de pesquisa da arte, Courtauld Institute of Art.  Mas antes mesmo de eu me formar em história da arte, o escândalo no qual ele  foi figura central — agente duplo do serviço secreto britânico MI5  para a Inglaterra e agente para a União Soviética dos anos 30 ao início dos anos 50, membro do chamado  Cinco de Cambridge [Cambridge Five]  ainda era debatido e questionado.  Nada poderia ter surpreendido mais o mundo dos museus e da pesquisa acadêmica do que a descoberta de que o pacato mundo das bibliotecas e dos porões de museus poderiam ter servido de disfarce para tal profissão.  A partir de 1979 Anthony Blunt passou a ter uma nuvem de mistério a sua volta.  Como?  Porque?   Não que a vida particular de qualquer historiador de arte seja de interesse público mas espionagem era algo completamente fora da norma. E vez por outra, na atividade comum de perda de tempo à volta de uma mesa de bar, nós, estudantes de pós-graduação tentávamos  imaginar como uma pessoa de tamanho porte acadêmico,  tão chegada à Rainha da Inglaterra, poderia ter se imiscuído na espionagem e contra-espionagem?

John Banville responde a todas essas questões e a muitas outras nesse romance biográfico  baseado na vida de Anthony Blunt, retratado sob o pseudônimo de Victor Maskell.   Fazem parte do enredo também  Guy Burgess e Donald Maclean, (todos com pseudônimos) do grupo ‘Espiões de Cambridge’.   Banville preenche lacunas e satisfaz nossas dúvidas.  Este é o estudo profundo de uma personalidade.  Talvez um dos personagens mais tridimensionais  da literatura atual.  É  vívido. Parece real.  A história é sedutora  e Banville nunca deixa de entreter e acima de tudo de mostrar a pessoa complexa e coerente do homem e do espião,  dentro dos parâmetros sociais e de época.

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Mas, parafraseando Tom Jobim, “A Inglaterra não é para principiantes”.  Para uma compreensão mais apurada do texto,  um bom conhecimento das nuances da sociedade inglesa certamente ajudará na leitura; uma boa dose da história do enlace das classes altas inglesas com a política nazista, também.  Por fim, um conhecimento superficial, mas coerente do estoicismo e da posição ética de Sêneca podem ajudar a entender a percepção que Banville tem de Blunt.  Será interessante lembrar também os preconceitos da sociedade, numa época anterior à Segunda Guerra Mundial –  homossexualismo, conflito de classes, a questão irlandesa — tudo isso  adicionará uma pitada de interesse.   E o mundo da década de 30 estava enamorado do socialismo,  ato que justificou ditaduras de direita e de esquerda do período:  Itália (Mussolini), Espanha (Franco),Portugal ( Salazar),  Nicarágua (Somoza), Brasil (Vargas), Grécia (Metaxas), Cuba (Batista), Rússia (Stalin), sem mencionar a Alemanha de Hitler. Fica evidente através do texto que  Anthony Blunt não se sentia parte nem da sociedade inglesa, nem de nenhuma outra.  Era um verdadeiro estranho no ninho: irlandês, pobre mas com nome de família – primo distante da rainha — , homossexual, com acesso ilimitado à corte – não é de surpreender, portanto, seu solipsismo, sua visão única do mundo como uma projeção de suas próprias fantasias.  A tendência seria desgostar dessa personalidade dúbia, inconseqüente, com uma atitude tão blasé em  relação à vida, como Anthony Blunt é retratado.  Mas, pelo contrário, talvez porque a narrativa seja na primeira pessoa, talvez porque estamos rodeados dos detalhes que fazem o personagem crível,  ficamos com a justa dimensão de um homem de grande conhecimento. John Banville não o retrata menor do que era.

John_BanvilleJohn Banville

No entanto, há sempre, e aí está parte do charme deste romance de suspense, a dúvida: será que Victor Maskell está nos dizendo tudo o que sabe?  Há algum motivo para acreditarmos na realidade que ele nos descreve?  Espião, agente duplamente inconfiável, Victor Maskell [será que o nome vem de Mask, máscara?] é o anti-herói por excelência, figura trágica, cuja vida é passada em pequenos compartimentos e se equilibra, desde os primeiros dias da juventude entre mostrar e viver o que não é: da vida de espionagem à vida sexual.

Como um mestre John Banville também brinca com o leitor ao desenvolver como tema o amor que Maskell tem por um quadro de Poussin:  A Morte de Sêneca [fictício]. E dúvidas quanto  à  sua autenticação só intensificam o eco das perguntas que fazemos sobre a narrativa, é verdadeira ou falsa?  O pintor francês do século XVII Nicolas Poussin foi de fato objeto de estudo de Anthony Blunt como historiador da arte. Mas, a presença de um quadro inexistente, cuja autenticação depende de Maskell é um paralelo magistral ao jogo de espelhos que a vida do espião reflete. Victor Maskell assim como Anthony Blunt, têm o fim que merecem: são traídos.  Um pouco de justiça poética arrematando uma vida de fantasias.





O livro das horas de Nélida Piñon

17 01 2013

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Iluminura da Cidade das Mulheres, de Catarina de Pisano, século XV

Mestre da Cidade das Mulheres (Ativo em Paris entre 1400-1415)

Pintura sobre pergaminho, 12 x 18 cm

Biblioteca Nacional da França, Paris

Tradicionalmente o Livro de Horas era um pequeno livro, manuscrito, contendo salmos e orações, para a pessoa comum usar como guia dos rituais religiosos. Foram populares na Idade Média, a maioria aparecendo entre os séculos XIV e XVI.  Tinham, por vezes,  divisões das horas canônicas,  para que seus portadores mantivessem as orações necessárias na hora certa. Podiam conter também os meses ou as estações do ano com lembranças das festividades do ano cristão. O Livro de Horas  era composto de pequenos textos pois era  um guia para  reflexão,  para a meditação religiosa.  Era carregado facilmente em bolsas ou bolsos;  poderia ou não ser ilustrado com pinturas à mão, chamadas iluminuras, mais ou menos ricas dependendo da fortuna de seus portadores.  Porque eram  objetos próprios, especificamente feitos para um só dono, diferenciavam-se, cada qual  adaptado  ao gosto de quem o encomendara.

A descrição acima não se aplica ao livro de Nélida Piñon a não ser na forma e no espírito:  ponderações oportunas, ritmadas.  Meditações variadas.  Seu livro tampouco se mostra afiliado aos poemas de amor divino enunciados no volume poético de Rainer Maria Rilke, titulado Livro das Horas, publicado em 1905.   O que todos têm em comum é o convite à reflexão, a voz introspectiva, o tom meditativo.  Este é um livro pessoal, íntimo, mesmo que essa intimidade seja filtrada e dosada.  Dona de uma das mais fortes vozes narrativas da literatura brasileira, Nélida Piñon pode ser considerada acima de tudo a escritora da palavra certa, mestra  do uso do “mot juste”.

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Engana-se quem imagina perceber nessas reflexões sobre o cotidiano, sobre viagens e leituras,  memórias reveladoras dos pensamentos mais íntimos, das alegrias e tristezas de sua autora.  Muito pelo contrário, vislumbramos sim, uma pessoa carinhosa para com seu cachorrinho de estimação, Gravetinho; uma pessoa  cuja mente associa no perscrutar diário, segmentos de leituras do passado temperadas ao gosto da gastronomia galega.  Mas são passos cuidadosos de revelação, passos que avançam o conhecimento que temos da escritora, mas que simultaneamente nos aguçam a curiosidade sobre suas opiniões, sobre suas ‘verdadeiras’ opiniões.  A aparente facilidade com que Nélida Piñon pode deslizar da leitura da manchete de jornal a considerações  sobre o teatro clássico grego; quando consegue se imaginar dialogando com a boneca Emília do Sítio do Picapau Amarelo,  passear pelo velho centro do Rio de Janeiro e acabar com os olhos pousados nas águas da lagoa Rodrigo de Freitas, só demonstra sua extraordinária habilidade de cinzelar o texto, de abreviar as pausas e mostrar só, unicamente aquilo que se permite revelar.  Mas os véus encobrindo a pessoa continuam a ser tão eficazes quanto a roupa de Salomé antes do espetáculo diante de São João Batista. O que descobrimos  não é a autora, mas sua persona.

Memórias, todos sabemos, são tão grande ficção quanto um bom romance detetivesco.  Lembramo-nos do mundo como o desejaríamos que tivesse sido, às vezes para justificar certas ações, outras para nos apresentarmos pelo melhor ângulo. Recontamos só aquilo a que nos permitimos.  O mesmo se dá nessa publicação, nesse livro de reflexões.   O presente que Nélida Piñon nos entrega, no entanto, nessa coletânea encantadora  de meditações enfileiradas como contas de um rosário, é a habilidade de imaginarmo-nos em sua companhia, em  conversa sem hora para terminar; saltando de um canto ao outro do mundo; peregrinando pela Ibéria com a escritora a nos servir de guia.  O tom é íntimo.  Suave.  Meia-voz.  E com ela escorregamos de um assunto ao outro, às vezes surpresos pelo convívio que revela ter com amigos, por um leve misticismo quase gitano, talvez herdado dos ancestrais espanhóis e alimentado nas raízes brasileiras. O que descobrimos é uma mulher com um interior rico, lúdico e letrado. Só. Imensamente só.

Nélida Piñon, close

Nélida Piñon

A leitura de Livro das Horas é um presente. Deixou-me com curiosidade ainda maior pela autora, que já participava do meu panteão de sacerdotes da nossa literatura.  Percorri a rede à cata de entrevistas, queria ouvir sua voz para finalmente casá-la com os textos que perscrutava. É impossível ler-se essa publicação de uma ou duas sentadas.  Ela exige reflexão e os cinco ou seis parágrafos de cada etapa são suficientes para levar-nos, cheios de ponderações, ao dia seguinte, à noite seguinte.  Sherazade, é quem me vem à memória.  Tal é o encantamento do texto que me fez alongar a leitura por quase um mês, tomando-a a conta gotas, prolongando sua vida ao meu lado, como fez  o rei Sheriar.  Foi um prazer!





A máquina de fazer espanhóis: música aos meus ouvidos

7 01 2013

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Lendo a Ilha do Tesouro, 2010

Ellen Brown (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela,  56 x 71 cm

www.ellencbrown.com

Dois preconceitos acabaram por retardar a minha leitura de A máquina de fazer espanhóis de Valter Hugo Mãe. O primeiro preconceito tem a ver com a falta de letras maiúsculas, uma complicação textual que continuo a achar desnecessária e um tanto marqueteira.  Depois de ver uma entrevista com o autor, na época em que ele veio à FLIP, fiquei convencida de que era isso mesmo que se passava, e deixei o livro de lado. [Folgo em saber que Valter Hugo Mãe já deixou de lado este pequeno e esdrúxulo requisito para suas obras].   O outro preconceito é mais sutil e não menos importante: não me afino muito com leituras cujas narrativas pendem para fluxo de consciência.  Sim, sim, sei que grandes obras da literatura moderna usam desse artífice para narrar, mas é uma questão de escolha pessoal minha, de afinidade.

Dito isso, venho reconhecer que A máquina de fazer espanhóis, que ganhou o prêmio José Saramago, em 2007, é um dos textos mais criativos com que me deparei nos últimos anos.  Ostensivamente o assunto que provoca as ponderações — sobre a vida, o país, a história, o Benfica, futebol, maneira de viver e de morrer e todos os demais questionamentos do dia a dia da vida de qualquer cabeça pensante —  é trazido para a arena de debate interno, do pensamento analítico, por um senhor de oitenta e tantos anos que acaba de ser internado  num asilo para idosos. São poucos os livros que conheço que abordam o assunto da velhice, da memória, da decrepitude, com tanta energia, simpatia e realismo.  Bernice Rubens, autora de um excelente romance sobre o tema — The Waiting Game–  com o qual ganhou o Booker Prize em 1993, tem em comum com Valter Hugo Mãe o fino senso de humor.  Já Leite Derramado, de Chico Buarque , que ganhou o prêmio Jabuti de 2010, que se desenvolve a partir de um tema semelhante, não consegue, a meu ver, narrativa tão sensível e emotiva quanto Valter Hugo Mãe atinge nos seus momentos mais poéticos.

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A máquina de fazer espanhóis se impõe então no universo literário lusófono como uma bela homenagem aos nossos anciãos, onde a tão conhecida melancolia portuguesa é combinada de forma sutil e inesperada com uma boa dose de humor e de realismo. Valter Hugo Mãe  alerta que nem todos os velhos são iguais. E mostra como todos são tratados como se fossem iguais, como crianças.  Nosso mundo vê os velhos como tendo um pouco de poetas, de loucos, de fantasiosos, de irresponsáveis.  A sociedade, a família, os profissionais de assistência social, enfermeiros, todos os tratam como se a caduquice fosse generalizada e talvez até contagiante.  Com essa narrativa somos requisitados a pensar nos velhos que conhecemos: pais, mães, avós, tios.  E temos que admitir que também nos comportamos de maneira análoga. Quantas vezes não nos pegamos em conversa jogada fora, na hora do cafezinho, dizendo que fulano que passou dos 80 ainda está bem, ainda pega ônibus, ainda toma conta de suas contas bancárias, ainda vota.  Como se o normal fosse o contrário; como se a decrepitude se estabelecesse inevitavelmente em todos, a partir de uma certa data.

Surpreendente é a forma poética de apresentar as diferenças entre uns e outros no asilo.  Às vezes é a ternura  que embala certas situações:  “a dona glória do linho parecia um ser delicado, toda candura e menina. tinha uma pouca experiência do amor e não aguentava a timidez de estar a ser cortejada por um garboso doutor em arte antiga. a dona glória do linho tinha estado no quarto do anísio dos olhos de luz e apequenara-se entre as estátuas importantes e bem pintadas que ele guardava. achava ela que estava dentro de um pedaço de museu, assim preciosa e maior do que o tempo de uma vida, porque era um pedaço de coisas que tinham de ficar para sempre como património de toda gente, mais preciosas do que toda gente.”

Surpreendente também é a crítica quando presenciamos a irreverência de quem não tem mais nada a perder: “ser religioso é desenvolver uma mariquice no espírito. um medo pelo que não se vê, como ter medo do escuro porque o bicho-papão pode estar à espreita para nos puxar os cabelos. esperar por deus é como esperar pelo peter pan e querer que traga a fada sininho com a sua minisaia erótica tão desadequada à ingenuidade das crianças.

valter hugo mãeValter Hugo Mãe

O jogo entre a lucidez e a fantasia permite que Valter Hugo Mãe se embrenhe por referências políticas, pelos problemas do Portugal moderno, membro da Comunidade Europeia, sem que seu livro se torne um cansativo tratado sócio político.  Pelo contrário, ele ilustra e relata fatos sem radicalismos nem pieguices  doutrinárias.  Seus velhinhos de asilo são ricos de características ímpares que num pulo da imaginação podem se tornar elementos para uma leitura mais alegórica do momento sócio-econômico pelo qual o país passa.  Mas em toda a narrativa o que mais me emocionou foi a língua.  Foi o português, o brincar com as palavras, foram os sons das palavras, a maneira de escrever como se fala, como ouvimos, como a gente da rua se expressa, cheia de poesia embutida nas sílabas cantadas.  Este sim foi, acima de tudo, o meu maior prazer nessa leitura.  Prazer que me fez parar e repetir parágrafos, marcar trechos, ler em voz alta. Mesmo com meu sotaque brasileiro o português cantou com Valter Hugo Mãe. Sim, com ele, a língua canta.





Nihonjin, de Oscar Nakasato: o jardim zen da literatura brasileira

22 12 2012

FUKUDA, Roberto Kenji (SP 1943) Abstrato - Óleo s tela 50 x 50 cm. ass. inf. direito

Sem título

Roberto Kenji Fukuda (Brasil, 1943)

óleo sobre tela, 50 x 50 cm

Coleção Particular

Há alguns anos, amigos meus nos Estado Unidos, transformaram seu quintal, em um jardim de pedras, um Karesansui, um jardim zen.  Com eles aprendi, naquela época, alguns truques de paisagismo oriental que permitem a impressão de grande espaço em uma pequena área, quer por meio de telas, quer por caminhos em passeios sinuosos que levam a cantos raramente explorados do terreno ou que passam sobre um pequeno  lago com carpas. O Karesansui, no entanto, permite distanciamento e  mais do que isso: uma inimaginável sensação de paz e tranqüilidade, mesmo que sua localização esteja no meio da cidade. O minimalismo das pedras, do cascalho, da água fazem-no um jardim reservado unicamente aos elementos essenciais e parece levar à introspecção e à descoberta daquilo que nos é vital.  Karesansui é um jardim que favorece a meditação.  A leitura de Nihonjin me lembrou este jardim.  Há na sua narrativa, que cobre três gerações de japoneses e seus descendentes no Brasil, um arranjo artístico igualmente sensível que faz com que suas 176 páginas sejam suficientes para o retrato da complexidade emocional, da dificuldade física e cultural de adaptação dos imigrantes japoneses que chegaram a este país.

Ainda não visitei o Japão, em pessoa.  A literatura japonesa tem aos poucos encontrado seu lugar nas minhas prateleiras de livros favoritos, enquanto suas famosas xilogravuras policromadas foram objeto de estudo e admiração nas artes visuais. Por causa delas e dos netsuquês, botões de roupa esculpidos com grande detalhe, estudei um ano de japonês. Mas a complexidade da língua e das formas de tratamento me deixaram perplexa e logo abandonei o aprendizado, estudando em seu lugar um pouco de hindu, língua igualmente complexa e frustrante. Foram  assim os meus vinte anos, tempos de expansão cultural, onde  estudante em terra alheia, uma quase imigrante, tentei alargar meus horizontes e, com afinco, me embrenhar pelos caminhos do outro.  Essa atividade não acompanhou a maioria dos imigrantes japoneses no Brasil, como bem mostra Oscar Nakasato em Nihonjin. O outro, nesse caso nós, brasileiros, era exatamente isso: OUTRO.  E assim ficaria até que voltassem à terra do sol nascente.

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A temática do imigrante é um dos mais importantes tópicos literários dos últimos 100 anos.  Sobretudo a partir de meados do século XX quando a geração dos filhos ou netos de imigrantes que se estabeleceram na Europa, EUA e Brasil, entre outros, é escolarizada e começa a desvendar os caminhos traçados pelas gerações que os antecederam. Muito tem sido escrito sobre a questão da  adaptação e do forjar de uma nova identidade para o imigrante. O movimento  voluntário, de massas,  de milhares de pessoas de um canto para o outro do mundo procurando melhoria de vida, quer na Europa —  mãe de dezenas de países recém delimitados na África e do Oriente Médio —  quer nas Américas, recipientes de milhares de trabalhadores braçais da Itália, Alemanha, Irlanda, Suiça, Espanha, Portugal, Rússia, Polônia, nunca havia sido tão persistente e grande através da história da humanidade.  Seu clímax parece ter sido nos anos que seguiram imediatamente a Segunda Guerra Mundial, ainda que tenha havido fuga numerosa também, nas décadas seguintes,  daqueles que  não aceitavam a ditadura comunista nos países da antiga Cortina de Ferro.

Mas o caso japonês no Brasil, que hoje tem o maior grupo de pessoas de ascendência japonesa no mundo fora do Japão, é único. Único porque foi o resultado de uma ostensiva política de desafogamento populacional daquele país.  Os primeiros contatos diplomáticos entre os governos do Brasil e do Japão sobre esse assunto datam de 1892, ou seja, do governo de Floriano Peixoto. Por causa da maneira como lhes foi mostrada, a emigração japonesa, para  cá, trouxe cidadãos que se sentiam cumprindo um plano estratégico de seu Imperador e, por consequência,  mais do que outros imigrantes sentiam que precisavam voltar com dinheiro, para benefício da própria Terra Mater. Desse modo, mesmo em se deixando de lado diferenças marcantes,  e importantes como dignidade cultural e responsabilidade social, que a maioria sentia em relação à terra mãe, a situação psicológica dos imigrantes japoneses, diferia substancialmente  das demais nacionalidades que por aqui aportaram, cujos membros, partiam por conta própria, aventurando-se sozinhos,  como se ao léu, a caminho do desconhecido, na luta pela sobrevivência, na esperança de uma vida melhor, muitas vezes com fome, sofrendo perseguição política ou religiosa. Diferente dos japoneses, esses imigrantes não sentiam uma dívida de honra com o país de origem, ao contrário, estavam gratos por uma terra para trabalhar, uma oportunidade de criar raízes, constituir família sem perseguições políticas ou religiosas, num lugar de natureza abundante, gerador de maior dignidade de vida.

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Oscar Nakasato

Nihonjin não é uma obra unicamente focada na vida dos colonos japoneses por aqui, ainda que precise ser contada. É verdade que na leitura desse romance aprendemos  muito sobre o assunto. Mas o romance é mais do que isso. Nele  testemunhamos a estética do ”menos é mais” aplicada  a um texto literário de forma confiante.  A linguagem precisa, repleta de vestígios poéticos, torna o texto  fluido e a história corre como água de riacho, num murmurejar incessante. Seu tom é a meia voz e a narrativa, que é simples, despojada de rebuscadas figuras de linguagem, torna o texto relaxante e hipnótico. Como num Karesansui somos convidados a refletir, a ponderar sobre os vagares da mente, sobre o enigma das emoções.  Mais tarde, somos levados a reconsiderar o tempo e a memória. Oscar Nakasato é um minimalista da linguagem. E com isso inova a estética literária brasileira.  Não há personagens a mais ou a menos, assim como palavras, frases ou histórias.  Não é jornalístico.  Não é anedótico. Detém-se no essencial.  Ninhojim não chega a ser um haikai da forma narrativa, mas está perto: sucinto, poético, reflexivo. Mínimo.  Uma beleza!