Resenha: “O sentido de um fim”, Julian Barnes

6 09 2015

 

 

Anthony Morris (Grã-Bretanha, 1938) Retrato de Roger 1999Retrato de Roger

Anthony Morris, RP (Grã-Bretanha, 1938)

óleo sobre tela

 

 

 

Recentemente tive uma discussão acalorada com meu irmão sobre a lembrança de um evento da nossa infância. Cada um de nós, únicos protagonistas da aventura, se lembrava de coisas diferentes e em diferente ordem. Mais revelador ainda: cada qual só tinha a memória daquilo mais significativo para si mesmo. Guardamos para o futuro, para o nosso banco de memórias, para o perfil do nosso passado, só o momento de nosso próprio ato de bravura. Os dois haviam sido corajosos, individualmente, mas uma única lembrança, pessoal, individual, em que fomos heróis, se manteve.  Não chegando a um acordo, partimos frustrados, como se tivéssemos sido traídos pelo outro. Aí estava uma prova, para mim, historiadora, que de fato a reconstituição do passado é sempre ficcionalizada de acordo com o narrador. Faz parte do dia a dia, de quem se dedica à história, considerar que memórias são seletivas.  Julian Barnes adverte o leitor sobre esse fenômeno desde o início da narrativa, através de Adrian, um adolescente precoce em conversa com seu professor: “Esse é um dos principais problemas da história, não é senhor? A questão da interpretação subjetiva versus a interpretação objetiva, o fato de que nós precisamos conhecer a história do historiador, a fim de entender a versão que é colocada diante de nós.” [18]

O sentido de um fim, de Julian Barnes, trata diretamente da memória e da narrativa que damos às nossas vidas.  Trata da maneira sucinta e por vezes poética com que narramos nossas próprias lembranças; reeditando-as com a a passagem do tempo.  Julian Barnes também trata de maneira sucinta e poética o tema,  revelando a enorme dimensão do que pode existir por trás dos detalhes que escolhemos lembrar, dos fatos que obliteramos, e como a cada narrativa podemos encontrar uma nova interpretação.   Esta é uma obra magistral.  Pequena, enxuta, prova de que conteúdo não precisa ser copioso para ter impacto.

 

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Inicialmente O sentido de um fim parece estar contido nos preparativos a que, aos sessenta anos, Tony Webster, protagonista e narrador, se dedica ao colocar a vida em ordem para um futuro incerto.  Mas à medida que se recorda do passado e conclui que não realizara nada do que sonhara, é forçado a reconsiderar o que havia feito de sua própria vida, de seu casamento. Fora nada mais do que a vida de um homem comum. Tem vívidas recordações de sua adolescência e dos amigos de então. Lembra-se de sua primeira namorada e dos hábitos diferentes de relacionamentos  na época de sua juventude.  Esse início, a primeira parte da história, marca o tom de meditação que permeia a narrativa: uma longa ponderação sobre as expectativas que temos sobre o futuro, e sobre o comportamento humano.

As lembranças, cada qual acessada a partir de um gatilho diferente parecem sempre surpreendentes. Tudo é próximo da realidade e enigmático.  Revisto dezenas de vezes e sempre novo.  Como num processo de psicanálise ou inquérito policial, a cada recontagem, a cada rearrumação de fatos, uma lembrança resgatada, uma revelação, nem tão clara, nem tão nebulosa, mas presente.  A verdade?  Está em algum lugar e não chega a ser mencionada.

O título O sentido de um fim toma conotações inesperadas, imprevistas.   Muito mais do que estabelecer ordem em uma vida que se prepara para o fim, essa trama nos leva a questionar a veracidade das nossas certezas.  Somos, afinal, quem pensamos ser?

 

julian barnes, booker 2011Julian Barnes, ©AP Photo/Kathy Willens

 

De repente, a história singela, franca, desafetada, que prendeu nossa atenção até o final, levanta dúvidas. Sérias.  Não sobre si mesma. Mas ela interage conosco. Questiona.  No mesmo tom meditativo da narrativa, embarcamos numa ponderação a respeito do passado.  Rever a ficção das nossas vidas, não é fácil. Saberemos catar nos rincões da memória o que é verdade?  Separá-la, mesmo não conhecendo todos os fatos?  Sim, porque é isso o que somos, um conglomerado de ficções e alguns fatos aos quais damos a nossa identidade, não é mesmo?  Tony Webster, adolescente, não percebe a ficção do dia a dia. “Esse era outro de nossos temores: que a Vida não fosse igual à Literatura” [21]. Mas é.  A vida é igual à literatura.  Somos protagonistas da história que desenvolvemos, editamos, burilamos. Eliminamos fatos indesejados, colorimos a gosto. E em algum lugar, em algum ponto, essa fantasia toma uma vida própria, ambulante e acreditamos nela. Só mesmo um acontecimento inesperado, um evento de grandes proporções — como acontece em O sentido de um fim —  pode  desvendar a proporção de realidade que escolhemos esconder dos outros e de nós mesmos. Mas mesmo assim, não revelará tudo. Só o suficiente para o entendimento geral de uma determinada situação.

O sentido de um fim é uma joia, uma obra prima.

 

 

NOTA: Com este livro Julian Barnes ganhou o Booker Prize de 2011.





Resenha: “O corpo humano” de Paolo Giordano

31 08 2015

 

foglian7Barracas de soldados, c.1330

[DETALHE]

Retrato Equestre de Guidoriccio da Fogliano

Simone Martini (Siena, 1280 a 1285 — 1344)

Afresco, 340 x 960 cm

Palazzo Publico, Siena, Itália

 

 

Com um título que mais lembra compêndios científicos para a sala de aula, O corpo humano de início não me atraiu. Mas vinha assinado por Paolo Giordano, autor de um dos mais sensíveis livros que li em 2010, A solidão dos números primos. Além disso, aprendi, há algum tempo, a desconfiar de segundos livros de autores cujas primeiras publicações achei espetaculares. Em geral, as segundas tentativas desapontam. Por isso posterguei a leitura. Mas felizmente meus medos não se realizaram dessa vez. Pelo contrário, Paolo Giordano consegue mais uma vez, abordar temas que invadem o nosso dia a dia, de uma maneira sensível, e por um ângulo inusitado.

Sim, esse é um livro de guerra. Guerra no Afeganistão. Mas não se trata do exército americano, como a situação poderia nos levar a crer. Trata-se de soldados italianos que fazem parte dos esforços da OTAN naquele país. E em lugar da narrativa se concentrar na guerra, ela nos mostra o dia a dia de um grupo de soldados, e não só acompanha os homens desde antes da guerra, como lá, no estrangeiro, em local minado por perigo. Somos expostos aos dilemas diários desses homens, jovens, sem muita experiência, como se comportam e se exasperam, o que os limita física e emocionalmente. Daí, o corpo humano, essa máquina orgânica que nos prende, limita, nos trai e suporta.

 

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Paolo Giordano surpreende mais uma vez por conseguir retratar a angústia pessoal de cada um de seus personagens, cada qual com seu problema íntimo — aqui, neste livro, problemas deixados para trás nos vilarejos ou cidades de onde vieram — com sensibilidade e distanciamento. Isso permite o leitor de se interessar pelo que pode acontecer a cada um, com o que parece ser um envolvimento mínimo. No entanto, quando finalmente um evento muda radicalmente a perspectiva dos soldados, é um choque perceber o quanto nos envolvemos com cada um deles e o quanto sabemos de seus desejo e frustrações e o fervor com que torcemos para que cada consiga ultrapassar os obstáculos físicos e emocionais.

 

 

Paolo GiordanoPaolo Giordano ©Niko Giovanni Coniglio

 

Não considero O corpo humano um livro de guerra nos moldes tradicionais. Ele é um livro sobre o ser humano, seus desejos, sonhos, experiências, necessidades, desilusões, decepções: emocionais e físicas. Ele nos mostra como ou porque chegamos a atos de audácia, fazemos juízo, nos mostramos corajosos, decididos e firmes. E ele nos mostra a chama, o piloto de energia que, no âmago, se incendeia quando cada um de nós age, decide, se droga, se perde, se desintegra, se constrói. Por isso mesmo Paolo Giordano passa a ser para mim, um dos autores que melhor se dedica ao entendimento do ser humano.

 

Recomendo a todos, amantes ou não dos livros de guerra

 

foglian2Retrato Equestre de Guidoriccio da Fogliano, c. 1330
Simone Martini (Siena, 1280 a 1285 — 1344)
Afresco, 340 x 960 cm
Palazzo Pubblico, Siena, Itália




Tradução literária desleixada: “Antes da festa” de Saša Stanišić

21 08 2015

 

 

Marie Louise Catherine Breslau, (Alemanha 1856-1927) Chá das cinco, 1883, Museu de Arte de BernaContra luz, 1888

Marie Louise Catherine Breslau (Alemanha, 1856-1927)

óleo sobre tela

Museu de Arte de Berna

 

 

 

A língua alemã não é uma língua exótica.  Noventa e cinco milhões de pessoas no mundo têm o alemão como língua materna. São pessoas letradas e escolarizadas. Além disso, o alemão é lido e compreendido por outras pessoas, muitas delas nas humanidades e nas ciências, que precisam usá-la profissionalmente como segunda língua.  É uma língua em que grandes escritores se revelaram: Goethe, Schiller, Hesse, Grimm, Günter Grass, Rilke, entre outros. Há centenas de dicionários em alemão, sobre o alemão, do alemão para outras línguas. Portanto, traduzir um romance ou um conto, um ensaio filosófico, deveria apresentar simplesmente, ou somente, os problemas normais de uma tradução: uma ou outra dificuldade de se achar equivalência de uma expressão típica, de algum conceito alheio ao leitor em português.  Isso não aconteceu com o romance que escolhi para leitura nesta semana.

Estou pasma com a má qualidade da leitura por causa de problemas  na tradução de Marcelo Backes do livro de Saša Stanišić Antes da Festa.  O tradutor cometeu erros crassos de português como a palavra acento usada no lugar de assento.

Agora faz exatamente um ano, no dia anterior à última Festa, que Ulli arrumou sua Garagem, botou um punhado de acentos, cinco mesas e um aquecedor, pendurou uma cortina de tule vermelho e amarelo diante da única janela, pregando na parede…” [p.18]

Note-se: mesmo que fossem assentos, não se pode usar a expressão um punhado.  Punhado é o que cabe em um punho.  [ “…botou, alguns assentos, cinco mesas…”] seria o mais correto.

“O povoado em cadeiras. A ordem dos acentos é um tema explosivo. Quem irá ficar com a mesa de bar na parte da frente, junto à figueira?” [p. 28]

Além dessas belezas acima, o tradutor optou por usar um texto em português quase ao pé da letra do que está em alemão. Ou seja subjugou o entendimento em português para preservar a fidelidade às expressões, à ordem de palavras, ou a modos de dizer que não fazem sentido em português. Temos, assim, frases como:

“Com o sistema de climatização de hoje em dia, até a lua seria possível.” [SIC][p. 37]

“O povoado reza diariamente por um mero mais ou menos.” [SIC] [p.31].

“Certa vez, os que estavam procurando cogumelos.” [SIC] [p.41]

 

Ou problemas com um parágrafo inteiro, notem que o itálico é meu:

“O tenente-coronel Schramm acompanhou os coletores de cogumelos até o parâmetro extremo.[SIC] [?] Numerosos eram os cogumelos ao lado do caminho. [SIC] [Porque não usar a forma direta?  “Eram numerosos os cogumelos ao longo do caminho?”] Mas aquelas pessoas não sabiam mais se podiam ou não colhê-los. De modo que Schramm tomou a iniciativa e botou um cogumelo bem suculento no cesto da menina. E depois foi obrigado a ver que nem era um boleto. [SIC] [?] A mãe voltou a tirá-lo do cesto sem dizer palavra.” [p.45]

Erros de grafia abundam:

“No verão, a morte anda não era uma ideia, no verão o senhor Schramm queria tentar a vida mais uma vez, talvez se apaixonar.” [p.110]

 

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Mais tarde somos agraciados com um português com grafia excepcional. A intenção é dar ao texto um cunho de antigo, de ter sido escrito no século XVI, pois o capítulo começa “No ano da graça de 1587…”. Mas o tiro saiu pela culatra e o maneirismo da letra ‘l’ dobrada, das palavras um começarem com ‘h’ , não surtiu o efeito desejado pois a essa altura já são tantos os problemas com a leitura, que esse detalhe se torna uma distração a mais.

“Os homens se junctaram em roda. Parecia até que tentavam esconder o leitão. O mandachuva dividiu o ar ao meio movendo as mãos à esquerda e à direita — e já os homens abriram hum buraco no centro.” [p. 70]

Enfim, chegada à página 110, desisti da leitura.  É muito pouco caso com o leitor. Deixei uma queixa no site da editora, mas eles não se dignaram a responder.  Não quero colocar a culpa exclusivamente no tradutor, ainda que 90% da responsabilidade seja dele.  Há duas pessoas mencionadas como responsáveis pela revisão: Rafael Alverne e Thais Carlo.  Não vejo sinais do trabalho deles.  Talvez estivessem de férias, ou pior, confiaram em programas de computação para a revisão. Esses programas não percebem erros entre assento e acento, ou seja não sabem as diferenças entre palavras homófonas.  Fato é que ninguém responsável por esta publicação leu o livro.  Uma vergonha.

A Editora Foz perde sua credibilidade porque publica um livro ilegível. O autor alemão não entenderá a razão de sua obra não ter sucesso no Brasil, quando é sucesso em outros cantos do mundo.  Os leitores que mantêm editora, autor, tradutor e revisores trabalhando, pois compram o livro, não podem fazer nada além de reclamar, ou será que deveríamos ir ao PROCON?  Dá vontade.





Resenha: Toda luz que não podemos ver, Anthony Doerr

16 08 2015

 

 

maurice prendergast, lighthouse-at-st-maloFarol em Saint-Malo, c. 1907

Maurice Prendergast (EUA, 1858-1924)

óleo sobre tela, 51 x 62 cm

William Benton Museum of Art

 

 

Ando com a doença do século XXI: pouca paciência para histórias com detalhes intermináveis. Foi o que pensei quando cheguei à pagina 286 das 520 de Toda luz que não podemos ver.  Tive a impressão de estar às voltas com uma narrativa dos oitocentos, da família de Dickens, Dumas, Scott ou Verne, que aliás é mencionado com frequência pelo autor.  Não estivesse esse livro já separado em cenas para filmagem, com direito a flashbacks em diversas datas; não fosse menos direcionado ao cinema, onde certamente fará sucesso com belos e promissores atores adolescentes; tivesse ele uma linguagem mais consistente, ao invés da língua padrão semeada por sentenças com a função de  torná-lo mais literário, esse livro teria no mínimo metade das páginas, metade do peso, e seria ainda mais interessante de ser lido.

Não posso negar que a história prendeu a minha atenção.  Li até o final e isso já é de grande valia.  Sem dúvida, minha curiosidade foi despertada.  As divisões em pequeníssimos capítulos que já antecipam as cenas para um futuro cinematográfico, ajudaram.  Mas é de estranhar que a trama central, a noção de conflito, de um problema a ser resolvido, não se desenvolva antes que se chegue à segunda metade da obra.

 

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A história se passa durante a Segunda Guerra Mundial.  É protagonizada pelos adolescentes: Marie-Laure e Werner, ela francesa, ele alemão, que só se encontram no final da narrativa, ainda que o leitor tenha tido todas as deixas de que esse encontro não só será inevitável mas o ápice da trama delineada. Rica em artimanhas e ardis, de um diamante gigante com sósias de vidro a mensagens secretas passadas no miolo de pães, à imitação dos biscoitos da sorte chineses, Toda luz que não podemos ver nos mostra também práticas e caprichos do treinamento de jovens no nazismo. Aliás, é justamente o tratamento do personagem Werner  — entender seu desejo e decisão de ser escolhido para o treinamento nazista, suas dúvidas e sua decisão de não ver o que é óbvio —  uma das diferenças que distingue esse livro de outros sobre o mesmo período. Tanto Werner quanto Marie-Laure são extraordinários seres humanos. São heróis.  São maiores que a vida, sofrem com dignidade e tenacidade. E assim preenchem a necessidade tipicamente americana de “se ver a luz que não podemos ver”, de superar obstáculos apesar das circunstâncias.  E é justamente por preencher essa necessidade cultural de fechamento, de conclusão, que o livro ainda se torna um pouco mais irritante:  todos os personagens são mostrados um a um, em interminável sequência, com seus respectivos finais.  Amarrar essas pontas era desnecessário, é exagero.

 

 

anthony doerr Anthony Doerr

 

Apesar de todas as negativas acima, este não é um mau romance. Para aqueles que desejam numa leitura uma forma de entretenimento, esta será uma boa escolha. Mas está longe de ser o que eu esperaria de um vencedor do Prêmio Pulitzer.  Já li melhores descrições do dia a dia durante a Ocupação. Se você não espera que sua leitura pose questões intrigantes de sobrevivência emocional ou psicológica, que cubra verdadeiras soluções éticas, estéticas, literárias ou pessoais esse livro é para você.  Entretenha-se.

 

 





Resenha: “Debaixo de algum céu” de Nuno Camarneiro

5 08 2015

 

Buildings in Buarcos, Portugal, Claire Nelson-Esch, Pencils, Ink, watercolour on paper, 13.5 x 21cm  ©Claire Nelson-Esch. httpclairelovesyouthismuch.blogspot.com.brEdifícios em Buarcos, Portugal

Claire Nelson-Esch (África do Sul, contemporânea)

Lápis, bico de pena, aquarela sobre papel, 13, 5 x 21 cm

©Claire Nelson-Esch.

Claire Nelson-Ech

 

 

Esta foi a minha apresentação ao escritor português Nuno Camarneiro, ganhador do Prêmio Leya de 2012, com esse livro. Tenho mantido contato próximo com autores lusitanos publicados aqui no Brasil. Acho que a literatura publicada além-mar anda muito interessante e não me canso de experimentar novos escritores. Por isso mesmo, mergulhei em Debaixo de algum céu com muita expectativa. Talvez mais expectativas do que deveria.

A ideia central de Nuno Camarneiro é muito interessante e rica em possibilidades: seguir a vida, por uma semana, de um grupo de pessoas que têm em comum habitarem o mesmo edifício de apartamentos. Rico em possibilidades, em caracterização de personagens de diversos caminhos, o tema é fascinante. A limitação de tempo e de lugar, onde muitos personagens exibem suas características não é estranho à literatura nem ao cinema. De Anjo Exterminador de Buñuel ao edifício de apartamentos, personagem do romance A beleza do Ouriço, de Muriel Barbery, exemplos abundam. Todos trabalhos de sucesso. Sucesso esperado por essa coletânea de histórias de Nuno Camarneiro, quase um conjunto de contos, não fosse a ocasional interação entre os personagens residentes do prédio.

 

Índice

Nuno Camarneiro preenche seu texto com uma série de frases de efeito, que certamente encontrarão lugar nos livros e sites de citações, frases inspiradas. No entanto a narrativa é fria. Controlada demais, quase sem interação de personagens, diálogos. Nem mesmo entre membros de uma família no mesmo apartamento há diálogos. Só ocasionalmente. Todos os personagens são taciturnos, reservados e sigilosos. Não há um que seja mais expansivo, não há um que quebre estrondosamente as regras. E, no entanto, apesar de vidas cerradas e quietas, nenhum deles se dá a indulgência de um hábito secreto, transgressor, uma mania, um comportamento fora do eixo, em sua intimidade, características que fazem qualquer personagem tridimensional. Resultado: todos são figuras de papelão. A presença do narrador se impõe em demasia tirando qualquer leveza do texto, qualquer mobilidade dos personagens. Tudo é visto e contado com a mesma voz em monótona narrativa, sem humor, sem ironia, demasiadamente contida e estereotipada. Por isso mesmo os capítulos são legendados para que se saiba quem narra aquele trecho.

 

Nuno_camarneiroNuno Camarneiro

 

A narrativa, mesmo assim, é ritmada e bem feita. Cheguei ao fim do livro com facilidade, sempre esperando que algo acontecesse de proporções adequadas às minhas horas de dedicação à leitura. O desfecho foi um tanto anticlimático. A rigorosa mão do autor pode ser sentida forjando acontecimentos que nem sempre parecem ser a consequência natural dos personagens. Vamos ver o que mais Nuno Camarneiro poderá trazer ao público, no futuro. Tenho a impressão de que o autor precisa se soltar. Com esse pulso de ferro, seus personagens não têm chance de crescer e nos surpreender e quem sabe surpreender até ao próprio autor?





Resenha: “A Casa das Belas Adormecidas”, Yasunari Kawabata

31 07 2015

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roario mangaRosario Mangá.

 

Meu grupo de leituras da internet abriu uma discussão sobre a obra do autor Yasunari Kawabata, ganhador do Nobel em 1968. Neste grupo discutimos autores.  Todas as obras. Cada um menciona aquela obra que conhece.  E a conversa rola, através das semanas. Eu havia lido dois livros de Kawabata, Mil Tsurus, em 2009 e Kioto não me lembro quando.  Havia gostado, mas não havia lido a obra que parece encantar a um número enorme de críticos: A Casa das Belas Adormecidas.  Por isso mesmo pouco participei da discussão. Ainda mais, que descobri que as Belas Adormecidas haviam inspirado Gabriel Garcia Marquez ao escrever Memórias de Minhas Putas Tristes, outro livro que nunca li. Senti-me portanto mais ou menos na obrigação de considerar a leitura dessa obra de Kawabata.

Contrária à opinião da maioria dos leitores, não gostei de A Casa das Belas Adormecidas. De fato, cheguei a me forçar a ler essa até a última página, tal foi o meu repúdio ao romance — que nada mais é do que um conto! Concordo com muitos que a linguagem, mesmo em tradução, é sensível.  Concordo também que o personagem principal, um senhor de 67 anos, que tem a oportunidade de divagar sobre a vida passada, relembra-a de maneira quase poética. Mas isso não foi suficiente para me agradar.

 

 

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O problema com a obra: ter que aceitar a mulher tratada como coisa, em um nível de sofisticação muito além do imaginável. A mulher objeto ainda mais desumanamente abusada: jovens de carne e osso que têm o papel de bonecas de borracha, existindo unicamente para dar prazer a homens velhos, impotentes. O abuso – são drogadas a tal ponto que dormem pesadamente a noite toda e não sabem o que acontece com seus corpos drogados – é de um requinte malicioso que me impediu de julgar serenamente o texto. Talvez à época de sua publicação, 1961, esse aspecto da trama não fosse tão censurável quanto hoje.  Mas hoje é impossível que esse, ou um ato semelhante, possa ser tratado de maneira tão banal, que seja aceito sem uma rigorosa e visceral rejeição.  Como não há um personagem que se oponha a esse abuso, e como as meninas não sabem o que lhes acontece e portanto não podem fugir, nem reclamar, o leitor se vê psicologicamente alinhado ao homem que desfrutará desse abuso, o leitor se vê como cúmplice de uma ação que despreza.

 

kawabataYasunari Kawabata

 

Reconheço que Yasunari Kawabata tinha em primeiro lugar a intenção de dissertar sobre masculinidade, sobre a impotência como consequência da velhice, sobre a frustração e a humilhação sofridas por aqueles que vivem muito além dos anos de fertilidade, dos anos de proezas sexuais.  Mas hoje, esses assuntos provavelmente seriam abordados de maneira diferente.  Não é uma questão de ser politicamente correto.  É que a moral mudou nos últimos cinquenta anos.  É isso.





Um alerta a tempo? Resenha: “Submissão”, Michel Houellebecq,

30 07 2015

 

Batalha de Poitiers, em outubro de 732, 1837, Charles de Steuben, (Alemanha, 1788-1856),ost, 542x465cm,Palacio de VersalhesOutubro de 732, Batalha de Poitiers, 1837

Charles de Steuben (Alemanha, 1788-1856)

óleo sobre tela, 542 x 465 cm

Palácio de Versalhes, França

 

 

Há livros que se lê pelo prazer da prosa, da trama, do suspense.  Submissão de Michel Houellebecq não é nenhum desses.  É um livro que força uma reflexão sobre o momento atual da Europa, da França, especificamente. É uma fantasia tão plausível, tão próxima da realidade, que o leitor se vê forçado a considerar possibilidades improváveis como quase certas, e o impensável torna-se realidade.  É chocante. O romance, passado por volta de 2022, ou seja meros 7 anos no futuro, de maneira racional, considera a possibilidade da eleição de um governo muçulmano na França.

Talvez o que seja mais desconcertante nessa narrativa é a lógica.  Por exemplo, quando Houellebecq menciona as forças armadas francesas necessitando de milhares de novos recrutas a cada ano e simultaneamente considera que a população tradicional francesa cada vez tem menos filhos, enquanto a muçulmana tem muitos, a lógica nos leva a admitir que em futuro próximo as forças armadas francesas serão em sua maioria muçulmanas. Esse é um aspecto da realidade francesa que nunca havia cruzado os meus pensamentos.

 

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Isso é complexo?  Estranho? Desagradável? É.  Por que?  Porque teocracias como as defendidas pelos regimes islâmicos estão diametralmente opostas à herança cultural do oeste.  Temos que considerar se é esse é o futuro que se quer ter.  É essa a guinada que queremos dar no nosso presente?  O que ganhamos com ela?  Como mulher criada no ocidente, com valores de autoconfiança, de respeito próprio, com dedicação a uma profissão, que vota, dirige, se veste como quer, que se acha no direito de escolher o parceiro de vida, não acredito que venha a me adaptar às limitações de qualquer  uma das variações das teocracias islâmicas.  E não estou exagerando. Basta lermos relatos que aparecem diariamente nos jornais, livros como Infiel de Ayaan Hirsi Ali, entre outros para saber que o conflito cultural seria ou será gigantesco.

 

Michel HouellebecqMichel Houellebecq

 

Submissão não é uma obra para ser julgada pelos seus méritos literários.  Em geral, romances que defendem uma causa têm a tendência a serem enjoados, porque explicações são necessárias e rapidamente diálogos se tornam solilóquios didáticos.  Ainda que Houellebecq flerte com esse pecado, sua habilidade em fazer paralelos entre o escritor Huysmans e a própria vida do professor universitário que narra o romance esvazia um tanto o dogmatismo inerente desse tipo de criação.  Mas há passagens bastante aborrecidas, principalmente para leitores não familiarizados com a obra do escritor, ensaísta, crítico de arte francês Joris-Karl Huysmans.

Apesar dessa reserva recomendo a leitura como uma obra que ajuda a compreender parte do dilema europeu deste século.  Que haverá um embate entre essas crenças e filosofias de vida parece inevitável.  Resta saber quando.





Minotauro, de Benjamin Tammuz, resenha

24 07 2015

 

labyrinthminatoaur2Teseu e a viagem a Creta: o Labirinto e o Minotauro, c. 1500-1525

[DETALHE]

Mestre dos Cassoni Campana

(pintor francês ou italiano, ativo em Florença)

óleo sobre painel de madeira, 69 x 155 cm

Museu Petit Palais, Avignon, França

 

 

Minotauro de Benjamin Tammuz não chega a ser um romance. São quatro histórias levemente interconectadas. A última, que leva o nome de Alexander Abramov é a mais completa, mais detalhada e interessante. E as que a antecedem revelam aspectos da trama nela retratada. Só aí, no final, é que encontramos o personagem que reconhecemos eventualmente como pertencendo à primeira história e conectado com as outras duas anteriores. Enfim, parece um romance inacabado, com um espaço oco no meio.

Esse livro me foi apresentado com dois perfis: uma história de amor e uma história de espionagem. Mas não é uma história de amor, nem uma história de espionagem. Em lugar do amor, temos uma obsessão, uma condição psicológica que tenta, e nesse caso é bem sucedida, captar uma presa, possuí-la e por ela ser possuído. O próprio autor nos avisa dos complexos sentimentos explorados por ele, quando declara que “a vítima apega-se ao seu assassino e se apaixona por ele” [95].

benjamin tammuz minotauro

Alexander Abramov, o Minotauro, era filho do judeu Abram Alexandrovich que partiu da Ucrânia, “sólido e saudável como um touro jovem” [115] e da alemã não-judia, Ingeborg Von Hase. Muito rico, o casal Alexandrovich se estabelece em terras que no futuro formarão parte do Estado de Israel. Como Minotauro, Abramov se encontrará prisioneiro de um labirinto musical na sua imaginação [146]. Ele imagina que poderá ser salvo de sua vida agonizante pela mão de uma donzela, como ele observou na gravura que decorava o seu quarto de criança [125]. E essa donzela, ele decide, no dia de seu 41º aniversário é Téa, uma jovem adolescente que não desconfia do destino que Abramov moldará para ela.

Téa é vítima de uma obsessão que cerceará sua vida cotidiana e seu destino. Testemunhamos o controle obcecado de Abramov sobre os movimentos de Téa. Aprendemos também a maneira como ele consegue interferir na vida da jovem, eliminando sistematicamente qualquer competição que possa ter de outros homens. Seu comportamento é tão fora da norma quanto havia sido o comportamento de sua mãe que sofria de um profundo desequilíbrio emocional, razão de sua morte prematura.

 

Benjamin-Tammuz1Benjamin Tammuz

 

A espionagem, a que esse romance alude tem duas facetas: é a última profissão de Abramov, e é também o modo pelo qual ele resolve viver seu grande amor, o amor de uma pessoa doentia, insana. Existe uma expressão em inglês que melhor descreve essa ação, “to stalk someone”, como um lobo caça uma lebre, ação, é bom lembrar, considerada crime nos Estados Unidos. Talvez seja por isso que a primeira das quatro partes deste romance, titulada Agente Secreto, tenha sido de leitura fascinante, mas desconfortável. Abramov faz uma escolha aleatória ao focar o seu amor. A presa, Téa, uma moça que ele vê por acaso em um ônibus, mais de vinte anos mais nova, será daí em diante, fruto de sua obsessão. Cartas e mais cartas anônimas estabelecem contato entre os dois. Ela inicialmente curiosa, ingênua, lisonjeada responde inocentemente ao interlocutor, sem perceber que entreabria assim a porta para o assédio. Daí por diante ela não terá paz. Envolve-se emocionalmente, e será incapaz de se esquivar do futuro que Abramov projeta para os dois. É uma luta desequilibrada, perversa, saturniana, antropófaga.

O desfecho é inevitável e anunciado. Paralelos com tragédias gregas são inevitáveis, ainda mais porque elas são citadas através do texto. Mas no final esse foi um romance que não se resolveu completamente, que não passou de quatro excelentes partes sem grande contextualização que as envolvesse.





Assim é se lhe parece, “Estação Atocha”, de Ben Lerner, resenha

19 07 2015

 

salado, madriPlaza Carmen, Madri, c. 1962

Juan Bayon Salado (Espanha, 1903-1995)

óleo sobre tela,  60 x 73 cm

 

 

Sem citar Assim é se lhe parece, de Pirandello, Ben Lerner evoca a trama teatral do autor italiano em Estação Atocha, quando tudo à nossa volta pode ou não ser o que parece. Nesse livro seguimos as aventuras de um possível poeta americano [será que ele é mesmo um poeta?] se embrenhando nas complicações da vida na Espanha, onde reside graças a uma bolsa de estudos, para a qual havia inventado um tema de pesquisa que não tinha intenção de levar avante. Esse não é o único logro da história, nem o primeiro, mas um de uma série de desonestidades, cometidas por todos os personagens num desfilar de pequenas fraudes sem fim.

 

atocha

 

Aventuras de viagem não são tema raro na literatura, nem recorrentes dúvidas de uma pessoa criativa sobre sua própria criatividade. Tampouco é novidade a sensação de se andar em pantanal, de afundamento a qualquer momento, quando usamos uma língua que não dominamos. Mas todo o resto dessa narrativa é diferente nesse pequeno romance. Porque estamos diante de um manifesto sobre as incongruências da nossa percepção, da percepção dos outros e como exploramos a maleabilidade e a diversidade de pontos de vista, das muitas possíveis verdades, para nosso próprio benefício. As referências às artes plásticas, o sentar e observar um quadro por horas até que saia de foco, são claros indicadores dessa preocupação do autor, senão, qual seria a razão de termos algumas fotografias ilustrando um romance? Ben Lerner mostra que somos todos poliedros. Que temos muitas faces. Que face nossa mostramos ao mundo? Vai depender da nossa vontade. Vai depender da nossa audiência. Que face nossa o mundo vê? Também vai depender de como eles querem nos perceber. Por que não ajustar a história pessoal, a narrativa de vida, de acordo com cada situação? É justamente nessa linha entre o que se acredita ser verdadeiro e o que poderia ser, entre as diversas opções de realidade, entre os mitos que criamos a nosso respeito, nossa história pessoal, que trafega o personagem principal, numa viagem mercurial, entrando e saindo do submundo dos sonhos ao mundo da realidade, tudo incrementado pela névoa perpétua que domina sua mente permanentemente drogada.

 

ben lernerBen Lerner

Ben Lerner não poderia ter levado o romance ao fim não fosse sua intrigante e sedutora voz narrativa: uma combinação de Virginia Woolf e monólogos humorísticos como os recitados na comédia em pé. Por vezes cômico, outras mais filosófico, o texto faz uma afinadíssima crítica aos intelectuais, aos poetas, aos apreciadores das obras de arte, aos demonstradores políticos profissionais, todos encontrados em qualquer grande cidade do mundo, em qualquer Meca da cultura. A fina ironia aparece autodirecionada e simultaneamente reveladora como crítica de costumes.

A narrativa é feita pelos olhos do jovem poeta americano Adam Gordon em busca de experiências novas. Seus poemas usam o pastiche de poemas de outros poetas. Larápio de palavras que traduz, modifica e reusa; punguista de ideias, usa as reticências do silêncio para ser percebido como profundo pensador. Questiona-se sempre sobre sua fraude. E não perde a habilidade de perceber, ou de questionar a possível desonestidade dos outros. E assim, mais cedo ou mais tarde, aprende que o comunista filho de pais ricos que vai à Estação Atocha demonstrar às vésperas da eleição, não vota no partido comunista, com a desculpa de que quer que as coisas fiquem ainda piores. Recebe um email de fundação que o financia, agradecendo sua participação em um debate, cujo convite não havia aceitado. Quando sugere que quadros em uma galeria sejam cobertos em pano preto em sinal de luto pelos mortos em um atentado terrorista, observa que os visitantes da galeria, olham para os quadros cobertos com grande intensidade, encontrando neles significado além do intencionado. Em todo canto, a toda hora, não só o nosso poeta anti-herói engana a si mesmo e a outros, mas também percebe a trapaça ou burla dos outros. Este é um romance divertido, com grande voz narrativa, que leva a uma ponderação sobre temas psicológicos e de comportamento social com a leveza do humor. Recomendo.





Sinuosamente sedutor, resenha: “A linha da beleza”, de Alan Hollinghurst

2 03 2015

 

Beer-street-and-Gin-laneBeer Street, 1751

[Uma de um par: Gin Lane, 1751 é a outra gravura]

William Hogarth (Inglaterra, 1697-1764)

gravura

 

A Linha da beleza é uma linha curva, em forma de esse [S], ou de serpentina, batizada pelo pintor, escritor e poeta inglês William Hogarth, em seu livro teórico, Análise da Beleza, de 1753. Hogarth defendia que essa linha, que vai e volta, teria a capacidade de ativar a atenção do espectador, de mostrar vivacidade e movimento sedutores, inigualáveis, principalmente quando comparada à linha reta, ou às linhas paralelas e até mesmo às linhas cruzadas. Essas outras estariam associadas a objetos inanimados e à morte. Alan Hollinghurst menciona essa linha, no título, e mais tarde a meio caminho da narrativa: “O arco duplo era a ‘linha da beleza’ de Hogarth, a tremulação de um instinto, de duas compulsões mantidas em um movimento não desdobrado (190). O título emprestado de Hogarth explica a trajetória de vida do personagem principal. Como em uma peça teatral, o romance é divido em três atos: primeiro Nick Guest no início de sua estadia como convidado [guest] na casa de um membro do Parlamento inglês; depois seu desempenho pós-graduação em Oxford e primeiras aventuras amorosas; por último, o momento em que se desliga daquela mansão, quatro anos mais tarde. Esses três tempos, seguem o movimento sinuoso que Hogarth considerava atraente: começa de um ponto zero, ganha volume e consistência na segunda parte e se fecha à saída de Nick Guest do convívio da família politicamente poderosa, já em outro estágio de maturidade emocional.

Semelhante sinuosidade é demonstrada pelo próprio Nick Guest que desliza sedutoramente por entre personagens do livro aliciando membros da família com quem vive. Loquaz, ágil, habilidoso na maneira se colocar, de dar apoio quando necessário, preocupa-se em agradar para não perder privilégios, à procura sempre da palavra certa. A impetuosidade não é uma de suas características. Ele é calculista. Procura compreender qualquer situação para dela tirar maior proveito; é um mestre da esperteza social, ciente do efeito que seus gestos, palavras ou ações podem ter entre aqueles com quem se relaciona. É o exemplo da vivacidade, do movimento sedutor e da atitude cativante com o fim de obter conquistas de âmbito pessoal. É o personagem principal, não chega a ser um anti-herói, mas está longe de ser um homem de caráter exemplar ou um ser humano confiável e idôneo. No entanto, talvez por conhecer sua maneira singular de pensar e seus motivos, somos seduzidos a saber o que acontece com ele do início ao fim da leitura.

 

Sign-painter-Beer_StreetDETALHE, o pintor de letreiros, na gravura de Hogarth que abre esta postagem.

 

Esta é a história de Nick Guest, que ao terminar os estudos em Oxford e decidir fazer o doutoramento em literatura, dá início a uma nova fase em sua vida. Não só ele se debruçará sobre a obra de Henry James, mas irá explorar sua homossexualidade até então confinada a sonhos e devaneios. Ambicioso, Nick não perde oportunidade para parecer aquilo que não é: membro da elite social e financeira do país. Confiando na sua habilidade de conversar, no seu conhecimento de música e literatura, na disciplina de prestar atenção aos detalhes de luxo e de estilo, e na curiosidade de observar aqueles à sua volta, Nick consegue negociar uma estadia por tempo indeterminado, na residência de uma família rica e influente na política. Com o conhecimento de antiguidades adquirido através de seu pai, um comerciante no ramo, Nick julga de longe o valor dos objetos que encontra nas casas que frequenta e considera seus donos pelo que possuem. Por isso mesmo, não tem um debate emocional interno ou qualquer crise de consciência ao aceitar presentes finos e luxuosos por favores sexuais, agindo como qualquer amante em relações às escondidas. Também fica longe de se considerar em dívida de fidelidade para com os membros da família que o acolheu. Nick observa as pessoas como objetos, mesmo aqueles que diz amar. Há um distanciamento palpável entre o que diz sentir e o que faz. Dar-se, abrir-se ao outro sem restrições, não faz parte de seu caráter. Nick é egoísta e tem um único objetivo: ser bem sucedido no amor.

 

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Hollinghurst mostra seus personagens sem exageros, de maneira realista e usa a ironia sutil, como base sólida para a análise do que retrata. Mesmo assim, não se pode deixar de lembrar que se trata de uma sátira da vida na Grã-Bretanha, na década de 1980. A narrativa é de grande precisão e distanciamento. Cenas difíceis de sexo, de promiscuidade e traições, todas são narradas com rigor e clareza. O extenso uso de drogas é claramente delineado. A procura obsessiva e indiscriminada por amor e aceitação, feita através do sexo, é necessidade do personagem principal e parte de sua angústia e de sua carência. No entanto, tudo é retratado de maneira tão exata e rigorosa que nos distanciamos e não somos capazes de sentir nem compaixão, nem ojeriza. Nick Guest não é melhor nem pior do que aqueles que o cercam, mas não consegue se identificar com grupo nenhum. Tampouco com homens ou mulheres. “Agora talvez ele realmente pudesse ir lá para cima e gozar a liberdade de ser o convidado avulso. Não se encaixava em nenhum dos ambientes “(145). Mais do que um convidado, Nick é um intruso em qualquer ambiente que habite. Ele não se encontra em lugar nenhum. Ao visitar sua cidade natal, sente-se um forasteiro, na Londres a que anseia pertencer não tem a credibilidade de nascimento ou dinheiro para entrar. Talvez por isso mesmo suas relações amorosas mais significativas sejam com imigrantes estrangeiros. O primeiro, que lhe dá o fora quando descobre que ele não tem dinheiro. E o segundo para quem se transforma em amante teúdo e manteúdo. Nick poderia até ser um personagem merecedor da nossa simpatia e compreensão. Mas não há nesse romance nenhum personagem merecedor desses sentimentos. Todos, sem exceção, são desprezíveis.

 

Alan-HollinghurstAlan Hollinghurst

 

A narrativa de Alan Hollinghurst é extraordinária. Ímpar. Referências à obra de Henry James são numerosas com o propósito de ilustrar o assunto da tese de doutoramento de Nick Guest. Mas é evidente que a mágica narrativa de James tem influência neste romance, se não pelo estilo, pelo menos pela ambientação. Aqui, como em James, os personagens são caracterizados por seu comportamento de encontro às expectativas que se tem deles. Temos uma visão de um grupo social – a classe da alta burguesia inglesa – de seus amores ilícitos e da ruptura dos códigos sociais em exercício e até mesmo de sua moralidade. As preocupações de Nick Guest com sua posição social, a vida amorosa de seus pares, o desejo de ascensão social interpretadas por ele muitas vezes com ironia colocam este romance em contexto semelhante ao encontrado no teatro, nas comédias de costume. O tom é por vezes cômico, satírico, espirituoso, repleto de diálogos vivos e contemporâneos. Hollinghurst tem ciência da posição que assume na história da literatura inglesa. E mais, suas constantes referências a escritores assumidamente homossexuais ou aos que, hoje, consideramos como homossexuais revelam que ele sabe exatamente onde sua obra deve se inserir na linha histórica da literatura gay inglesa: Shakespeare, Oscar Wilde, E. M. Forster, Henry James são apenas alguns dos parâmetros entre os quais sua obra se encerra. Mas considerar essa obra primeiramente um romance gay é extremamente redutivo e um desserviço ao mundo literário. Em questão está um romance cujo personagem principal tem características e personalidade universais: gosto pela luxo, beleza, posição social. Ele é egoísta, sinuoso, traiçoeiro. Superficial. E ele também é gay. Fazer de A linha da beleza uma obra, sobretudo gay é contribuir para a perpetuação de um preconceito. Este é um romance, um drama universal, pronto para uma série televisiva daquelas em que os ingleses se esmeram.

 

Este livro foi recipiente do Prêmio Man-Booker em 2004, o maior prêmio de literatura para os países da Commonwealth.

 

NOTA, 2/3/2015 — Acabo de ser informada que, de fato, o romance resenhado acima tornou-se uma série televisiva da BBC2, levada ao ar em 2006, com Dan Stevens [conhecido no Brasil como Mathew Crawley, da série Downton Abbey] no papel principal de Nick Guest.

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