Nunca julgue um livro por sua capa. Quantas vezes já ouvimos isso? Mas algo nesse livro de Alberto Manguel, nessa capa, me dizia, isso vai ser uma leitura vagarosa e chata. Talvez tenha sido o tamanho do volume: nem livro de bolso, nem tamanho normal. Talvez tenha sido a encadernação. Não sei. É fato que andou rolando por aqui já há um tempinho, passando de uma prateleira a outra. Mas que posso fazer? Impliquei com ele.
Reorganizar livros na biblioteca, me levou a abraçar mais seriamente livros que ainda se encontram em capas plásticas: comprados e sem ler. São muitos. Minha desculpa é que organizo dois grupos de leitura, isso significa no mínimo duas leituras diferentes a cada mês, participo de um grupo, que não organizo (ainda bem!) que tem leituras mais leves. Com todos esses compromissos durante o ano, é quase certo que não tenho tempo para ler tudo que gostaria. Compro os livros que imagino querer ler, e eles pelo menos ficam rolando por aqui, à minha espera. Tenho até duplicatas de alguns, que havia esquecido que já comprara. Encontrei uns nessa organização. Foram doados. Novinhos em suas capinhas plásticas. Mas fiquei determinada a acabar com uma pequena pilha e como tenho passado horas esperando profissionais da casa, ando lendo muito.
Encaixotando minha biblioteca: uma elegia e dez digressões, de Alberto Manguel, tradução de Jorio Dauster, Cia das Letras, 2021 me conquistou. Que delícia! São 184 páginas de prazer, para quem gosta de livros, para quem lê. Alberto Manguel escreve sobre leitura, livros, emoções na leitura, bibliotecas, tudo que lhe toca à medida que empacota os mais de 30.000 livros para se mudar da França para Nova York. Ao longo de suas digressões aprendi muito, fiz listas de livros que precisava reler e me encantei com o que não sabia sobre outros livros que nunca li e que subitamente foram colocados na lista de leituras imprescindíveis. Manguel relaciona as mais díspares leituras com facilidade e encantamento, trazendo para o leitor novas maneiras de pensar livros e ideias. Esse é um livro para os que gostam de ler, e que se veem como leitores para o resto da vida. Para eles, para mim, é um livro imperdível.
Uma das minhas decisões para o novo ano: ler alguns livros que já havia comprado e que por qualquer razão foram colocados para depois e para depois e assim por diante. Bela surpresa me esperava. Zen na Arte da Escrita, de Ray Bradbury, autor do conhecido clássico do século XX, Fahrenheit 451 e também das Crônicas marcianas, é uma bela coleção de onze ensaios sobre a escrita. Nesse pequeno livro de 160 páginas, publicado em 2020, pela Biblioteca Azul, aqui no Rio de Janeiro, com tradução de Petê Rissatti, o leitor tem a oportunidade de conhecer o processo da escrita de Bradbury, sua simplicidade, seus pequenos truques para chegar a um texto vendável, sua sensibilidade e comprometimento com a profissão a que se dedicara.
Não é um guia, um manual para a escrita. Mas testemunhando o que ele fez, seu processo de escolha e preocupação com temas e principalmente com sua habilidade de deixar-se levar pelo processo criativo, sem saber ao certo como chegar ao ponto desejado é fascinante e estranhamente sedutor para todos nós que nos dedicamos à comunicação de nossas histórias.
O entusiasmo do autor, a alegria de escrever são pontos constantes nesses capítulos independentes. Vemos também o quanto o exercício da curiosidade é condição imprescindível para uma boa história. Mas além disso, deu-me vontade de ler mais de seu trabalho. Ficou muito famoso pelos dois livros citados acima, mas sua produção é enorme, de contos, novelas, romances e até mesmo poesia. Foi um tiro certeiro cobrir esse livro no início do ano. Recomendo a leitura, não só por aqueles que escrevem, mas também por quem tenha curiosidade de abrir uma janela sobre o processo criativo de um dos mais produtivos escritores do século XX.
Meu livro está rabiscadíssimo com passagens sublinhadas, anotações nas margens e desde o início da semana passada já me coloquei com caneta e papel na mão tentando imitar alguns de seus métodos para desenvolvimento da prosa. Serei boa aluna? Veremos. Mas se não conseguir, não será por falta de um excelente mestre.
Tenho muitas leituras em meio de caminho, livros que estou lendo simultaneamente. Mas esse comecei hoje de manhã. Não é grande vantagem que um livro de 94 páginas tenha sido lido em um dia. Mas eu o recebi quando cheguei em casa de Rio das Ostras e hoje abri para ver exatamente o que era. Não resisti. Li inteirinho.
Gosto de Somerset Maugham, um autor que conheci lendo Servidão Humana, livro um pouco maduro para os meus primeiros anos na adolescência quando estava febril para ler os grandes autores. Era um volume emprestado da Biblioteca da Gávea, que eu frequentava assiduamente desde criança.
Os livros e você: clássicos da literatura que podem ampliar a sua visão de mundo, é um grupo de três ensaios que Maugham escreveu para a revista americana Saturday Evening Post. Eles foram coletados e publicado na Inglaterra em 1940. Essa tradução é a primeira no Brasil, feita por Pablo Guimarães, publicada em Piraquara, Editora Vimara: 2024.
Fim de ano, para quem lê, é sempre recheado de listas de livros que ainda não lemos, que queremos ler. E esse livro me pareceu perfeito para que eu selecionasse algo que escapasse dos batidos e lidos russos, e clássicos mais modernos. Sendo um escritor inglês a maioria dos livros mencionados como sugestão para leitura são ingleses. Mas há também russos, franceses e até alemães.
A parte mais charmosa do livro são os comentários que Maugham faz, alguns bastante cortantes, sobre obras constantemente citadas como imperdíveis. Mais que isso, no entanto, é sua postura que, para o leitor comum, livros devem ser sempre agradáveis de ler. Se não o forem, deixe de lado.
Consegui deliciosas citações sobre leituras, que eventualmente, aos poucos colocarei aqui no blog, como costumo fazer. Somerset Maugham faleceu em 1965. Suas sugestões não incluem os escritores mais recentes, nem mesmo muitos dos que já eram conhecidos na primeira metade do século XX. Listas sempre refletem o leitor que as fez. A leitura desse livro foi uma conversa com um dos mais interessantes autores ingleses da primeira metade do século passado.
PS: Sim, anotei alguns nomes. E estarei procurando por suas obras.
Costumo fazer minhas resenhas de livros logo após a leitura como uma maneira de concluir aquele período. Mas com O que resta de nósde Virginie Grimaldi esperei um bom tempo. Isso me permitiu ver que o grupo de leituras que o escolheu para o mês de setembro em maioria esmagadora teve opinião totalmente oposta à minha. Uma reflexão era necessária. Pretendo assumir minha perspectiva sobre esse livro, mesmo sabendo do aplauso das leitoras do meu grupo para a obra.
Há tempos estou pasma com as obras de origem francesa trazidas para o Brasil. Quase todas têm o que chamo de frases instagramáveis. Ponderações de fácil transitar como se fossem de profundo saber. Detalhes que o leitor experiente detecta de longe, como falsa reflexão. Ora, as participantes do Papalivros não são leitoras iniciantes. No entanto, aprovaram e acharam que o livro contribuiu para o bem-estar e para soluções difíceis de problemas do dia a dia. Eu, que havia dado no máximo duas estrelas de um total de cinco, me senti preocupada: meus padrões estão em total descompasso com leitores experientes. Afinal o grupo de leitura tem 22 anos de existência e até 2023 lia 12 livros por ano, passando a 11 livros por ano em 2024.
Virginie Grimaldi abusa das figuras de linguagem cujo objetivo é parecer reflexão profunda mas não é mais do que uma frase vestida de sabedoria de efeito. Tudo para ser facilmente colocado numa postagem das redes sociais. Cito aqui três dos muitos momentos em que isso acontece. Metáfora seguida de um paradoxo tem claramente o objetivo de ser sublinhada e colocada numa camiseta para aumentar a venda do livro. Eu não sonho, eu fujo. A realidade é minha prisão. O uso de paradoxo é um cacoete narrativo da autora: O silêncio me ensurdecia mais que o barulho. Ou ainda essa antítese: Cemitérios são para os mortos. A vida está do outro lado do portão. De novo um ready-made para funções sociais na internet ou para ser impresso na camiseta do momento.
Além desse vício narrativo temos nessa publicação um conto de fadas para adultos, que parece ser a norma da produção francesa do momento, pelo menos dos livros publicados por aqui. Situações que parecem fugir do comum (vejam, parecem fugir) e que acabam bem, apesar de… Não que eu queira que histórias não acabem bem, mas há uma benfazeja expectativa de que tudo vai dar certo. Seria uma influência Hollywoodiana ou talvez o resultado de uma sociedade em que todos estão mais ou menos felizes com o que tem, como vivem? Há muito que pensar nesse campo.
Virginie Grimaldi
O enredo é simples: uma senhora viúva aluga quartos de seu apartamento para poder viver com maior conforto financeiro. Duas pessoas então começam a fazer parte de seu dia a dia. Cada qual com um problema no passado que os levou a essa solução. Aos poucos os três e os leitores da narrativa vão se enfronhando sobre a vida dos habitantes desse lar, suas dificuldades pregressas e esperanças para o futuro. Os personagens acabam por formar emocionalmente uma família que supera problemas e todos ficam felizes e satisfeitos.
Será? Será mesmo que isso é o melhor que a França tem para exportar de ficção? Ou será que nossos editores sabem que o conto de fadas para jovens adultos vende bem e podem deixar de lado alguma obra mais complexa, que demande mais do leitor? Não sei. As leitoras do Papalivros acharam que as soluções encontradas para os problemas de cada personagem foram boas, e todas gostaram da leitura. Eu achei uma história rasa, simplista. Mais apropriada para jovens sonhadoras, não muito diferentes das mocinhas que liam os romances da Biblioteca das Moças nos anos 60, 70 do século passado. Eu, dei duas estrelas. O grupo chegou a 4,5. Se essa história é de seu gosto, por favor leia. Não é do meu.
PS: Ah, sim a desculpa de que é um livro maravilhoso porque conta a história de superação dos personagens… Gente, todos nós estamos engajados em superação. Viver é isso. O tema já deu.
Há muito tempo um livro não me encanta tanto quanto Orbital de Samantha Harvey, tradução de Adriano Sacandolara [Editora DBA, 2025]. A obra, vencedora do Booker Prize em 2024, é uma cuidadosa ponderação sobre a vida, a Terra, nosso lugar no Universo. Ainda que acompanhemos seis astronautas que orbitam a terra, não há diálogos, não há trama. Em seu lugar, somos convidados a compartilhar com a autora a visão, o encantamento e o privilégio de, com ela, viajarmos em volta do nosso planeta e nesse trânsito refletir sobre a grandeza do espaço, a pequenez do planeta azul, a fragilidade de nossa existência.
Não se trata de prosa poética. Mas o livro é repleto de poesia e do encantamento que poesia provoca. Com grande sensibilidade atravessamos as dezesseis órbitas que fazem um dia no espaço e que, por sua vez, designam os dezesseis capítulos do livro. A cada um deles voltamos ao nascer do dia numa parte do planeta, diferente da anterior, ou ao acender das luzes quando a noite chega em algum continente. Essa forma circular, de voltar e voltar a um ponto semelhante ao do início é usada desde a antiguidade para a meditação. O círculo sempre esteve ligado à ponderação e introspecção. Os conhecidos labirintos meditativos, desenhados no chão, como o da Catedral de Chartres na França, assim eram para levar o pensamento do andarilho de volta através de uma espiral circular a um ponto semelhante ao anterior. É isso que acontece com o leitor em Orbital. Junto à equipe de astronautas voltamos sempre mais ou menos ao mesmo ponto, mas um pouco diferente. As ruminações são inescapáveis.
“Os continentes passam como as campinas e vilarejos na janela de um trem. Dias e noites, estações e estrelas, democracias e ditaduras. É só à noite, quando você vai dormir, que você se alivia dessa esteira perpétua. E mesmo ao dormir você sente a Terra girar, assim como sente uma pessoa deitada ao seu lado. Você a sente ali. Sente todos os dias que penetram sua noite de sete horas. Sente todas as estrelas efervescentes e os humores dos oceanos e o tropeço da luz contra a pele, e se a Terra parasse por um segundo na sua órbita, você acordaria de sobressalto, ciente de que há algo errado.“
Difícil imaginar as incontáveis horas de pesquisa que Samantha Harvey deve ter dedicado a visões da Terra da perspectiva de quem a vê do espaço, nem muito longe, nem muito perto. Suas descrições, suas observações precisas e poéticas são imperdíveis e trazem a sensação de verdadeira experiência. E nos deixam extasiados. Outras tantas horas devem ter sido dedicadas ao estudo da rotina dos astronautas antes e durante os voos, assim como os tipos de pesquisas que são executadas em voo.
Samantha Harvey
Esse livro é uma homenagem à Terra mas é também uma austera e enigmática reflexão sobre nosso papel nesse planeta, nesse Universo. Ponderação sobre nossa inimaginável necessidade de ir além, de conquistar. A prosa é belíssima e delicada. Para os apreciadores da pintura há uma longa reflexão sobre Velazquez e menções sobre Turner. Mas sobretudo essa ruminação poética sobre o ser humano e seu lugar no universo é profunda, toca a alma e faz pensar.
Com Anton, Roman, Nell, Chie, Shaun e Pietro, os astronautas de diversas nações aprendemos, como Harvey nos diz que:
“A humanidade não é esta ou aquela nação, é tudo junto, sempre juntos, venha o que vier.”
Pensativa foi minha reação à leitura de A voz de tempo, de Lenah Oswaldo Cruz. Por coincidência, horas depois, quando ainda estava sob o impacto da leitura, recebi de uma amiga, a conhecida frase de Luís Fernando Veríssimo: A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Esse seria um resumo parcial das contorções emocionais dos quatro personagens envolvidos nessa biografia familiar: Luiz, Dora, Victor e Lenah. Com ajuda da autora, navegamos pelos mares tempestuosos das paixões, dos amores e desejos de seus pais, e testemunhamos as consequências, o legado deixado aos filhos pelo comportamento destemperado dos progenitores.
Luiz era um homem de família muito pobre que encontrou na igreja um meio de se educar e trazer alívio às vicissitudes da pobreza em que ele e seus pais viviam. Inteligente, brilhante mesmo, com conhecimento acima de todos à sua volta, que a bela educação no seminário beneditino lhe proporcionou, Luiz não se tornou padre sem dúvidas sobre essa escolha. No entanto, não viu outro caminho aberto que pudesse preencher suas necessidades. Fervoroso, dedicado, segue pelo magistério até encontrar a belíssima aluna, que chega atrasada para sua primeira aula. Dora era de uma beleza estonteante. Mas mais que isso, era inteligente, interessada, devoradora de livros, capaz de sustentar um argumento intelectual melhor do que muitos homens de seu tempo. De espírito intrépido, desafiador, fazia o que queria sem as entravas sociais que a maioria respeitava. Vinha de uma família abastada, da alta sociedade. Duas pessoas fisicamente atraentes, que se encontram no respeito e na admiração pelo intelecto do outro. O incêndio amoroso é quase instantâneo. Mas ele é padre. Para ambos essa é uma paixão impossível, o que torna o relacionamento ainda mais intenso.
Victor e Lenah são as crianças dessa loucura. Luiz eventualmente deixa a batina, mas a vida não é fácil e Dora, a bela e rebelde mulher que conquista quem ela quiser, acaba desinteressada. Eventualmente, há outro homem no caminho. Um americano, também casado, também inteligente, belo e rico. Mas, essa paixão tem um preço para Dora: ela terá que não trazer seus filhos para o convívio diário do novo casal, depois que ambos, conseguindo o divórcio, se estabelecerem em novo casamento. Mas que divórcio? No Brasil da época não há divórcio. Há o desquite. E há um preconceito enorme contra os desquitados (principalmente a mulher nessa situação indefinida de status civil) e também contra as crianças frutos do relacionamento do casal que se separa. Pais não querem seus filhos em companhia dessas crianças, nem nenhum contato com seus progenitores. Esse é apenas um dos grandes empecilhos encontrados por essas quatro almas protagonistas dessa biografia de família. E volto à frase de Luís Fernando Veríssimo: A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
As crianças não só são deixadas de lado por Dora que verá os filhos nos anos vindouros sem frequência regular; mas Luiz também os abandona, porque olhar para a menina, que é a imagem da mãe, dói muito. Esse pai, ex-padre, passa a vida sem olhar para sua filha, olho no olho. Suas interações são sempre sem que ele a olhe no rosto. Luiz também se casa, com uma viúva, que traz para o casamento uma filha do relacionamento anterior, que ele trata muito melhor que a própria filha. Victor e Lenah são colocadas em colégios internos no Rio de Janeiro: ele no Anglo-Americano, na praia de Botafogo, enquanto Lenah vai para o Bennett, no Flamengo.
Lenah Oswaldo Cruz
Não pretendo dar a história completa da família biografada. Mas não posso deixar mencionar alguns pontos que me fizeram pensativa. É impressionante que em duzentas páginas se consiga identificar tantos sentimentos nesse imbróglio familiar. Sair dessa leitura sem meditar sobre o que move nossas almas: amor, ódio, paixão, reconciliação, traição, abandono, perdão, preconceito, coragem e tantos outros sentimentos primordiais, não teria sido uma leitura completa, digna do texto publicado. Somos também forçados a considerar o progresso que tivemos nas normas sociais do país. Não teria sido tão rica narrativa sem as memórias escritas de Luiz, lembranças de familiares, e experiência vivida por Victor e Lenah.
Essa é uma leitura impactante, que não nos deixa tempo para respirar. Viciante. Recomendo a todos. O livro está em sua segunda edição. Agora na Amazon em papel e eletrônico. Essa foi a segunda vez que li A voz do tempo. A primeira, foi no lançamento de 2017. Meu grupo de leitura Ao Pé da Letra, contudo, escolheu essa nova edição para leitura de agosto, já que a recente publicação (2025) está recebendo bastante atenção. Para nossa alegria tivemos a oportunidade de um encontro com a autora, após a leitura. Foi delicioso. Recomendo. Além da biografia há um esquete bastante repleto de surpresas da vida no Rio de Janeiro nas décadas de 30 a 50.
Faço questão de escrever minha avaliação sobre esse livro: ou a tradução não está boa, ou a escrita é falha. Não dá nem para decidir qual desses problemas é o maior. Sou leitora de muitos anos de literatura japonesa contemporânea e clássica. Encontrei nesse campo livros fenomenais, mas esse foge dessa experiência, por completo.
Ler um livro em que chego ao final sem saber: 1) quem está narrando, 2) é um homem? 3) é uma mulher? Não sei. E de repente achar que foram mais de um narradores… não faz sentido. O livro não tem inicio nem fim claros. Sei que deve ser um tipo realidade distópica. Mas distópico ficou o meu cérebro querendo saber exatamente por que? Por que estava lendo esse texto? Um livro pequeno que pareceu interminável.
E ganhou prêmios! E há resenhistas dando 5 estrelas! Meu palpite: não leram Dizer como a editora diz: uma literatura semelhante a do escritor checo Franz Kafka, mas atual e do Japão, é intencionalmente apontar para farsa. Tenho certeza de que se possível Kafka está revoltado em seu túmulo com essa comparação. Não gastem o seu dinheiro com esse livro. Li porque foi o livro escolhido por votação no meu grupo de leitura. Todos os participantes não gostaram inclusive aqueles que, como eu, chegaram até o fim. Porque a maioria abandonou no caminho.
O que ganhei com esse livro? Aprendi sobre um rodente sul-americano: núria. Acho que poderia ter vivido o resto de minha vida sem conhecê-lo. NOTA ZERO
Línguas, de Domenico Starnone, com tradução de Maurício Santana Dias, foi o terceiro livro do autor que li. Posso dizer que gostei de sua escrita desde que o encontrei em Assombrações(2018) e Laços(2017). Gosto imensamente de sua voz narrativa: calma, nostálgica, reflexiva. Sua escrita é de nuances. Ele não precisa abrir o jogo, contar tudo, tintim por tintim. Ele nos deixa espaço para imaginar e sonhar; ar para respirar e tempo para absorver o lugar, os sons, as memórias do autor que se imiscuem com as nossas.
Línguasé um pouco diferente dos outros que li. Menos fluido. Tem breque. É uma obra em dois tempos. Primeiro vemos o delicioso despertar do primeiro amor de um menino de oito ou nove anos, em Nápoles. Ele se apaixona por uma menina do edifício em frente ao dele. Ela é bem mais arrojada que ele, flerta com a morte, dançando no peitoril da varanda. Ela é diferente. Diferente de tudo que ele conhece. Ela não é como ele, do sul da Itália. Vem do norte e por isso, para surpresa do apaixonado garoto, ela fala com outro sotaque, usa vocabulário diverso, demonstra maneira de se expressar inesperada. A paixão dele, só aumenta. É o fascínio do outro, do desconhecido. Mas, para atrapalhar, no horizonte, há Lello, um amigo, que também se apaixona pela milanesa. Com o triângulo amoroso formado, a briga pela atenção da menina se desenvolve. Irão às vias de fato? Deixo isso para descoberta do leitor… Depois… temos a segunda parte dessa história. Os dois, que em criança haviam sido apaixonados por Emanuela, se encontram, são jovens adultos. Continuam a não se gostar e nesse encontro, e só então, Lello, o rapaz que sabe tudo de tudo, revela o verdadeiro destino da jovem bailarina de Milão.
Além da fascinante arte narrativa de Starnone, aprecio as diversas referências à literatura clássica em suas obras. Da mera alusão à mitologia greco-romana, aos contos medievais, vamos nos informando, circundando assuntos cujas menções ecoam e enriquecem o texto. Em Línguas, a própria abertura, o primeiro parágrafo ele já se refere ao trágico mito grego de Orfeu e Eurídice. A leitura atenta, já vislumbra, nas primeiras frases que abrem o texto, por causa dessa referência, um desfecho trágico, uma morte, quem sabe?
“Entre os oito e os nove anos de idade, decidi encontrar a fossa dos mortos. Tinha acabado de aprender nas aulas de italiano da escola a fábula de Orfeu e Eurídice debaixo da terra, onde ela havia ido parar por causa de uma picada de cobra. Eu planejava fazer o mesmo com uma menina que infelizmente não era minha namorada, mas que poderia vir a ser caso eu conseguisse tirá-la das profundezas da terra, enfeitiçando baratas, gambás, ratos e musaranhos.” [7]
Domenico Starnone
Línguas apresenta reflexões sobre dois temas constantemente ligados na literatura e no nosso emocional: amor e morte. Desde da Grécia antiga, e até antes disso, a relação entre essas duas profundas experiências fascinou poetas, escritores e filósofos. Por isso, não é surpresa que Starnone os considere, mesmo ao falar do primeiro amor — aquela paixão emocional que nasce na infância dos personagens, vista pelos olhos de quando eram crianças. Mas o texto é mais rico ainda, como complemento há contrastes entre juventude e velhice, línguas faladas tão próximas umas das outras e ainda assim estranhas. A riqueza do texto encanta e seduz.
Esse é um livro que aflora a sensibilidade do leitor. Não é repleto de fortes emoções ou de diálogos arrebatadores. Starnone é mais fino, dedica-se a tênues paralelos. As observações desse menino de nove anos são curiosas, engraçadas, trazem um leve humor para o texto, mas nem por isso deixam de ser perspicazes, deixam de elaborar complexos argumentos. Boa leitura. Dessas que adicionam. Recomendo sem restrições.
Este é o quarto livro de Chimamanda Ngozi Adichie que leio. Como outros leitores que gostam de sua escrita esperei dez anos para essa nova produção. Finalmente A contagem dos sonhos veio, trabalho pós pandemia, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Júlia Romeu. É óbvio que não há falta de assunto para a autora, nunca houve, por tudo que já li dela, Chimamanda continua loquaz na sua escrita.
A sensação que tive é que após alguns anos sem publicar, a autora tinha muito, muito mesmo, a dizer sobre mulheres e seus sonhos. O livro é extenso. Sinto que poderia ser dividido em dois excelentes romances com diferentes diretrizes. Isso porque ele relata desejos, sonhos e o cotidiano de quatro mulheres que lutam para se realizar economicamente, profissionalmente, além de preencherem seus destinos de esposas, amantes, mães e filhas. Não é um conjunto fácil de tarefas a concretizar. Essa luta, a persistência na busca, a procura do preenchimento do sonho é a coluna dorsal da obra. Ela trata das expectativas frustradas, dos obstáculos do dia a dia, e mostra a quase impossível ideia de casar sonho com realidade.
Não falta vontade, perseverança, educação ou dinheiro a três dessas mulheres: Chiamaka, Zicora e Omelogor, as três nigerianas. O caso de Kadiatou já é diferente desde de seu nascimento. Outra obra deveria ser escrita para ela. Originária da Guiné ela se faz adulta dentro dos ditames da educação muçulmana. Traz consigo os limites de seu papel social que diferem daqueles das outras três personagens, quando emigra, acaba sofrendo consequências traumáticas pelas quais não é responsável.
As quatro mulheres são apresentadas em sequência, e têm suas vidas levemente entrelaçadas. Chiamaka abre a narrativa. Ela é escritora-jornalista especializada em escrever colunas para revistas de viagem, vem de família rica, emigra para os EUA, não tem problemas financeiros e é apoiada pelos pais, mas não consegue encontrar um parceiro de vida adequado. Zikora, a segunda que conhecemos, é amiga de Chiamaka e pode até ter sido apresentada ao leitor anteriormente, já que sua história apareceu como um conto independente, em 2020, Zikora, pela Amazon Original Stories. Lá, é personagem principal. Aqui, a mesma história: advogada de sucesso em Washington DC, que se vê igualmente lograda na escolha de um companheiro de vida. Quando engravida é deixada de lado pelo homem que ama. Foi durante o parto e nos dias subsequentes que conseguiu perceber as dificuldades que sua mãe teve, e consegue reconciliar seu desejo com o que sua mãe imagina para ela e o neto. Omelogor, é prima de Chiamaka, mas as duas não poderiam ser mais diferentes. Ela também se muda para os Estados Unidos para estudar. Tem muito sucesso no campo das finanças. Mostra também seu lado de defensora das mulheres quando dá conselhos para homens, incentivando-os a agir de maneira mais ‘civilizada’ em seu blog. Entra em controvérsias, mas é autêntica. Das três nigerianas, ela é a personagem mais tridimensional, suas faltas, pecados, erros de julgamento a fazem uma pessoa completa. Talvez seja a mais interessante das nigerianas.
Chimamanda Ngozi Adichie
Finalmente, na sequência, temos a história de Kadiatou, comovente, triste, de grande poder dramático. Sua relação com as outras mulheres retratadas é que ela foi empregada de Chiamaka, e vai para os EUA, asilada, procurando uma vida melhor para sua filha. Essa história, completamente diferente das outras, até mesmo no tom, lembra um caso real que chegou às manchetes dos jornais por volta de 2011, quando de uma camareira de hotel foi abusada por um homem de negócios de alto nível, em Nova York. Para mim, essa história deveria ser um livro à parte. Principalmente porque na seção final quando voltamos a saber de Chiamaka — cujo relato fecha o livro — percebemos ainda com maior precisão a diferença de tom usado nas três primeiras narrativas, e a dela. E também os problemas que afetam Kadiatou serem de muito maior grandeza do que os enfrentados pelas outras.
O que as une é a constante procura do amor e da felicidade. Todas acabam frustradas pelos homens que escolhem, pelas escolhas que fazem ou pelas pressões sociais. Com esse perfil fica óbvio que Chimamanda Ngozi Adichie continua dando voz às frustrações das mulheres que lutam contra o machismo, o racismo e desigualdades sociais. Tudo dentro do tradicional perfil de suas obras, que conquistaram, a cada publicação, milhares de leitores devotos. Mas neste livro acredito que ela poderia ter sido mais sucinta. O livro é longo. E se arrasta em algumas passagens. Para mim, sua melhor obra até hoje, mais redonda, mais completa, é Meio Sol Amarelo, narrativa de grande impacto. Se você nunca leu Chimamanda Ngozi Adichie, recomendo que comece com Hibisco Roxo, o mais leve e mais direto de seus romances. Mas recomendo A contagem dos sonhos com as restrições mencionadas acima.
De cinco estrelas, no máximo eu lhe daria entre três e quatro. Mas não há meios pontos nesse jogo. Fico com quatro, em admiração por todo trabalho dessa escritora.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Museo d’Arte Moderna e Contemporanea di Trento e Rovereto
A carteira, de Francesca Giannone, traduzido para o português por Roberta Sartori [Editora LVM: 2024] , é o primeiro romance da autora, chamada por alguns como uma “segunda Elena Ferrante“. Esse livro foi vencedor do Prêmio Bancarella de 2023. A comparação com Ferrante talvez seja uma das razões de seu grande sucesso – mais de 625.000 livros vendidos em 2023. Só a localização italiana, acompanhando a narrativa sobre uma mulher e sua família, amigos e parentes, no entanto, não é suficiente para transformá-la em uma segunda autora com potencial de ser universalmente aclamada. Falta-lhe a riqueza nos detalhes relevantes, e o desenvolvimento psicológico dos personagens esboçados para que a comparação se justifique.
Uma história com ingredientes interessantes que se perde, nas quatrocentas e mais páginas: detalhes desimportantes, com laudas facilmente subtraíveis, sobretudo no último terço, sobre a construção da Casa da Mulher. A sinopse parecia boa: uma mulher do norte da Itália se casa com um italiano do sul e vai morar com ele na Puglia, onde ele se encarrega de desenvolver uma vinícola, nas terras que herdou. Anna o acompanha. Dona de um espírito independente, culta, leitora, acaba trabalhando como carteira da cidade, após concurso, quando quebra as expectativas de todos, familiares e habitantes locais, por trabalhar numa posição até então ocupada por homens. Considerada uma estranha no ninho, por seus hábitos e linguagem de outra região, ela teria a oportunidade de conhecer e interagir com os habitantes de Lizanello, [Lecce] entregando cartas e telegramas para toda a população.
No entanto, essa troca entre habitantes e Anna não é explorada pela autora, ainda que seja sugerida na sinopse. O livro se arrasta cobrindo algumas décadas da vida da carteira, enquanto a trama se perde no núcleo familiar de Anna, seu marido Carlo e filho Roberto; na atração que Antonio, irmão de Carlo, tem por Ana, no passado de Carlo, familiares, filhos legítimos ou não, e um ou outro personagem como Giovanna vítima de um relacionamento abusivo com um padre. Mas se espremermos o conteúdo temos uma novela televisiva, em que intrigas e amores proibidos são alimento para um longo volume que merecia bom editor, para cortar cenas inúteis, diálogos que não levam a nada e enchem o leitor de informação espúria para a trama.
Terminei o livro com a sensação de tempo perdido. É superficial. É adolescente. Não é livro para leitor maduro. Francesca Giannone poderia e deveria entregar mais. Percebi nela algumas características que costumo ver nos escritores de primeira viagem. Sua obra poderia ser melhorada com a assistência de um bom editor. Pergunto-me : para que um prólogo? Em que ele ajudou nessa narrativa? Outros detalhes de primeiros romances: muitos personagens nomeados que aparecem uma única vez e não participam mais do resto da trama. Uma das primeiras regras de uma boa edição: personagens com nomes devem ser sempre aqueles que o leitor precisa gravar para entender o enredo. Enfim, há espaço para melhorias na escrita. Mas é preciso que a autora e que seus editores queiram que isso aconteça, e que não se deitem no sucesso da primeira obra, porque pode ser que não se sustente. Francesca Giannone toca em assuntos queridos na atualidade: emancipação feminina, mulheres trabalhando, votando, mulheres em profissões fora do esperado, mudança em preconceitos sociais. Mas não se aprofunda em nenhum desses aspectos. Tudo não passa de conversa fiada, de um aceno ao espírito da época.
Francesca Giannone
Uma palavra sobre a edição brasileira: deveria ter tido mais rigor na revisão. Aponto aqui alguns problemas que saltaram aos olhos: duas maneiras de escrever o nome Agata ou Agatha. Ambos aparecem no texto. Há frases inteiras que não fazem sentido, mostro algumas mas há mais. Imagino serem resultado de uma revisão final pela inteligência artificial que não distingue homônimos ou que deixa passar a palavra correta na ordem errada. 1) “Ela havia ficara em recuperação.” [169]; “ele cresceu de forma surpreendentemente” [228]; “No final, ele dará há algo para ele também” [350] “A dela mãe a expulsou de casa” [433].
Não recomendo. Preferiria dar uma estrela negativa, mas não posso. Fica uma estrela pelo esforço da escritora, pela tradução e alguns pontos a menos pela revisão editorial. Não conheço essa editora. Não começamos com o pé direito. Espero que melhorem no futuro. Não pretendo colocar o Prêmio Bancarella entre aqueles cujos vencedores farão parte da minha lista de futuras leituras. Ver que esse prêmio existe há setenta e dois anos e que teve como vencedores Ernest Hemingway (1953), Boris Pasternak (1958), Oriana Fallacci (1970); Umberto Eco (1989) entre outros conhecidos nomes da literatura mundial é surpreendente. Não sei o que houve em 2023.
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