Morres de fraco? Morres de atrevido. – Soneto de Bocage

6 11 2012

Leitora, 1921

Eugen Spiro (Alemanha, 1874-1972)

óleo sobre tela

Sammlung F.Benjamin, Berlim-Grünewald

VIII

Bocage

Aflito coração, que o teu tormento,

Que os teu desejos tácito devoras,

E ao  doce objeto, às perfeições adoras,

Só te vás explicar co(m) pensamento.

Infeliz coração, recobra alento,

Seca as inúteis lágrimas, que choras;

Tu cevas o teu mal, porque demoras

Os voos ao ditoso atrevimento.

Inflama surdos ais, que o medo esfria;

Um bem tão suspirado, e tão subido,

Como se há de ganhar sem ousadia?

Ao vencedor afoute-se o vencido;

Longe o respeito, longe a cobardia;

Morres de fraco? Morres de atrevido.





Quadrinha da lição do xadrez

2 11 2012

Ilustração de autoria desconhecida.

O xadrez repete a vida

em sucessivas lições:

quando a nobreza é atingida

sacrificam-se os peões.

(Sinval Emílio da Cruz)





Quadrinha da solidão

25 10 2012

Trem, ilustração de George Willamson.

Na velha Estação de Trem,

que a Solidão dominava,

eu acenei a ninguém,

fingindo que alguém chegava…

(Otávio Venturelli)





O cabrito, poema de José Paulo Moreira da Fonseca

23 10 2012

Cabrito, gravura antiga.

O cabrito

José Paulo Moreira da Fonseca

Povoaste a paisagem grega

————–guardas um timbre clássico algo de conciso

ágil e jovem — quem negaria? — basta ver-te sobre os abismos

sem receio ou vertigem

—————como a vida

Em: Antologia Poética, José Paulo M. F., Rio de Janeiro, Leitura: 1968





Quadrinha dos meus amigos

19 10 2012

Para mantê-los me empenho,
porque penso sempre assim:
tendo os amigos que tenho,
eu nem preciso de mim!

(Izo Goldman)





Minha Aldeia, poema de Antonio Gedeão

18 10 2012

Vista parcial de Ouro Preto, s/d

Mário Agostinelli (Peru 1915 – Brasil, 2000).

óleo sobre tela colada em madeira, 47 x 56 cm

Minha aldeia

Antonio Gedeão

Minha aldeia é todo o mundo.

Todo o mundo me pertence.

Aqui me encontro e confundo

com gente de todo o mundo

que a todo o mundo pertence.

Bate o sol na minha aldeia

com várias inclinações.

Ângulo novo, nova ideia;

outros graus, outras razões.

Que os homens da minha aldeia

são centenas de milhões.

Os homens da minha aldeia

divergem por natureza.

O mesmo sonho os separa,

a mesma fria certeza

os afasta e desempara,

rumorejante seara

onde se odeia em beleza.

Os homens da minha aldeia

formigam raivosamente

com os pés colados ao chão.

Nessa prisão permanente

cada qual é seu irmão.

Valências de fora e dentro

ligam tudo ao mesmo centro

numa inquebrável cadeia.

Longas raízes que imergem,

todos os homens convergem

no centro da minha aldeia.

Em: Poesias completas (1956-1967), coleção Poetas de hoje, Lisboa, Portugália:s/d

Rômulo Vasco da Gama de Carvalho , rambém conhecido pelos pseudônimos : Antonio Gedeão ou por Rômulo de Carvalho. (Portugal,  1906-1997)  Poeta, professor e historiador da ciência portuguesa.  Teve um papel importante na divulgação de temas científicos, colaborando em revistas da especialidade e organizando obras no campo da história das ciências e das instituições.  Revelou-se como poeta apenas em 1956, com a obra Movimento Perpétuo.

Obras poéticas:

Movimento perpétuo, 1956

Teatro do Mundo, 1958

Máquina de Fogo, 1961

Poema para Galileu 1964

Linhas de Força, 1967

Poemas Póstumos, 1983

Novos Poemas Póstumos, 1990





Quadrinha do meu feitiço

13 10 2012

Ilustração de autoria desconhecida.

Pensei fazer um feitiço

para esquecer-te, mas vi

que de tanto pensar nisso

é que penso mais em ti.

(Lilinha Fernandes)





Primavera, Mário Quintana

7 10 2012

Primavera, Ilustração Marie Cramer.

Canção da Primavera

Mário Quintana

(Para Érico Veríssimo)

 –

Primavera cruza o rio

Cruza o sonho que tu sonhas.

Na cidade adormecida

Primavera vem chegando.

 –

Catavento enloqueceu,

Ficou girando, girando.

Em torno do catavento

Dancemos todos em bando.

 –

Dancemos todos, dancemos,

Amadas, Mortos, Amigos,

Dancemos todos até

Não mais saber-se o motivo…

Até que as paineiras tenham

Por sobre os muros florido!

Em: Canções, de Mario Quintana, Rio de Janeiro, Globo: 1946





Quadrinha do aluno confuso

3 10 2012

Pergunta a mestra ao menino,
aluno meio confuso:
– a porca… tem masculino?
– tem, ‘fessora… o parafuso!

(Edmar Japiassú Maia)





Borboletas são? poema de Maria Helena Sleutjes

2 10 2012

Borboletas, ilustração de Brita Barlow, para capa da revista americana Better Homes & Garden, de setembro de 1933.

Borboletas são?

Maria Helena Sleutjes

Borboletas, como explicar?

São insetos…

Nem pensar!

São pedaços coloridos

Que voam.

Isto sim!

São as almas das flores

Visitando os jardins.

Isto sim!

Borboletas, como explicar?

São Lepidópteras…

Nem pensar!

São reflexos de anjos

Que flutuam.

Isto sim!

Borboletas

São pequenas bailarinas

São crianças dançarinas

Pedaços de serpentinas

No canto do meu olhar.

 –