Quadrinha do segredo da felicidade

1 10 2012

Cascão dá flores para Mônica, ilustração de Maurício de Sousa.

Sei que não foge à verdade,
você também pode crer;
em amor, felicidade
é dar mais que receber.


(Nice Nascimento)





O morcego, soneto de Da Costa e Silva

30 09 2012

Morcego, ilustração sem autoria da década de 1920.

O morcego

Da Costa e Silva

Como uma borboleta escura e desconforme,

Suspenso pelos pés com o instintivo emprego

Das garras que o sustém, o mórbido morcego,

Tonto de sono e luz, durante o dia dorme.

Dorme durante o dia; e à noite, ei-lo, conforme

É costume, senhor do pávido sossego,

Abrindo o membranoso e elástico refego

Das asas que-lhe dão um todo demiforme.

Rasgando, em largo voo, a treva ampla e uniforme,

O noturno avejão guincha em desassossego,

A pupila incendida a arder na noite enorme.

E é de ver-se, depois, em lânguido aconchego,

As asas a abanar sobre o animal que dorme,

O sanguinário egoísmo em forma de morcego.

Em: Poesias Completas, Da Costa e Silva, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário]

Antônio Francisco da Costa e Silva ( Brasil, [PI] 1885 — [RJ] 1950) poeta, jornalista.  Advogado, cursou a  Faculdade do Direito do Recife. Trabalho no Ministério da Fazenda.

Obras:

Sangue (1908),

 Elegia dos Olhos, s/d

Poema da Natureza, s/d

Clepsidra, s/d

 Zodíaco (1917),

 Verhaeren (1917),

Pandora (1919),

Verônica (1927),

Alhambra (1925-1933), obra póstuma inacabada,

 Antologia (coleção de poemas publicada em vida – 1934),

Poesias Completas (1950) (1975) (1985), coletânea póstuma.





Os relógios, poema de Décio Valente

26 09 2012

Ilustração Kaili.

Os relógios

Décio Valente

Sempre andando,

sem parar um segundo,

vão eles,

em monótono tique-taque,

levando o Tempo

nos finos braços,

que se enlaçam

em contínuos abraços

e marcam,

minuto a minuto,

a pontualidade

das horas tristes e alegres,

que passam…

Em: Cantiga Simples: poesias, Décio Valente, São Paulo:1971





Andorinhas, poesia de Stella Leonardos

23 09 2012

Andorinhas no galho, aquarela, Sherri Friesman.

Andorinhas

Stella Leonardos

Namoradas do sol, andorinhas inquietas,

Poesia dos beirais de asas leves e errantes!

Vocês vêm vocês vão como versos trissantes

De sílabas azuis, de rimas incompletas.

Andorinhas azuis de revoadas constantes!

Você me lembram sempre a saudade dos poetas

Incansáveis da altura e dos céus mais distantes.

Em: Pedra no Lago, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p. 27

Stella Leonardos da Silva Lima Cabassa (Rio de Janeiro RJ, 1923). Poeta, tradutora, romancista, com mais de 70 obras publicadas, em poesia, prosa, ensaios, teatro, romances e literatura infantil.  Considerada membro expoente da 3ª geração de poetas modernistas.  Um dos maiores nomes da poesia contemporânea no Brasil.





Quadrinha da árvore pelo DIA DA ÁRVORE — 21 de setembro!

21 09 2012

Ilustração Arthur Sarnoff.

Criança, nunca te esqueças

Que as árvores são sagradas;

Nós devemos defendê-las

Das criaturas malvadas.

(Walter Nieble de Freitas)





Divertimento, poesia de Henriqueta Lisboa

17 09 2012

Ilustração Elizabeth Webbe, 1963.

Divertimento

Henriqueta Lisboa

O esperto esquilo

ganha um coco.

Tem olhos intranquilos

de louco.

Os dentes finos

mostra. E em pouco

os dentes finca

na polpa.

Assim, com perfeito estilo,

sob estridentes

dentes,

o coco, em segundos, fica

oco.

Em: Nova Lírica: poemas selecionados, Henriqueta Lisboa, Belo Horizonte, Imprensa Oficial: 1971





Trova (Quadrinha) da primavera!

14 09 2012

Ilustração de Sylvie Daigneault.

Primavera colorida,

estação de belas flores!

A primavera da vida

lembra a estação dos amores.

(Lêda Terezinha de Oliveira)





Quadrinha da natureza

10 09 2012

Ilustração de autoria desconhecida.

Contemplando a natureza,
eu exclamo embevecido:
“Para ver tanta beleza,
como foi bom ter nascido!”

(Djalda Winter Santos)





A cidade, poesia de Luís Pimentel

8 09 2012

Dia de chuva em São Paulo, 2009

Carmelo Gentil Filho (Brasil, 1955)

óleo sobre tela, 80 x 110 cm

www.cgentil.com.br

A cidade

Luís Pimentel

Uma cidade não é medida

por becos e logradouros,

nem lembra contas e cálculos

que a gente parte e reparte.

A cidade é o que fica:

solidão, engenho e arte.

Uma cidade é um rosário,

voltando sempre ao começo.

Não é o filho querido,

que quando cresce evapora.

A cidade  é o que se conta

no calcanhar da memória.

Em: O calcanhar da memória, Luís Pimentel, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil: 2004





Narciso e o Regato — poema de Bastos Tigre

2 09 2012

Eco e Narciso, 1903

John William Waterhouse (Inglaterra, 1849-1917)

óleo sobre tela, 109 x 189 cm

Walker Art Gallery, Liverpool

Narciso e o Regato

Bastos Tigre

Sobre um tema de Oscar Wilde

Morreu Narciso. A triste nova

Correu, veloz, vale e colina,

Em luto, as flores todas da campina,

De pesar como prova,

Choraram longamente a morte de Narciso.

De repente, cessou o alegre riso

Que enchia o campo todas as manhãs.

Narciso era a beleza

Que iluminava a Natureza

E espalhava no espaço harmonias pagãs.

Por isso as flores todas da campina

Choraram tanto, tanto,

Que já não tinha gotas a neblina

Com que pudesse alimentar o pranto

Das desoladas flores.

Resolveram pedir a linfa cristalina

Do regato, um bocado de sua água;

E falaram-lhe assim:  — Narciso é morto!

À  nossa dor à nossa funda mágoa

O pranto falta que nos dê conforto.

Dá-nos uma pouco de tua água pura.

Mas o regato retorquiu: — Não posso…

Meu sofrimento inda é maior que o vosso!

A água que tenho não me basta

Para afogar a minha própria dor…

Sabeis? Narciso a sua face linda

Mirava, todo o dia, em minha face…

— E amavas tanto vê-lo? interroga uma flor

— Não é que o não amasse

(Volve o regato) mas o meu desgosto

Aqui vo-lo revelo,

Não é a falta de lhe ver o rosto

Mas porque, quando em mim se contemplava,

Nos olhos de Narciso eu me mirava

E me achava tão belo! E me achava tão belo!

Em: Antologia Poética, Bastos Tigre, vol. I, Rio de Janeiro, Editora Francisco Alves: 1982