Ilustração, Harry Sundblom.
Enquanto eu tirava espinhos
das rosas que te ofertava,
deixavas nos meus caminhos
os espinhos que eu tirava…
(Izo Goldman)
Enquanto eu tirava espinhos
das rosas que te ofertava,
deixavas nos meus caminhos
os espinhos que eu tirava…
(Izo Goldman)
Paula Brito
Amo-te… e de te amar não me arrependo,
Bem que seja este amor, amor perdido!
Oh! se nunca te houve conhecido,
No fogo, em que ardo, não vivera ardendo!
Vejo o que fazes, e estou nisso vendo
Rasgos de amor de um coração ferido!
Também amei, também tenho sofrido,
Amo também, também estou sofrendo!…
Não me queixo de ti, não, certamente;
O teu futuro, por teu mal, te obriga
Ao penoso martírio do presente!
Aqui tens a razão que a ti me liga:
“Se te sigo, me pedes que me ausente;
Se me ausento, me pedes que te siga!…”
Em: Poesias, Francisco de Paula Brito, Rio de Janeiro, 1863, edição digitalizada, Biblioteca Nacional.
PS: atualizei ao máximo a ortografia que já mudou muito nestes últimos 150 anos.
Vicente de Carvalho
Olhos encantados, olhos cor do mar
Olhos pensativos que fazeis sonhar!
Que formosas cousas, quantas maravilhas
Em vos vendo sonho, em vos fitando vejo:
Cortes pitorescos de afastadas ilhas
Abanando no ar seus coqueirais em flor,
Solidões tranquilas feitas para o beijo,
Ninhos verdejantes feitos para o amor…
Olhos pensativos que falais de amor!
Vem caindo a noute, vai subindo a lua…
O horizonte, como para recebê-las,
De uma fímbria de ouro todo se debrua;
Afla a brisa, cheia de ternura ousada,
Esfrolando as ondas, provocando nelas
Bruscos arrepios de mulher beijada…
Olhos tentadores da mulher amada!
Uma vela branca, toda alvor, se afasta
Balançando na onda, palpitando ao vento;
Ei-la que mergulha pela noute vasta,
Pela vasta noute feita de luar;
Ei-la que mergulha pelo firmamento
Desdobrado ao longe nos confins do mar…
Olhos cismadores que fazeis cismar!
Branca vela errante, branca vela errante,
Como a noite é clara! como o céu é lindo!
Leva-me contigo pelo mar… Adiante!
Leva-me contigo até mais longe, a essa
Fímbria do horizonte onde te vais sumindo
E onde acaba o mar e de onde o céu começa…
Olhos abençoados, cheios de promessa!
Olhos pensativos que fazeis sonhar,
Olhos cor do mar!
(Poemas e canções, 1908)
Em: Eu hei de voltar um dia, Pedro Homem de Mello, Editora Ática, 1966
Na vida do corre-corre,
muito bom é um descanso.
Para que saúde jorre,
pratique um esporte manso.
(Antonio Miguel Cestari)
Na lareira, um cobertor;
bule quente com café;
um romance ao bom leitor
neste inverno o prazer é…
(Fábio Siqueira do Amaral)
Ferrovia
Dario Mecatti (Itália-Brasil, 1909-1976)
óleo sobre tela, 49 x 61 cm
José do Carmo Francisco
Um comboio que partisse
Sem sair da estação
No lado esquerdo da linha
Transporte dum coração
Um comboio que chegasse
Na ânsia de não saber
Qual janela escolhida
No trânsito desta mulher
Afinal sombra, um modelo
Visto apenas de passagem
O comboio não se deteve
Não era minha viagem
Afinal pó de um momento
Registrado num poema
Se o comboio esteve aqui
Era o mesmo do cinema
Em: As emboscadas do esquecimento, José do Carmo Francisco, Santarém, Ed. O Mirante:1999, p.40
Jovem lendo
Pietro Scoppetta (Itália,1863-1920)
óleo sobre tela , 75 x 38 cm
Não conhecia Júlia Cortines. Fiquei encantada. Sou leitora assídua de poesia brasileira e de outros países em língua portuguesa. Júlia Cortines me surpreendeu. Tive vontade de decorar todos os seus sonetos! De grande sensibilidade. Vale a pena conhecer. Li e baixei da internet. A introdução de Lucio Miranda também vale a pena ler.
Tive vontade de ter escrito alguns de seus poemas, ainda que usem de palavras mais século XIX do que usamos hoje. Suas poesias sobre a natureza e sobre o amor perdido, valem a leitura e se quisermos até mesmo uma olhadinha no dicionário, ainda que não seja essencial.
Livro: Versos e Vibrações, (1894) Júlia Cortines, com prólogo de Lucio de Mendonça, Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 2010
Samba, 1928
Emiliano Di Cavalcanti (Brasil,1897-1976)
óleo sobre tela, 64 x 49 cm
Coleção Fadel
Batista Cepelos
Na noite em que algum santo se festeja,
Junto à fogueira, o samba principia,
Logo o pandeiro elástico estrondeja,
Ronca e muge o tambor, numa porfia.
Que extravagante, singular peleja:
Este, rapidamente rodopia;
Aquele, desconjunta-se e rasteja,
Numa parafusante cortesia.
E, em lânguido meneio, as raparigas,
Agitando os vestidos encarnados,
Cantarolam estrídulas cantigas.
E, no ardor da frenética loucura,
Os pares, em pinotes compassados,
Veia juntando cintura com cintura.
Maria Dinorah
Menina das brancas asas,
dó, ré, mi, fá, sol, lá, si,
quando passas pelas casas,
canta a rua e o céu sorri.
Tanto encanto há no seu jeito
feito de campo e açucena,
que as águas dançam no leito
enquanto a lua te acena.
Um anjo morre de inveja,
um astro morre de amor
ao ver-te cor de cereja,
tingindo o mundo de cor.
Menina, tão menininha,
nem sabes que és uma flor!