Trova das rosas e espinhos

2 10 2024
Ilustração,  Harry Sundblom.

 

 

Enquanto eu tirava espinhos
das rosas que te ofertava,
deixavas nos meus caminhos
os espinhos que eu tirava…

(Izo Goldman)





Soneto LXXII, de Paula Brito

16 09 2024
Ilustração de Walter Crane, 1878

 

 

Soneto LXXII

 

Paula Brito

 

“Quem pode ver-te sem querer amar-te!
Quem pode amar-te sem morrer de amores!…
(Maciel Monteiro)

 

 

Amo-te… e de te amar não me arrependo,

Bem que seja este amor, amor perdido!

Oh! se nunca te houve conhecido,

No fogo, em que ardo, não vivera ardendo!

 

Vejo o que fazes, e estou nisso vendo

Rasgos de amor de um coração ferido!

Também amei, também tenho sofrido,

Amo também,  também estou sofrendo!…

 

Não me queixo de ti, não, certamente;

O teu futuro, por teu mal, te obriga

Ao penoso martírio do presente!

 

Aqui tens a razão que a ti me liga:

“Se te sigo, me pedes que me ausente;

Se me ausento, me pedes que te siga!…”

 

 

Em: Poesias, Francisco de Paula Brito, Rio de Janeiro, 1863, edição digitalizada, Biblioteca Nacional.

PS: atualizei ao máximo a ortografia que já mudou muito nestes últimos 150 anos.





Olhos verdes, poema de Vicente de Carvalho

23 08 2024
Ilustração de revista, anos 60.  Ignoro a autoria.

 

 

Olhos Verdes

 

Vicente de Carvalho

 

Olhos encantados, olhos cor do mar

Olhos pensativos que fazeis sonhar!

Que formosas cousas, quantas maravilhas

Em vos vendo sonho, em vos fitando vejo:

Cortes pitorescos de afastadas ilhas

Abanando no ar seus coqueirais em flor,

Solidões tranquilas feitas para o beijo,

Ninhos verdejantes feitos para o amor…

 

Olhos pensativos que falais de amor!

Vem caindo a noute, vai subindo a lua…

O horizonte, como para recebê-las,

De uma fímbria de ouro todo se debrua;

Afla a brisa, cheia de ternura ousada,

Esfrolando as ondas, provocando nelas

Bruscos arrepios de mulher beijada…

Olhos tentadores da mulher amada!

 

Uma vela branca, toda alvor, se afasta

Balançando na onda, palpitando ao vento;

Ei-la que mergulha pela noute vasta,

Pela vasta noute feita de luar;

Ei-la que mergulha pelo firmamento

Desdobrado ao longe nos confins do mar…

Olhos cismadores que fazeis cismar!

 

Branca vela errante, branca vela errante,

Como a noite é clara! como o céu é lindo!

Leva-me contigo pelo mar… Adiante!

Leva-me contigo até mais longe, a essa

Fímbria do horizonte onde te vais sumindo

E onde acaba o mar e de onde o céu começa…

Olhos abençoados, cheios de promessa!

Olhos pensativos que fazeis sonhar,

         Olhos cor do mar!

 

                  (Poemas e canções, 1908)





A Pátria, poesia de Pedro Homem de Mello

15 08 2024
Os clássicos infantis, Yvonne Gilbert (Inglaterra, 1951, English)

 

 

Pátria

Pedro Homem de Mello
 
 
A Pátria não é apenas

Um corpo de bailador.

Não são duas mãos morenas

Nem mesmo um beijo de amor

Mais do que os livros que lemos,

Mais que os amigos que temos,

Mais até que a mocidade,

A Pátria, realidade,
 

Em: Eu hei de voltar um dia, Pedro Homem de Mello, Editora Ática, 1966





Trova do esporte

5 08 2024
Bom jogo para dois ou mais, 1865 John Leech (Inglaterra, 1817-1864)

 

Na vida do corre-corre,

muito bom é um descanso.

Para que saúde jorre,

pratique um esporte manso.

 

(Antonio Miguel Cestari)





Trova do inverno

22 07 2024
Ilustração, para Life Magazine, 1940,  Albert Dorne (EUA, 1904-1965).

 

 

Na lareira, um cobertor;

bule quente com café;

um romance ao bom leitor

neste inverno o prazer é…

 

(Fábio Siqueira do Amaral)





Estação, poema de José do Carmo Francisco

11 07 2024

Ferrovia

Dario Mecatti (Itália-Brasil, 1909-1976)

óleo sobre tela, 49 x 61 cm

 

 

 

Estação

 

José do Carmo Francisco

 

Um comboio que partisse

Sem sair da estação

No lado esquerdo da linha

Transporte dum coração

 

Um comboio que chegasse

Na ânsia de não saber

Qual janela  escolhida

No trânsito desta mulher

 

Afinal sombra, um modelo

Visto apenas de passagem

O comboio não se deteve

Não era minha viagem

 

Afinal pó de um momento

Registrado num poema

Se o comboio esteve aqui

Era o mesmo do cinema

 

Em: As emboscadas do esquecimento, José do Carmo Francisco, Santarém, Ed. O Mirante:1999, p.40





Resenha: Versos e Vibrações de Júlia Cortines

29 06 2024

Jovem lendo

Pietro Scoppetta (Itália,1863-1920)

óleo sobre tela , 75 x 38 cm

 

Não conhecia Júlia Cortines. Fiquei encantada. Sou leitora assídua de poesia brasileira e de outros países em língua portuguesa. Júlia Cortines me surpreendeu. Tive vontade de decorar todos os seus sonetos! De grande sensibilidade. Vale a pena conhecer. Li e baixei da internet. A introdução de Lucio Miranda também vale a pena ler.

Tive vontade de ter escrito alguns de seus poemas, ainda que usem de palavras mais século XIX do que usamos hoje. Suas poesias sobre a natureza e sobre o amor perdido, valem a leitura e se quisermos até mesmo uma olhadinha no dicionário, ainda que não seja essencial.

 

Livro: Versos e Vibrações, (1894) Júlia Cortines, com prólogo de Lucio de Mendonça, Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 2010

 

 





O samba, poesia de Batista Cepelos

15 06 2024

Samba, 1928

Emiliano Di Cavalcanti (Brasil,1897-1976)

óleo sobre tela, 64 x 49 cm

Coleção Fadel

 

 

O samba

 

Batista Cepelos

 

Na noite em que algum santo se festeja,
Junto à fogueira, o samba principia,
Logo o pandeiro elástico estrondeja,
Ronca e muge o tambor, numa porfia.

Que extravagante, singular peleja:
Este, rapidamente rodopia;
Aquele, desconjunta-se e rasteja,
Numa parafusante cortesia.

 

E, em lânguido meneio, as raparigas,
Agitando os vestidos encarnados,
Cantarolam estrídulas cantigas.

 

E, no ardor da frenética loucura,
Os pares, em pinotes compassados,
Veia juntando cintura com cintura.

 

 

 





Flor, poema de Maria Dinorah

24 05 2024
Ilustração de Nellie Benson, 1910
 
 
Flor

 

Maria Dinorah

 

Menina das brancas asas,

dó, ré, mi, fá, sol, lá, si,

quando passas pelas casas,

canta a rua e o céu sorri.

Tanto encanto há no seu jeito

feito de campo e açucena,

que as águas dançam no leito

enquanto a lua te acena.

Um anjo morre de inveja,

um astro morre de amor

ao ver-te cor de cereja,

tingindo o mundo de cor.

Menina, tão menininha,

nem sabes que és uma flor!