Quadrinha do amigo

25 03 2014

Amigos, Mark ArianAmigos, Mark Arian

Amigo é um grande tesouro

guardado com muito jeito.

A chave é talhada a ouro,

a fechadura é no peito.

(José Carlos Gomes)





Boizinho velho, poesia de Henriqueta Lisboa

19 03 2014

dp_26-06-2013_03Boi no pasto, 2013

Cristina Jaco (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 40 x 50 cm

www.cristinajaco.art.br

Boizinho velho

Henriqueta Lisboa

Boizinho de olhos cansados

boizinho de olhos compridos

sentado nas quatro patas

numa curva do caminho.

Os carros subindo o morro

(boizinho agora se lembra)

cantavam — ou era um choro?

Mas isso foi no outro tempo.

Em: Nova Lírica, Henriqueta Lisboa, Belo Horizonte, Imprensa Oficial: 1972, p.36





Quadrinha da sombrinha

17 03 2014

mulher-na-chuvaIlustração Sérgio Bastos.

De onde vens hoje, ó vizinha,

que assim às tontas, ao léu,

– na curva azul da sombrinha

pareces trazer o céu?

(Gentil Fernando de Castro)





Sombra, poema de Flora Figueiredo

16 03 2014

Jan Catharinus Adriaan GoedhartA carta, 1930

Jan Catharinus Adriaan Goedhart(Holanda, 1893 – 1975)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

Coleção Particular

Sombra

Flora Figueiredo

Tem um lugar no meu quarto

em que a luz não entra.

Tudo que se tenta

não dá certo.

Em vão tirar telha,

abrir janela,

furar o teto.

Postou-se ali um escuro

soturno e quieto,

recentemente diagnosticado.

É uma fração de passado

que o tempo não leva

para não rever fatos,

e que a vida ceva

porque é da vida conservar mandatos.

Para que o escuro seja então cassado,

é preciso um clarão qualificado,

capaz de sorvê-lo em sucção;

que durante o processo de deglutição

use artimanha,

até transformá-lo em cavidade.

É nesse vão que vai florar felicidade,

parida da entranha do bicho-papão.

Em: Amor a céu aberto, Flora Figueiredo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1992, p. 101.





Quadrinha do verdadeiro amigo

13 03 2014

doente, dodoi, Margret BorissIlustração de Margret Boriss.

Somente um bem acontece

quando a gente cai doente:

aí é que se conhece

quem é amigo da gente.

(Aloísio Alves da Costa)





Namoro em tom menor, poesia de Stella Leonardos

11 03 2014

Cartão Postal da virada do século XIX para o XX.

Namoro em tom menor

Stella Leonardos

— Eu fui andando

Por um caminho.

— Eu fui também.

— Eu vi cantando

Um passarinho.

— Eu vi também.

— Ia pensando

Em fazer ninho.

— Você também?

Em: Fantoches, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1956





Carnaval, poema de Afonso Louzada

5 03 2014

CESAR LACANNA - (1901 - 1983) - Carnaval - a - 32 x 23 - cid - 1966Carnaval, 1966

César Lacanna (Brasil 1901-1983)

aquarela sobre papel

Carnaval

Afonso Lousada

E foi-se o Carnaval. E só ficou,

de tudo, uma lembrança dolorida

que resta desse amor que se acabou

numa alegria que redime a vida.

Da loucura da febre que passou,

a alma se sente só e consumida;

na solidão que o sonho lhe deixou

a saudade ainda vive, malsofrida.

E, tristemente, o coração recorda,

na angústia de uma louca nostalgia,

esse sonho fugaz que ele sonhou.

Carnaval de um amor que, na alma, acorda

a esperança de uma última alegria,

entre as cinzas de tudo que passou.

Em: Noturnos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional:1947, p. 38





Quadrinha da linda morena

3 03 2014

mulher e pássaro, vogue, junho 1921Mulher e pássaro, capa da revista Vogue, junho de 1921.

Morena, linda morena

de lábios cor de carmim,

quero saber se teus olhos

sorriem só para mim.

(Ângela Maria)





A gente nunca está só, poesia de Adelmar Tavares

24 02 2014

menina no lago, Martta Wendelin (Finlandia)Menina no lago, ilustração de Martta Wendelin.

A gente nunca está só

Adelmar Tavares

A gente nunca está só.

Ou se está com uma saudade

De um sonho desfeito em pó;

Ou se está com uma esperança

De nova felicidade

No coração que não cansa…

Sempre uma sombra com a gente,

Constantemente,

Uma sombra… Boa… ou má…

Só é que nunca se está.

Em: Poemas para a Infância: antologia escolar, editado por Henriqueta Lisboa, s/d, São Paulo: Edições de Ouro, p. 59





Multidão, poesia de Armindo Rodrigues

12 02 2014

beryl cook, tenerife daysDias em Tenerife, 2004

Beryl Cook (Inglaterra, 1926-2008)

silkscreen, 61 x 56cm

Multidão

Armindo Rodrigues

Esta gente que vai e vem,

de cá para lá,

de lá para cá,

que se cruza comigo,

que esbarra comigo,

que tem com certeza

os seus dramas iguais aos meus,

as suas esperanças iguais à minhas,

não sabe nada da minha vida,

nem eu sei dos seus segredos.

Cada um segue absorto em si

como se fosse de olhos fechados

e não tivesse as mãos para dar

a outras mãos desamparadas.

Em: Voz arremessada no caminho; poemas, Armindo Rodrigues, Lisboa: 1943, p. 52