Hubert-Denis Etcheverry (França, 1867-1950)
óleo sobre tela
Museu Bonnat-Helleu, Bayonne
“Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?”
Fernando Pessoa (Portugal, 1888-1935) em Contemplo o lago mudo.
Hubert-Denis Etcheverry (França, 1867-1950)
óleo sobre tela
Museu Bonnat-Helleu, Bayonne
Fernando Pessoa (Portugal, 1888-1935) em Contemplo o lago mudo.
Ivan Serpa (Brasil, 1923-1973)
óleo sobre tela, 97 x 130 cm
Coleção Particular
Maria da Graça Almeida
Seguindo as trilhas do chão,
em toda e qualquer estação,
andam deitadas demais,
as linhas horizontais.
Afastando-se dos mares,
galgando os céus, pelos ares,
acenando para o cais,
vão-se as linhas verticais.
Quando as duas se alcançam,
iniciam bela dança
e com passos ensaiados,
formam um quadriculado!
Quanto às linhas paralelas,
nunca dançam, pobre delas!
Bem sabemos de antemão,
que jamais se cruzarão!
Ilustração anônima.
Ferreira Gullar
Dizem que gato não pensa
mas é difícil de crer.
Já que ele também não fala
como é que se vai saber?
A verdade é que o Gatinho,
quando mija na almofada,
vai depressa se esconder:
sabe que fez coisa errada.
E se a comida está quente,
ele, antes de comer,
muito calculadamente,
toca com a pata pra ver.
Só quando a temperatura
da comida está normal,
vem ele e come afinal.
E você pode explicar
como é que ele sabia
que ela ia esfriar?
Almoço ao ar livre, Steven Dohanos.
Amigo, na sua idade,
não conte a idade a ninguém,
mas conte a felicidade
pelos amigos que tem.
(Edmilson Ferreira Macedo)
Ilustração de Rusell Sambrook.
Santos Moraes
Na praça antiga da Matriz havia
Um circo que chegara bem recente.
Eu, menino, julgava-o ingenuamente
O palácio encantado da alegria.
Todas as noites, coração ardente,
Àquele mundo de ilusões corria,
E rindo do palhaço eu me sentia
Um ser extraordinário de contente.
Hoje, o circo perdido na distância
Tantas vezes me vem da alma à tona
Que refloresce em mim a leda infância.
Encantamentos vãos que a mente afaga!
Sonhos que o peito avaro aprisiona
E o coração por alto preço os paga!
Em: Tempo e Espuma, Santos Moraes, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1956, p. 23-24
Ipolit Strâmbu (Romênia, 1871-1934)
óleo sobre cartão
Fernando Pessoa (Portugal, 1888-1935) em O andaime, 1931.
Desconheço a autoria da ilustração.
É força que vem comigo
e no tempo não se esvai:
– Sempre que eu falo de amigo
eu me lembro de meu pai!
(Rodolpho Abbud)
David Azuz (Israel, 1942)
Serigrafia
Armindo Rodrigues
Aqui, no café, sabe-se tudo
e junta-se gente vinda
de todos os cantos do mundo.
Aqui, no café, esquece-se o tempo
e nascem ideias extraordinárias
até dos gestos irrefletidos.
Aqui, no café, sonho mais à vontade
que sou tudo o que sonho
e não tenho medo de nada.
Aqui, no café, todos sabem que sou
um homem como outro qualquer
que vem aqui todas as tardes.
Em: Voz arremessada no caminho; poemas, Armindo Rodrigues, Lisboa: 1943, p. 53
Cassiano Ricardo
E foi
tão grande o seu desespero
na encruzilhada
e a noite era tão escura
na floresta e nos campos,
que o próprio Currupira
ficou com pena
e lhe arranjou uma lanterna
de pirilampos.
“Pouco importa
que a noite seja escura,
porque foi apanhar água
no ribeirão
e quebrou seu pote branco
numa pedra do barranco
fazendo essa escuridão.
Vá por aqui, direitinho,
com esta lanterna
na mão, alumiando o caminho…
e você encontrará o que procura!”
E ele saiu pelo sertão,
procurando o sol da Terra
com uma lanterna de pirilampos
na mão.
Em: Martim Cererê, Cassiano Ricardo, Rio de Janeiro, José Olympio: 1974, 13ª edição, p. 76.