Trova do beijo

30 04 2025
Beijo, ilustração Lynn Buckham (EUA, 1918-1982, década de 50.

 

Um filósofo de peso

é desta sentença o autor:

o beijo é fósforo aceso

na palha seca do amor.

 

(Bastos Tigre, 1882-1957)





Trova da chuva

4 04 2025
Ilustração, cartão postal, de Sergio Bompard.

 

Do cair da noite à aurora,
 
a chuva, em suave rumor,
 
fez toda a trilha sonora
 
das nossas noites de amor.
 
 
 
(Almerinda Liporage)
 

 





“Motivo” poesia de Cecília Meireles

26 03 2025

O manuscrito, 1921

Francis Ernest Jackson (Inglaterra, 1872 – 1945)

Ashmolean Museum, Oxford

 

Motivo

 

Cecília Meireles

 

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.

 

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

 

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

— não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

 

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

— mais nada.

 

No livro Viagem (1939)

 





Trova do Pierrô

24 02 2025

Pierrot com violão

Adelson do Prado (Brasil, 1944 -2013)

acrílica sobre tela, 38 x 46 cm

 

Triste vida a do Pierrô:
sofrer pela Colombina,
que, nos braços de Arlequim,
ri de sua triste sina!

 

(Paluma Filho)





Agora que as palavras secaram, poema de Eduardo Pitta

21 02 2025
Autoria desconhecida.

 

Agora que as palavras secaram

 

Eduardo Pitta

 

Agora que as palavras secaram

e se fez noite

entre nós dois,

agora que ambos sabemos

da irreversibilidade

do tempo perdido,

resta-nos este poema de amor e solidão.

 

No mais é o recalcitrar dos dias,

perseguindo-nos, impiedosos,

com relógios,

pessoas,

paredes demasiado cinzentas,

todas as coisas inevitavelmente

lógicas.

 

Que a nossa nem sequer foi uma história

diferente.

A originalidade estava toda na pólvora

dos obuses, no circunstanciado

afivelar

dos sorrisos à nossa volta

e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.

 





Trova da Aritmética Criativa

19 02 2025
Ilustração, Walt Disney

 

 

Devo-te oitenta! Mas quero

pagar-te em nota de cem…

– Me empresta mais vinte! Espero

devolver no mês que vem!

(Renato Alves)





Soneto, João Xavier de Matos

10 02 2025

Operários, 1933
Tarsila do Amaral (Brasil, 1886-1973)
Óleo sobre tela, 150 x 205 cm
Acervo do Palácio do Governo do Estado de São Paulo

 

 

Soneto

 

João Xavier de Matos

 

Pobre ou rico, vassalo ou soberano,

Iguais são todos, todos são parentes;

Todos nasceram ramos descendentes

Do trono antigo do primeiro humano.

 

Saiba, quem de seus títulos ufano

Toma por qualidade os acidentes,

Que duas gerações há só dif’rentes

Virtude e vício: tudo mais é engano.

 

Por mais que afete a vã genealogia

Introduzir nas veias a natureza

De melhor sangue, do que Adão teria:

 

Não fará desmentindo a natureza

Que seja sem virtude a fidalguia

Mais que um triste fantasma da grandeza.

 

(1789)

 

João Xavier de Matos (Portugal, c. 1730-1789)





Trova da gaivota

28 01 2025

 

Por sobre as ondas serenas,
a gaivota, em seu compasso,
é uma tesoura de penas,
cortando o pano do espaço.


(Onildo Campos)





O mundo de Florbela Espanca

26 01 2025
Ilustração de Franziska Slopsnies (1884-1966), data:1926

 

““O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê! ” 

 

Florbela Espanca

 

Em: Cartas a Guido Barteli





Escuta, poesia de João Dantas de Souza

24 01 2025
Moça sentada com chapéu de palha, Giselle, ilustração de Elizabeth Shippen Green, 1916

 

Escuta

 

João Dantas de Sousa

 

(N’um Álbum.)

 

Vem cá, feiticeira, vem junto a meu lado,

Pois quero ao ouvido dizer-te um segredo…

Esquiva tu foges?… não fujas, louquinha;

Não vejo o que possa causar-te assim medo.

 

Tu dizes qu’eu fale? – já tu, por ventura,

Ouviste dizer-se segredos assim!

Há coisas que ao mundo ser devem ocultas;

Vem, pois, queridinha, não fujas de mim.

 

Sorris-te! Não brinques…- Se assim continuas

Então meu segredo não quero contar-te.

Escuta se queres; — são poucas palavras;

E julgo com elas não hei de enfadar-te…

 

Ao fim te chegaste…. Bem hajas! — Agora,

Escuta o segredo de teu trovador:

Eu te amo….» Que vejo? … tu foges corando!

Pois foge, que ao menos ouviste o melhor.

 

(1859)

 

Em: Poesias, João Dantas de Souza, Editora de Almeida, 1859.