“Chuva de verão”, Ladyce West

8 01 2019

 

 

tropical+storm+-+tiffany+blaiseTempestade Tropical

Tiffany Blaise (Austrália, contemporânea)

óleo e cera sobre papel, 42 x 29 cm

 

 

Chuva de verão

 

Ladyce West

 

Ar denso, turvo,

Grávido de umidade

Pesa na fronte, nos ombros,

no âmago da alma.

 

Afoga os pulmões, martiriza o corpo,

Apoia-se no cenho, escorre da testa,

desliza  nas costas,

brita nas têmporas,

vaza na nuca.

 

A camisa, segunda pele, adere.

Restringe, circunscreve

Movimentos, pensamentos.

O peso do mundo escorado nos ombros.

 

Silêncio.

Céu de chumbo.

Um lágrima grossa cai;

Duas, um choro sofrido

Raivoso, ruidoso, calamitoso.

 

A chuva é cortina fechada.

Estrondosa. Cortante.

Correntes d’água aprisionando

Homens, mulheres, animais,

Andantes.

 

Entorta árvores

Torce fios, destrói muros,

Placas, pavimentos.

Caudalosa torrente, batelada.

 

Os deuses despejam fúria liquida

nas ruas,  casas, praças da cidade.

Montanhas se escondem

Nuvens se iluminam

Raios rompem o céu

Soam trovões enraivecidos.

 

Meia hora. Silêncio.

Tudo volta à norma.

Lavado.  Límpido.  Nítido.

Submerso em água.

 

Mas o suor continua

desliza sobre o corpo.

O calor abafa e sufoca.

É verão sob o trópico de Capricórnio.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2019





Quem diria… — poesia infantil de Alzira Chagas Carpigiani

28 12 2018

 

 

 

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Quem diria…

 

Alzira Chagas Carpigiani

 

O gambá agora
anda elegante,
passa até perfume
e desodorante.
Ele pôs um fim
na tal história
do fedor danado.
Quer saber por quê?
Eu conto o segredo:
– O gambá cheiroso
está apaixonado!

 





Trova da partilha

21 12 2018

 

 

 

xmas book page 5Ilustração de Rosa C. Petherick

 

 

 

Feliz de quem – afinal

consegue na humana trilha,

ver que o brilho do Natal

surge da luz da partilha.

 

(Regina Célia de Andrade)

 





Desejos, Mário Quintana

4 12 2018

 

 

astros, blanche wrightAstros, ilustração de Blanche Wright.

 

 

“Se as coisas são inatingíveis… ora!

Não é motivo para não querê-las…

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!”

 

Mário Quintana.





Trova da folha caída

19 11 2018

 

 

 

outono, folhas, brincadeira, menina

 

 

Vou vivendo a minha vida,

como Deus quer e consente.

– Sou como a folha caída,

levada pela corrente.

 

(Adelmar Tavares)





Trova da presença divina

17 11 2018

 

 

passaro no galho

 

Sinto a presença divina

em tudo que me rodeia:

na vibração matutina,

num sabiá que gorjeia!

 

(Clarindo Batista)





Verdadeira poesia, João Cabral de Melo Neto

22 10 2018

 

 

David ParkinsIlustração David Parkins.

 

 

“Mesmo sem querer fala em verso
Quem fala a partir da emoção.”

 

João Cabral de Melo Neto.





Cinco haicais de Sônia Carneiro Leão

16 10 2018

 

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Passeia a sombra

No abismo do chão

Sem deixar rastro.

[43]

 

Barulho do céu

Sobre o luar da montanha.

Cochicha o silêncio.

[61]

 

 

Invade o meu leito

A brisa da Primavera

Sem me conhecer.

[22]

 

 

As flores preferem

A pura água da chuva.

Guardo o regador.

[61]

 

 

Veio da montanha

O ruído do silêncio

Acordar o nada

[52]

 

 

Em: O olhar de Buda: haicais, Sonia Carneiro Leão, 2018, páginas em [colchetes].

 





Minutos de sabedoria: Olavo Bilac

11 10 2018

bote-fe-no-brasil

 

 

“A pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo.”

 

Olavo Bilac





Lágrima, poesia de Vera Siqueira de Mello

9 10 2018

 

 

 

Bernard BOUTET de MONVEL (1881-1949) Elegante dans les jardins de VersaillesBernard Boutet de Monvel (1881-1949) Elegante nos jardins de Versailles.

 

 

Lágrima

 

Vera Siqueira de Mello

 

Bendita seja a lágrima que rola

Pela face de alguém, que triste está,

Pois é ela, na vida que consola,

Que na aflição, maior alívio dá.

 

Sendo este mundo a verdadeira escola,

Onde aprendemos as lições da vida,

Devemos bendizer tão santa esmola,

Aos tristes e infelizes, concedida.

 

Vós, que seguis na vida, caminhando,

Ao fitardes a estrada percorrida

E fordes as tristezas recordando,

 

Não lastimeis a lágrima perdida,

Pois, feliz é aquele que, chorando,

Consegue aliviar uma ferida!

 

Em: Conflitos interiores, Vera Siqueira de Mello, 1938.