Trova das ofensas

5 04 2021

A mais grave das ofensas

quase sempre tem raízes

quando dizes o que pensas

ou não pensas no que dizes.

 

(Izo Goldman)





Ladainha, poesia de Cassiano Ricardo

8 03 2021

Paisagem

Bustamante Sá (Brasil, 1907- 1988)

óleo sobre tela, 50 x 60 cm

 

Ladainha

 

Cassiano Ricardo

 

Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome

de Ilha de Vera Cruz.

Ilha cheira de graça

Ilha cheia de pássaros

Ilha cheia de luz.

Ilha verde onde havia

mulheres morenas e nuas

anhangás a sonhar com histórias de luas

e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.

 

Depois mudaram-lhe o nome

pra terra de Santa Cruz.

Terra cheia de graça

Terra cheia de pássaros

Terra cheia de luz.

 

A grande Terra girassol onde havia guerreiros de tanga e onças ruivas  deitadas à sombra das árvores mosqueadas de sol.

 

Mas como houvesse, em abundância,

certa madeira cor de sangue cor de brasa

e como o fogo da manhã selvagem

fosse um brasido no carvão noturno da paisagem.

 

e como a Terra fosse de árvores vermelhas

e se houvesse mostrado assaz gentil

deram-lhe o nome de Brasil.

Brasil cheio de graça

Brasil cheio de pássaros

Brasil cheio de luz

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, pp. 53-54.





Saudade, poesia de Da Costa e Silva

1 03 2021

Reflexão, 1970

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)

óleo sobre tela, 46 x 38 cm

Saudade

 

Da Costa e Silva

 

Saudade! Olhar de minha mãe rezando,

E o pranto lento deslizando em fio…

Saudade! Amor de minha terra… O rio

Cantigas de águas claras soluçando.

 

Noites de junho… O caburé com frio,

Ao luar, sobre o arvoredo,piando, piando…

E, ao vento, folhas lívidas cantando

A saudade imortal de um sol de estio.

 

Saudade! Asa de dor do Pensamento!

Gemidos vãos de canaviais ao vento…

As mortalhas de névoa sobre a serra…

 

Saudade! O Parnaíba − velho monge

As barbas brancas alongando… E, ao longe,

O mugido dos bois da minha terra…

 

Em: Da Costa e Silva, Poesias Completas, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário] p.69

 

 





A flor e a nuvem, fábula de Lachambeaudie e Paula Brito

25 01 2021
 
 
A flor e a nuvem

 

Paula Brito

 

[ Fábula de Lachambeaudie]

 

Reina o estio.  — No vale

Lânguida flor emurchece

E  chama, p’ra socorrê-la

Uma nuvem, que aparece.

 

“Tu que do Aquilão nas asas

Vais pelo espaço a correr,

Vê que de calor me abraso,

Vem, não me deixes morrer.

 

“Com essas águas, que levas

A minha dor, refrigera.”

“— Tenho missão mais sagrada,

Agora não posso — espera.”

 

Disse e foi-se!… De abrasada

Cai e espira a flor tão bela:

Volta a nuvem e despeja

Quanta água tinha sobre ela…

 

Era tarde!…

 

MORALIDADE

 

Quase sempre

Quando um desditoso chora,

Rara vez no mundo encontra

Remédio ao mal que o devora;

 

Mas quando sucumbe ao peso

Da desgraça que o persegue,

Mudam-se as cenas — louvores

Então não há quem lhe negue.

 

Mas que vale esse aparato

Da verdade ou da impostura?

Nem lírios, nem goivos tiram

Os mortos da sepultura.

 

Em: O Espelho, revista de literatura, modas, indústria e artes, 4 de setembro de 1859, página 21.

 

 

Francisco de Paula Brito  ( RJ 1809 – RJ 1861) –  tipógrafo, editor, jornalista, escritor, poeta, dramaturgo, tradutor e letrista.   Foi aprendiz na Tipografia Nacional.   Trabalhou em seguida, em 1827 no Jornal do Comércio. Em 1831 passa a livreiro e editor com  Tipografia Fluminense de Brito & Cia.  Em 1833 lança o jornal O Homem de Cor, primeiro jornal brasileiro contra o preconceito racial.  É na sua editora que se forma a “Sociedade Petalógica”, grupo de poetas, compositores, atores, líderes da sociedade, ministros de governo, senadores, jornalistas e médicos que “constituíam movimento romântico de 1840-60”  Por outro lado, a tipografia de Paula Brito serviu também de ponto de encontro entre músicos populares [ Laurindo Rabello e Xisto Bahia, por exemplo] e poetas românticos.  A combinação produziu muitas parcerias musicais, principalmente no gênero das modinhas, que serviriam de embrião para a música popular urbana, popular no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX.

 Obras:

Anônimas, poesia, 1859

O triunfo dos indígenas, teatro, sd

Os sorvetes, teatro, sd

O fidalgo fanfarrão, teatro, sd

A revelação póstuma, conto, 1839

A mãe-irmã, conto, 1839

O Enjeitado, conto

A marmota na Corte, periódico humorístico, 1849  

A Maxambomba, teatro   

A mulher do Simplício, ou A fluminense  exaltada, periódico humorístico, 1832  

Ao dezenove de outubro de 1854, dia de S. Pedro de Alcântara, nome de S. M. o Sr. D. Pedro II, poesia   

Biblioteca das senhoras, 1859  

Elegia à morte de Evaristo Xavier da Veiga, poesia, 1837  

Fábulas de Esopo para uso da mocidade, arranjadas em quadrinhas, poesia, 1857  

Monumento à memória do brigadeiro Miguel de Frias Vasconcellos e de seu irmão Francisco de Paula, 1859  

Norma, teatro, 1844  

Oferenda aos brasileiros, sd   

Os Puritanos, teatro 1845  

Poesias de Francisco de Paula Brito, poesia, 1863  

 —–

Pierre Lachambeaudie (França, 1807 – 1872) foi um escritor de fábulas francês.





Agradecimentos

23 01 2021

Este livro está à venda nos seguinte locais:

Amazon do Brasil

Livraria da Travessa no Rio de Janeiro

e direto na própria editora no seguinte link:

https://www.autografia.com.br/produto/a-meia-voz-2/

Haverá edição em e-book em breve. Agradeço todos os contatos.

Livro lançado durante a pandemia do CORONA VIRUS no Rio de Janeiro. Não há como ter um volume autografado no momento. Não houve noite de autógrafos por causa das circunstâncias de saúde da cidade.

Caso precisem me contatar: ladyce@terra.com.br

GRATA!





Trova do ciúmes

14 01 2021

Morena de olhos castanhos,

teu encanto é a minha pena;

quem dera que olhos estranhos

te achassem feia, morena!     

 

(Bastos Tigre)





Despedida, poesia de Maria Braga Horta

11 01 2021

À luz de lampião, 1890

Harriet Backler (Noruega 1845-1932)

óleo sobre tela, 55 x 66 cm

 

Despedida

 

Maria Braga Horta

 

Não levarei comigo nada meu

nem de ninguém.

Devolvo a todos o quinhão da vida

que viveram comigo e por mim

e os liberto

do ritual das flores no jazigo

que nada mais (depois) contém

que os vestígios de um corpo

que em verdade jamais me pertenceu.

 

 

Simples sombra (invisível) chegarei

diante do espelho

em que foi o meu tempo refletido

e inserido em gradações de forma e cores.

 

 

Do que era teu em mim –

separados os lados –

sepultarás o morto.

 

 

O vivo ficará perdido

nos teus olhos

procurando o infinito.

 

Em: Caminho de Estrelas, Maria Braga Horta, São Paulo,  Massao Ohno Editor: 1996, p. 122





Lembrança, poesia de Wilson W. Rodrigues

4 01 2021
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Lembrança

 

Wilson W. Rodrigues

 

Das três tristezas que tenho

uma foi lágrima só,

a outra foi leve gemido

e a última desfez-se em pó.

 

Das três alegrias que tenho

uma foi sorriso vão,

a outra foi manso gorjeio

e a última foi ilusão.

 

Das três saudades que tenho

uma bem cedo murchou,

a outra durou muito pouco

e a última foi que ficou.

 

Em: Bahia Flor: poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949, p. 113





Trova das árvores

29 12 2020

Paisagem

Edgar Walter (Brasil, 1917- 1994)

óleo sobre tela, 65 x 82 cm

 

 

O arvoredo se arrepia,
amante dos mais sensíveis,
quando a brisa o acaricia
com seus dedos invisíveis.

(Soares da Cunha)

 

 





Mãe, poema de Stella Leonardos

22 12 2020

Maternidade

Aurélio d’Alincourt (Brasil, 1919 – 1990)

óleo sobre placa, 41x 33 cm

 

Mãe

 

Stella Leonardos

 

Tudo que há na fonte pura

Vem da mina de onde brota

E do fundo da espessura

Nasce a sombra de uma grota.

Todo verdor de uma planta

Deve à terra seu verdor.

Todo pássaro que canta

Herdou raça de cantor.

Qualquer gesto bom que eu tenha,

Toda vez que eu ficar triste,

Todo sonho que me venha,

Tudo que em mim houve e existe

Será teu, Mãe. Porque és água,

Pedra e chão, rama e raiz

De meu mundo: quer na mágoa

Quer no momento feliz.

 

Em: Pedra no Lago, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p. 45