A mais grave das ofensas
quase sempre tem raízes
quando dizes o que pensas
ou não pensas no que dizes.
(Izo Goldman)
A mais grave das ofensas
quase sempre tem raízes
quando dizes o que pensas
ou não pensas no que dizes.
(Izo Goldman)
Paisagem
Bustamante Sá (Brasil, 1907- 1988)
óleo sobre tela, 50 x 60 cm
Cassiano Ricardo
Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome
de Ilha de Vera Cruz.
Ilha cheira de graça
Ilha cheia de pássaros
Ilha cheia de luz.
Ilha verde onde havia
mulheres morenas e nuas
anhangás a sonhar com histórias de luas
e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.
Depois mudaram-lhe o nome
pra terra de Santa Cruz.
Terra cheia de graça
Terra cheia de pássaros
Terra cheia de luz.
A grande Terra girassol onde havia guerreiros de tanga e onças ruivas deitadas à sombra das árvores mosqueadas de sol.
Mas como houvesse, em abundância,
certa madeira cor de sangue cor de brasa
e como o fogo da manhã selvagem
fosse um brasido no carvão noturno da paisagem.
e como a Terra fosse de árvores vermelhas
e se houvesse mostrado assaz gentil
deram-lhe o nome de Brasil.
Brasil cheio de graça
Brasil cheio de pássaros
Brasil cheio de luz
Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, pp. 53-54.
Reflexão, 1970
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)
óleo sobre tela, 46 x 38 cm
Da Costa e Silva
Saudade! Olhar de minha mãe rezando,
E o pranto lento deslizando em fio…
Saudade! Amor de minha terra… O rio
Cantigas de águas claras soluçando.
Noites de junho… O caburé com frio,
Ao luar, sobre o arvoredo,piando, piando…
E, ao vento, folhas lívidas cantando
A saudade imortal de um sol de estio.
Saudade! Asa de dor do Pensamento!
Gemidos vãos de canaviais ao vento…
As mortalhas de névoa sobre a serra…
Saudade! O Parnaíba − velho monge
As barbas brancas alongando… E, ao longe,
O mugido dos bois da minha terra…
Em: Da Costa e Silva, Poesias Completas, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário] p.69
Paula Brito
[ Fábula de Lachambeaudie]
Reina o estio. — No vale
Lânguida flor emurchece
E chama, p’ra socorrê-la
Uma nuvem, que aparece.
“Tu que do Aquilão nas asas
Vais pelo espaço a correr,
Vê que de calor me abraso,
Vem, não me deixes morrer.
“Com essas águas, que levas
A minha dor, refrigera.”
“— Tenho missão mais sagrada,
Agora não posso — espera.”
Disse e foi-se!… De abrasada
Cai e espira a flor tão bela:
Volta a nuvem e despeja
Quanta água tinha sobre ela…
Era tarde!…
MORALIDADE
Quase sempre
Quando um desditoso chora,
Rara vez no mundo encontra
Remédio ao mal que o devora;
Mas quando sucumbe ao peso
Da desgraça que o persegue,
Mudam-se as cenas — louvores
Então não há quem lhe negue.
Mas que vale esse aparato
Da verdade ou da impostura?
Nem lírios, nem goivos tiram
Os mortos da sepultura.
Em: O Espelho, revista de literatura, modas, indústria e artes, 4 de setembro de 1859, página 21.
Francisco de Paula Brito ( RJ 1809 – RJ 1861) – tipógrafo, editor, jornalista, escritor, poeta, dramaturgo, tradutor e letrista. Foi aprendiz na Tipografia Nacional. Trabalhou em seguida, em 1827 no Jornal do Comércio. Em 1831 passa a livreiro e editor com Tipografia Fluminense de Brito & Cia. Em 1833 lança o jornal O Homem de Cor, primeiro jornal brasileiro contra o preconceito racial. É na sua editora que se forma a “Sociedade Petalógica”, grupo de poetas, compositores, atores, líderes da sociedade, ministros de governo, senadores, jornalistas e médicos que “constituíam movimento romântico de 1840-60” Por outro lado, a tipografia de Paula Brito serviu também de ponto de encontro entre músicos populares [ Laurindo Rabello e Xisto Bahia, por exemplo] e poetas românticos. A combinação produziu muitas parcerias musicais, principalmente no gênero das modinhas, que serviriam de embrião para a música popular urbana, popular no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX.
Obras:
Anônimas, poesia, 1859
O triunfo dos indígenas, teatro, sd
Os sorvetes, teatro, sd
O fidalgo fanfarrão, teatro, sd
A revelação póstuma, conto, 1839
A mãe-irmã, conto, 1839
O Enjeitado, conto
A marmota na Corte, periódico humorístico, 1849
A Maxambomba, teatro
A mulher do Simplício, ou A fluminense exaltada, periódico humorístico, 1832
Ao dezenove de outubro de 1854, dia de S. Pedro de Alcântara, nome de S. M. o Sr. D. Pedro II, poesia
Biblioteca das senhoras, 1859
Elegia à morte de Evaristo Xavier da Veiga, poesia, 1837
Fábulas de Esopo para uso da mocidade, arranjadas em quadrinhas, poesia, 1857
Monumento à memória do brigadeiro Miguel de Frias Vasconcellos e de seu irmão Francisco de Paula, 1859
Norma, teatro, 1844
Oferenda aos brasileiros, sd
Os Puritanos, teatro 1845
Poesias de Francisco de Paula Brito, poesia, 1863
—–
Pierre Lachambeaudie (França, 1807 – 1872) foi um escritor de fábulas francês.

Este livro está à venda nos seguinte locais:
Amazon do Brasil
Livraria da Travessa no Rio de Janeiro
e direto na própria editora no seguinte link:
https://www.autografia.com.br/produto/a-meia-voz-2/
Haverá edição em e-book em breve. Agradeço todos os contatos.
Livro lançado durante a pandemia do CORONA VIRUS no Rio de Janeiro. Não há como ter um volume autografado no momento. Não houve noite de autógrafos por causa das circunstâncias de saúde da cidade.
Caso precisem me contatar: ladyce@terra.com.br
GRATA!
Morena de olhos castanhos,
teu encanto é a minha pena;
quem dera que olhos estranhos
te achassem feia, morena!
(Bastos Tigre)
À luz de lampião, 1890
Harriet Backler (Noruega 1845-1932)
óleo sobre tela, 55 x 66 cm
Maria Braga Horta
Não levarei comigo nada meu
nem de ninguém.
Devolvo a todos o quinhão da vida
que viveram comigo e por mim
e os liberto
do ritual das flores no jazigo
que nada mais (depois) contém
que os vestígios de um corpo
que em verdade jamais me pertenceu.
Simples sombra (invisível) chegarei
diante do espelho
em que foi o meu tempo refletido
e inserido em gradações de forma e cores.
Do que era teu em mim –
separados os lados –
sepultarás o morto.
O vivo ficará perdido
nos teus olhos
procurando o infinito.
Em: Caminho de Estrelas, Maria Braga Horta, São Paulo, Massao Ohno Editor: 1996, p. 122
Wilson W. Rodrigues
Das três tristezas que tenho
uma foi lágrima só,
a outra foi leve gemido
e a última desfez-se em pó.
Das três alegrias que tenho
uma foi sorriso vão,
a outra foi manso gorjeio
e a última foi ilusão.
Das três saudades que tenho
uma bem cedo murchou,
a outra durou muito pouco
e a última foi que ficou.
Em: Bahia Flor: poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949, p. 113
Paisagem
Edgar Walter (Brasil, 1917- 1994)
óleo sobre tela, 65 x 82 cm
O arvoredo se arrepia,
amante dos mais sensíveis,
quando a brisa o acaricia
com seus dedos invisíveis.
(Soares da Cunha)
Maternidade
Aurélio d’Alincourt (Brasil, 1919 – 1990)
óleo sobre placa, 41x 33 cm
Stella Leonardos
Tudo que há na fonte pura
Vem da mina de onde brota
E do fundo da espessura
Nasce a sombra de uma grota.
Todo verdor de uma planta
Deve à terra seu verdor.
Todo pássaro que canta
Herdou raça de cantor.
Qualquer gesto bom que eu tenha,
Toda vez que eu ficar triste,
Todo sonho que me venha,
Tudo que em mim houve e existe
Será teu, Mãe. Porque és água,
Pedra e chão, rama e raiz
De meu mundo: quer na mágoa
Quer no momento feliz.
Em: Pedra no Lago, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p. 45