Ilustração de Steven Noble.
Lembranças, quem não cultiva ?
Afinal, a nossa mente,
faz questão de manter viva,
além do fruto, a semente…
(Nélio Bessant dos Santos)
Lembranças, quem não cultiva ?
Afinal, a nossa mente,
faz questão de manter viva,
além do fruto, a semente…
(Nélio Bessant dos Santos)
Senhora de vermelho
Beatrice Offor (GB, 1864-1920)
óleo sobre tel, 108 x 82 cm
Bruce Castle Museum, Londres
Luís de Camões
Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.
Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.
Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.
Porém, pera cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa
Aqui falta saber, engenho e arte.
Um pelo outro, passamos,
com os olhos fitos no chão…
_ Mas, com que ardor nos olhamos
com os olhos do coração!
(Lilinha Fernandes)
Figura
Darel Valença (Brasil, 1924-2017)
Desenho, 54 x 25 cm
Estrangeiro
Reynaldo Valinho Alvarez
Sou estrangeiro em todos os lugares.
Inútil procurar-te, aldeia minha.
Subo de escada todos os andares,
com a fria espada a acutilar-me a espinha.
Não sou daqui nem sou de lá. Perdi-me
na indecisão de becos e de esquinas.
Como o pardal diante do gato, vi-me
apanhado por garras assassinas.
Os mapas pendurados nas paredes
riem de mim como insensíveis redes,
rasgando os peixes que já não fogem mais.
Prenderam-me entre muros que abomino
e toda noite entoam-me seu hino
de insultos, gritos e ódios triunfais.
Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.61
Leitora, 1905
Theodeor Axentowicz, (Polônia 1859- 1938)
pastel sobre papel
Olavo Bilac (Brasil, 1865-1918), em Via Láctea, 1888, IV [“Como a floresta secular, sombria”]
Noite escura!… De repente,
dois faróis surgem na estrada…
E a escuridão sai da frente
como quem foge, assustada.
(Durval Mendonça)
Helena Lima
Era uma vez a Lua.
Ela tinha medo do escuro.
Era uma vez o Céu.
Ele também tinha medo do escuro.
A Lua pedia emprestada a luz do Sol.
Ele emprestava, às vezes.
O Céu pedia para a Lua acender.
Ela acendia quando podia.
Se o Sol estivesse de bom humor,
a Lua ganhava luminosidade em trezentos e sessenta graus.
Mas quando o mar não estava para peixes e o Sol não estava para estrelas,
não emprestava nada.
Nadinha.
E o Céu ficava escuro.
Escurinho.
A Lua sentia calafrios.
O Céu sentia solidão.
O medo da Lua era de cair e morrer no mar.
O medo do Céu era de fechar e não voltar a clarear.
Um dia, Céu e Lua decidiram:
“Pra acabar com o escuro e a solidão, a gente vai se casar”.
Desde então, os dois passam o dia inteirinho
contando os minutos para o Sol se retirar.
Em: Amores virados pra cá, Helena Lima e Isabelle Borges, Rio de Janeiro, Lago Baikal: 2019, p. 130
Que me traias, tu me negas,
mas, traindo-me, te trais:
– O perfume com que chegas,
nunca é o mesmo com que sais…
(Cesídio Ambrogi)

A saudade é simplesmente
Um claro espelho encantado;
mira-se nele o presente
e ele reflete o passado.
(Geralda Armond)
Alegoria da África,1834
[Da série, Alegorias dos Quatro Continentes]
François Dubois (França, 1790-1871)
óleo sobre tela, 80 x 201 cm
Manoel Antônio Álvares de Azevedo Sobrinho
A noite, novamente, reaparece
E sopra pela costa o rijo vento.
O vento abrasador no ocaso,
Soluça o verde mar como um lamento.
Validê tem o olhar no firmamento
Enquanto Allah recebe sua prece…
E nos seus olhos úmidos, parece,
Paira a saudade como o pensamento.
Caminha a caravana no deserto,
Sobre os negros cavalos estafados,
Sem oásis avistar distante ou perto…
E a moça relembrando o amor que sente,
O ardente pranto dos apaixonados,
Triste, derrama sobre a areia ardente!
Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, pp. 213-14.