O livro
Helena Pinto Vieira
Os Livros eu sei que são
como portas encantadas
que nos levam a lindas terras
onde moram anões e fadas.
Lugares longe e tão belos
onde eu não podia ir
mas agora, com essa porta
é só ter cuidado e abrir.
O livro
Helena Pinto Vieira
Os Livros eu sei que são
como portas encantadas
que nos levam a lindas terras
onde moram anões e fadas.
Lugares longe e tão belos
onde eu não podia ir
mas agora, com essa porta
é só ter cuidado e abrir.
Dilan Camargo
O primeiro disse:
“excelente”.
O último entendeu:
“isso é leite”.
O primeiro disse:
“Ana de salto alto”.
O último entendeu:
“banana no asfalto”.
O primeiro disse:
“abracadabra
palavra mágica”.
O último entendeu:
“água prá cabra
que vai de viagem”.
Francisca Júlia
Passo lento, olhar profundo,
Valente, brioso e grave,
O galo é a mais linda ave
Dentre todas que há no mundo.
Um pé adiante, outro atrás,
Bico aberto, o galo canta;
Tem a glória na garganta
E nas esporas que traz.
O galo é sempre o primeiro
A anunciar a s auroras.
Repara bem: tem esporas
E é por isso cavaleiro.
Coroa tem e de lei,
Coroa em forma de crista
Que ganhou numa conquista:
Por isso julga-se rei.
Pendentes até o peito,
Vermelhas, grandes e belas,
Tem barbas que são barbelas
Que lhe dão muito respeito.
Com que delicado amor
Ele defende e acarinha
Ora o pinto, ora a alinha
Com seu gesto protetor!
De cabeça levantada,
Altivo sobre o poleiro,
Ele é o rei do galinheiro
E o cantor da madrugada.
Vivem todos sob a lei
E ordens que o galo decreta:
Soldado, músico e poeta,
Pastor, cavaleiro e rei!
Francisca Júlia. Alma Infantil (Rio de Janeiro: s.e., 1912), pp. 81-83
Ferreira Gullar
Menina passarinho,
que tão de mansinho
me pousas na mão
Donde é que vens?
De alguma floresta?
De alguma canção?
Ah, tu és a festa
de que precisava
este coração!
Sei que já me deixas
e é quase certo
que não voltas, não.
Mas fica a alegria
de que houve um dia
em que um passarinho
me pousou na mão.
Ruth Rocha
Cantador canta tristeza,
canta alegria também.
É de sua natureza
cantar o mal e o bem.
Pois ele tem dentro dele
o canto que o canto tem…
Por isso, se o mar secar,
se cobra comprar sapato,
se cachorro virar gato,
se o mudo puder falar,
Se a chuva chover pra cima,
se barata for grã-fina,
Quando o embaixador for em cima,
Cantador vai se calar.
Ruth Rocha
São duas crianças lindas
Mas são muito diferentes!
Uma é toda desdentada,
A outra é cheia de dentes…
Uma anda descabelada,
A outra é cheia de pentes!
Uma delas usa óculos,
E a outra só usa lentes.
Uma gosta de gelados,
A outra gosta de quentes.
Uma tem cabelos longos,
A outra corta eles rentes.
Não queira que sejam iguais,
Aliás, nem mesmo tentes!
São duas crianças lindas,
Mas são muito diferentes!
Almir Correia
Homem de palha
coração de capim
vai embora
aos pouquinhos
no bico dos passarinhos
e fim.
O cavalo e o burro, 1912
Franz Marc (Alemanha, 1880-1916)
guache sobre papel, 38 x 31 cm
Cecília Meireles
O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.
O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
– de tudo o que aparecer.
O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.
E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.
(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)
Paulo Mendes Campos
O gato pensa um bocado!
Pensa de frente e de lado!
Esticado ou enrolado!
Satisfeito ou chateado!
Brincalhão ou preocupado!
Sem jantar ou já jantado!
Com saúde ou constipado!
O gato pensa um bocado!
Pensa no império chinês!…
Pensa no irmão siamês!…
Mas um gato sem talento
só tem um pensamento:
CAMUNDONGO! CAMUNDONGO!
Se te pego, te viro assim: OGANODNUMAC!…
Galvão Queiroz
Mamãe lavava a gilete
que o Papai vinha de usar,
na pia junto ao toalete,
para, depois, ir guardar.
Chacuca que observava
tudo o que a mamãe fazia,
muito pensativo olhava
a água jorrando na pia.
De repente diz: Mãezinha,
quando eu crescer, vou usar,
como o Pai, essa enxadinha
pra meu queixo capinar?
Em: Almanaque Tiquinho, 1955, página 61