A mão de Deus, sabiamente,
pôs, com grandeza incontida,
na pequenina semente,
todo o mistério da vida.
(Chagas Fonseca)
A mão de Deus, sabiamente,
pôs, com grandeza incontida,
na pequenina semente,
todo o mistério da vida.
(Chagas Fonseca)
Ilustração, Mary Jane Chase, 1956.
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Arnaldo Barreto
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Cavemos a terra, plantemos nossa árvore,
que amiga bondosa ela aqui nos será!
Um dia, ao voltarmos pedindo-lhe abrigo,
ou flores, ou frutos, ou sombras dará!
O céu generoso nos regue esta planta;
o sol de Dezembro lhe dê seu calor;
a terra que é boa, lhe firme as raízes
e tenham as folhas frescura e verdor!
Plantemos nossa árvore, que a árvore é amiga
seus ramos frondosos aqui abrirá.
Um dia, ao voltarmos em busca de flores,
com as flores, bons frutos e sombras dará!
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Arnaldo de Oliveira Barreto (Campinas, SP 1869 — SP, SP 1925) Professor, educador, escritor, poeta, pedagogo.
Obras:
Cartilha das mães, 1895
Leituras Morais, 1896
Cartilha Analítica, 1909
Ensino simultâneo de leitura e escrita, 1918
Vários estilos, s/d
Contos infantis, diversas datas, entre eles:
A festa da lanterna
A pétala de rosa
A rosa mágica
Aladino e a lâmpada maravihosa
Ali-Baba e os quarenta ladrões
A anão amarelo
O califa cegonha
O filho do pescador
O gato de botas e Branca de Neve
O gigante do cabelo de ouro
O isqueiro encantado
O lago das pedras preciosas
O sargento verde
O velocino de ouro, 1915
Viagens maravilhosas de Simbad
Primavera, ilustração de Taro Semba, 1960.
A PRIMAVERA
Olavo Bilac
Coro das quatro estações:
Cantemos! Fora a tristeza !
Saudemos a luz do dia:
Saudemos a Natureza !
Já nos voltou a alegria !
A Primavera:
Eu sou a Primavera !
Está limpa a atmosfera,
E o sol brilha sem véu !
Todos os passarinhos
Já saem dos seus ninhos,
Voando pelo céu.
Há risos na cascata,
Nos lagos e na mata,
Na serra e no vergel:
Andam os beija-flores
Pousando sobre as flores,
Sugando-lhes o mel.
Dou vida aos verdes ramos,
Dou voz aos gaturamos
E paz aos corações;
Cubro as paredes de hera;
Eu sou a Primavera,
A flor das estações !
Coro das quatro estações:
Cantemos! Fora a tristeza !
Saudemos a luz do dia:
Saudemos a Natureza !
Já nos voltou a alegria !
Em: Poesias Infantis, Olavo Bilac, Livraria Francisco Alves: 1949, Rio de Janeiro, pp. 35-6
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (RJ 1865 — RJ 1918 ) Príncipe dos Poetas Brasileiros – Jornalista, cronista, poeta parnasiano, contista, conferencista, autor de livros didáticos. Escreveu também tanto na época do império como nos primeiros anos da República, textos humorísticos, satíricos que em muito já representavam a visão irreverente, carioca, do mundo. Sua colaboração foi assinada sob diversos pseudônimos, entre eles: Fantásio, Puck, Flamínio, Belial, Tartarin-Le Songeur, Otávio Vilar, etc., e muitas vezes sob seu próprio nome. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Criou a cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias. Sem sombra de duvidas, o maior poeta parnasiano brasileiro.
Obras:
Poesias (1888 )
Crônicas e novelas (1894)
Crítica e fantasia (1904)
Conferências literárias (1906)
Dicionário de rimas (1913)
Tratado de versificação (1910)
Ironia e piedade, crônicas (1916)
Tarde (1919); Poesia, org. de Alceu Amoroso Lima (1957), e obras didáticas
Ilustração, Maurício de Sousa.
Quanta lição de bondade
muita árvore contém;
dando sombra a toda gente,
não nega fruto a ninguém.
(Geraldo Costa Alves)
Ilustração, Maurício de Sousa.
Não julgues uma família
por um de seus membros, não!
— Vê como são diferentes
os cinco dedos da mão!…
(Michel Antônio)
João Bez Batti (RS, Brasil, contemporâneo)
Presença Invisível
Ao contemplar a obra de João Bez Batti
no Instituto Moreira Sales, RJ, Novembro de 2006
Senti a presença invisível
De mãos grossas, calejadas,
Que acariciaram a pedra,
O basalto negro
Ou vermelho,
Ou até mesmo o mármore.
Constatei mesmerizada
Que trouxeram à superfície
A essência;
Que libertaram, a Michelangelo,
A forma presa no seixo,
O orgânico escondido,
Inerte,
Meio-solto,
Quase-aprisionado.
Mãos que revelaram os escravos encapsulados,
Seres encarcerados no mesozóico,
Como se, conhecendo o desastre de Pompéia
Depois do escarro fulminante do Vesúvio,
Soubessem encontrar:
O cactos florescente, o cágado,
A abóbora moranga.
Caracóis.
E bólidos petrificados.
Estas mãos, que brincam
Sedutoramente
Com o poder divino,
Conhecem o conteúdo,
A alma invisível da pedra.
Descobrem o cascalho gaúcho,
Chocam os grandes ovos de rio,
E parem os seres cativos nas pedras,
Como Eva o tinha sido na costela de Adão.
E o que surpreende: estas mãos,
Que revelam o coração do basalto
Regurgitado pela Terra,
Lixado pelas águas,
Rolado, burilado e aveludado pelo tempo,
São humanas.
Mãos peãs.
Agraciadas pela arte da divinação,
Que brincando de Deus,
Mostram o divino em todos nós.
© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro
Ilustração: Ziraldo
A Pátria, meus coleguinhas,
É o recanto onde nascemos;
É a família, o Lar, a Escola…
É a Terra onde vivemos!
(Walter Nieble de Freitas)
Igreja de Santo Antônio da Barra, 1951
José Pancetti ( Brasil, 1902-1958)
Óleo sobre tela, 60 x 73 cm
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro
O BRASIL
Renato Sêneca Fleury
Perguntei ao céu tão lindo,
— Por que é todo cor de anil?
Ele me disse, sorrindo:
— Eu sou o céu do Brasil!
Perguntei ao Sol, então,
A causa de tanta luz.
— Sou a glorificação
Da Terra de Santa Cruz!
Depois perguntei à Lua:
— Por que noites de luar?
— É para enfeitar a tua
Grande Pátria à beira-mar.
Perguntei às claras fontes:
— Por que correis sem cessar?
— Nós brotamos destes montes
Para a terra fecundar!
Então eu disse à floresta:
— És tão bela, verde inteira!
Ela respondeu em festa:
— Sou a mata brasileira!
Perguntei depois às aves:
— Por que estais a cantar?
— Cantamos canções suaves
Para tua Pátria saudar.
Céu e sol, luar e cantos,
Florestas e fontes mil
Enchem de eternos encantos
És minha Pátria, — o Brasil!
Renato Sêneca de Sá Fleury ( SP 1895- SP 1980) Pseudônimo: R. S. Fleury, ensaísta, pedagogo, escritor de Literatura Infantil, professor, professor catedrático de Pedagogia e Psicologia, jornalista, membro da Academia de Ciências e Letras de São Paulo, membro fundador do Centro Sorocabano de Letras.
Obras:
Anchieta
Ao Passo das Caravanas
Barão do Rio Branco, 1947
Contos e Lendas Orientais 1941
Francisco Adolfo de Varnhagen 1952
História do Pai João 1939
José Bonifácio
Osvaldo Cruz
Rui Barbosa
Almirante Tamandaré
Santos Dumont
A Vingança do João de Barro/ A Jóia Encantada/ Quem faz o Bem
Ao Passo das Caravanas
As Amoras de Ouro
Breves Histórias Orientais
Cálculo Escolar, 1945
Como é bom trabalhar!
Consultor Popular da Língua Portuguesa
Contos e lendas do deserto
Contos e lendas orientais
Correspondência para todos, 1944
D. Pedro II, 1967
Duque de Caxias,
Emendas à gramática
Gusmão, o padre voador, 1957
Heroínas e mártires brasileiras
História do Corcundinha
Histórias de Bichos, 1940
No reino dos bichos, 1940
O caminho de ouro, 1957
O esposo, a esposa, os filhos
O Padre Feijó
O Padre Gusmão
O Pássaro de ouro
O Pequeno polegar
Os vasos de ouro e as rosas do dragão
Proezas na roça
Prudente de Morais
Visconde de Mauá
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Giuseppe Gianinni Pancetti (Campinas SP 1902 – Rio de Janeiro RJ 1958). Pintor. Muda-se para a Itália em 1913. Em 1919, ingressa na Marinha Mercante italiana e viaja por três meses pelo Mediterrâneo. Em 1920, de volta para o Brasil, executa diversos ofícios; trabalhando em fábrica de tecidos, como ourives e garçom, entre outros. Conhece o pintor Adolfo Fonzari (1880-1959) e auxilia-o na pintura decorativa de uma residência. Em 1922, alista-se na Marinha de Guerra brasileira, onde trabalha por mais de vinte anos. Em 1933 ingressa no Núcleo Bernardelli e recebe orientação de Manoel Santiago (1897-1987), Edson Motta (1910-1981), Rescála (1910-1986) e principalmente do pintor polonês Bruno Lechowski (1887-1941). Participa das exposições do Salão Nacional de Belas Artes, sendo premiado em várias edições. É considerado um dos principais pintores de marinhas do país.
Fonte: Itaú Cultural
O teu segredo famoso
eu bem o sei, direitinho…
chegou depressa, ditoso,
nas asas de um passarinho.
(Luiz Pereira de Faro)
Vênus do espelho, 1650 [Também conhecida como Vênus Rockeby]
Diego Velázquez (Espanha 1599-1660)
Óleo sobre tela, 122,5 x 177 cm
National Gallery, Londres.
Vênus ao espelho
[inspirado num quadro de Velazquez]
Raquel Naveira
Nua,
Reclinada sobre musgo de veludo,
Vênus mira-se ao espelho,
Quadro de cristal polido,
Seguro por Cupido.
Adorna os cabelos com violetas singelas,
Morde maçã
E canela,
Acaricia os seios
Que brilham como luas.
Toda ela é úmida:
Anêmona de primavera,
Espuma marinha,
Rosa encharcada;
A umidade é o princípio que gera
E fecunda
Criaturas nacaradas.
Momento de banho,
De repouso,
De idéia clara;
Contemplar-se
É seu gozo.
Tão atraente,
Tão fora de qualquer limite,
Como vencer essa força dissolvente?
Quem não seria seduzido por ela?
Quem quebraria esse espelho ardente?
Que mortal,
Que divindade defenderia a honra
E a arte?
—
Em: Stella Maia e outros poemas, Campo Grande, MS; Editora UCDB:2001
Raquel Naveira (Campo Grande, MS 1957) Poetisa, ensaísta, graduada em Letras e Direito, professora no Curso de Letras da Universidade Católica Dom Bosco de Campo Grande (MS), mestranda em Comunicação e Letras, na Universidade Presbiteriana Mackienzie (SP), e empresária de turismo (Pousada Dom Aquino, em Campo Grande – MS), Raquel Naveira destaca-se por seu talento e engajamento nas atividades culturais do centro-oeste brasileiro. A escritora tem recebido reconhecimento nacional através de inúmeras premiações e várias indicações para prêmios. Em sua obra, são constantes a religiosidade, o misticismo e os temas épicos.
Obra:
Via Sacra, poesia, 1989
Fonte luminosa, poesia, 1990
Nunca Te-vi, poesia, 1991
Fiandeira, ensaios, 1992
Guerra entre irmãos, poesia, 1993
Canção dos mistérios, poesia, 1994
Sob os cedros do Senhor, poesia, 1994
Abadia, poesia, 1995
Mulher Samaritana, 1996
Maria Madalena, prosa poética, 1996
Caraguatá, poesia, 1996
Pele de jambo, infanto-juvenil, 1996
O arado e a estrela, poesia, 1997
Intimidades transvistas, 1997
Rute e a sogra Noemi, prosa poética, 1998
A casa da Tecla, poesia, 1998
Senhora, poesia, 1999
Stella Maia e outros poemas, 2001
Casa e castelo, poesia, 2002
Maria Egipcíaca, poesia, 2002
Tecelã de tramas: ensaios sobre interdisciplinaridade, ensaios, 2004
Portão de ferro, poesia, 2006
Literatura e Drogas e outros ensaios, crítica literária, 2007