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Ilustração Ethel Betts, 1908.
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Verão
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Hélio Pellegrino
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Colho a sombra das coisas
sob o sol
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Como quem colhe frutas
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Rio, 24/2/80
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Em: Minérios Domados, Hélio Pellegrino, Rio de Janeiro, Rocco:1993.
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Ilustração Ethel Betts, 1908.–
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Hélio Pellegrino
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Colho a sombra das coisas
sob o sol
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Como quem colhe frutas
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Rio, 24/2/80
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Em: Minérios Domados, Hélio Pellegrino, Rio de Janeiro, Rocco:1993.
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Henrique Simas
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O vento soprou depois de alguma espera
E foram expulsos de dentro todos os fantasmas
Os restos de sombra o sol desfez.
A chuva terminou de apagar as últimas letras,
Arrancando da terra as raízes inúteis.
E nada mais sobrou além do espaço
Pronto a ser ocupado pelos novos donos,
Obstinados cultivadores de esperança.
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Em: Horizonte Vertical: poemas, Henrique Simas,prefácio de Alceu Amoroso Lima, Rio de Janeiro, Olímpica: 1967, p. 78.
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Sidónio Muralha
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Gaiola aberta.
Aberta a janela.
O pássaro desperta.
A vida é bela.
A vida é boa.
Voa, pássaro, voa.
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–Em: A dança dos picapaus, Sidonio Muralha, Nórdica: 1985, Rio de Janeiro.
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Sidónio Muralha nasceu em Lisboa, em 1920. Faleceu no Brasil em 1982.
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Ilustração Maud Towsey Fangel, para Revista Home Arts, de Janeiro de 1936.–
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Bastos Tigre
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A mamãe bate palmas de contente,
Do papai rejubila a alma festiva;
Cantam risos pelo ar… Que é que motiva
Essa emoção que alegra toda gente?
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É que, abrindo a boquinha, sorridente,
Bebê, no róseo alvéolo da gengiva,
Deixou ver a promessa, a perspectiva,
O breve ensaio do primeiro dente.
–
Agora, a acampanhar-lhe o crescimento,
Dia a dia a mamãe enternecida
Terá para o dentinho o olhar atento.
–
Outro virá depois… outro em seguida…
E ei-lo, o Bebê, com sólido instrumento
Com que no mundo se defende a vida!
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Em: Antologia Poética,, vol I, Bastos Tigre, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1982
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Manoel Bastos Tigre nasceu no Recife em 1882. Formou-se em engenheiro pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Mas dedicou-se às letras. Estreou na imprensa carioca em 1902, no Correio da Manhã, onde manteve uma coluna humorística diária: Pingos e Respingos, até a sua morte em 1957. Foi o primeiro bibliotecário brasileiro por concurso o que lhe valeu o título e Patrono dos Bibliotecários do Brasil.
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Obras:
Saguão da Posteridade, 1902.
Versos Perversos, poesia, 1905.
O Maxixe. Rio de Janeiro , 1906.
Moinhos de Vento, 1913.
O Rapadura, teatro, 1915.
Grão de Bico, 1915.
Bolhas de Sabão, 1919.
Arlequim, 1922.
Fonte da Carioca, 1922.
Ver e Amar, 1922.
Penso, logo… eis isto, 1923.
A Ceia dos Coronéis, 1924.
Meu bebê, 1924.
Poemas da Primeira Infância, 1925.
Brinquedos de Natal, 1925.
Chantez Clair, 1926.
Zig-Zag, 1926.
Carnaval: poemas em louvor ao Momo, 1932.
Poesias Humorísticas, 1933.
Entardecer, 1935.
As Parábolas de Cristo, 1937.
Getúlio Vargas, 1937.
Uma Coisa e Outra, 1937.
Li-Vi-Ouvi, 1938.
Senhorita Vitamina, 1942.
Recitália, 1943.
Martins Fontes, 1943.
Aconteceu ou Podia ter Acontecido, 1944.
Cancionário, 1946.
Conceitos e Preceitos, 1946.
Musa Gaiatal, 1949.
Sol de Inverno, 1955.
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Oscar Araripe ( Rio de Janeiro, contemporâneo)
86 x 110cm
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Para Luiz Carlos Alves
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Eu fui a Belo Horizonte
ver as meninas gerais.
Vi montanhas e montanhas,
soube de seus litorais,
conheci Minas por dentro,
gostei de alguns minerais,
visitei as novas praças
e seus antigos currais,
vi a toca das raposas,
ouvi discursos e uais,
vi políticos cursando
colégios eleitorais,
vi contistas e contistas
cada qual contando mais,
vi poetas de vanguarda
desenhando nos jornais,
conheci suas tendências,
seus refrões episcopais,
vi gente de toda parte,
do Piauí, de Goiás
(goiano fazendo cera,
piauiense muito mais),
vi homens pulando cercas,
mulheres com seus plurais,
vi a família mineira
na barra dos tribunais,
e na Rua Carangola
(Ouro Preto no cartaz)
vi uma moça morena
cantando seus madrigais,
fazendo um túnel no tempo
e me fazendo sinais
de que só existe Minas
na forma dos festivais,
quando o barroco já rouco
cochicha pelos beirais,
quando a lua e a serenata
passeiam pelos quintais,
quando há miados de gata
no serenô das gerais.
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Em: Plural de nuvens, Gilberto Mendonça Teles, Rio de Janeiro, José Olympio: 1990
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Gilberto Mendonça Teles (Bela Vista de Goiás, 30 de junho de 1931) é um poeta e crítico literário brasileiro.
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Obras:
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Alvorada, 1955.
Estrela-d’Alva, 1958
Fábula de Fogo, 1961
Pássaro de Pedra, 1962
Sonetos do Azul sem Tempo, 1964
Sintaxe Invisível, 1967
La Palabra Perdida (Antología),1967
A Raíz da Fala, 1972
Arte de Armar. Rio de de Janeiro: Imago, 1977
Poemas Reunidos, 1978
Plural de Nuvens, 1984
Sociologia Goiana, 1982
Hora Aberta, 1986
Palavra (Antologia Poética),1990
L ´Animal (Anthologie Poétique), 1990
Nominais, 1993
Os Melhores Poemas de Gilberto Mendonça Teles
Sonetos (Reunião), 1998
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Mosquito, ilustração Maurício de Sousa.–
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Cecília Meireles
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O mosquito pernilongo
trança as pernas, faz um M,
depois treme, treme, treme,
faz um O bastante oblongo,
faz um S.
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O mosquito sobe e desce.
Com artes que ninguém vê,
faz um Q,
faz um U, e faz um I.
–
Este mosquito esquisito
cruza as patas, faz um T.
E aí,
se arredonda e faz outro O,
mais bonito.
–
Oh!
Já não é analfabeto,
esse inseto,
pois sabe escrever seu nome.
–
Mas depois vai procurar
alguém que possa picar,
pois escrever cansa,
não é, criança?
–
E ele está com muita fome.
–
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Em: Ou isto ou aquilo, Cecília Meireles, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 2002.
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Cecília Benevides de Carvalho Meireles (RJ 1901 – RJ 1964) poeta brasileira, professora e jornalista brasileira.
Obras:
Espectros, 1919
Criança, meu amor, 1923
Nunca mais…, 1924
Poema dos Poemas, 1923
Baladas para El-Rei, 1925
O Espírito Vitorioso, 1935
Viagem, 1939
Vaga Música, 1942
Poetas Novos de Portugal, 1944
Mar Absoluto, 1945
Rute e Alberto, 1945
Rui — Pequena História de uma Grande Vida, 1948
Retrato Natural, 1949
Problemas de Literatura Infantil, 1950
Amor em Leonoreta, 1952
12 Noturnos de Holanda e o Aeronauta, 1952
Romanceiro da Inconfidência, 1953
Poemas Escritos na Índia, 1953
Batuque, 1953
Pequeno Oratório de Santa Clara, 1955
Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro, 1955
Panorama Folclórico de Açores, 1955
Canções, 1956
Giroflê, Giroflá, 1956
Romance de Santa Cecília, 1957
A Bíblia na Literatura Brasileira, 1957
A Rosa, 1957
Obra Poética,1958
Metal Rosicler, 1960
Antologia Poética, 1963
História de bem-te-vis, 1963
Solombra, 1963
Ou Isto ou Aquilo, 1964
Escolha o Seu Sonho, 1964
Crônica Trovada da Cidade de San Sebastian do Rio de Janeiro, 1965
O Menino Atrasado, 1966
Poésie (versão francesa), 1967
Obra em Prosa – 6 Volumes – Rio de Janeiro, 1998
Inscrição na areia
Doze noturnos de holanda e o aeronauta 1952
Motivo
Canção
1º motivo da rosa
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Pirilampo, ilustração Jeniffer Emery, EUA.–
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Brilhante de asas — o vagalume,
Dentro da noite escura e feia,
Para a beleza do negrume,
Ele a si próprio se incendeia.
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(Sabino de Campos)
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Fra Fillipino Lippi (Itália, 1457-1504)
óleo sobre madeira
Galeria Uffizi, Florença
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Manuel Bandeira
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O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão somente
Para querer bem.
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Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.
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Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino,
Seu nome é Jesus.
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Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.
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Em: Antologia Poética, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, Sabiá: 1961, 5ª edição.
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Manuel Bandeira (Recife PE, 1884 – Rio de Janeiro RJ, 1968) foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro. Teve seu primeiro poema publicado aos 8 anos de idade, um soneto em alexandrinos, na primeira página do Correio da Manhã, em 1902, no Rio de Janeiro. Cursou Arquitetura, na Escola Politécnica, e Desenho de Ornato, no Liceu de Artes e Ofícios, entre 1903 e 1904; precisou abandonar os cursos, no entanto, devido à tuberculose. Nos anos seguintes, passou longos períodos em estações climáticas, no Brasil e na Europa.
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Obras:
Poesia
A cinza das horas, 1917
Carnaval, 1919
O ritmo dissoluto, 1924
Libertinagem, 1930
Estrela da manhã, 1936
Lira dos cinquent’anos, 1940
Belo, belo, 1948
Mafuá do malungo, 1948
Opus 10, 1952
Estrela da tarde, 1960
Estrela da vida inteira, 1966
Prosa
Crônicas da Província do Brasil – Rio de Janeiro, 1936
Guia de Ouro Preto, Rio de Janeiro, 1938
Noções de História das Literaturas – Rio de Janeiro, 1940
Autoria das Cartas Chilenas – Rio de Janeiro, 1940
Apresentação da Poesia Brasileira – Rio de Janeiro, 1946
Literatura Hispano-Americana – Rio de Janeiro, 1949
Gonçalves Dias, Biografia – Rio de Janeiro, 1952
Itinerário de Pasárgada – Jornal de Letras, Rio de Janeiro, 1954
De Poetas e de Poesia – Rio de Janeiro, 1954
A Flauta de Papel – Rio de Janeiro, 1957
Itinerário de Pasárgada – Livraria São José – Rio de Janeiro, 1957
Andorinha, Andorinha – José Olympio – Rio de Janeiro, 1966
Itinerário de Pasárgada – Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1966
Colóquio Unilateralmente Sentimental – Editora Record – RJ, 1968
Seleta de Prosa – Nova Fronteira – RJ
Berimbau e Outros Poemas – Nova Fronteira – RJ
O Natal só acontece uma vez por ano, 1896
Charles Green
Litogravura
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Bastos Tigre
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Da vasta mesa patriarcal, em torno,
A família reúne-se. Fumega
O rotundo leitão assado ao forno,
Entre vinhos velhíssimos da adega.
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Loiras batatas traçam-lhe o contorno
Finas rodelas de limão carrega;
E, assim, com todo o culinário adorno,
Aguarda, inerte, a sorte iníquia e caga.
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É noite de Natal. Festa! Alegria!
Em cada boca há um riso iluminado
Pelo amor que das almas irradia.
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Mas ninguém nota o riso resignado
De amarga, pungentíssima ironia
Dos meigos olhos do leitão assado…
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Antologia Poética, Bastos Tigre, Rio de Janeiro, Francisco Alves:1982, vol. 2
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Moça diante do espelho, 1932
Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973)
óleo sobre tela, 162x 130cm
Museu de Arte Moderna de Nova York
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Manuel Bandeira
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Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
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Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em por seus chinelinhos atrás da porta.
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1939
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Em: Antologia Poética, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, Sabiá: 1961, 5ª edição
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