Vaso chinês, soneto de Alberto de Oliveira

22 10 2014

 

 

 

 

porcelain collector 868A colecionadora de porcelanas, 1868

Alfred Stevens (Bélgica, 1823-1906)

óleo sobre tela, 71 x 45 cm

North Carolina Museum of Art

 

 

Vaso Chinês

 

Alberto de Oliveira

 

 

Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,

Casualmente, uma vez, de um perfumado

Contador sobre o mármor luzidio,

Entre um leque e o começo de um bordado.

 

Fino artista chinês, enamorado,

Nele pusera o coração doentio

Em rubras flores de um sutil lavrado,

Na tinta ardente, de um calor sombrio.

 

Mas, talvez por contraste à desventura,

Quem o sabe?… de um velho mandarim

Também lá estava a singular figura.

 

Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a,

Sentia um não sei quê com aquele chim

De olhos cortados à feição de amêndoa.

 

Em: Nossos Clássicos: Alberto de Oliveira, poesia, Rio de Janeiro, Agir: 1959, p. 24





Trova da vida que passa

20 10 2014

 

 

ciranda, anne andersonIlustração de Anne Anderson.

 

 

Lá vai a vida, girando.

Então, giremos também,

que a vida gira, levando

os sonhos que a gente tem.

 

(Jesy Barbosa)

 





Trova da amizade

15 10 2014

 

amigos, bons, margret borissCartão postal, Margret Boriss.

 

 

Guardada como fragrância,

a verdadeira amizade

não se perde na distância,

adormece na saudade.

 

(Ângela Togeiro)

 





A cortina, poesia de Maria Thereza de Andrade Cunha

13 10 2014

 

Caspar David Friedrich, Woman at the Window (1822) oil on canvas, 44 x 73 cm (Alte Nationalgalerie, Berlin).Moça à janela, 1822

Caspar David Friedrich (Alemanha, 1774-1840)

óleo sobre tela, 44 x 73 cm

Alte Nationalgalerie, Berlim

 

 

A cortina

 

Maria Thereza de Andrade Cunha

 

 

Quando a rua em que moro tu subias,

Por detrás da cortina eu te esperava;

E passavas sorrindo, pois bem vias

Que a cortina de rendas ondulava…

 

Como foram felizes esses dias

Em que meu coração se alvoroçava,

Quando longe passavas, e sabias

Que eu, de longe, te via… e te adorava!

 

Deixaste de passar à minha porta.

Da cortina rasgaram-se os babados.

— O tempo, rendas e esperanças corta! —

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .

 

Foi trocada a cortina da janela!

A nova é toda  feita de bordados

… Mas, eu gostava muito mais daquela…

 

 

Em:  É primavera… escuta., Maria Thereza de Andrade Cunha, Rio de Janeiro, 1949, p.49-50.





Trova do auto conhecimento

9 10 2014

 

astronauta 2, tintin, milou, hergéTintin e Milou estão na Lua, ilustração Hergé.

 

 

Se o homem conquista o espaço,

por que é que, lutando a esmo,

é incapaz de dar um passo

para dentro de si mesmo?!…

 

(Izo Goldman)





Distração, poesia de João Manuel Simões

7 10 2014

 

 

brinquedos de toda horaAutoria não identificada.

 

 

Distração

 

João Manuel Simões

 

 

Azar: acabei por esquecer

num baú antigo

a caixa de lápis de cor

com que eu costumava pintar

o arco-íris.

(Foi antes de pegar o trem

que me trouxe ao presente).

Por isso sou obrigado a me contentar,

hoje,

com as imitações desenhadas no céu,

depois da chuva.

 

 

Em: Poemas da infância,antologia poética,  João Manuel Simões, Curitiba, Livros HDV: 1989, p. 60





Leão, poesia infantil de Vinícius de Moraes

2 10 2014

 

 

LEAOCartão Postal.

 

Leão

 

Vinícius de Moraes

 

 

Leão! Leão! Leão!
Rugindo como um trovão
Deu um pulo, e era uma vez
Um cabritinho montês
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!

.

Tua goela é uma fornalha
Teu salto, uma labareda
Tua garra, uma navalha
Cortando a presa na queda

.

Leão longe, leão perto
Nas areias do deserto
Leão alto, sobranceiro
Junto do despenhadeiro
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!

.

Leão na caça diurna
Saindo a correr da furna
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus quem te fez ou não?
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!

.

O salto do tigre é rápido
Como o raio, mas não há
Tigre no mundo que escapa
Do salto que o leão dá
Não conheço quem defronte
O feroz rinoceronte
Pois bem, se ele vê o leão
Foge como um furacão
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus quem te fez ou não?

.

Leão se esgueirando à espera
Da passagem de outra fera…
Vem um tigre, como um dardo
Cai-lhe em cima o leopardo
E enquanto brigam, tranqüilo
O leão fica olhando aquilo
Quando se cansam, o Leão
Mata um com cada mão
Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus quem te fez ou não?

 

.

Em: A arca de Noé:poemas infantis, Vinícius de Moraes, Companhia das Letrinhas, São Paulo:1991





Trova da realidade…

1 10 2014

 

lá se vai uma fortuna Tio Patinhas desconfia das contas a pagar. Ilustração de Walt Disney.

 

 

Na terra do cambalacho,

há sempre um jeitinho novo,

por lei ou simples despacho,

de dar o “cano” no povo…

 

(Thereza Costa Val)





Eco, poesia de Henriqueta Lisboa

29 09 2014

 

picture-1Ilustração de Nicoletta Ceccoli.

 

 

Eco

 

Henriqueta Lisboa

 

Papagaio verde

deu um grito agudo.

Rocha numa raiva

brusca, respondeu.

 

Ganhou a floresta

um grande escarcéu.

Papagaios mil

o grito gritaram

rocha repetiu.

 

De um e de outro lado

metralhando o espaço

os gritos choveram

e choveram, de aço.

 

Gritos agudíssimos!

 

Mas ninguém morreu.

 

Em: Nova Lírica, Henriqueta Lisboa, Belo Horizonte, Imprensa Oficial: 1971, p. 38





Trova do entardecer

25 09 2014

 

passarinhos no galho, muitos, jkwCartão postal, K. Nixon.

 

 

Sopra um vento suave, brando,

ondulando capinzais,

e os passarinhos, em bando,

se aninham nos matagais.

 

(Décio Valente)