Descantes, poema de Stella Leonardos

27 10 2015

 

 

jardim, jardineiro, casa, árvores, Pierre Brissaud, House and Garden 1927-03Ilustração de Pierre Brissaud, para a revista House & Garden, março 1927.

 

 

Descantes

 

Stella Leonardos

 

 

Ah pássaro triste!

Quem larga cantigas

de penas tão cinzas

nas horas que voam?

 

Ah flor escondida!

Choraste tão triste

nas gotas de brilho

do orvalho que foi-se.

 

Ah nuvem lá em cima

fugindo fugindo

tão triste tão triste

tão alma de sonho!

 

Vem, chuva dos tristes,

irmã comovida

cinzentas retinas

chorando horizontes!

 

Em: Ar Lírico, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1961, p. 21





Trova do parafuso

26 10 2015

 

 

Picture 083Ilustração anônima, década de 1960.

 

 

O parafuso anda cheio,

pois tem o corpo enrolado,

cabeça partida ao meio,

e vive sendo apertado.

 

(Izo Goldman)





Trova do meu amor

23 10 2015

 

mulher de verde Dudovich- Green LadyIlustração de Dudovich.

 

Do meu coração me espanto!

O amor só me deu pesar,

como tendo amado tanto

tenho ainda amor para dar?!…

 

 

(Gilka Machado)





Trova da mudanças

20 10 2015

 

 

Rose-Lily-ValleyAntigo cartão postal.

 

 

Meu Deus, que coisa mais triste

ver uma rosa murchar!

– Que pena, esta vida insiste

em tudo modificar!

 

(Elza Capanema Leitão)





Trova da inveja

13 10 2015

 

 

DSC01113Pipa conversa com passarinho, ilustração de Maurício de Sousa.

 

 

Não invejo o passarinho,

livre e alegre na amplidão.

Vivo preso ao teu carinho,

e sou feliz na prisão…

 

(Almeida Corrêa)





Trova da carta de amor

8 10 2015

 

 

carta da holanda, Henry Clive (1882 – 1960)Ilustração Henry Clive.

 

 

Há celulares à farta,

i-phone, computador…

Mas nada se iguala à carta

para os recados de amor!

 

(A. A. de Assis)





Tempestade, poesia infantil de Henriqueta Lisboa

5 10 2015

 

 

chuva a dois, freddie langelerIlustração Freddie Langeler.

 

 

Tempestade

 

Henriqueta Lisboa

 

— Menino, vem para dentro,

olha a chuva lá na serra,

olha como vem o vento!

 

— Ah, como a chuva é bonita

e como o vento é valente!

 

— Não sejas doido, menino,

esse vento te carrega,

essa chuva te derrete!

 

— Eu não sou feito de açúcar

para derreter na chuva.

Eu tenho força nas pernas

para lutar contra o vento!

 

E enquanto o vento soprava

e enquanto a chuva caía,

que nem um pinto molhado,

teimoso como ele só:

 

— Gosto de chuva com vento,

gosto de vento com chuva!

 

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p. 170.





Trova da mentira e do sonho

30 09 2015

 

 

sonho 3Cascão sonha com porquinhos, ilustração de Maurício de Sousa.

 

 

A mentira é sonho lindo

neste meu mundo encantado.

Sonhando, minto dormindo,

mentindo, sonho acordado.

 

(Sinval Emílio da Cruz)





Em meu jardim, poesia de Afonso Louzada

22 09 2015

 

 

jardinagem, jardim, carrinho, Joseph B. Platt,House and Garden 1925-03Ilustração de Joseph B. Platt, Revista House and Garden, março de 1925.

 

 

Em meu jardim

 

Afonso Louzada

 

Artista jardineiro, enamorado

do encanto policrômico das cores,

em meu jardim plantei todas as flores

a que dei meu amor mais desvelado:

 

rosas de um rubro vivo, das mil dores

do acicate cruento do pecado;

lírios de um branco puro, imaculado,

da virginal pureza dos amores.

 

E sob o meu carinho, todo dia,

como nenhum outro jamais faria,

tudo medrou, cresceu, floriu, enfim.

 

Só vós que sois das flores a princesa,

entre rosas e lírios, com certeza

não quisestes florir no meu jardim.

 

 

Em: Templo Abandonado, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional: 1945, p. 31





Andorinha, poesia de B. Lopes

1 09 2015

 

 

SwallowOcean-GraphicsFairy1Cartão postal, virada do século XX.

 

 

Andorinha

 

Bernardino Lopes

 

Estes versos já passaram pela boca estelífera da minha amada, aos acordes doces e trêmulos do violão chorando sob seus dedos…

 

Andorinha que fizeste

Ninho em minh’alma, uma tarde,

E que andas no azul celeste

Cantando e fazendo alarde;

 

Que, em horas de forte calma,

Bebeste das crenças minhas,

Fazendo assim de minh’alma

Ribeirão das andorinhas;

 

Dize lá: por que não voltas

Ao teu recôndito abrigo,

Peregrina de asas soltas

Que pelas nuvens eu sigo?

 

Por que vives pelos ares,

Oh! alma de pirilampo!

Quando há frutos nos pomares

E tanta flor pelo campo?

 

Foge do pranto e do frio,

As leves penas abrindo…

Olha o teu ninho vazio,

Sonho emplumado, e vem vindo…

 

Vem, recortando  os espaços,

Num saudoso devaneio,

Cair tremente em meus braços,

Dormir tranquila em meu seio!

 

Ah! já não vens, de asa espalma,

Saciar-te em mim, como vinhas…

Era então esta minh’alma

Ribeirão das andorinhas!

 

(Val de Lírios, Laemmert & Cia., Rio de Janeiro, 1900, pág. 119-121)

 

Em: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, ed. Manoel Bandeira, 3ª edição, Rio de Janeiro, Departamento da Imprensa Nacional:  1951. pp: 132-133.