Outono, folhas rolando,
amarelas pelo chão,
lembram minh’alma chorando
os sonhos que ao longe vão.
(Georgina M. Xavier)
Outono, folhas rolando,
amarelas pelo chão,
lembram minh’alma chorando
os sonhos que ao longe vão.
(Georgina M. Xavier)
Flora Figueiredo
Encosta teu sentido
nesse pedaço de céu descolorido
e nota:
esmoreceu o voo da gaivota,
o arrulho do pombo arrefeceu.
Desbotou-se o azul,
sujou-se o branco
e o sol rolou pelo barranco
no último troar do vento sul.
Calou-se o clarim do anjo
e sua lira
pois até mesmo a passarada se retira
por não te ver amante ao meu lado.
E nesse vão de vida devassado
eu me confundo:
vou procurar teu beijo perfumado
num clarão de lua derrubado
além da dobra final do fim do mundo.
Em: Florescência, Flora Figueiredo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1987, p.64
Leitora no jardim, final da década de 1960
Cesare Peruzzi (Itália, 1894-1995)
óleo sobre tela, 33 x42 cm
Januário dos Santos Sabino
Quando o sol já no poente
Perde o brilho, a cor desmaia
E louca vaga gemente
Se desenrola na praia;
Quando alegre o coleirinho,
No galho da pitangueira,
Trina à beira do seu ninho
Doce canção feiticeira;
Quando a flor n’haste pendida,
Mais grato perfume exala,
E a natureza sentida
Como que, cantando fala:
Eu sinto, minha alma então
Divagar na imensidade
Dos cismares da paixão,
Levada pela saudade;
Lembra-me o tempo encantado,
Que eu a teu lado passei…
Ah!… com então enlevado,
No teu amor me inspirei!
Minha vida que então era,
Arruinado jardim,
Transformou-se em primavera,
Teve rosas e jasmim;
E as ondas procelosas,
Do mar de minha existência,
Se acalmaram bonançosas,
Ao teu sorrir de inocência;
Mas agora, — ave sem ninho,
A doudejar no deserto,
Cego em busca do caminho,
Com passo tardio e incerto;
Lembrando esse momento,
De tão venturosa idade,
Só encontro um sentimento,
Uma palavra – saudade!
Revista O Cysne, ano I, nª 1, 1864
Januário dos Santos Sabino (Brasil, 1836?- 1900)
Somente agora é que vejo
que tens razão, meu amor…
Quem paga beijo com beijo
tem sempre saldo a favor.
(Narciso Nery)
Paulo Cesar ‘nariz de feijão, 2020
Augusto Herkenhoff (Brasil,1965)
acrílica sobre tela, 48 x 36cm
Ira Etz
Atendo o telefone
Ela fala alto,
Minha velha amiga
Está surda.
Foi logo dizendo:
Ando muito sozinha.
Ninguém para conversar
Falo com os cachorros
Sigo relendo livros antigos
Jornal, só aos domingos.
Estou velha e sem dinheiro.
Eu disse que também estava velha
Como se isso servisse de consolo.
De repente ela mudou o tom
Da conversa
Você viu o jogo ontem?
Que jogaço!
Amante de futebol
Assiste a todos os campeonatos,
Discute com a TV, vibra
Torcedora do Botafogo.
Time da Estrela Solitária.
Em: Ainda, Ira Etz, Rio de Janeiro, Sete Letras: 2022, p.65
Querendo colher no outono,
semeei na primavera…
Tu deixaste no abandono
um jardim à tua espera…
(Marília Fairbanks Maciel)
Que elegante está você!
Este pijama é perfeito!
Só não entendo por que
tantos números no peito!???
(José Ouverney)
Luar com barcos
Inos Corradin (Itália, 1929, radicado no Brasil)
óleo sobre tela, 80 x 60 cm
Osório Dutra
Quisera ser piloto a bordo de um cargueiro
E passar minha vida a partir e a chegar!
Partir para a ilusão de um sonho alvissareiro,
Chegar de Tanganica ou de Madagascar!
Partir como quem foge a um duro cativeiro
E chegar de um país estranho e milenar!
Partir levando n’alma a luz do meu Cruzeiro,
Chegar pelo prazer que há na ânsia de voltar!
Partir hoje, amanhã, depois, continuamente!
Transportar o café ao comércio do Oriente!
E das Índias trazer a pérola e o coral!
Partir para cumprir a lei do meu destino!
Chegar para sentir que um perfume divino
Faz de ti minha terra, o mais lindo rosal!