O samba, poesia de Batista Cepelos

15 06 2024

Samba, 1928

Emiliano Di Cavalcanti (Brasil,1897-1976)

óleo sobre tela, 64 x 49 cm

Coleção Fadel

 

 

O samba

 

Batista Cepelos

 

Na noite em que algum santo se festeja,
Junto à fogueira, o samba principia,
Logo o pandeiro elástico estrondeja,
Ronca e muge o tambor, numa porfia.

Que extravagante, singular peleja:
Este, rapidamente rodopia;
Aquele, desconjunta-se e rasteja,
Numa parafusante cortesia.

 

E, em lânguido meneio, as raparigas,
Agitando os vestidos encarnados,
Cantarolam estrídulas cantigas.

 

E, no ardor da frenética loucura,
Os pares, em pinotes compassados,
Veia juntando cintura com cintura.

 

 

 





Trova do poeta

14 06 2024

Bendito seja o poeta

que na leveza do verso

enfeita, acalanta, aquieta

toda a angústia do universo.

(Vera Vargas)





Flor, poema de Maria Dinorah

24 05 2024
Ilustração de Nellie Benson, 1910
 
 
Flor

 

Maria Dinorah

 

Menina das brancas asas,

dó, ré, mi, fá, sol, lá, si,

quando passas pelas casas,

canta a rua e o céu sorri.

Tanto encanto há no seu jeito

feito de campo e açucena,

que as águas dançam no leito

enquanto a lua te acena.

Um anjo morre de inveja,

um astro morre de amor

ao ver-te cor de cereja,

tingindo o mundo de cor.

Menina, tão menininha,

nem sabes que és uma flor!





Trova do destino

16 05 2024
Ilustração, Clarence Coles Phillips (EUA, 1880-1927)

 

 

 

Ao beijar a tua mão,

que o destino não me deu,

tenho a estranha sensação

de estar roubando o que é meu.

 

(Durval Mendonça)





A Fazenda Santa Cruz, poesia de Olegário Mariano

13 05 2024

Entrada da fazenda, 1966

Aldo Bonadei (Brasil, 1906-1974)

óleo sobre tela, 59 x 77cm

 

 

O Rio Grande do Sul está em todos os nossos pensamentos.  Dia sim. outro também.  Durante a semana passada, uns versos, que eu não sabia de quem, e que não sabia de onde vinham, vieram me visitar, memória é uma coisa chocante. 

Por muitos anos tive o hábito de anotar versos que lia e que achava bonitos.  Na adolescência certamente sem o cuidado que desenvolvi, ao longo dos anos, de anotar o autor, o livro etc.  A frase que me perseguiu foi “os rios são com certeza, o pranto da natureza.”  Bem, chegar à autoria de Olegário Mariano foi fácil.  Bastou abrir aspas, colocar a frase no Google, fechar aspas e procurar.  O problema foi achar a poesia….  Achei.  Tenho em casa a obra completa do poeta.  Mas são dois volumes…  Levei  um tempinho.  Aqui vai para vocês.

 

Acredito que o rio mencionado na poesia seja o Rio Saracuruna aqui no estado do Rio de Janeiro.  Já naquela época, antes de 1931, Mariano nos alertava sobre os maus tratos que este rio recebia.

 

 

 

A Fazenda Santa Cruz

 

Olegário Mariano (1889-1958)

 

 

Por entre a folhagem verde

Que pelas brenhas se perde,

No coração da Fazenda

Dorme a casa de vivenda.

 

Um pátio largo defronte,

Ao fundo azul — o horizonte

A crepitar, esbraseado,

Num crepúsculo doirado.

 

A mata pesada, imensa,

Parece que sonha ou pensa…

Catedral verde que encerra

O culto simples da terra.

 

Abre-se um rio de prata

E, num fragor de cascata,

Borbulha de duna em duna…

É o rio Saracuruna.

 

À tona um enxame treme

Se equilibra e vibra e freme,

E às vezes se desmorona

Como uma coluna, à tona…

 

Umas partem, outras voltam,

As asas doiradas soltam

Em nervosas tarantelas,

Brancas, verdes amarelas.

 

Bate a porteira da entrada.

Sonolenta entra a boiada:

— Pintado!  Moreno!  Audaz!

And à frente, meu rapaz!

 

Um deles, o mais tristonho,

Que é pesado como um sonho,

Olhando o campo tão lindo,

Vai passando, vai mugindo…

 

Entre árvores surge a lua,

Branca e inteiramente nua,

Mostrando, em suaves coleios,

O tronco, os braços, os seios…

 

Sobe e do alto descampado

Espalha um véu de noivado

Com cintilações estranhas

Pela encosta das montanhas…

 

Depois desce ao rio, e o rio

Que rola sereno e frio,

Se enrosca num frenesi:

— Beija-me as águas, Iaci!

 

O Saracuruna sonha…

Na marcha lenta e tristonha,

O rio lembra um vivente

Porque chora, porque sente.

 

Vai sinuoso… Entra a devesa

Levando na correnteza

Troncos, arbustos e ninhos

Que encontrou pelos caminhos.

 

E perde-se longe…  Agora

Nem sinal da água que chora…

 

Os rios são, com certeza,

O pranto da natureza.

 

 

Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 1 (1911-1931), pp. 90-92.





Dia das Mães está chegando!

3 05 2024




Trova dos pirilampos

23 04 2024
Vagalumes na noite, ilustração anônima.

 

 

É Deus que à noite dispersa

o bando dos pirilampos,

taquigrafando a conversa

que há entre as flores, nos campos.

 

(Balthazar de Godoy Moreira)

 





Veja que boa recomendação!

16 04 2024

 

 





A um passarinho, Vinícius de Morais

12 04 2024

Ilustração Asato

 

 

A um passarinho

 

Vinícius de Morais

 

 

Para que vieste

na minha janela

meter o nariz?

Se foi por um verso

não sou mais poeta

ando tão feliz!

Se é para uma prosa

não sou Anchieta

nem venho de Assis.

Deixa-te de histórias

some-te daqui.

 

 

Em: Obra Poética, Rio de Janeiro, José Aguilar: 1968, p.270





Trova do outono

10 04 2024

 

 

Outono, folhas rolando,

amarelas pelo chão,

lembram minh’alma chorando

os sonhos que ao longe vão.

 

(Georgina M. Xavier)