Jornal até bandido lê! Ilustração de Walt Disney, Irmãos Metralha.
alguém o condenaria:
Quando a vida se complica
nas horas de solidão,
amigo é aquele que fica
depois que os outros se vão.
(Aloísio Alves da Costa)
Espere, alguma coisa não está correta!, 2023
Stephen Hall (Escócia, 1954)
acrilica sobe tela, 102 × 76 cm
António Manuel Couto Viana (1923–2010)
Avestruz:
O sarcasmo de duas asas breves
(Ânsia frustrada de espaço e luz,
De coisas frágeis, líricas, leves);
Patas afeitas ao chão;
Voar? Até onde o pescoço dá.
Bicho sem classificação:
Nem cá, nem lá.
Isto sou (Dói-me a ironia
– Pudor nem eu sei de quê).
Daí a absurda fantasia
De me esconder na poesia,
Por crer que ninguém a lê.
Em: O avestruz lírico, 1948
Nota: encontrei esse poema hoje, por acaso. Não resisti, tive que trazê-lo para cá. Ri muito.
Luiz Pistarini
Bela, por mim, se vejo-te passando.
Tudo me esquece por estar te vendo
– Sinto o Prazer, no coração cantando,
E a mágoa, enfim, no coração, morrendo …
Passas … E, alegre, vou te acompanhando
Pelos lugares por que vais correndo …
E ao ver-te longe, minha flor, – chorando,
Triste suspiro, sem querer, desprendo …
Voltas depois, formosamente rindo …
Voltas depois, e o meu pesar te escondo,
Num riso franco de prazer profundo!
Ficas. E eu, louco, imerso em gozo infindo,
Grande, – aos teus pés, o coração depondo,
Sinto a mais grata sensação do mundo!
Resende – 1895
Nota: eu mesma fiz a atualização das palavras para o português corrente no Brasil, hoje. Exemplo: si > se;
vaes > vais e assim por diante. Poeta fluminense, natural de Resende.
Ladyce West
Sou marinheiro de muitos mares,
De vários pares, de poucos lares,
De rumo impreciso,
De longos caminhos.
Redemoinhos…
Sou marinheiro de muitas águas
E poucas mágoas.
Destino traçado
Nas sombras das vagas
Em promessas pagas
No fluxo do amor
©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014
(Poesia escolhida e publicada no Desafio da Poesia de 2014, e esquecida na gaveta até hoje. Rs…)
Paisagem mineira
Armínio Pascual (Brasil, 1920 – 2006)
óleo sobre eucatex, 30 x 40 cm
Helena Lellis de Andrade
Há montanhas azuladas
E campinas verdejantes
Um rio murmurante
De águas sempre a rolar
Há coqueiros, altaneiros
Sapatinhos e ipês
Há prédios altos, vistosos
Há choupanas de sapé
Há uma cruz no alto do morro
Com capelas pra rezar
Lembram passos dolorosos
De Jesus a se imolar
Há no lindo azul do céu
Brancas nuvens a passar
Estrelas brilham, cintilam
Nas noites claras de luar
Há estradas, automóveis
Trens, bondes e oficinas
Há sirenes e buzinas
Há coisas intermináveis
Há carrilhões, afinados
Tocando ao meio dia
Rezando as Ave Marias
Chorando para os finados
Não é brilhante nem ouro
Mas vale mais que tesouro
É a imagem milagrosa
Da nossa padroeira
A Senhora Aparecida
Do Brasil tão querida
Das Graças a medianeira
Há carrilhões, afinados
Tocando ao meio dia
Rezando as Ave Marias
(29 de julho 1952)
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.
Alguma Poesia
Para mantê-los me empenho,
porque penso sempre assim:
tendo os amigos que tenho,
eu nem preciso de mim!
(Izo Goldman)
Casal comendo próximo à janela,1655
Frans van Mieris, o Velho (Holanda, 1635-1681)
óleo sobre madeira, 36 x 31 cm
UFFIZI, Florença
Ladyce West
Contrariando a física
o tempo parou,
sugado por falha geológica
no descontínuo rolar das horas.
Lacuna espelhada na rua deserta
no som suspenso dos carros parados
no intervalo forçado de planos, projetos
breque em desejos, ambições e caprichos.
O inimigo invisível por todo lado.
Sombra ou sol, chuva ou névoa,
no ar respirado na cidade, ele impera.
Parou o mundo. Em casa
à janela, abraçados, teimamos
na extravagância do viver.
(Junho, 2020)