Trova da roubalheira

24 02 2026
Jornal até bandido lê! Ilustração de Walt Disney, Irmãos Metralha.

 

 

 

“Se um louco inventasse, um dia,
 
vacina “anticorrupção”,

alguém o condenaria:
 
crime de “contrainvenção”!”
 
 
(José Ouverney)




Trova da amizade

12 02 2026
No clube, ilustração de Laurence Fellows

 

 

Quando a vida se complica

nas horas de solidão,

amigo é aquele que fica

depois que os outros se vão.


(Aloísio Alves da Costa)





O avestruz lírico, poema de António Manuel Couto Viana

6 02 2026

Espere, alguma coisa não está correta!, 2023

Stephen Hall (Escócia, 1954)

acrilica sobe tela,  102 × 76 cm

 

NOTA: os emojis fazem parte da tela.

 

 

 

O avestruz lírico

 

António Manuel Couto Viana (1923–2010)

 

 

Avestruz:

O sarcasmo de duas asas breves

(Ânsia frustrada de espaço e luz,

De coisas frágeis, líricas, leves);

 

Patas afeitas ao chão;

Voar? Até onde o pescoço dá.

Bicho sem classificação:

Nem cá, nem lá.

 

Isto sou (Dói-me a ironia

– Pudor nem eu sei de quê).

Daí a absurda fantasia

De me esconder na poesia,

Por crer que ninguém a lê.

 

 

Em: O avestruz lírico, 1948

 

Nota: encontrei esse poema hoje, por acaso.  Não resisti, tive que trazê-lo para cá.  Ri muito.





“Íntimo” soneto de Luiz Pistarini

2 02 2026
Ilustração, Capa da Revista Figaro Illustré, por Pierre Georges Jeanniot (Suíça-França 1848–1934).

 

 

Intimo

 

Luiz Pistarini

 

Bela, por mim, se vejo-te passando.

Tudo me esquece por estar te vendo

– Sinto o Prazer, no coração cantando,

E a mágoa, enfim, no coração, morrendo …

 

Passas … E, alegre, vou te acompanhando

Pelos lugares por que vais correndo …

E ao ver-te longe, minha flor, – chorando,

Triste suspiro, sem querer, desprendo …

 

Voltas depois, formosamente rindo …

Voltas depois, e o meu pesar te escondo,

Num riso franco de prazer profundo!

 

Ficas. E eu, louco, imerso em gozo infindo,

Grande, – aos teus pés, o coração depondo,

Sinto a mais grata sensação do mundo!

 

Resende – 1895

 

Nota: eu mesma fiz a atualização das palavras para o português corrente no Brasil, hoje.  Exemplo: si > se;

vaes > vais e assim por diante.  Poeta fluminense, natural de Resende.

 

 





Marinheiro, poema de Ladyce West

14 01 2026

eastman_judge6jun25

Capa da Revista Judge, de junho de 1925, com ilustração de Ruth Eastman.
Marinheiro

Ladyce West

Sou marinheiro de muitos mares,
De vários pares, de poucos lares,
De rumo impreciso,
De longos caminhos.
Redemoinhos…
Sou marinheiro de muitas águas
E poucas mágoas.
Destino traçado
Nas sombras das vagas
Em promessas pagas
No fluxo do amor

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014

(Poesia escolhida e publicada no Desafio da Poesia de 2014, e esquecida na gaveta até hoje. Rs…)

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A minha terra natal, poesia de Helena Lellis de Andrade

10 12 2025

Paisagem mineira

Armínio Pascual (Brasil, 1920 – 2006)

óleo sobre eucatex, 30 x 40 cm

A minha terra natal

 

Helena Lellis de Andrade

 

Há montanhas azuladas
E campinas verdejantes
Um rio murmurante
De águas sempre a rolar

Há coqueiros, altaneiros
Sapatinhos e ipês
Há prédios altos, vistosos
Há choupanas de sapé

Há uma cruz no alto do morro
Com capelas pra rezar
Lembram passos dolorosos
De Jesus a se imolar

Há no lindo azul do céu
Brancas nuvens a passar
Estrelas brilham, cintilam
Nas noites claras de luar

Há estradas, automóveis
Trens, bondes e oficinas
Há sirenes e buzinas
Há coisas intermináveis

Há carrilhões, afinados
Tocando ao meio dia
Rezando as Ave Marias
Chorando para os finados

Não é brilhante nem ouro
Mas vale mais que tesouro
É a imagem milagrosa
Da nossa padroeira
A Senhora Aparecida
Do Brasil tão querida
Das Graças a medianeira

Há carrilhões, afinados
Tocando ao meio dia
Rezando as Ave Marias

 

(29 de julho 1952)





Vida besta, Carlos Drummond de Andrade

29 11 2025
Ilustração de Igor Medvedev. 

 

 

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

 


Carlos Drummond de Andrade, Alguma Poesia





Trova dos amigos

26 11 2025
Pato Donald faz amigos, ilustração Walt Disney.

 

Para mantê-los me empenho,     

porque penso sempre assim:

tendo os amigos que tenho,

eu nem preciso de mim!

 

(Izo Goldman)





“Infância”, poesia de Manuel de Barros

13 10 2025

Bicicleta de Paraty, 2008

Arluce Gurjão, (Brasil, 1968)

óleo sobre tela, 30 x 40 cm

 

Infância

 


Manoel de Barros

 

Coração preto gravado no muro amarelo.
A chuva fina pingando… pingando das árvores…
Um regador de bruços no canteiro.

Barquinhos de papel na água suja das sarjetas…
Baú de folha-de-flandres da avó no quarto de dormir.
Réstias de luz no capote preto do pai.
Maçã verde no prato.

Um peixe de azebre morrendo… morrendo, em
dezembro.
E a tarde exibindo os seus
Girassóis, aos bois.

 

 





“Hiato”, poema de Ladyce West

29 09 2025

Casal comendo próximo à janela,1655

Frans van Mieris, o Velho (Holanda, 1635-1681)

óleo sobre madeira, 36 x 31 cm

UFFIZI, Florença

 

 

 

Hiato

 

Ladyce West

 

Contrariando a física

o tempo parou,

sugado por falha geológica

no descontínuo rolar das horas.

 

Lacuna espelhada na rua deserta

no som suspenso dos carros parados

no intervalo forçado de planos, projetos

breque em desejos, ambições e caprichos.

 

O inimigo invisível por todo lado.

Sombra ou sol, chuva ou névoa,

no ar respirado na cidade, ele impera.

 

Parou o mundo.  Em casa

à janela, abraçados, teimamos

na extravagância do viver.

(Junho, 2020)