Quer na alegria ou na dor,
entre sorrisos e ais,
para mim não existe cor:
brancos… pretos… são iguais.
(Alice de Oliveira)
Quer na alegria ou na dor,
entre sorrisos e ais,
para mim não existe cor:
brancos… pretos… são iguais.
(Alice de Oliveira)
Arthur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1923)
óleo sobre tela, 65 x 54 cm
Manuel Bandeira
Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inaccessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno da Estela
Quero a brancura da Elisa
Quero a saliva da Bela
Quero as sardas da Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.
Em: Antologia Poética, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1978, 10ª edição,pp: 135-136.
Ilustração de autoria desconhecida.
Três irmãos viviam no meio de um bosque escuro, muito escuro, a pouca distância do mar azul e puro.
Tinham tido a desventura de perder os pais quando eram ainda meninos, e viviam lá muito solitários.
Um dia, finalmente, o mais velho, aborrecido de tanta solidão disse:
— “Além do bosque está o mar azul e puro, e além dele, à margem de lá, uma cidade rica e bela.”
E o outro acrescentou:
–“Dizem que lá encontram-se árvores belas, como as da nossa floresta, e pássaros que cantam também como os que temos aqui, em torno da nossa casinha paterna?”
Mas o maior replicou:
— “Partirei em busca desta felicidade.”
O segundo repetiu:
–“Partirei também para tentar a minha fortuna, ou para ver se me será dado encontrar a felicidade.”
O terceiro abaixou a cabeça e nada falou:
Selaram os cavalos, os seus belos cavalos negros, tomaram as lanças, as suas boas lanças de ferro, luzentes e agudas, e partiram todos três à procura da felicidade.
O mais velho atravessou a montanha, e entrou no país, vasto e fértil; o segundo passou o mar azul e puro a bordo de um barco, e recolheu-se na cidade rica e bela, lugares onde deveriam encontrar a felicidade, mas nunca puderam vê-la.
O mais jovem, no entanto, não se tinha retirado para longe. Estava ainda junto do bosque, quando sentiu o coração palpitar no peito.
Ergueu-se então, e disse ao cavalo negro:
— “Seria melhor se tornássemos à casa paterna, no meio da floresta escura, muito escura.”
Tirou a brida ao cavalo, ao seu belo cavalo negro, e tornou a conduzi-lo ao casebre.
As árvores agora começavam a murmurar mais suavemente e a inclinar-se ante ele como para saudá-lo; e os pássaros seguiam-no saltando de ramo em ramo, cantando.
E a floresta inteira parecia dizer-lhe:
–“Fizeste bem em voltar!”
Perto da casa paterna viu uma rapariga de cabelos dourados, sentada no portal, atenta a olhá-lo, tendo a seus pés um lindo gato, envolto nas dobras do seu vestido, a dormir.
–“Quem sois?”, perguntou o moço à bela rapariga de cabelos dourados.
Ela picou-lhe os seus grandes olhos doces, e sorrindo respondeu:
— “Sou a Felicidade!…”
***
Em: Histórias do Arco da Velha — Livro para crianças, de Viriato Padilha, Rio de Janeiro, Quaresma: 1947,pp: 179-181.
Pai querido, o imagino
com sua mão calejada,
lá no Infinito, um menino,
reflorindo a minha estrada! …
(Adelir Machado)
Cebolinha e Cascão esperam sua hora no consultório médico lendo gibis, ilustração Maurício de Sousa.
Se o livro a ler nos convida,
devemos reconhecer:
— no livro aberto da vida
é que se aprende a viver.
(Álvaro Faria)
–
–
Cartão postal com pedinte em porta de igreja, cerca 1900. Alemanha.–
Pobres, de bolsos vazios,
não é a vós que eu lamento!
Lastimo os pobres de espírito,
vazios de pensamento…
–
(Manuel de Araújo Peres)
–
Ilustração de Tito Corbella.–
Por querer abrir caminhos
segui à risca esta lei:
fui retirando os espinhos
das rosas todas que dei!…
–
(Maria Helena O. Costa)
–
–
Anita Malfatti (Brasil, 1889-1964)
óleo sobre tela, 39 x 49 cm
–
–
Bernardino Lopes
–
Homens e moças, crianças,
Todos vêm fora, ao terreiro.
Um deles, chamando às danças,
Põe-se a rufar no pandeiro…
–
Principia a cantarola…
Um camponês de unha adunca
Ponteia alegre a viola.
Faz um luar como nunca!
–
Salta um rapaz no fadinho;
Uma mulher, de corpinho,
Vem requebrando de lá;
–
E a meninada bizarra
Faz uma grande algazarra
Brincando de tempo-será*.
–
–
* O negrito é do texto original.
–
Em: Cromos, Bernardino Lopes, 1881
Abaixo a brincadeira tempo-será.–
Tempo será — brincadeira de pique. As crianças escolhem um pegador. Ele e as outras crianças então recitam o seguinte:
Pegador — Tempo será.
Crianças — De cericecó.
P — Laranja da China.
C — Pimenta em pó.
P — Pinto que pia?
C — Pi-pi-ri-pi.
P — Galo que canta.
C — Cocorocó
P — Quem é o durão?
C — Só eu só.
P — Olha que lhe pego.
C — Não é capaz.
P — Olha que lhe pego.
C — Se for capaz…
Todos fogem do pegador. O primeiro que for pego será o pegador seguinte.
–
–
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Jovem em lago congelado, Noruega, 1920
Axel Hjalmar Ender (Noruega, 1853-1920)
óleo sobre tela
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Enquanto escrevo esta postagem, acontece em Sochi o jogo final de hóquei entre Suécia e Canadá, momento em que as Olimpíadas de Inverno, realizadas este ano na Rússia, chegam ao fim. Tenho acompanhado, quando posso, as competições nas diversas categorias dos esportes de inverno. Ignorava a existência de muitas delas e tratei, dentro do possível, de compreender as regras dessas modalidades.
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Patinando no Central Park, 1865
Johann Mongels Culverhouse (Holanda, 1825- EUA, 1895)
óleo sobre tela
–
À medida que diversos esportes se apresentavam na tela, percebi que as Olimpíadas de Inverno refletem mais do que esportes. Elas refletem a história de como, nós, humanos, conseguimos sobreviver em condições extremas, rodeados por uma natureza inóspita. Muitos dos esportes têm relacionamento direto à nossa sobrevivência. O Biatlo de inverno, por exemplo, remete à mobilidade na neve e à caça, duas atividades requeridas para a sobrevivência nas regiões geladas do planeta.
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Paisagem de inverno e alçapão, 1565
Pieter Bruegel (Holanda, 1526-1569)
óleo sobre madeira, 38 x 56 cm
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Enquanto os Jogos Olímpicos de verão estão ligados, em grande parte, ao treinamento de guerra da antiga Grécia, os de inverno estão mais próximos das atividades necessárias para a sobrevivência bem sucedida de inverno. Não conseguimos ignorar os extremos por que nossos antepassados passaram. Os esportes de inverno são descendentes diretos do que era necessário para uma sobrevivência dependente da incerteza, do augúrio diário do clima extremo. Enquanto observamos esquiadores descerem e subirem montanhas no cross-country, com sol ou com neve, a temperaturas desconfortáveis, para o corpo humano. Com eles podemos imaginar como nossos antepassados tiveram que conquistar terrenos cobertos de gelo e neve para obter o que era essencial até a chegada da primavera.
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Homem Samoiano [tribo da Sibéria] em roupas tradicionais, usando pele, carregando um rifle e um arco, sobre patins de gelo.
Escola alemã, século XVIII
Desenho a tintas sépia e preta, grafite, aquarela, 31 x 23 cm
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As Olimpíadas de Inverno, vistas dessa maneira, são um tributo à criatividade humana pela sobrevivência. São uma maneira, hoje festiva, de reverenciarmos aqueles que nos precederam e que fizeram a nossa existência, aqui, em 2014, possível.
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Cascão leva um presente, ilustração de Maurício de Sousa.–
Se você der um presente,
esqueça logo o que deu;
mas traga sempre na mente
aquilo que recebeu.
–
(Adalzira Bittencourt)