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Inimá de Paula (Brasil, 1918-1999)
óleo sobre tela, 60 x 81 cm
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Alípio Dutra (Brasil, 1892-1964)
óleo sobre tela
PESP — Pinacoteca do Estado de São Paulo
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Virgílio della Monica (Brasil, 1889-1957)
óleo sobre placa de madeira, 28 x 36 cm
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Cartões postais do Brasil, de Manuel Móra.–
Todos que seguem este blog sabem que há tempos reclamo da falta de divulgação ou até mesmo interesse nosso pelos nossos ilustradores. Tento na medida do possível trazer à superfície um ou outro nome mais relevante. Hoje, à procura de informações sobre outro assunto, me deparei em um site americano, com este maravilhoso grupo de cartões postais impressos pelo Departamento de Turismo da cidade do Rio de Janeiro, com o intuito de aumentar o turismo internacional. A cidade era a capital do Brasil em 1934 quando esses postais foram impressos. E o uso de diferentes línguas nos postais: inglês, francês, alemão, italiano, espanhol e português mostra a diversidade do apelo turístico pretendido, algo que se enquadrava no perfil ecumênico da metrópole.
O ilustrador é o brasileiro (português por nascimento mas naturalizado) Manuel Móra. Já trabalhava no Brasil na década de 1920 e a data de sua chegada aqui ainda está incerta. Nasceu em 1884. Por aqui construiu uma carreira como ilustrador que o coloca hoje entre os mais importantes da época. Fez muitos cartões postais e capas de revistas nacionais como Para Todos, Cinearte e O Cruzeiro. Trabalhou também para a grande e sofisticada loja Parc Royal, no centro do Rio de Janeiro (na Avenida Central 130 e 132) entre as ruas Sete de Setembro e Ouvidor, que pegou fogo em 1943, em um dos mais famosos e alarmantes incêndios do Rio de Janeiro de outrora. Provavelmente os originais de grande parte de seus trabalhos se encontravam nesse local. Sua assinatura, com características Art Deco, é ocasionalmente confundida com a de J. Carlos, mas os estilos de traçado são completamente diferentes. Faleceu no Rio de Janeiro em 1956.
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“Uma tarde após haver apanhado muitos figos, resolvemos, minha irmã, eu e as crianças da vizinhança, brincar de visita. Minha casa seria em cima do galinheiro. Como consegui por ali uma cadeira de balanço para receber a visita da comadre Geni Lopes não me recordo. O certo é que no melhor da festa, com todas as visitas sentadas em cima do telhado, e saboreando os figos esplendidos que eu lhes servira na porcelana chinesa da mamãe, o teto desabou. As visitas caíram no galinheiro, por cima dos poleiros, quebrando a louça e destroncando o meu braço, que ficou na tipóia vários dias.
Mas, na falta do pé de araticum que nos servia de mirante, havia as laranjeiras. Uma noite, cantavam salmos na igreja, quando eu pensei em apanhar umas laranjas. Depois de algum tempo, encarapitada no mais alto dos ramos, vi o Sonthia, de quem não gostava muito, deixar a igreja a caminho de casa. Joguei-lhe uma laranja que acertei em cheio. Ele parou, olhando espantado em todas as direções. Quando se voltou, mandei-lhe outra fruta, que se abriu de encontro à sua fatiota branca. O guri pegou sangue. Vociferando veio em direção ao muro. Mandei-lhe outra laranja que se esborrachou no meio da rua. Ele não hesitou: atravessou-a e veio bater na nossa porta. Desci rapidamente e enquanto o atendiam, eu já estava na esquina, olhando as pessoas que saíam da igreja e que, quase todas conhecidas, falavam comigo com muito afeto. Quando mamãe chegou à janela e me viu encostada ao lampião, conversando com a Chiquita, gritou para dentro:
— Veja só! Eu até já estava acreditando no que tu disseste…
Nisto, assomou ao lado de mamãe a cabeça de Sonthia, que me olhou fulo de raiva, insistindo que havia sido eu quem lhe jogara as laranjas. Mamãe despachou o guri, recomendando-lhe que de outra feita não fosse tão precipitado.
Disfarçando a falta de um pé de sapato, entrei em casa e já estava tirando a roupa para dormir quando mamãe deu pela coisa:
–Atirei por aí… Deve estar debaixo da cama.
Pouco depois, bateram à porta era o Sonthia. Tinha um ar triunfal e escondia algo atrás das costas.
— Olha aqui, Dona Mininha, o que eu achei embaixo da laranjeira – diz, mostrando o pé de sapato.”
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Em: Banhado em flor, de Maria Ramos, Rio de Janeiro, do autor: 1963 — Introdução de Érico Veríssimo. Prêmio Júlia Lopes de Almeida, da Academia Brasileira de Letras, 1964. p. 79-80.
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Maria Senhoria Ramos nasceu em Cruz Alta, RS em 1910. Memorialista, jornalista e poeta. Radicou-se no Rio de Janeiro.
Obras:
Sol, ainda, poesia, 1956
O gaúcho e suas tradições, folclore, 1958
Colombia de perto, viagem, 1962
Banhado em flor, memórias, 1963
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Reisado floral, 2009
Assis Costa ( Brasil, contemporâneo)
acrílica sobre tela
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“Para criança, o reisado é um deslumbramento. Os vestidos das pastoras e rainhas, o brilho dos canutilhos de folheado, o espelhante dos enfeites de latão, os laços de fita e os frocados de papel de seda, o relampejar das coroas de reis, rainhas e princesas, as sapatinas de cetim, todo ouropel da vestimentária já é uma festa. Os cantos, “Ò minha barca bela”, “Ó minha gurinhatá, aonde vais beber?”“, trançados de recordações da colonização e da adaptação à terra, o mar presente, os pássaros, os bichos, tudo isso tecido de episódios impregnados de drama, mostra a riqueza do gênio popular. A criança participava do reisado como se fosse personagem dele. Menino no reisado sente-se também rei como o rei da festa.
A muitos natais assisti em Itaporanga em tempo de férias. Menino está sempre em casa a esse tempo. Quando já taludo, nos tormentos da puberdade, peguei namoro num desses natais com uma dançarina de reisado, uma sertanejazinha levada da breca, cuja família por sinal acabou estabelecendo-se em Itaporanga. Encontrávamos, para nossos idílios, no fundo do quintal da casa dela que acabava ao pé do oiteiro, lugar que seria ideal para esses encontros sem a água de um valado que passeava por ali. Na casa junto morava o estafeta dos telégrafos inaugurados havia pouco. Cantadiano (era seu nome) dava-se à brincadeira de irromper de dentro de umas toiças altas assim que nos juntávamos e de passar num ruído de bicho rasgando o mato e fazendo com que, na pressa com que nos separávamos, sujássemos os pés no valado. Divertia-se o idiota com essa perversidade”.
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Em: História da minha infância, Gilberto Amado, Rio de Janeiro, José Olympio:1966, 3ª edição, pp 76-77.
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NOTA WIKIPÉDIA:
Reisado é uma dança popular profano-religiosa, de origem portuguesa, com que se festeja a véspera e o Dia de Reis. No período de 24 de dezembro a 6 de janeiro, um grupo formado por músicos, cantores e dançarinos vão de porta em porta anunciando a chegada do Messias e fazendo louvações aos donos das casas por onde passam e dançam. Reisado também é muito conhecido como Folia de Reis.
O Reisado é de origem portuguesa e instalou-se em Sergipe no período colonial. Atualmente, é dançado em qualquer época do ano, os temas de seu enredo, variam de acordo com o local e a época em que são encenados, podem ser: amor, guerra, religião entre outros.
O Reisado se compõe de várias partes e tem diversos personagens como o rei, o mestre, contramestre, figuras e moleques. Os instrumentos que acompanham o grupo são violão, sanfona, ganzá, zabumba, triângulo e pandeiro.
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Até os meus nove anos, o feriado da Independência do Brasil trazia a invariável recordação de muito calor, sol a pino, uso obrigatório de chapeuzinho de palha, fome, sede, irritação, nervos a flor da pele e grande incômodo ao chegar em casa, com a minha pele muito clara, queimada, vermelha, a pinicar pelo resto do dia. Não era conseqüência de uma ida à praia. Não. Praia era coisa corriqueira aqui no Rio de Janeiro, para os fins-de-semana comuns do resto do ano, gastos com manhãs no Arpoador, onde o mar, com ondas baixinhas, era próprio para crianças. As memórias do incômodo apontam para papai que sempre nos levava para ver a parada de Sete de Setembro, no centro da cidade.
Todo ano era a mesma coisa: garrafa térmica com água e lanchinho na merendeira escolar: uma caixinha miniatura de passas sem caroço. E lá partíamos nós para observar o interminável desfilar de soldados, militares, ex-combatentes, tropas da Marinha, do Exército, da Aeronáutica. Vinham canhões. Passavam sobre nossas cabeças aviões fazendo malabarismos. Do desfile eu só gostava mesmo da cavalaria e principalmente dos Dragões da Independência. Ah, como eram bonitos! E elegantes! E o pelo de seus cavalos tinha um lustre dourado, um brilho cuidadosamente obtido pelo escovar e tratar do pelo. Eram magníficos. Mas custavam a chegar, se não me engano eles fechavam o desfile…
Meu pai deveria ter ido à guerra. À Segunda Guerra Mundial. Mas era muito míope, demais mesmo. Ficou por cá. Trabalhou na censura de cartas dos Correios e Telégrafos, já que lia fluentemente o alemão, além do inglês e francês. Na minha imaginação, ele trabalhou muito bem, como parte da “resistência brasileira.” Mas pai é sempre herói para filha encantada… Hoje, no entanto, olhando para trás, acho que sua empolgação com a parada de Sete de Setembro tinha muito a ver com isso. O não ter ido lutar na Itália. O saber de amigos e companheiros perdidos em solo europeu. —
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De todo o evento, no entanto, o que mais me atraía, e acabava me seduzindo a voltar no próximo ano, eram os periscópios que levávamos. Eu era fascinada com o objeto. Como uma caixa de papelão, comprida, aberta nas pontas, com um espelho em cada lado, podia me mostrar o que se passava lá na frente, além daquele mundaréu de gente que obstruía a visão das tropas desfilando? Como funcionava? Eu gostava tanto da peça que já maiorzinha, abdicava em favor do meu irmão do meio, a montaria nos ombros de papai, para melhor me posicionar para o desfile. A grande fascinação vinha ao descobrir que a caixa era vazada, e não tinha motor! E eram bonitos os nossos periscópios, provavelmente comprados em camelôs especializados na data, porque tinham uma bandeirinha do Brasil colada em duas faces diferentes das caixas… Eram especiais!
De volta à casa, depois das paradas, os periscópios rolavam ainda por aqui e ali, ao longo do dia, antes que mamãe — que nunca nos acompanhava — desaparecesse com eles, sabe-se lá para onde. Mas nesse ínterim brincávamos de guerra — eu e meu irmão — cada qual com seu submarino imaginário, escondidos por trás do caimento da toalha, ao redor da mesa ainda posta do almoço, enquanto os adultos, pai, mãe, avós se deliciavam com um cafezinho e jogavam conversa fora. Lembrei-me dessas brincadeiras quando vi há uns poucos dias a ilustração abaixo, que trouxe essa enorme onda de memórias… Ah! o poder das imagens!
©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2010
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