Abandonei : Isaac Asimov

3 03 2026

 

 

Às vezes me perguntam se gosto de tudo que leio.  É claro que não.  Mas raramente venho aqui criticar um livro.  Talvez seja um erro.  Não sei.  Há muitos livros que abandono no meio.  Abandono porque o tempo para leitura é limitado, porque tenho estantes repletas de livros: cujo momento não é viável para o tema ou estilo.  Tanto está nos olhos de quem lê!  Vejo nos meus grupos de leitura. É muito raro lermos um livro que todos os participantes leram com agrado.  E ano passado chegamos a um livro que todos os leitores do grupo abandonaram antes do fim.  Essa unanimidade é rara.  Mas acho que ocasionalmente deveria colocar aqui minha opinião sobre um abandono. 

Há mais de um ano comprei, durante a Black Friday,  coletâneas de contos de variados autores. Essa sede por contos apareceu depois que fiz um curso de escrita de contos.  Ainda não domino “a técnica”, não como me ensinaram. Meus textos têm cunho pessoal, passeando do conto, à crônica, ao ensaio.  Escrever poemas, minha introdução à escrita, me fez cortar palavras ao máximo. Reduzir, reduzir.  Por outro lado, gosto imensamente de crônicas. Porém, é raro eu ler contos.  Sempre os julguei por instinto.  Prefiro narrativas mais longas. Novelas são, para mim, uma arte à parte. Superior. São maiores que contos e menores que romances.  Um bom escritor consegue entregar muito nesse gênero.  Tenho diversas novelas favoritas. Dia desses colocarei aqui algumas para aconselhar a leitura. 

Os melhores contos de Isaac Asimov faz parte desse acervo de livros de contos que comprei.  Hoje, antes de escrever, fui na Amazon e no Goodreads ver as resenhas desse livro.  Estou na minoria.  Na Amazon, um único leitor não gostou do livro.  Então vamos lá, saber os porquês.  Não há dúvida: Asimov teve um papel importante ao trazer à discussão para os leigos, aquilo que o mundo da tecnologia, dos computadores iria trazer para a humanidade. Aqui ele defende o uso humano, ético das máquinas. Nesse ponto ele teve muito valor e ainda tem.  No entanto, hoje, seus contos são anacrônicos. Há um lado romântico e ingênuo na narrativas, que faz essas histórias parecerem superadas. Leitores de hoje, eu diria nos últimos dez anos leitores que viram a popularização da inteligência artificial, acham os temas primários, inocentes, como historinhas para boi dormir.  Para Asimov o conflito era a ética contra dados.  Ele imaginava a Inteligência Artificial com corpo mecânico. Para o leitor de hoje, que vive com a IA onipresente, essa defasagem é desconfortável.

Além disso, Isaac Asimov não prima pela escrita literária.  Chamam sua escrita de “seca”.  É um eufemismo, pois é desprovida de encanto.  Ele mostra amor zero pelas palavras, por figuras de linguagem, pelo refinamento da prosa. Diz-se que essa maneira de narrar era proposital, mas faz falta.

Pensei em meus sobrinhos.  Será que eles gostariam dessas histórias?  Não.  Certamente o que leu O mochileiro das galáxias, de Douglas Adams, que também não é lá muito literário, mas extremamente excitante, os contos de Asimov não seriam lidos.  Esse sobrinho tem 15 anos.  Seu irmão, de 10, por outro lado já vive tão enfronhado em computação que essas histórias não fariam sentido.  Talvez um ou outro conto pudesse ser atraente para eles.  Mas não li o suficiente para chegar a uma conclusão. Desisti. 

Também é válido desistir de uma leitura.  Isso é preciso dizer. Pelo menos formamos nosso gosto dessa maneira, sendo francos sobre nossas afinidades.  

 

 





Leitura é mágica!

23 02 2026
Ilustração de Jimmy Liao (China, 1958).




7ª leitura do ano: Virginia Mordida, de Jeovanna Vieira

16 02 2026

 

 

 

O grupo de leitura Ao Pé da Letra escolheu ler, no mês de fevereiro, Virgínia Mordida, de Jeovanna Vieira — primeiro romance da escritora. Embora a autora e a personagem principal sejam afrodescendentes, não se trata de uma obra sobre racismo, ainda que o livro se enquadre na literatura ativista, estilo em voga e favorito da Geração Z. O tema central é o relacionamento abusivo de um casal. Virgínia narra sua saga através dos mais de oito anos de convívio com o homem por quem se apaixonou — um caso em que ela entra esperançosa, apesar de ter sido advertida por uma amiga sobre a reputação duvidosa do rapaz.

Henri é um argentino que deseja ser ator, mas possui pouca habilidade para a carreira. É um homem sempre às vésperas de conseguir um papel, por mínimo que seja, e que não se incomoda de ser mantido por uma mulher de trinta e poucos anos, bem-sucedida profissionalmente. Para Virgínia, porém, o primeiro encontro — que imediatamente se transforma na primeira relação sexual — supera as expectativas, convencendo-a de que ele é o parceiro perfeito. Henri alimenta essa fantasia, contribuindo indiretamente para os planos dela e fazendo juramentos de amor semelhantes aos da companheira, embora seja rápido em substituí-la nas separações. Mas será Virgínia capaz de deixá-lo? Resta ler para ver.

Na capa, a editora destaca a opinião de Andréa del Fuego: ‘Galopante, sem rodopios. Nu, cru, imperdível’. Concordo que a escrita é galopante e a narrativa, nua e crua. Mas paro por aí. Grande parte da literatura ativista adota um discurso cru, como se a mensagem pudesse ser comprometida pela estética. Virgínia Mordida é de um realismo visceral, bárbaro, sem rodeios. Jeovanna Vieira até tenta trazer certo lirismo ao recordar as ‘Beneditas’ de sua ancestralidade, talvez para contrabalançar o grito de agonia da história principal. No entanto, para explorar a profundidade do desarranjo emocional de Virgínia, seriam necessárias mais camadas de reflexão e silenciamento interior.

A fragmentação psicológica da protagonista seria mais impactante se houvesse um retrato de sua luta interna e meditativa. No texto, tudo se resolve por ações: telefonemas, saídas, conversas com terceiros, bebida e sexo. Faltam discussões emotivas entre os amantes e, sobretudo, o estado interior de Virgínia. Até a dúvida sobre a maternidade é resolvida de forma célere, sem espaço para a sutileza dos sentimentos. Essa subjetividade ajudaria o leitor a participar da transformação da narradora. Como está, o livro é um relato objetivo e impactante, mas de efeito passageiro, pois não oferece chance de identificação com a agonia interna da personagem. Nossa imaginação é ignorada por uma sequência factual de ‘ele fez isso, eu fiz aquilo’. Falta profundidade.

Entendo que o abuso doméstico é tema comum da literatura ativista e, como norma do nicho, a obra ressalta a solidariedade entre mulheres. A ‘mulher objeto’ não é um tema novo; já foi abordado em clássicos como O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e no estrangeiro por Charlotte Perkins Gilman em O Papel de Parede Amarelo (lido pelo grupo em 2016). Nos dez anos do Ao Pé da Letra, lemos diversas obras ativistas, incluindo A Pediatra, da própria Andréa del Fuego. Portanto, nossa crítica não nasce do desconhecimento do subgênero. É hora, porém, de repensarmos a estrutura da literatura engajada para que ela deixe de ser estritamente factual e verborrágica. É preciso polir a escrita e entrelaçar a denúncia à introspecção, evitando o rótulo de ‘leitura rasa’ que frequentemente aflige a literatura de resistência.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





O livro, poesia infantil de Helena Pinto Vieira

7 11 2025

 

 

O livro

 

Helena Pinto Vieira

 

Os Livros eu sei que são

como portas encantadas

que nos levam a lindas terras

onde moram anões e fadas.

 

Lugares longe e tão belos

onde eu não podia ir

mas agora, com essa porta

é só ter cuidado e abrir. 





Imagem de leitura: Charles Henry Tenré

7 10 2025

Moça sentada, lendo ao lado de uma mesa

Charles Henry Tenré (França, 1854-1926) 

óleo sobre tela, 74 x 61 cm





Dia a dia…

3 07 2025

Claraboia foi um livro de José Saramago escrito em 1952.  Mas ele não conseguiu publicá-lo até os anos 80. Não tem aquela forma por que Saramago ficou conhecido.  Tem parágrafos, pontuação tradicional. Trata-se das histórias de diversas famílias vivendo em um edifício.  Tem um gostinho dos anos cinquenta do século passado, é um tantinho moralista. Afinal trata-se da era de Salazar. Saramago usa da insinuação em temas delicados, que hoje seriam abertamente ilustrados, fala de política, de amores e paixões, de seres humanos.  Cativa com sua linguagem, seduz mesmo. É tão bom reconhecer palavras que são usadas em contextos  diferentes e com maestria! Foi uma excelente tarde nesse papo delicioso. 





Dia a dia…

18 06 2025

 

Muitas vezes não sabemos o impacto que nossas ações podem exercer sobre outras pessoas.  Fui levada à Oficina de Escrita do escritor Luís Pimentel pelas mãos de uma amiga, Magali Lee Cotrim, que estava interessada em escrever memórias.  Fui, ainda sem saber bem como tudo isso funcionava.  Escrever havia sido sempre parte de minha vida, ainda que fosse segredo.  Manuscritos, tenho-os alguns.  Talvez, por haver feito resenhas de livros para jornais e no blog, há 17 anos, algumas centenas de resenhas, meu medo de meus textos não serem bons, sempre me impediu de aparecer como escritora.  

Fui aos primeiros encontros da turma de Pimentel com o coração nas mãos;  O que encontrei lá foram colegas respeitosos, críticos onde deveriam ser;  e Luís Pimentel, cujas palavras, gentis, mesmo quando sugeriam mudanças nos textos, guiaram e apoiaram meu trabalho.

A essa altura, meu marido já se achava adoentado.  Com a pandemia ele piorou.  Tive muito medo dele morrer sem que visse que eu havia levado minha escrita avante. Desde que o conheci, Harry havia me dado todo apoio à escrita.  Aos meus textos em inglês e aos em português. Não fosse por ele eu não teria me dedicado a dois romances engavetados, à tradução do português para o inglês, às críticas literárias.  Todo esse tempo, trabalhando como historiadora da arte e mais tarde galerista.  

No final de 2020 quando ainda dava tempo de meu marido ver a publicação de À meia voz, resolvi publicar.  Luís Pimentel me deu o presente de escrever a orelha do livro, introduzindo essa nova poeta.   Fica aqui mais uma vez meu agradecimento, meu apreço às suas orientações.  Fazer parte de seu círculo de escritores foi uma das mais importantes decisões que já tomei. Sem hesitar faria outra temporada sob seu olhar agudo e carinhoso.  Obrigada, Pimentel.





Dia a dia…

31 05 2025

SINOPSE

No primeiro dia de aula, Marcos, um garoto negro, sofre agressões de outros estudantes, e quatro adolescentes se unem para defendê-lo. Dessa união de cinco pessoas tão diferentes como os dedos de nossas mãos, mas que assim como eles, na diversidade se completam, nasce uma amizade tão forte que vai mudar, além de suas vidas, as de seus familiares





Dia a dia…

25 05 2025

 

Este é um livro infanto-juvenil com belíssimas ilustrações e texto exemplar passado tanto numa floresta tropical quanto num ambiente urbano.  Esse é o terceiro livro da carioca Nancy de Souza. O lançamento foi um grande sucesso. E sim, Nancy já se tornou uma amiga pessoal desde que fizemos um curso juntas.

 

 





Um livro clássico: Mark Twain

7 04 2025

Menina lendo livro, 2015

Michael Pracht (EUA, contemporâneo)

óleo sobre tela, 61 x 91 cm

“Um clássico é um livro que todos gostariam de ter lido e que ninguém quer ler.”

Mark Twain