Os leitores sugerem: livros para adolescentes, neste Natal e sempre

4 12 2011

Ilustração, autoria desconhecida.

Está na hora de novo: que livros comprar para os jovens que conhecemos?  Este ano farei duas postagens sobre o assunto: a primeira, hoje.  Aqui estarão os livros sugeridos pelos leitores do blog.  Trata-se de leitura que adolescentes possam gostar.  E os títulos foram todos sugeridos pelos leitores.  A próxima postagem tratará dos livros que eu selecionei como minhas escolhas para presentes esse ano, independente do que os leitores sugeriram.  Foram muitas as séries e grande a variedade.  Por causa disso peço que leiam com atenção porque está um pouco mais misturado do que nas postagens anteriores, i. e. aventura e vampiros; romance, tópicos jóvens, autores brasileiros e estrangeiros.  Paciência.  A gente chega lá.

Ao todo, 91 diferentes títulos foram mencionados.  Poucos, muito poucos já haviam sido citados nesse blog, anteriormente.  Foram repetidos quando entraram nos mesmos parâmetros dos demais.   A seleção foi baseada nos seguintes parâmetros:

1 – Títulos mencionados mais de uma vez por diferentes pessoas.

2 – Verificação de notas dadas por leitores em portais especializados como SKOOB, por exemplo.  Não postei livros com menos e 60% de aprovação.

3 – Alguns autores foram mencionados como:  todos os JK Rowling, todos os….  Esses estão mencionados no final.

4 – A esmagadora maioria dos votos foi para autores estrangeiros.  Fiz uma pequena lista de menção honrosa no final dessa postagem sugerindo os autores brasileiros mencionados.

PS: A lista não está em ordem nenhuma significativa.  Tentei variar os assuntos, senão poderíamos ter uma postagem em que os primeiros 8 itens fossem VAMPIROS, por exemplo.

Querido diário otário  — série

de Jim Bentom, Editora Fundamento [ www.editorafundamento.com.br]

Capas dos primeiros 6 volumes.

Por enquanto são 12 livros acompanhando a vida de Jamie Kelly.  Ela mora com a mãe, que é uma péssima cozinheira, o pai e seu adorável cachorro com o indicativo  nome de Fedido, um beagle, que como todos os cães de sua espécie tem um odor específico, nesse caso desagradável e que brinca e namora seu brinquedinho “Nojogosma”, nome dado por Jamie ao brinquedo.  Também vive com ela a filha do Fedido, Fedidita, que tem como mãe Framboesa. Jamie estuda no Colégio Mackerel, onde sua a menina Isabella Vinchella,  de 12 anos como ela, aparece como “malvada” ou “cruel”, na maioria das vezes.  Na escola ela também conhece Angelina, uma menina loura e “gloriosamente” bonita que Jamie odeia.  Angelina, porém, se mostra melhor que Isabella em algumas partes. Outros alunos  fazem parte do grupo de personagens das histórias, entre eles Lucas Ribas, o ” 8º garoto mais bonito da escola “, por quem Jamie é apaixonada.

O livro das estrelas — trilogia

de Erik L’Homme, editora Rocco [www.rocco.com.br]

O livro das estrelas é um dos maiores êxitos editoriais dos últimos tempos no mundo e principalmente na França, terra natal do auto que foi distinguido com vários prêmios literários.  É uma trilogia baseada em ficção fantasiosa sobre um garoto chamado Guillemot que tem entre 12 e 13 anos e vive com a mãe no vilarejo de Troil, no país de Ys, localizado entre dois mundos: o Mundo Certo (o nosso) e o Mundo Incerto, que é um lugar assustador com criaturas horríveis e também governado pela “Treva” (que ninguém conhece).

Qadehar, o Feiticeiro – O Livro das Estrelas – vol. 1

Em uma ilha chamada Ys, localizada entre o Mundo Certo e o Mundo Incerto, vive Guillemot, um menino de 12 anos que vai participar de uma emocionante aventura, recheada de poderes mágicos e tramas sombrias. Tudo começa quando o garoto encontra o feiticeiro mais importante de Ys. Os poderes do menino começam a se manifestar e Qadehar, o feiticeiro, o ajuda a descobrir o mistério que envolve o seqüestro de sua maior inimiga. A primeira aventura fantástica da trilogia O Livro das Estrelas, uma jornada de outro mundo.

O Senhor Sha – O Livro das Estrelas – vol. 2

Guilherme de Troll, o Aprendiz de Feiticeiro, escapou por um triz às forças malignas do Mundo Incerto. Depois de muitas aventuras, concentra-se agora na aprendizagem da magia. Mas a ameaça de um ataque ainda paira sobre a Ilha Perdida e os feiticeiros da Guilda concebem um plano para atacar a Escuridão – um plano condenado ao fracasso.  Torna-se evidente que há um traidor em Gifdu e a desconfiança recai sobre o Mestre de Guilherme, Qadehar. Mas quem é, afinal, o sinistro Lorde Sha que se infiltrou no mosteiro? Porque motivo quer encontrar Guilherme? Saberá ele onde se encontra O Livro das Estrelas?

O Rosto da Treva – O Livro das Estrelas – vol. 3

Último volume da trilogia O LIVRO DAS ESTRELAS : A notícia caiu como uma bomba na Ilha Perdida: Guilherme estava refém da Escuridão, o adversário mais temível que jamais enfrentara. Ao mantê-lo prisioneiro, a Escuridão esperava desvendar os últimos segredos de O Livro das Estrelas.  Para o libertar, um grupo de Cavaleiros, liderado por Qadehar, alia-se aos Homens Livres do Mundo Incerto e, juntos, partem à procura do Aprendiz de Feiticeiro.  Por seu lado, os amigos de Guilherme tudo fazem, também, para o resgatar, enquanto na torre, onde se encontra prisioneiro, este trava uma luta sem tréguas com a Escuridão.  Apesar dos seus poderes extraordinários, será Guilherme capaz de resistir à Escuridão, essa entidade maléfica que ameaça dominar os Três Mundos?

Ilustração “Family Matters”, sem indicação de autoria.

A morada da noite — série

de P.C. Cast e Kristin Cast, Editora Novo Século [ www.novoseculo.com.br]

Os primeiros 5 volumes de um total de 12 prometidos.

Esta é uma série de doze livros, lançada originalmente em 2007, e criada pela autora norte-americana P.C. Cast, com co-autoria de sua filha Kristin Cast.  A série inclui os títulos: Marcada, Traída, Escolhida, Indomada, Caçada, Tentada, Despertada, entre outros.  Nesses volumes seguimos a história da adolescente Zoey Redbird.  No mundo que Zoey, a nossa adolescente-heroína, habita vampiros sempre existiram entre os humanos e convivem tranquilamente com eles.  O que os torna diferentes são as marcas que têm no corpo.  Um dia, Zoey é marcada com o símbolo dos vampiros e se vê obrigada ir para A morada da noite, num universo alternativo, deixando para trás amigos, namorado e a família.  Lá ela terá um treinamento necessário para sua vida adulta como vampira. Ela passa por várias transformações, que podem torná-la vampira, ou matá-la, caso seu corpo rejeite a mudança.

Marley & Eu: a vida e o amor ao lado do pior cão do mundo

de John Grogan, Editora Prestígio [www.ediouro.com.br]

Este é um livro de não-ficção escrito pelo jornalista norte-americano John Grogan.  Através de uma narrativa em primeira pessoa, o autor relata a história real de seu cachorro da raça labrador,  chamado Marley, durante os treze anos em que foram companheiros de vida.  John e Jenny eram recém-casados e estavam começando a sua vida juntos, quando levaram para casa Marley, “um bola de pêlo amarelo em forma de cachorro”, que, rapidamente, se transformou num labrador enorme e encorpado de 43 quilos.    Era um cão como não havia outro nas redondezas: arrombava portas, estragava paredes, babava nas visitas, comia roupa do varal alheio e abocanhava tudo a que pudesse. De nada lhe valeram os tranqüilizantes receitados pelo veterinário, nem a “escola de boas maneiras“, de onde, aliás, foi expulso. Mas, acima de tudo, Marley tinha um coração puro e a sua lealdade era incondicional.


A fantástica fábrica de chocolate

de Roald Dahl, Editora Martins Fontes

Atenção:  algumas livrarias ainda têm esse livro, mas o portal da Martins Fontes não reconhece o livro como em oferta para venda.

Ninguém sabia o que acontecia dentro daquela fábrica de chocolate. Havia gente trabalhando nela, claro, mas ninguém entrava e ninguém saía. Só saíam os doces e os chocolates, bem embrulhadinhos, prontos para serem vendidos. Um dia, os portões da fábrica se abriram para os cinco felizardos ganhadores do Cupom Dourado – e o mistério se desvendou. O leitor é convidado a conhecer o rio de chocolate, a grama de açúcar mentolado, os caramelos de cabelo e mil outras delícias – tudo isso na companhia do incrível Sr. Wonka, o dono da Fantástica Fábrica de Chocolate.

O menino do dedo verde

de Maurice Droun, editora José Olympio [www.record. com.br]

Era uma vez Tistu, um menino diferente de todo mundo, um menino muito feliz, que nasceu e foi criado com todo o luxo que seus belos pais – donos da maior fábrica de canhões do mundo – podiam dar e o dinheiro podia comprar. Morava numa mansão – a “Casa-que-Brilha” – e tinha criados que o adoravam.   Com uma vidinha inteiramente sua, o pequeno de olhos azuis e cabelos loiros deixava impressões digitais que suscitavam o reverdecimento e a alegria. As proezas de seu dedo verde eram originais e um segredo entre ele e o velho jardineiro, Bigode, para quem seu polegar era invisível e seu talento, oculto, um dom do céu.  Com as aulas do Senhor Trovões, ele entra em contato com a violência urbana cotidiana e conhece a infelicidade e a tristeza. Inconformado, Tistu decide mudar o mundo apenas com o toque de seu dedo verde, começando pela cidade onde mora, Mirapólvora.

George e o Segredo do Universo George e a Caça ao tesouro Cósmico

De Lucy e Stephen Hawking, Editora Ediouro [www.ediouro.com.br]

George e o Segredo do Universo

Radicais, os pais de George não o deixam ter acesso à tecnologia. Mas junto com a amiga Annie e um supercomputador, eles farão uma viagem de aventura e aprendizado pelo espaço sideral. Um enredo criado para mostrar as revolucionárias idéias e conceitos de Física e Astrofísica de Stephen Hawking sobre o Universo, de uma forma divertida para o público infantil.

George e a Caça ao Tesouro Cósmico

Esta empolgante aventura não é só uma história emocionante em busca de um tesouro cósmico. Mas também uma forma divertida de conhecer a ciência do nosso Universo. Stephen Hawking, um dos mais importantes cientistas do mundo, se uniu a sua filha Lucy, para tornar a ciência atraente e empolgante para jovens e adultos. George e a caça ao tesouro cósmico é a continuação do bestseller George e o Segredo do Universo.

Ilustração de Abgail Zambon.

Soul Love – À noite o céu é perfeito!

de Lynda Waterhouse,  Editora Melhoramentos

Atenção:  Este livro só pode ser achado em sebos. Sugiro que procurem na Estante Virtual [www.estantevirtual.com.br] Coloquei-o aqui na lista dado o grande número de votos que recebeu e pelas resenhas quase que unanimemente elogiosas.

Jenna não quer trair os amigos e não revelará o que se esconde por trás de sua expulsão do colégio, assumindo toda a culpa sozinha. Como castigo sua mãe a levou para passar algum tempo com uma tia numa tediosa cidadezinha do interior. É lá que Jenna encontra Gabe, um rapaz autêntico, melancólico e reservado. Completamente diferente de todas as outras pessoas ela conhece. É inevitável: Jenna se apaixona por ele. Será que Gabe é sua alma gêmea? Ele mostra a Jenna a beleza de um céu noturno sem nuvens, escuro, um contraste perfeito para o brilho das estrelas. E, em meio a livros, música, poesia e noites estreladas, o sentimento entre eles se torna cada vez mais forte. Mas Cleo, uma garota antipática que tem uma ligação muito estranha com Gabe, não está gostando nada desse romance. Afinal, ela não quer que ninguém mais saiba o grande segredo de Gabe…

Coração de Tinta

De Cornelia Funke, Editora Companhia das Letras [www.companhiadasletras.com.br]

Há muito tempo Mo decidiu nunca mais ler um livro em voz alta. Sua filha Meggie é uma devoradora de histórias, mas apesar da insistência não consegue fazer com que o pai leia para ela na cama. Meggie jamais entendeu o motivo dessa recusa, até que um excêntrico visitante finalmente vem revelar o segredo que explica a proibição.

É que Mo tem uma habilidade estranha e incontrolável: quando lê um texto em voz alta, as palavras tomam vida em sua boca, e coisas e seres da história surgem como que por mágica. Numa noite fatídica, quando Meggie ainda era um bebê, a língua encantada de Mo trouxe à vida alguns personagens de um livro chamado Coração de tinta. Um deles é Capricórnio, vilão cruel e sem misericórdia, que não fez questão de voltar para dentro da história de onde tinha vindo e preferiu instalar-se numa aldeia abandonada.

Desse lugar funesto, comanda uma gangue de brutamontes que espalham o terror pela região, praticando roubos e assassinatos. Capricórnio quer usar os poderes de Mo para trazer de Coração de tinta um ser ainda mais terrível e sanguinário que ele próprio. Quando seus capangas finalmente seqüestram Mo, Meggie terá de enfrentar essas criaturas bizarras e sofridas, vindas de um mundo completamente diferente do seu.

Tobias Lolness:  A Vida na Árvore

De Timothée de Fombelle, Editora Rocco [www.rocco.com.br]

Bem-vindo à Árvore, um mundo em miniatura onde as pessoas medem menos de dois milímetros de altura e a Natureza tem todo o poder sobre os seres vivos. É lá onde mora Tobias, de 13 anos. Como seu pai, o professor Lolness, recusa-se a revelar o segredo que pode pôr em risco a vida na Árvore, sua família é condenada à morte. Para fugir da perseguição, eles são obrigados a deixar os Cumes e se exilar nos Galhos-Baixos. Assim, em meio à luta pela própria sobrevivência, Tobias acaba conhecendo lugares e pessoas nunca antes imaginados e também a brava e bela Elisha Lee.

Tobias Lolness: Os olhos de Elisha

de Timothée de Fombelle, Editora Rocco [www.rocco.com.br]

O herói de 13 anos e apenas um milímetro e meio de altura que emocionou leitores em mais de vinte países, abocanhou diversos prêmios literários e foi aclamado pela crítica em todo o mundo está de volta. Tobias Lolness, protagonista da série de mesmo nome escrita pelo francês Timothée de Fombelle, sobreviveu a grandes desafios desde que sua família foi exilada devido às cobiçadas descobertas científicas de seu pai em Tobias Lolness – A vida na Árvore. Nesse volume, uma enorme cratera foi aberta no interior da grande Árvore e os galhos foram invadidos por musgos e parasitas, controlados por um terrível tirano. A população dos Galhos Baixos vive subjugada, e Elisha Lee foi feita prisioneira. Tobias sabe que não pode fechar os olhos para a situação de miséria, opressão e medo que se instalou. E resolve lutar por liberdade, justiça e pelo seu grande amor. Conseguirá o pequeno herói vencer mais esta batalha?

Rangers: a ordem dos arqueiros, 1 -12 volumes

de  John Flanagan, Editora Fundamento [www.editorafundamento.com.br]

Aqui a foto de 6 dos 12 volumes dos Rangers, muito mencionado entre os meus leitores.

Sinopse do primeiro volume:

Durante a vida inteira, o pequeno e frágil Will sonhou em ser um forte e bravo guerreiro, como o pai, que ele nunca conheceu. Por isso, ficou arrasado quando não conseguiu entrar para a Escola de Guerra.   A partir daí, sua vida tomou um rumo inesperado: ele se tornou o aprendiz de Halt, o misterioso arqueiro, que muitos acreditam ter habilidades que só podem ser resultado de alguma feitiçaria.
Relutante, Will aprendeu a usar as armas secretas dos arqueiros: o arco, a flecha, uma capa manchada e… um pequeno pônei muito teimoso. Podem não ser a espada e o cavalo que ele desejava, mas foi com eles que Will e Halt partiram em uma perigosa missão: impedir o assassinato do rei.   Essa será uma viagem de descobertas e aventuras fantásticas, na qual Will aprenderá que as armas dos arqueiros são muito mais valiosas do que ele imaginava.

Os 11 volumes seguintes seguem a história dessa saga.

Menções honrosas para os seguintes escritores:

Brasileiros: 

Marcos Rey, Pedro Bandeira, Lygia Bojunga, José Mauro de Vasconcellos, Luiz Alfredo Garcia-Roza.

Estrangeiros:

Sidney Sheldon, Stepheny Meyer, Emily Giffin, Aprilynne Pike, Annie Bryant, Anne Rice.

NOTA: É importante que você leia a sinopse desses livros — procure na internet — antes de comprá-los.  Leitores de 12 a 17 anos se desenvolvem de maneiras diferentes, tem preferências próprias e experiências de vida diversas.  É importante que se leve em consideração a temática para sugerir livros ou presentear com livros.





Como você encara a noite?

24 11 2011

O pesadelo, 1781

Henry Fuseli (Suiça, 1741-1825)

óleo sobre tela, 102 x 126 cm

Instituto de Belas Artes de Detroit, EUA

“A humanidade se divide entre os que se acalmam ao ir para a cama à noite e os que ficam aflitos na hora de dormir.  Os primeiros concebem os seus leitos como ninhos protetores, enquanto os outros sentem que o abandono do cochilo é um perigo.  Para uns, o momento de se deitar pressupõe a suspensão das preocupações; em outros, ao contrário, as trevas provocam o despertar de maus pensamentos, e, se dependesse deles, dormiriam de dia, como os vampiros.  Você já sentiu o terror das noites, a angústia dos pesadelos, a escuridão sussurrando com hálito frio em sua nuca que, mesmo sem saber quanto tempo resta, você não passa de um condenado à morte?  E, no entanto, na manhã seguinte, a vida volta a explodir com sua alegre mentira de eternidade”.

Parágrafo de abertura do livro Instruções para Salvar o Mundo, de Rosa Montero, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 2011.





As ilustrações de LeBlanc para Fábulas de Monteiro Lobato

30 10 2011

Página de frente do livro Fábulas de Monteiro Lobato.

Continuando a nossa coletânea da memória visual brasileira, hoje damos uma olhadinha nas ilustrações de André LeBlanc, para as Fábulas de Monteiro Lobato.  André LeBlanc tem melhor chance de ser estudado porque fez carreira não só aqui no Brasil, mas nos Estados Unidos também.  Nascido no Haiti em 1921, LeBlanc, estudou nos Estados Unidos.  Apaixonado pela brasileira Elvira Telles acabou trabalhando tanto aqui no Brasil quanto nos EUA.  Lá, foi assistente de Will Eisner no The Spirit, e trabalhou com Sy Berry na revista O Fantasma.  Também contribui para as tirinhas diárias dos jornais, das histórias de Flash Gordon, Apartmento 3-G e Rex Morgan. LeBlanc também foi professor na Escola de Artes Visuais de Nova York.  Faleceu em 1998. As ilustrações de André LeBlanc para Fábulas de Monteiro Lobato se restringem ao texto.

A capa dessa edição é de autoria do ilustrador e artista plástico Augustus, [Augusto Mendes da Silva] nascido em 1917, em Santos, SP; estudou desenho com Máximo de Azevedo Marques.   Responsável por grande parte das capas dos livros de Monteiro Lobato, Avgvstvs [assinado como em Latim] era um artista plástico dedicado principalmente ao retrato, mesmo tendo trabalhado com desenho  gráfico para propagand [foi o responsável pelos anúncios do Biotônico Fontoura].   Faleceu em 2008, em Florianópolis, deixando não só mais de 1000 retratos de personalidades, na sua maioria paulistanas, mas os protótipos de Narizinhos, Pedrinhos, Emílias, Dona Bentas e demais personagens de Lobato, que permanecem até hoje nas imaginações de milhares e milhares de brasileiros.

Capa da frente e de trás, de Avgvstvs

Ilustrações de André LeBlanc, texto

A cigarra e a formiga

— Que quer?  — perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.

O reformador do mundo

— Eu trocaria as bolas, passando as jaboticabas para a aboboreira, e as abóboras para a jaboticabeira.

O rato da cidade e o rato do campo

No melhor da festa, porém, ouviu-se um rumor na porta.

O velho, o menino e a mulinha

— Carreguemos o burro às costas.  Talvez isso contente o mundo…

O pastor e o leão

Apareceu diante dele um enorme leão, de dentes arreganhados.

A assembléia de ratos

— Acho — disse um deles, que o meio de nos defendermos de Faro-fino é lhe atarmos um guizo no pescoço.

O galo que logrou a raposa

Ao ouvir falar em cachorro, Dona Raposa não quis saber de histórias, e tratou de por-se ao fresco.

Os dois viajantes na Macacolândia

E o viajante neurastênico, arrastado dali por cem munhecas, entrou por ali numa roda de lenha que o deixou moído por uma semana.

A menina do leite

Treque, treque, treque, lá ia Laurinha para o mercado com uma lata de leite à cabeça.

O burro na pele do leão

Firmou a vista e logo notou que o tal leão tinha orelhas de asno.

A raposa sem rabo

A raposa finalmente conseguiu fugir, embora deixando na ratoeira a sua linda cauda.

O leão, o lobo e a raposa

— Diga lá o que é — ordenou o leão, já calmo.

Qualidade e quantidade

Disse asneiras como nunca, tolices de duas arrobas, besteiras de dar com um pau.


O cão e o lobo

— Fique-se lá com a sua gordura de escravo que eu me contento com a minha magreza de lobo livre.

O corvo e o pavão

— Repare como sou belo!  Que cauda, hem?

O macaco e o gato

— Amigo Bichano, você, que tem uma pata jeitosa, tire as castanhas do fogo.

A mosca e a formiguinha

— Ora, ora! — exclamou a mosca.  Viva eu quente e ria-se a gente.

Os dois burrinhos

— Socorro, amigo!  Venha acudir-me que estou descadeirado…

O cavalo e as mutucas

Volta e meia, plaf!  uma lambada e era um inseto a menos.

O ratinho, o gato e o galo

O ratinho por um triz que não morreu de susto.

Os dois pombinhos

O pombinho assanhado beijou o companheiro e partiu.

Os dois ladrões

Enquanto isso um terceiro ladrão surge, monta no burro e foge de galope.

O lobo e o cordeiro

— Que desaforo é esse de turvar a água que venho beber!

Segredo de mulher

— Pois então ouça:  meu marido esta  noite botou dois ovos…

A galinha dos ovos de ouro

João Impaciente descobriu no quintal uma galinha que punha ovos de ouro.

O leão e o ratinho

Atraído pelos urros, apareceu o ratinho.

O burro sábio

— Grande pedaço d’asno!  Roubaste o tempo, a nós e a ti…

Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Editora Brasiliense, s/d [1960s], 20ª edição.





O mutável mundo da literatura

23 10 2011

Em um barco, 1888

[Retrato da artista Maria Yakunchikova  e auto-retrato]

Konstantin Korovin (Rússia, 1861 —  França, 1939)

óleo sobre tela

Galeria Tretyakov, Moscou.

Muito assunto interessante foi ventilado no excelente artigo sobre a indústria do livro, no blog Roundtable, da revista literária Lapham’s Quarterly. Curtis White pondera sobre o que frequentemente esquecemos: a literatura é mutável.  Ela é tão viva quanto são vivas as indústrias de que depende.  Livrarias, editoras, críticos e mais recentemente as publicações de massa são todas entidades em constante mutação.  E no centro dessas forças mutantes está a disputa pelo poder de determinar o que se considera literatura.  O resultado depende de quem é a autoridade do momento.   Há algum tempo atrás eram os donos das editoras e de livrarias que definiam o que era literatura.   Hoje, estamos vendo a luta entre grandes grupos de leitores, clubes de leitura na televisão, por exemplo, que discutem livros através da mídia e as equipes de marketing das casas editoriais.

No passado podia até ser diferente.  Curtis White lembra que no século XIX havia pouca diferença entre o editor e a livraria.  Muitas vezes os editores arriscavam seus próprios pescoços – o perigo de processo e prisão podia rondar as casas editoriais.  Mas era comum que livrarias vendessem os livros que elas mesmas publicassem o que tornava a casa editorial um negócio que vivia do marketing direto.   Precedendo as “noites de autógrafos”, hoje populares em qualquer canto do mundo, o famoso editor John Murray, que correu sérios riscos ao publicar a poesia de Lord Byron, estabeleceu em sua livraria/casa editorial,  o programa Às quatro com amigos quando leitores poderiam ir tomar chá com o autor.

Terraço, 2007

Evert Thielen (Holanda, 1954)

têmpera sobre madeira, 40 x 50 cm

www.evertthielen.com

Essa conexão de livrarias com seus leitores continuou, apesar de estar morrendo, até os dias de hoje – mas só com as pequenas livrarias.   Nos anos 50 a 70 ainda havia nos Estados Unidos muitas livrarias que se orgulhavam do serviço que prestavam aos seus clientes.   Apesar da fácil acessibilidade a títulos de qualquer editora — realmente o sistema de distribuição nos Estados Unidos é extraordinário – as livrarias pequenas, independentes americanas passaram a oferecer exatamente o que as grandes livrarias em cadeia ofereciam, com pouquíssimas exceções.  No final dos anos 90 praticamente só as grandes cadeias de livrarias compravam títulos de editoras de pequeno ou médio porte.

Para Curtis White a desmoralização do serviço que livrarias prestavam aos seus clientes vem de ter-se mantido, nos EUA, um modelo baseado na década de 1930, que não funciona mais nos dias de hoje:  a consignação.  Esse modelo se baseava em representantes das editoras – pessoas que não liam e que não entendiam nada sobre os livros que vendiam –  que iam de livraria em livraria colocando livros em consignação, como se livros fossem mercadoria que estivesse enchendo armazéns e de quem alguém precisasse se desfazer colocando à venda em qualquer lugar.  As livrarias, por sua vez, aceitavam esses livros como se estivessem adquirindo decoração para suas lojas, para que afinal se parecessem livrarias.   Pois o que interessava mesmo eram os livros que tinham vendas garantidas tais como memórias de celebridades, confissões de políticos que estavam no ocaso de uma carreira política, livros óbvios de auto-ajuda,  que eram colocados nas mesas de maior evidência na entrada desses estabelecimentos.

Meninas lendo, 1965

Norman Neasom (Inglaterra, 1915-2010)

aquarela

O grande problema do sistema de consignação como foi instituído é que permite que as livrarias,  sem gastar um centavo, tenham acesso a novos livros, novos títulos e retornem todos os livros que a editora mandou meses atrás, sem que haja ou que tenham tido qualquer interesse, ou feito qualquer esforço para que a venda desses livros se concretizasse.   Essas livrarias não conseguem vender os livros porque ninguém trabalhando nelas lê ou se dá ao trabalho de ler esses livros.  Tornou-se consequentemente um círculo vicioso.

Mas agora, as coisas ainda estão piores, como escritores e poetas independentes descobriram.  Nos últimos dez anos, para todos nós que nos acostumamos com o auxílio do computador, o ato de comprar um livro está cada vez mais dependente da oferta eletrônica da Amazon, do Google e talvez da Barnes & Noble.

Especialistas – no caso John O’Brien , editor  – consideram que o maior perigo para a indústria editorial nos EUA está na Amazon.  A companhia virtual está agora tomando o lugar de distribuidora e editora e não há casa editorial que possa competir com isso.   John O´Brien esá convencido que a Amazon procura o controle da publicação e da distribuição, o que para ele seria uma horrenda perspectiva já que a companhia teria o poder de determinar o que pode ser publicado e em que termos.   Quando isso acontecer eles poderão estipular o preço dos livros e estabelecer aqueles que se tornarão best-sellers.   Ao que tudo indica, eles poderão fazer isso porque parece que serão – no futuro, talvez até no futuro próximo — a única companhia no mercado.  As grandes casas editoriais dos Estados Unidos  estão por sua vez acreditando que o futuro está incerto já que tudo leva a crer que só duas companhias estarão no mercado editorial: Amazon e Google.   A possibilidade de falência para todas as outras é real.

Sob os eucaliptos, s/d

Claude Fossoux (França, 1946)

óleo sobre tela, 60 x 73 cm

A maior nota de precaução fica com a seleção que a Amazon e até a Google venham a fazer sobre o que publicar.  Apesar de Curtis White prever um futuro desastroso para as publicações literárias – de literatura como a conhecemos, sem necessariamente ser um sucesso financeiro – eu acredito que alguma solução que ainda não conhecemos virá ao nosso encontro, uma outra maneira de se publicar aquilo que pode não ser lucrativo.  Basta haver um problema para podermos pensar num caminho para a solução.  Os seres humanos continuarão a escrever.  A escrever tanto a prosa ou poesia comerciais quanto aquelas que podem até ter maior significado mas que não teriam apelo financeiro para o grande público.  Isso não vai mudar.  Os seres humanos continuarão a ser criativos.  Tanto os escritores quanto os homens de negócios. E alguma solução, alguma nova maneira de conduzirmos o comércio da literatura virá a aparecer.  Afinal como Curtis White mencionou no início, muitas foram as mutações da literatura.

©Ladyce West, 2011





A pluralidade de gostos literários reflete a democracia do conhecimento

8 10 2011

Leitura na praia, s/d

Alexandre Washington ( Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela

No artigo Reflexo do País, no jornal O Globo, de hoje, o escritor Ricardo Lísias considera o que lhe parece injusto:  autores ganhadores dos maiores prêmios nacionais de literatura nem sempre são aqueles que se dedicam “a dizer a verdade ao poder e desafiá-lo” como entende que uma literatura de peso deva fazer.   Vou desabonar a defesa que Ricardo Lísias fez da infeliz posição do diretor de cinema Lars Von Trier, como um exemplo corajoso de quem não tem medo de enfrentar os poderes vigentes. Na pressa de preparar um artigo para o jornal e no afã de defender um ponto de vista, às vezes escritores recorrem a palavras de efeito sem pesar suas consequências.  Acredito que esse tenha sido o caso do autor de O livro dos Mandarins, pois até mesmo Lars Von Trier já se retratou pela infeliz piada a respeito dos nazistas que fez durante o Festival de Cinema de Cannes.

O que me surpreendeu no artigo do escritor paulista foi um resquício de elitismo intelectual – muito chegado às posições dos desacreditados sistemas políticos de esquerda — que está em desacordo com a pluralidade que a verdadeira democracia do saber atinge.  A grande esperança democrática de uma educação plena tem, entre outros, o objetivo de formar alguns milhões de leitores no país.  E ela não condiz com os parâmetros rígidos de VALOR (!) que o escritor parece querer aplicar, como se houvesse um POLITBURO do intelectualismo cujas normas deveríamos obedecer.  Um fato incontestável: quanto mais leitores tivermos maior será o número de pessoas que divergirão das metas estabelecidas por Ricardo Lísias ou qualquer outro queira impor um valor absoluto.

Leitora, s/d

André Kohn (Rússia, contemporâneo)

óleo sobre madeira,  45 x 34 cm

www.andrekohn.com

Não é fácil viver no sistema democrático, porque ele exige aquilo que nos faz menos selvagens e mais humanos: a aceitação do outro; da maioria.  E é exatamente disso que o escritor reclama:

No Brasil, os prêmios literários são o reflexo do país.  De vez em quando, protagonizamos eleições em que o melhor candidato é eleito; outras vezes permitimos que gente como Tiririca ou Clodovil (in memoriam) [sic] nos representem.  Na literatura é a mesma coisa: em alguns prêmios os melhores livros são contemplados; em outros, lá vai o Tiririca, lépido e faceiro, buscar o seu troféu.”

É isso mesmo.  A democracia tem dessas coisas: quem tem o maior número de votos ganha.  Se quisermos, de verdade, incrementar as chances de que outras pessoas sejam eleitas será preciso aumentar o número de leitores no país; o número de pessoas com sólida escolaridade.  E aí, e talvez só aí, outros políticos serão eleitos, outros autores ganharão prêmios.  Mas não haverá garantia.  Nunca.  Não poderemos nos assegurar de que aqueles que representam os valores que nos são preciosos sejam os mais votados, os adotados, os reverenciados. Porque numa nação democrática, mesmo que educada, teremos “em cada cabeça uma sentença”.

©Ladyce West, 2011





A noiva do tigre, de Téa Obreht, o folclore europeu em nova roupagem

29 09 2011

O tigre na floresta, 1891

Henri Rousseau, le Douanier ( França,1844-1910)

óleo sobre tela, 162 x 130 cm

The National Gallery, Londres.

Assim como milhões de pessoas hoje, cresci com as imagens dos contos de fadas dos desenhos animados de Walt Disney.  São encantadores apesar de estarem longe das histórias ouvidas e recontadas por nossos antepassados, reunidas no século XIX por Andersen ou pelos Irmãos Grimm.  Mesmo depois de ter o desenho animado Bambi rejeitado por educadores atuais, sob a alegação de triste demais para as crianças de hoje, podemos dizer que Walt Disney foi o precursor dos contos de fadas limpinhos, engraçadinhos, passados pela assepsia americana, histórias com maldades limitadas, sem crueldade, diluídas dos terrores de antanho, que a turma do politicamente correto, hoje, entende como o preferencial para a proteção emocional de nossas crianças.  É importante, no entanto, lembrar que a maioria dos contos de fadas tem raízes no folclore europeu, em crenças seculares, ainda vivas nas imaginações das pequenas aldeias, tecidas com os preconceitos culturais de séculos.   Essas antigas histórias refletem a cultura de povos que lutaram pela sobrevivência nos mesmos lugares, nas mesmas regiões geográficas, rejeitando bravamente invasores de outros grupos, outras tribos.  A repetição dessas histórias folclóricas,  até hoje é comum e muitas vezes o pouco que resta de uma identidade cultural, que luta para sobreviver.  São justamente essas lendas que adicionam grande encantamento à narrativa de A noiva do tigre, de Téa Obreht [Leya: 2011].

Esse romance parece um produto criado pela necessidade de honrar uma herança cultural rica,  de não deixar morrer a memória de um povo.  Passado na antiga Iugoslávia – que tinha aproximadamente a área total do estado do Piauí e hoje está subdividida em 6 países [Croácia, Bósnia-Herzegovina, Eslovênia, Macedônia, Sérvia e Montenegro e um protetorado da ONU Kosovo] – parece natural que o choque das guerras, o medo do extermínio, da perda da memória coletiva, esteja presente nos sobreviventes.  Mas o que surpreende nessa narrativa é a habilidade da autora de não situar o romance em nenhum lugar específico além dos Bálcãs, [ela nasceu em Belgrado, hoje parte da Sérvia]; não especificar a época [exceto que foi depois das guerras] e fazer a transição de uma possível narrativa realista para uma narrativa onírica sem emendas.  Um feito extraordinário.

No romance acompanhamos uma pequena viagem feita por Natália, uma médica, que tendo perdido o avô recentemente, aproveita a missão de inoculação de crianças de uma aldeia distante, para recolher os objetos de uso pessoal de seu avô que morreu longe de casa, num lugarejo de fácil acesso à cidade costeira onde a vacinação ocorre.  Nesse ínterim, ela relembra o avô, as histórias que ele contava.  E ficamos a par de alguns mitos e crendices que ainda estão presentes nos dias de hoje, relativos aos rituais de enterro e salvação das almas dos mortos.

Um fato curioso a respeito do texto é a linha de emenda entre o real e o folclore, entre as lendas e o que se passa no mundo moderno: um produto literário, O livro da Jângal de Rudyard Kipling.  Para os que, como eu, tiveram seus anos de juventude envolvidos com escotismo, a figura de Shere Khan, o tigre malvado e bandido das histórias contadas pelo escritor inglês, serve de imediato ponto de conexão entre o real e o imaginário.  A presença dessa obra literária em todos os capítulos do livro nos lembra da importância que uma história, que um conto, pode ter para o seu leitor e por fim, como a memória cultural é enriquecida por aqueles livros ou histórias que nos tocam, e que passam a fazer parte de quem somos.

Téa Obreht

A noiva do tigre foi o romance vencedor do prestigiado Orange Prize para ficção por autora mulher, este ano.  No Brasil, teve uma tradução fluente de Santiago Nazarian, mas teve também algumas falhas de edição que fazem o leitor ter reler para entender.  Cito aqui um único exemplo, mas existem outros. “Voltando de Zdrevkov, parei em Kolac para pegar as balas das crianças, segurando a caixa da loja de conveniência do posto de gasolina quando ia fechá-la.” [sic](página 191, abertura do capítulo 8).   Para os amantes de um romance da ficção fantástica esse é um excelente livro.  Para os que gostam de uma forte voz narrativa também.  Há poucos diálogos, e como nas histórias baseadas na memória oral, há alguma repetição.  Mas o encantamento prevalece.





Helene Hegemann, Max Ernst e o inconsciente coletivo

25 09 2011

Max Ernst (Alemanha, 1891-1976), Prancha do romance Une semaine de bonté, 1934, Domingo,colagem.

Em 1933, durante uma viagem de três semanas à Itália, o pintor Max Ernst (Alemanha, 1891-1976) produziu uma obra – um romance – a que deu o título de Une semaine de bonté,  [Uma semana de bondade].  Publicado no ano seguinte, em 1934, em Paris, impresso por George Duval e editado por Jeanne Bucher, Une semaine de bonté se transformaria em uma das mais populares obras de Max Ernst.  Esse romance difere do romance como conhecemos nos meios literários, já que não usa palavras, só imagens.  [O romance é dividido nos sete dias da semana e a cada dia (capítulo) há a introdução do dia com uma citação poética, por escrito]. Ao todo são 182 imagens que foram impressas originalmente em 5 pequenos volumes.  A curiosidade é que é um trabalho de colagem, de imagens que já haviam sido impressas em revistas e livros, na sua grande maioria em meados do século XIX, e que foram recortadas e retrabalhadas em novas e oníricas representações ao gosto desse artista dada-surrealista.

Esse não foi o primeiro romance figurativo de colagem publicado por Max Ernst.  Os anteriores, [Répetitions e Les malheurs des immortels] publicados em 1922, foram feitos em conjunto com o poeta Paul Éluard.    La femme 100 têtes, 1929, e Rêve d’une petite fille qui voulu entrer au Carmel, 1930, foram de sua autoria, única, mas nenhum deles atingiu o sucesso, quatro anos mais tarde, de Une semaine de bonté.  

Capa da edição de Une semainde de bonté, usada nesse artigo,  Nova York, Edição Dover, 1976.

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Nos livros anteriores, muitas das páginas, todas sem texto só composições visuais,  eram de recortes diversos rearrumados e colados, formando uma cena completamente diferente.  Mas em Une semaine de bonté, talvez porque estivesse viajando, Max Ernst usou como base das diversas ilustrações pranchas de gravuras já existentes, transformando-as em outro trabalho, ao adicionar partes recortadas  de outras ilustrações, de outros autores, de outras publicações, cortadas com precisão e portador de grande tenacidade, Max Ernst conseguia fazer de suas “novas obras” um conjunto de imagens contínuas, completamente diferentes das originais.   No linguajar de hoje, Ernst fazia intervenções.

Estudantes de história da arte e seus professores já passaram muito mais tempo do que se pode imaginar tentando reconhecer nas páginas do romance, as gravuras originais que serviram de base para a publicação.  O historiador da arte Werner Spies, foi um dos que conseguiu identificar três ilustrações de Une semaine de bonté como tendo sido retiradas do romance Les damnés de Paris,  de Jules Mary, publicado em 1883.  É possível que já haja outras identificações à medida que Max Ernst é mais estudado nos cursos de pós-graduação como um dos expoentes do movimento surrealista.  Sabe-se também que na viagem à Itália Max Ernst comprou em Milão um volume ilustrado de Gustave Doré, provavelmente Cour du dragon e que este foi possivelmente a fonte de muitos elementos fantasmagóricos encontrados em Une semaine de bonté.

Max Ernst (Alemanha, 1891-1976), Prancha do romance Une semaine de bonté, 1934, Terça-feira, colagem.

Nunca na história da arte e das artes plásticas se considerou a questão de plágio para as obras de Max Ernst.  Talvez porque a história da arte mostre que desde os primórdios a pintura se desenvolveu com pintores olhando e copiando imagens produzidas por outros pintores, com resultados tão semelhantes que era, e ainda é, por vezes, difícil separar o original da cópia.  Essa tradição se perpetuou por muitos séculos por diversos motivos: quando eram obras dedicadas à representação de motivos sacros (e, no ocidente, a Igreja Católica foi a grande fonte de renda de pintores e escultores através de muitos séculos) havia paralelamente um incentivo para que se copiasse cenas exatamente iguais, para que se mantivesse a iconografia rígida,  ajudando fiéis, quase todos analfabetos, a poderem reconhecer, de relance, as cenas das vidas dos santos representadas.   Mais tarde essa iconografia tornou-se bastante rígida, com regras bem codificadas, o que faz com que até hoje, por exemplo, reconheçamos um Santo Antônio – com o menino Jesus no colo, ou uma Santa Lúcia, com um olho sobre um a bandeja na mão.

Essa maneira de produzir, por cópia, aconteceu também nos manuscritos, nas iluminuras.  Produzidos em sua grande maioria em monastérios, o produto final apresentava muitas mãos.  Muitos religiosos iluministas eram especializados.  Uma situação não muito diferente das grandes companhias de montagem de produtos da era industrial.  Havia os que faziam as iniciais, outros que se especializavam em animais fantásticos, usados nas bordas de uma página e assim por diante.   Livros copiados e ilustrados eram uma obra de conjunto, de grupo.  Só muito mais tarde, o artista (pintor ou escultor) ganhou individualidade, deixando de ser um artesão anônimo, trabalhador filiado às guildas.  Até então, pintura e escultura eram ensinadas nos ateliês dos artistas, por anos e anos  — não havia as Escolas de Belas Artes —  e os aprendizes absorviam  as técnicas de seus mestres copiando fielmente as obras de seus mestres.  Aos poucos era-lhes permitido adicionar detalhes na obra do mestre:  olhos feitos pelo estudante tal,  paisagem de fundo por um outro estudante.   A cópia sempre fez parte do aprendizado de um artesão das artes visuais.   Ao longo de uma carreira, estilos se diferenciavam.  Mas a individualidade não era o principal objetivo de um artista até a Alta Renascença.   Muitos desses artesãos passavam a vida ensinando a outros artesãos como  misturar as tintas, como pintar um perfil, e assim por diante, um trabalho bem mais  anônimo.  Não é à toa, que quando se visita um museu, muitas vezes vemos um painel atribuído, por exemplo, ao “Mestre dos Montes Claros”,  ou ao “Mestre das Janelas Romanas”.  Eram artistas cujos nomes desconhecemos, mas cujos trabalhos são reconhecidos por características específicas (como no nosso exemplo, as janelas com arcos romanos), mas que eram competentes o suficiente para terem muitos outros artistas aprendendo o ofício em seu ateliê.

Santo Antonio de Pádua, 1656

Il Guercino [Giovanni Francisco Barbieri](Itália, 1591-1666)

Óleo sobre tela, 91 x  74cm

Coleção Particular

Depois da invenção da imprensa, a cópia de imagens tornou-se ainda mais corriqueira.  Já no século XVI, as xilogravuras que ilustravam o livro de Sebastian Brant , A nau dos insensatos, [Das Narrenschiff], publicado em 1494,foram usadas e reusadas por artistas como fonte para a posição de uma pessoa sentada, como desenhar uma cidade murada, etc.  Um dos grandes passatempos de historiadores da arte é tentar adivinhar exatamente essa “fonte” em que um artista famoso bebeu.  Muitos artigos profissionais que levaram professores às suas cátedras, às publicações nas áreas de especialização, se baseiam nessas descobertas – melhor seria dizer “redescobertas”.

Com um propósito muito diferente, mais anárquico, irreverente, Max Ernst produziu nas primeiras décadas do século XX diversos livros, romances se quiserem assim chamar, com imagens que foram retiradas na íntegra, muitas vezes adicionando uma ou duas pequenas intervenções, vindas de outros livros, de outros autores.  É a colagem como arte, uma consequência natural desse mesmo processo de criação das artes visuais.  A imagem final é o resultado de um arranjo específico de partes de outros artistas, uma nova criação com componentes de outrem, sem qualquer atribuição, sem referências a qualquer uma de suas fontes.  A obra final é um trabalho único, mas elaborado por partes de outros trabalhos de outras mãos.   A arte de Max Ernst no caso dos romances, não é nada mais nada menos do que a habilidade de colocar partes diversas, de origens variadas, num grupo único.  É a sua visão que apreciamos.  O resultado é como de um carro de hoje, que não perde a marca, o nome, mesmo que seja a soma de componentes de diversas origens.

Sebastian Brant, Das Narrenschiff  [A nau dos insensatos]: o jogo de gamão na Idade Média.

Pensei nos romances de Max Ernst quando comecei a ler no início desse ano, sobre a controvérsia criada pela publicação do romance Axolotle Atropelado [Intrínseca: 2011]da jovem escritora alemã Helene Hegemann.  Controvérsia criada pela acusação, seguida da confirmação pela própria autora, de que partes do texto eram colagens de outros autores.  Deu o que falar, principalmente depois que seu livro foi selecionado como finalista para receber o prêmio de USD$ 20.000 [vinte mil dólares americanos] da Leipizig Book Fair, mesmo depois de boatos de plágio terem contaminado o mundo literário.   Em outras palavras, o livro mostrou ser de tal valor, que mesmo com acusações de plágio, foi colocado entre os finalistas.

Filha do conhecido dramaturgo Carl Hegemann, a autora, que “bombou” na Alemanha com o Axolotle Atropelado, é uma adolescente de 17 anos, evidentemente talentosa, que já teve uma peça teatral não só publicada, mas montada, assim como teve um filme cujo roteiro escreveu, dirigiu, já lançou no circuito alemão.   Axolotle Atropelado vendeu milhares e milhares volumes na Alemanha e conquistou um lugar entre os mais vendidos no início desse ano.  É um romance sobre as descobertas de uma adolescente em Berlim.  Depois da morte de sua mãe, ela se familiariza com o mundo do sexo, das drogas, das noitadas, dos sonhos, do inconsciente individual e coletivo.  Vertiginoso.  Alucinante.  Não muito diferente das imagens exploradas – guardando-se as devidas diferenças de época – pelos surrealistas como Max Ernst, do início do século XX.

Apesar de reconhecer publicamente que copiou e colou diversas passagens de outros – vários — autores, Helene  não se autopuniu, parecendo acreditar mais no conceito trazido a público no século XVIII por Lavoisier de que  na natureza, “nada se cria, tudo se transforma”.   Produto da era da informação livre, criada na internet, escritora de textos, quase comunitários, que não existiriam sem as facilidades da era digital a autora parece ter vestido a própria essência da cidade onde mora, uma encruzilhada do mundo moderno, onde tudo se mistura, se aglutina, se transforma, para se individualizar em seguida.   Num artigo no jornal O Globo, de hoje, titulado “Lula der Grosse”, João Ubaldo Ribeiro descreve Berlim assim: “Cosmopolita, bonita e também cheia de história e cultura, com alguns museus únicos no mundo, não para nunca e, ao contrário das outras cidades alemãs, projeta uma atmosfera boêmia e pouco convencional, onde todas as tribos convivem e se manifestam e as ruas mais movimentadas são uma festa.”  E essa atmosfera parece ter sido absorvida pela autora.  Seu pai, já era conhecido, antes mesmo da controvérsia, por pontificar que “Uma determinada realidade não pode ser achada, apenas ser-nos trazida pelos ‘membros’ de uma cultura”.  E Helene colocou estas percepções à prova.

Helene Hegemann, Jens Schlueter/Agence France-Presse — Getty Images

Assim como Max Ernst não será jamais criticado por usar “partes” de outros artistas, não acredito que Helene Hegemann deva ser punida pelos seus “empréstimos”.  Tudo tem a ver com o espírito com que cada uma dessas criações foi feita.  É uma coisa de Zeitgeist  — para usar a expressão alemã – é uma coisa de espírito da época.  O romance, que não está entre os meus favoritos,  talvez até mesmo por uma questão de geração, é como uma viagem pelos pensamentos caóticos de alguém cuja mente está mantida, como um picles, ao molho de  drogas ferozes.  Não obstante a minha inabilidade de apreciar o conteúdo do texto, acredito que este seja um excelente momento para ventilar as questões de autoria e de criatividade.  A pergunta que lanço aqui, aos meus leitores:

Se aceitamos sem restrições as colagens nas obras das artes visuais, por que então somos tão rígidos, tão severos, quando nos reportamos aos textos literários?

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011





Minuto de silêncio, uma meditação sobre o primeiro amor

9 09 2011

Pescadores puxando um barco, 1885

Peder Severin Kroyer ( Noruega,  1851-1909)

Óleo sobre tela

Oglethorpe University Museum of Art

Atlanta, Ga,  EUA

Hoje até parece luxo a gente dizer que tem um livreiro em quem confia.  Alguém que é dono ou gerente de uma livraria, que conhece os seus gostos tão bem que chega a separar alguns livros para sua escolha.  Coisa pessoal, não tão esquematizada como as sugestões da Amazon.com, que ainda assim conseguem ser bem acertadas, apesar de sugeridas por um programa de computação.  Mas desde que voltei ao Rio de Janeiro desenvolvi um relacionamento com dois livreiros “à antiga”, que me conhecem, sugerem títulos e até me emprestam um ou outro volume.  Este foi o caso da simpática gerente de uma pequena livraria no meu bairro.   Minuto de Silêncio, um conto publicado como livro do escritor polonês  Siegfried Lenz [Rocco: 2010] chegou às minhas mãos dessa maneira.  Não só eu desconhecia o livro como o autor.  Foi uma “educação” dupla.  Uma educação que valeu a pena.  Levei mais tempo procurando por um belo marcador de livros para dar à minha gerente como agradecimento, do que para ler as 126 páginas dessa história de amor entre um jovem, e sua professora de inglês.

Preciso confessar que ando um pouco cansada de livros de “passagem”, livros que retratam o momento em que um adolescente passa a ser adulto.   Precisei dizer isso porque encarei com certa apreensão essa leitura que mostra as descobertas do amor e da paixão por um jovem.  No entanto, a narrativa é magistral.  Econômica e evocativa.  Delicada e branda encanta e passa rapidamente como um véu transparente soprado pela brisa do mar.  Minuto de silêncio é uma meditação sobre a primeira descoberta do amor e sua subseqüente perda.  Há desde o início a certeza de que o trágico ronda o leitor, o gancho é descobrir como e por quê?   Esse é um livro de grande sutileza, bordejando o poético.

Siegfried Lenz

Situada numa cidade pesqueira no Mar Báltico, a história desse primeiro amor é embalada pela localização idílica de um balneário repleto de veranistas, atraídos pela magia do mar.  As marés, o ir e vir das ondas, o trabalho perigoso dos pescadores de pedras, familiarizados com o imprevisto, servem como pano de fundo significante para as lições de vida, e amor, de perda e morte aprendidas pelo jovem Christian. Um belo romance.





Traduzindo Hannah, de Ronaldo Wrobel, até agora o melhor livro do ano

24 08 2011

Canal do Mangue, Rio de Janeiro, década de 1930.  Flickr — Rio antigamente

Se me coubesse a votação para um prêmio nacional de literatura — melhor livro do ano — ele iria para Traduzindo Hannah de Ronaldo Wrobel [Record:2010].  O livro já foi um dos finalistas, este ano, do Prêmio São Paulo, nessa mesma categoria, quando o vencedor foi  Passageiro do fim do dia de Rubens Figueiredo.  Mesmo assim, continuo convencida de que o romance de Ronaldo Wrobel, escancara as portas para novos rumos da literatura brasileira contemporânea.   O que faz esse livro merecer tanto entusiasmo?  Tema, estilo, narrativa, leveza, humor, ironia e pesquisa. 

O tema é um retrato de grupos de imigrantes judeus que chegaram ao Brasil nas primeiras décadas do século XX, fugidos de desastrosas realidades: guerra, fome, desemprego, perseguição.  Tais como milhares de outros imigrantes, que ao longo dos séculos vieram se estabelecer no país.   Acentuando a narrativa, trazendo-a para o nível de deleite literário, está o estilo de Ronaldo Wrobel, leve e solto, com uma refrescante e fértil maneira de expressão: imagens, figuras de linguagem soam novas, soam belas e vivazes.  Permeando todo o texto há uma leve ironia, um humor fugaz que nos faz sorrir, quase rir em certos trechos sem, no entanto, termos diante de nós nada mais do que a mera e justa comédia humana.  Sua pesquisa foi preciosa, o que tornou fácil imaginar as andanças pelas ruas do Rio de Janeiro, pela Lapa, pelo Catete, pela Praça Onze, mesmo que hoje esses locais sejam tão diferentes. 

A história tem início na década de 1930. Max Kutner sapateiro, imigrante e judeu polonês, que já havia estabelecido uma pequena clientela no centro do Rio de Janeiro, é convocado, durante o governo Vargas, para trabalhar na censura de cartas.   Traduzir do iídiche para o português passa a ser sua segunda ocupação.   Ele se enfronha na intimidade da comunidade judaica através das cartas que traduz.  No processo, também se familiariza com as irmãs, Hannah e Guita, do Rio de Janeiro e de Buenos Aires, e se interessa em conhecer Hannah.  Quando isso acontece, descobre que ela não era bem a pessoa que ele imaginava ser quando lia sua correspondência. 

Ronaldo Wrobel

Deste momento em diante passamos a uma grande aventura em terras cariocas.  Num ritmo galopante, vamos de espionagem a contra-espionagem.  A cada capítulo uma surpresa e um aprofundamento da trama.  Como num teste de visão, vamos corrigindo nossas lentes, passo a passo, enquanto acompanhamos o progresso de Max Kutner que, como nós, precisa acertar a combinação de lentes para ver, entender, compreender e digerir tudo que o rodeava.  Traduzindo Hannah é uma pequena obra-prima burlesca, inteligente e histórica.  Não deixe de ler.  Um deleite!

UMA ENTREVISTA COM O AUTOR





Duas irmãs, uma maravilhosa dupla, em Uma bela escapada, de Anna Gavalda

22 08 2011

A leitura, 1889

Pierre Auguste Renoir ( França, 1841-1919)

pastel sobre papel

Segue abaixo uma passagem que achei particularmente charmosa, na descrição de duas irmãs, (Lola e Garance) do livro Uma bela escapada, de Anna Gavalda, [Rocco: 2011] traduzido do francês por Pedro Afonso Vasquez, cuja resenha postei no dia 11 deste mês.  Para aqueles que se preocupam com a boa escrita, com o exercício de narração, esse é um exemplo maravilhoso de texto de comparação e contraste.  Este é um livro muito pequenino, 140 páginas, mas cheio de preciosos momentos.  Vejam, Garance descevendo a irmã Lola  e a si mesma…

Hoje ela é minha melhor amiga. Aquela parada tipo Montaigne  e La Boétie, sabem como é…   Porque era ela, porque era eu.  E o fato de que essa jovem mulher de trinta e dois anos seja minha irmã mais velha é puramente anedótico.  Digamos que no sentido que nós não perdemos tempo ao tentar nos encontrar. 

Para ela os Ensaios, as super teorias em que uma pessoa é punida por se obstinar e que filosofar é aprender a morrer.  Para mim, o Discurso sobre a servidão voluntária, os abusos infinitos e todos esses tiranos que são grandes apenas porque estamos de joelhos.  Para ela, o verdadeiro conhecimento, para mim os tribunais.  Para ambas, a impressão de ser a metade de um todo e que uma sem a outra não passaria de uma metade.

No entanto, somos muito diferentes…  Ela tem medo da própria sombra, eu sento em cima dela.  Ela copia sonetos, eu faço downloadsde música na internet.  Ela admira os pintores,  eu prefiro os fotógrafos.  Ela nunca diz o que está realmente pensando, eu digo tudo que me passa pela cabeça.  Ela não gosta de conflitos, eu gosto que as coisas estejam bem claras.  Ela gosta de ficar “um pouco alta”, eu prefiro beber seriamente.  Ela não gosta de sair, eu não gosto de voltar.  Ela não sabe se divertir, eu não sei dormir.  Ela não gosta de jogar, eu não gosto de perder.  Ela tem enormes braços protetores, eu tenho a bondade um pouco escaldada.  Ela nunca se irrita, eu sempre perco o juízo.

Ela afirma que o mundo pertence aos que se levantam cedo da cama, eu suplico que ela fale mais baixo.  Ela é romântica, eu sou pragmática.  Ela é casada, eu vivo ciscando. Ela não consegue dormir com um homem pelo qual não esteja apaixonada, eu não posso dormir com um homem que não use camisinha.   Ela…  Ela precisa de mim e eu preciso dela.

Ela não me julga.  Ela me aceita como sou, com minha tez acinzentada e minhas idéias negras, ou com minha tez rosada e minhas idéias floridas.  Lola sabe o que é uma grande vontade de um longo ou de saltos altos.  Ela compreende  o prazer que existe em aquecer ao máximo um cartão de crédito e de se culpabilizar até a morte quando ele se esfria.  Lola me mima.  Ela segura a cortina quando estou no provador e diz que sou linda e que não, minha bunda não está grande demais.  Ela sempre me pergunta como andam os meus amores e sempre fica emburrada quando falo dos meus amantes. 

….

Páginas: 48-50

Notas do tradutor:

Ensaios: [“Les Essais”] foi a principal obra do escritor e filósofo francês Michel de Montaigne  (1533-1592), composta por três volumes de conteúdo bastante variado e redigidos entre 1572 e 1595.

Discurso sobre a servidão voluntária [“Discours de la servitude volontaire”] obra panfletária sobre o absolutismo, escrita aos 18 anos de idade por Etienne de la Boétie (1530-1563), porém publicada apenas postumamente, em 1576.  La Boétie era grande amigo de Montaigne, que o acompanhou até o leito de morte e foi o responsável pela posterior difusão de sua obra.

Nota da peregrina:

Essas obras de autores franceses fazem parte da leitura obrigatória em filosofia dos cursos de ensino médio com concentração em literatura e filosofia na França.  O leitor francês, para quem a obra é dirigida, estaria facilmente familiarizado com os princípios de cada uma das obras citadas.