O sol dos Scorta de Laurent Gaudé: não deixe de ler!

4 01 2009
Puglia, Alberobello

Puglia, Alberobello

 

 

 

 

Há muitos anos, quando morava em Portugal, fui atrás da aldeia de onde meu avô paterno emigrou para o Brasil. Deveria dizer minha bisavó, já que meu avô era um menino de 10 anos e ela viúva.  Foi nesta época que descobri a pequenez de uma aldeia, perdida nos campos quase áridos de Trás-os-montes.  O lugar não chegava a umas 80 casinhas, mas havia uma igreja, onde por uma vez assisti a uma missa num domingo.  

 

A aldeia, presença constante nos rincões europeus, materializou-se vívida na leitura de O sol dos Scorta,  ( Nova Fronteira: 2005) livro de Laurent Gaudé, que escolhi como leitura neste longo fim de semana da virada do ano.  A Puglia — o salto da bota da Itália — é muito distante dos vilarejos do norte de Portugal.  Mas os seres que habitam ambos os lugares são semelhantes nas suas privações, nos seus encontros com uma Natureza inóspita, no laivo de um sistema de terras medieval, enraizado nas almas de seus habitantes e também na Igreja como personagem ativo, tanto positivo quanto negativo, que se faz presente e interfere no dia a dia de todos.  Estes são aspectos comuns destes vilarejos europeus, incrustados nas partes de mais arredio acesso do território latino.  Talvez a minha imaginação tenha sido vastamente beneficiada pela magnífica narrativa do autor, que com este livro ganhou o Prêmio Goncourt de 2004 assim como pela tradução de Maria Helena Rouanet.

  

scorta

  

Apesar de a aldeia – chamada Montepuccio —  e a Igreja serem personagens nesta história, não são, contudo, seus principais elementos.  Nas 235 páginas deste romance seguimos a formação e continuação de uma família, os Scorta.  Conhecemos quatro gerações, mas maior ênfase é dada à terceira geração, quando a família incluindo seus agregados, se torna uma entidade de maior importância que seus membros, que suas partes.  

 

A narrativa cobre aproximadamente cem anos da dinastia Scorta, uma família que começa bastarda, resultado de uma vingança e de um engano, mas voluntariamente, desejosamente trazida à luz.  E é neste balanço entre o certo e o errado, entre o que se deseja e o que se consegue, entre o roubo e a honestidade, que esta família sobrevive, vinga e permanece através das gerações.  Seus personagens trançam seus destinos entre um namoro e o desapego do bem com o mal: seres humanos complexos com uma aparência simples.  Só a família, esta sim, é o que importa, personagem central da trama, para ela todos os sacrifícios são válidos. É a seus pés que colocamos nossas oferendas, através dela que realizamos nossos sonhos, e por ela que vivemos, sofremos, bebemos e amamos.  

 

 

O escritor Laurent Gaudé

O escritor Laurent Gaudé

 

  

Este livro me chegou às mãos por acaso.  No entanto é um livro que mereceria maior divulgação.  Não só a narrativa é executada com mestria como a trama parece refletir contos ancestrais, povoados de personagens cujos arquétipos trazemos entre nós no nosso imaginário comum, no nosso inconsciente coletivo.  Lê-lo pede uma reflexão sobre os nossos hábitos e costumes.  Lendo-o podemos conhecer um pouco mais sobre quem somos.  Não pense duas vezes.  Ponha este livro nas suas listas de leitura para 2009.

 

 





A elegância do ouriço — Muriel Barbery

8 07 2008
 
 
 Ceci n’est pas une pipe, René Magritte ( Bélgica, 1898-1967)
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 Acabo de ler A Elegância do Ouriçode Muriel Barbery, escritora francesa, que encanta com um texto divertido e irônico. A história se passa num elegante bairro de Paris e é narrada por duas personagens diferentes: conhecemos Paloma, uma adolescente esperta, que percebe mais do mundo à sua volta do que deixa transparecer, principalmente em relação à sua família, aos seus amigos e à sociedade em geral; e Renée, zeladora do edifício onde Paloma mora, leitora inveterada, bastante mordaz, que tem sempre uma resposta pronta para qualquer ocasião, que também percebe à sua volta muito mais do que os moradores do edifício lhe dão crédito. É através dos olhos delas que somos apresentados a uma gama de moradores do prédio, parisienses com suas maneiras de viver, congeladas por séculos de civilização. Vemos também o quanto têm em comum estas duas personalidades que se revelam através da narrativa. ——–A história se passa quase inteiramente no edifício à Rua de Grenelle, 7, onde ambas residem. Paloma e Renée passam a vida preocupadas em apagar os traços de suas existências e têm bastante sucesso em se tornarem quase invisíveis aos outros, apesar de terem vidas interiores muito ricas e de quase não perderem nada do que acontece ao seu redor, principalmente quanto às intenções das pessoas que conhecem e seus preconceitos. Elas se protegem contra qualquer indiscrição, contra qualquer comportamento, que possa levá-las a serem descobertas, que possa revelá-las como as pessoas sensíveis que são inteligentes, cultas e mordazes na caracterização dos habitantes do edifício e da sociedade francesa em geral.—-

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Os capítulos do livro, com as impressões de cada uma, são intercalados e assim sabemos de seus pensamentos mais íntimos. Eles nos orientam na narrativa. Visualmente o livro também é dividido. Cada narradora tem seu texto em tipografia diferente, facilitando o reconhecimento das diferentes vozes narrativas. Paloma e Renée são ambas pessoas que não se encontram nem se enquadram entre a maioria na sociedade. E lá pelas tantas acabam estabelecendo uma amizade entre elas, atravessando barreiras culturais e sociais estabelecidas há séculos e descobrem que têm muito em comum quando percebem e analisam o mundo à sua volta.—

Só são descobertas por um novo residente, um oriental, um japonês, que se muda e passa a viver neste abrigo de alto luxo da burguesia parisiense. Sua chegada ao edifício causa muita curiosidade da parte de seus moradores mais tradicionais. Ele, no entanto, assume que é realmente uma pessoa de fora, apesar de usar precisa e corretamente a língua francesa. Como um estranho no ninho, por assim dizer, como uma pessoa de fora, que não precisa nem saber, nem se limitar às regras sociais estabelecidas, ele consegue estender sua amizade às duas mulheres que conhecemos, compreendendo-as e deixando suas personalidades florescerem.—

O livro é cheio de observações de muito humor sobre a vida moderna; divertidas descrições do que é esperado no comportamento de cada um e irônicas coincidências que geram preciosas observações sobre literatura, escrita, envelhecimento, psicanálise, e muitos outros aspectos do dia a dia atual. Tudo isto vem bem empacotado numa maravilhosa escolha de vocabulário, contrastes irônicos e num tom jocoso, sem igual. Eu me achei não só sorrindo, mas em algumas ocasiões rindo comigo mesma, para espanto de qualquer pessoa próxima, com as divertidas observações de Paloma e Renée. E se você é uma dessas pessoas, como eu, que gosta de marcar uma passagem particularmente irônica, ou que seleciona uma frase espetacular, que sublinha seu livro a lápis, para poder voltar mais tarde e encontrar um trecho específico, é melhor ter uma apontador próximo e um lápis ao alcance da mão, porque você acabará se resignando a um livro cheio de anotações e de marcas de colchetes e parênteses.

Muitas vezes, durante a leitura, eu me encontrei pensando nos quadros do pintor belga René Magritte. As observações de Paloma e Renée são tão bem colocadas que se parecem com a superimposição de imagens característica dos trabalhos de maior humor e ironia do pintor. É só nos lembrarmos de um de seus quadros [ele fez muitas versões do mesmo] mais conhecidos: Ceci n’est pas une pipe, [Isto não é um cachimbo] para entendermos como trabalha o humor presente neste livro de Muriel Barbery. Magritte, assim com Renée e Paloma, está sempre brincando com o significado das palavras ou com o significado das imagens, colocando-as juntas e nos obrigando, frequentemente, a pensar visualmente por causa de suas justaposições.

E me pergunto se a autora não teria homenageado o pintor já que uma das personagens principais se chama Renée, a forma feminina do primeiro nome de Magritte. Tão jocoso quanto os nomes que a autora escolheu para as duas irmãs, moradoras do prédio, Paloma e Colombe, que têm como seus primeiros nomes duas palavras com o mesmo significado: pomba, em línguas diferentes. Esta possibilidade ainda se torna mais crível quando nos lembramos de que a autora é professora de filosofia e certamente estaria familiarizada com os trocadilhos visuais que Magritte se empenhou em aprimorar. No final do século XX, os quadros deste pintor ilustraram muito conceitos de filosofia e linguística. Tenho certeza que na próxima vez que vier a ler este livro ainda serei capaz de encontrar mais “coincidências” interessantes que me escaparam na primeira leitura.

Leio muito. E faz algum tempo que não encontro um livro que me deixasse tão encantada, tão absorvida. Recomendo com muitas estrelas. É definitivamente um livro para quem gosta de livros e de ideias.





Mangás são os preferidos dos adolescentes franceses no verão de 2008

4 07 2008

 

Hoje, passando rapidamente pelos portais de leitura da França, para contrabalançar as notícias da FLIP de Parati, encontrei a lista dos ítens de leitura mais vendidos na França para adolescentes.  Como na semana passada coloquei aqui a lista da Inglaterra e a do Brasil, nada mais justo do que adicionar os preferidos dos franceses. 

 

Astérix e Obélix, os heróis gauleses.

Astérix e Obélix, os heróis gauleses.

 

Os livros mais populares para a juventude na França, em 2008

 

 

1 —      Naruto, Volume  37, de Masashi Kishimoto (não está a venda em português – Panini)

 

2 —      Death Note, Volume 11, de Tsugumi Ohba —  No Brasil :  Death Note: Concordância – vol. 11   de Tsugumi Ohba

 

3 —      Hunter X Hunter, Volume  24, de Yoshihiro Togashi  — JBC

 

4       Les Chevaliers d’Emeraude, Volume 5 : L’Ile des Lézards de Anne Robillard

 

5 —      Le Monde de Narnia de C-S Lewis  As Crônicas de Nárnia, Martins Fontes

 

6       35 kilos d’espoir de Anna Gavalda

 

7 —      La Cabane Magique, Volume 1 : La vallée des dinosaures de Mary Pope Osborne

 

8 —      Journal d’un chat assassin de Anne Fine –  Diário de um Gato Assassino, SM

 

9 —      Humanitude : Comprendre la vieillesse, prendre soin des Hommes vieux

de Yves Gineste (Auteur), Jérôme Pellissier

 

10 —    La Sixième de Susan Morgenstern

 

 

Em azul os títulos encontrados em português.

 

Observe-se a popularidade dos Mangás.