Resenha: “Moça com chapéu de palha”, de Menalton Braff

12 01 2017

 

 

georgina-de-albuquerque-01-jpgmanha-de-sol-de-georgina-de-albuquerqueManhã de sol, 1947

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)

óleo sobre tela, 61 x 50 cm

 

 

Moça com chapéu de palha, de Menalton Braff traz aos leitores um dos mais desprezíveis personagens que encontrei nos últimos tempos.  Um homem insignificante, fraco, com mania de grandeza, covarde e fracassado é o centro da narrativa na primeira pessoa. Abertamente obcecado consigo mesmo, acompanhamos seus pensamentos mais banais, testemunhamos seus sentimentos que, por sinal, não valem metade do tempo gasto com eles. Rodeamos todo tempo à volta do insuportável e presunçoso, Bruno Vieira que deseja ser escritor e namora a pintora, Angélica.

Encontro já aí minha primeira objeção ao livro.  Estou cansada dessa narrativa autorreflexiva brasileira. Que mania essa de autores se perderem em si mesmos em textos contados na primeira pessoa, como se seus autores fossem os inventores do fluxo de consciência e como se todos os pensamentos, por mais rotineiros, suas observações da cor do céu ao ônibus que tomaram, possam ser de interesse?

São poucos os escritores premiados que não me desapontam.  Menalton Braff foi premiado em 2000 com o Jabuti, por seu livro À sombra do cipreste, que não li. Ando sempre à procura de autores brasileiros contemporâneos para minha constelação de favoritos. Nela, não há espaço, para Menalton Braff, pelo menos por esse livro.  Minha constelação tem uma população eclética, generalista de Luiz Antônio de Assis Brasil, Milton Hatoum, Adriana Lisboa, Oscar Nakasato, Ronaldo Wrobel entre outros (ordenados por sobrenome). São escritores nem sempre listados por críticos e intelectuais brasileiros.  A razão é simples: quero ler um livro que me seduza pela trama, pelo estilo e, sobretudo, pela voz narrativa.  Gosto de obras abertas, ou não;  de autores que brincam ou não com a língua;  tradicionais ou não em estrutura; mas quero uma história e autores que me adicionem.  Acho incrível que os encontre com maior facilidade em outras terras de língua portuguesa de Portugal à África lusitana.

 

 

moca-palha-braff

 

Moça com chapéu de palha peca ao não apresentar alguns dos requisitos colocados acima: sua trama é quase inexistente.  Trata-se de um homem que quer ser escritor. Teoricamente estaria angustiado, mas na verdade quem sofre somos nós, convidados a ler os primeiros capítulos do livro em processo, uma tentativa de Menalton Braff de introduzir meta-linguagem significativa, que não se substancia claramente.  O texto dentro do texto tem alguns retoques de livro policial mas não consegue se consolidar além da preocupação de Bruno consigo mesmo e sua história.  Mesmo assim, ele se acredita enamorado.  Sim, Bruno Vieira ama.  Ama e se preocupa. Não com outros, ou com a noiva.  Não. Não se engane, sua paixão não é pela mulher de quem fala poeticamente, mas pelo homem refletido nos olhos dela quando esta o observa.  Tudo revolve em torno dele, seus sentimentos, seus medos.  Quando descobre a noiva pintando um novo quadro em que ele não figura,  se ressente: “Subitamente descubro que não me vejo na tela, e num primeiro instante tenho a sensação esquisita de que estamos em planos diferentes. Isso me angustia. Por pouco tempo, porém. Percebo que, mesmo em posição periférica, faço parte do cenário” [45]. Ou quando realiza que um brinde não era para ele: “O brinde que primeiro pensei dedicado à minha saúde, talvez ao meu regresso, logo percebi, pelos olhares todos, que tinha doutor Gustavo como alvo. Fiquei algum tempo sem demonstrar alegria alguma, abalado com o choque da passagem de homenageado a homenageante” [82].

Com presunção inigualável esse Narciso interiorano não consegue admitir o amor paternal do futuro sogro, pois sua preocupação é dominar todo o campo de atenções da noiva. “Ele sabia da filha muito mais do que eu. E isso lhe dava, pareceu-me, certos direitos de primazia. Era um tipo de poder que o pai tinha e eu não” [48]. [Poder? em que século estamos?] Asfixiante, ele pondera sobre a amada:  “De Angélica sei quase tudo: seu passo, uma dança com sua cadência, o modo como se move, conheço de ouvido. Sei o sol de sua cabeça, sei os raios que projeta” [27]. E sua necessidade de fazer da noiva sua possessão é opressiva: “Seus olhos que não se moveram ainda, recusam-me a entrada.  Em outras ocasiões já me senti assim excluído. Esta capacidade de Angélica de ter vida própria, um círculo em que não penetro, assombra-me” [54]. Que arrogância! Num mundo normal essas atitudes se mostrariam falsas logo, logo. Poderiam até alavancar o conflito na trama.   Mas aqui não importam, porque o personagem está consumido pela questão de si mesmo, auto-amante.  Basta-se.

 

menalton-braffMenalton Braff

 

Difícil dizer se os meus problemas com este romance são produto único do meu desprezo pelo personagem.  O uso da língua também é enervante. Aos meus ouvidos ela soa falsa e forçada. Inapropriada. A tentativa de poetizar as imagens principalmente nas descrições da namorada, são frequentemente perturbantes pois revelam um texto trabalhado demais. “As duas mãos em concha, Angélica protege as débeis chamas das velas, para em seguida, apagá-las com a carícia de seu hálito.” [105]  [Em que século estamos, mesmo? “as débeis chamas“, “carícia do hálito“?] Outras ocasiões em que a língua portuguesa parece não bastar ao autor forçam-nos a ler mais de uma vez: “Existem horas em que me chovo: o para-brisa embaçado, uma leve coriza, os pensamentos achatados por um céu baixo e feio” [39]. [“me chovo?” – que imagem feia e desnecessária!]; “Sua voz marrom estava pesada, numa concentração lenta e grossa” [55]. Além disso, a narrativa da auto obsessão faz com que o autor use verbos reflexivos onde não se faz necessário: “mergulho-me no balanço de seus cabelos soltos ” [93].

Braff explora quando pode a prosopopeia, figura de linguagem que atribui a objetos sentimentos ou ações humanas, e a usa com tanta frequência que se torna um vício criativo. “Aceito com alguma relutância a sombra que a casa me oferece…” [197]; “A poltrona me abraçou com abraço bege muito macio, mas possuinte, deixando-me sem muitos movimentos…” [39]; “A pasta havia ficado em cima da escrivaninha. Imóvel e quieta como um sono bom: inocente” [155]. A tentativa é poetizar o texto.  O resultado aos meus ouvidos é tenebroso. E a repetição de palavras muito próximas mostra que o cuidado com o texto foi deixado só para o poético. Escorei o cotovelo no balcão da portaria. Assim podia escorar a testa na mão para esperar….” [41]; “Digo uma asneira meio sem graça para que elas não fiquem sentindo pena. Não sei se estão rindo porque me acharam engraçado ou porque não deixam de sentir pena de mim” [189]; entre outras vezes… O grifo nesses casos é meu.

A conclusão é que esse livro não fez mais do que irritar. Não posso recomendá-lo. É pedante no seu desejo de obra literária de valor e arrogante com o leitor.  Pena.

 

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“No meu mundo”, texto de Luís Jardim

27 10 2016

 

 

haddon-hubbard-sundblom-eua-1899-1976menino-na-arvore-1929ost-20-x-33cm-anuncio-para-cream-of-wheat-1929Menino na árvore, 1929

Haddon Hubbard Sundblom (EUA,  1899-1976)

óleo sobre tela, 20 x 33cm

[usado para anúncio de Cream of Wheat, 1929]

 

 

“Vejo nesse comportamento o mesmo menino pálido que eu era. Menino que desprezava brinquedos reais para fazer de conta, por exemplo, que o jambeiro da minha casa era uma criatura e com ela entender-me bem melhor do que me entendia com minha irmã. Trepar-me nos galhos dele, falar com as nuvens e guardar segredos que nunca me foram contados. Fugir das pessoas que me cercavam, detestar-lhes a compreensão lógica e férrea por obediência à vida real. E zangar-me, tornar-me furioso quando, inventando palavras cujo sentido só eu mesmo percebia, destinadas a coisas por mim mesmo idealizadas, notava que todo o mundo as tomava como articulações sem sentido de um tolo ou de um alucinado. E por isso evitava o contato dos meus, sumindo-me para os lugares ermos e resguardados, ambiente propício para conceber o mundo se alargando em maiores e melhores mistérios. Eu não queria nenhum finito visual. Nenhum limite no pensamento, e a razão também sujeita às fantasias. O reino admirável das coisas impossíveis, esfera de outras dimensões. Para que subordinar-me às relações conhecidas, se a vida só me era boa assim: fazendo de conta? Vem daí com certeza o adulto absurdo que eu era, não aceitando as regras comuns, as normas estabelecidas, pois eu queria a vida medida a palmos, exatamente porque as mãos são desiguais.”

 

 

Em: As confissões do meu tio Gonzaga, Luís Jardim, Rio de Janeiro, José Olympio: 1976 [Coleção Sagarana], 3ª edição, página 37





Cadê? poesia de Wilson W. Rodrigues

13 07 2016

 

 

cadê o pessoalZé Carioca procura por seus amigos, ilustração de Walt Disney.

 

 

Cadê?

 

Wilson W. Rodrigues

 

 

Cadê o pé de cantiga

que quando criança cantei?

Nem minha gente se lembra

e nem na saudade achei.

 

Que sabe o verso perdido?

Por que ninguém o guardou?

Onde leva a nossa vida

que o verso bom não levou?

 

Quem me recorda sua rima?

Quem minha lembrança traz,

para cantar a cantiga

de que não me lembro mais?

 

Nem me responde a alegria

Nem a tristeza responde.

Cadê o pé de cantiga

onde vou encontrá-lo? Onde?

 

 

Em: Bahia Flor: poemas, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949.p. 19.

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O escritor Ronaldo Wrobel visita grupo “Ao Pé da Letra”

27 06 2016

 

 

DSC00584Encontro do grupo de leitura Ao Pé da Letra, com o escritor Ronaldo Wrobel.

 

 

Ontem foi um dia especial para o grupo  Ao Pé da Letra que contou com a presença do escritor Ronaldo Wrobel conversando sobre O romance inacabado de Sofia Stern, lançado na terça-feira passada, 21 de junho de 2016.

Estavam presentes 19 membros do grupo e seus convidados.  Todos se deliciaram com as histórias contadas pelo autor sobre sua vasta pesquisa na Alemanha, na Suíça e até mesmo em países que eventualmente foram completamente cortados do romance.  Ronaldo Wrobel, que escreve e atua como advogado, mostrou de forma descontraída e bem humorada as pequenas vitórias e os surpreendentes momentos em que o acaso  o levou a informações interessantes  na detalhada pesquisa sobre a Alemanha dos anos 30.

 

DSC00583Membros do Ao Pé da Letra ouvindo o escritor Ronaldo Wrobel.

 

Além disso o autor, com grande magnanimidade, trouxe para inspeção do grupo o último manuscrito completamente revisado, com cortes enormes e observações para si mesmo, com palavras obliteradas, parágrafos cortados, capítulos divididos ou completamente retirados, antes do manuscrito final enviado à editora.  Foi impressionante para o grupo ver o detalhamento da edição final do escritor que removeu perto de 200 páginas do manuscrito original para chegar ao texto que conhecemos como leitores.

O Ao pé da letra: leitores e amigos —  segundo grupo de leitura patrocinado pela Peregrina Cultural, um grupo de leitura independente de editoras ou de qualquer patrocínio corporativo, agradece a Ronaldo Wrobel por sua generosidade com seu tempo, conhecimento, bom humor e sobretudo sua dedicação a uma melhor literatura brasileira, mais engajada com o leitor de hoje, profissional de outras áreas que tem a leitura como companheira de vida.

O livro O romance inacabado de Sofia Stern foi publicado pela editora Record, e seu lançamento na semana passada garante que ele esteja nas melhores livrarias do país.

Para saber mais sobre a obra: Resenha

 

DSC00585Membros do Ao Pé da Letra ouvem atentamente o escritor Ronaldo Wrobel.

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Resenha: “A vida invisível de Eurídice Gusmão” de Martha Batalha

26 06 2016

 

 

georgina-de-albuBordando, s.d.

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)

óleo sobre tela

 

 

A vida invisível de Eurídice Gusmão se passa nas décadas de 1940 em diante, no Rio de Janeiro. Eurídice Gusmão e sua irmã são mulheres que não se conformavam com a circunscrição de seus papéis atribuídos pela sociedade. Apesar de tentarem, cada qual à sua maneira, nem sempre conseguiam escapar dos destinos projetados para elas inicialmente por familiares e mais tarde por seus  maridos.   Evocativo de uma época, a obra descreve a vida de mulheres da geração de nossas avós. Eu gostaria de poder dizer que só elas, mas também descreve a de nossos pais ou de muitos dos nossos contemporâneos, porque o problema das vidas circunscritas a papeis tradicionais ainda parece enraizado em muitos cantos da nossa terra.

 

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A narrativa se concentra na história de Eurídice contrastada à da irmã, Guida, que havia buscado viver em seus termos, cortando os laços com os pais, libertando-se das expectativas deles e de todos à volta. A tentativa não durou.  E eventualmente, Guida decide pelo comprometimento de suas realizações pessoais para beneficiar a vida do filho.  O mesmo ocorreu com Eurídice, que mais tímida, menos aventureira, também se acomoda no casamento com Antenor, um bancário, bom provedor, mas incapaz de apreciar a energética e inteligente esposa que lhe coubera.  Por manter o lar para seus filhos Eurídice também se anula.  Eurídice passa a vida correndo atrás de alguma brecha que a permitisse achar maior significado em sua própria vida além daquele de mãe e dona de casa.  É frustrada em todas as tentativas. Por fim, encontra consolo ao escrever, passando os dias finais de sua vida em frente à máquina de escrever já bem depois do estabelecimento da ditadura militar de 1964.

Não é uma obra prima, não irá ganhar o prêmio Nobel de literatura.  No entanto, à medida que considerei esse livro para resenha, cresceu minha admiração. É um bom livro. Pelo assunto abordado e bem retratado, A vida invisível de Eurídice Gusmão, é uma boa escolha de leitura que aborda as limitações da mulher na sociedade carioca, das gerações que viveram através do século XX.  Só por esse esforço deveria ser aplaudido.

 

 

martha_batalha_5_credito_jorge_lunaMartha Batalha

 

Meus problemas com essa obra não se limitam ao tom puramente evocativo.  Não há um crescendo de informações. Não há resolução de conflitos, nem mesmo no final.  Falta-lhe agilidade, ação e diálogos. A narrativa, ainda que impecável, é distante. No entanto, retrata muito bem uma época e é perfeitamente dispensável a explicação da autora no início e no fim do livro sobre a existência  de certos personagens ou sobre as obras escritas por Eurídice Gusmão.  É chocho.

Mas me aventuro a dizer que se você gostou de Arroz de Palma, romance de Francisco Azevedo, é provável que goste deste livro, por sua evocação de uma época.

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Uma noite para lembrar, encontro com o escritor Ronaldo Wrobel

20 06 2016

 

 

Encontro com Ronaldo WrobelEncontro do Grupo de Leitura Papalivros, com o escritor Ronaldo Wrobel, 19/06/2016.

 

 

Foi uma noite especial para o Papalivros. A visita do escritor Ronaldo Wrobel, a dois dias do lançamento oficial do livro O romance inacabado de Sofia Stern, gerou uma conversa estimulante sobre o processo criativo [lançamento no RJ: Livraria da Travessa, Shopping do Leblon, dia 21 às 19 horas, aberto ao público].

Uma coisa é ler.  Outra é ouvir do escritor os porquês das escolhas que fez como autor: localização, época, personagens.  O que foi cortado, o que foi detalhado, o que existe no mundo em que vivemos e o que vem da imaginação do autor são perguntas, divagações, que durante a leitura raramente fazemos mas que estão presentes no dia a dia do escritor.

 

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Saber que um manuscrito de mais de quatrocentas páginas  vai para o prelo com um pouco mais da metade, porque o autor cortou “na própria carne” para tornar seu texto mais enxuto, é surpreendente.

Por todos os detalhes  que dividiu conosco do processo criativo, o grupo Papalivros está grato a Ronaldo Wrobel pela franqueza, carinho, gentileza, cuidado  e sobretudo o excelente humor com que nos tratou.

Fica a recomendação da leitura: O romance inacabado de Sofia Stern, Ronaldo Wrobel, Editora Record: 2016.

 

Resenha

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Resenha: “O romance inacabado de Sofia Stern”, de Ronaldo Wrobel

10 06 2016

 

 

Noite em Hamburgo,Hamburgo à noite

Leonid Afremov (Bielorússia/Israel, 1955)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

Acabo de ler o novo livro de Ronaldo Wrobel, O romance inacabado de Sofia Stern. Foi grande o prazer de reconhecer aqui o escritor que me encantara com Traduzindo Hannah há cinco anos. É reconfortante constatar que um autor de que gostamos inicialmente continua a produzir obras da qualidade e do interesse que percebemos anteriormente.

Sofia Stern é obra bem mais complexa e dinâmica. É narrada como um thriller.  Ao final de cada capítulo uma questão, uma curiosa mudança de rumo, uma observação intrigante nos leva ao capítulo seguinte com ansiedade.  Trata-se de uma aventura, iniciada no Brasil, por um brasileiro, morador de Copacabana que, esperançoso de ser recipiente de uma fortuna de milhões de euros, viaja  com a avó nonagenária, imigrante de guerra, de volta à Alemanha, a fim de apresentar documentação para que ela seja considerada herdeira legal da cobiçada fortuna. No meio do caminho, conturbado e repleto de reviravoltas, como Ronaldo Wrobel já mostrou ser seu estilo narrativo, aprendemos muito sobre ele, ela, a família e a Alemanha de Hitler.

 

sofia

 

A Segunda Guerra Mundial é o tema mais importante e modelador das artes do século passado. Direta ou indiretamente ela molda até hoje a produção literária e artística mundial. Não haverá ficção literária, em número ou natureza, que possa transmitir a nós, gerações pós-apocalipse, o que foi uma guerra em que morreram quase sessenta milhões de pessoas, um pouco mais de 3% população mundial em 1940.  Ronaldo Wrobel se encarrega, junto a outros, de nos lembrar disso. Precisamos saber para não esquecer, e jamais repeti-la.  Mas talvez por estar duas gerações removidas da hecatombe, ele toma a liberdade de encará-la por ângulo diferente.  Em seus livros, Hannah e Sofia Stern, Wrobel  se concentra na vida dos que sobreviveram. Seu foco está nas histórias dos que tiveram vidas modificadas como consequência da guerra e nas estratégias que usaram para tornar suas vidas relevantes em outras circunstâncias. É o sobreviver que o atrai, que o fascina. Com fino humor, afiada observação do comportamento humano e muita pesquisa Ronaldo Wrobel tem feito, aos poucos, uma pequena revolução literária no país, abrindo a porta outrora fechada do bolorento recinto onde escritores brasileiros se abrigam. Ventilando o ambiente, ele se separa dos autores dedicados a publicações autorreferenciais e herméticas, escravas de modismos intelectuais, acorrentadas por programas político-sociais que passam por literatura.

Aqui não.  Temos um texto ágil, inteligente, informativo, divertido que dá prazer de ser degustado.  Até pouco tempo essas eram características inexistentes nas prateleiras das estantes nativas. A prova é que nossos leitores se debruçam mais sobre obras em tradução, concebidas no exterior, do que sobre as publicações nacionais que raramente consideram a existência de um público leitor inteligente, curioso e ávido por uma boa história.  Ronaldo Wrobel nos dá exatamente o que faltava no horizonte literário brasileiro.

 

Ronaldo-Wrobel1Ronaldo Wrobel

 

A produção literária de Wrobel o coloca num contexto maior do que a Segunda Guerra Mundial. Há, subjacente nos dois livros mais recentes do autor, temática sutil e relevante: a questão da identidade. Esse é um tópico explorado nos meios literários, amiúde, a partir da segunda metade do século XIX, quando a fome e a pobreza na Europa levaram milhares de imigrantes italianos, irlandeses, alemães e outros às terras do Novo Mundo. Mais tarde depois de cada uma das grandes guerras, um maior número de pessoas deslocadas habita novas terras, refazendo vidas. A identidade que desenvolvem é um tema de relevância que precisa ser aventado, hoje, quando multidões atravessam fronteiras impacientes para forjar nova vida em melhores circunstâncias.

Imediatamente após a imigração segue-se a questão de identidade. Todos os imigrantes passam por essa experiência e Wrobel não é alheio a isso. Escritores, ensaístas, como André Aciman e Amin Maalouf entre outros dedicaram-se a essa complexa questão. Não se trata só da língua, do país ou da cultura que se deixou para trás cair no esquecimento. Hábitos de aldeias que não mais se sustentam em novas realidades deixam um tremendo vazio na alma. Mas há, sobretudo, a necessidade de pertencimento ao país que abraçou o imigrante.  O que o imigrante faz para se integrar ao novo mundo? E quais são, afinal, os sacrifícios para que os sonhos num novo horizonte se construam?  Sem necessariamente abordar essa questão diretamente, Ronaldo Wrobel descreve para o leitor as diversas artimanhas que envolvem a nova vida. Lição importante para os dias de hoje.

Tema riquíssimo, o jogo de identidades desafia a compreensão de quem somos e de quem projetamos ser.  Já no início do século XX Pirandello questionava a percepção da realidade em uma de suas mais conhecidas peças teatrais, Assim é se lhe parece (1917). Mas hoje, cidadãos de uma cultura global nos encontramos de hora em hora nos definindo e redefinindo, como fazem os astutos personagens de Hannah e de Sofia Stern. A cada avatar um novo nome, uma nova vida. Como disse Mia Couto: “A verdade é que nós somos sempre não uma mas várias pessoas e deveria ser norma que a nossa assinatura acabasse sempre por não conferir. Todos nós convivemos com diversos eus, diversas pessoas reclamando a nossa identidade.” [E se Obama fosse africano?: O planeta das peúgas rotas]. Assim segue O romance inacabado de Sofia Stern. Com uma variante que nos faz pensar ainda uma vez na questão de identidade, Ronaldo Wrobel se insere na narrativa ficcional. Ele é ao mesmo tempo personagem e narrador.  Provavelmente só para mostrar que o jogo de identidades é universal. Este é um bom e sedutor livro que nos envia mais questões do que as levantadas aqui. Além de entretenimento de primeira ordem, o livro nos leva a considerar temas atuais sob uma nova perspectiva.  Ronaldo Wrobel está de parabéns.

Recomendo a leitura sem quaisquer restrições.

 

 





Destino, poema de Menotti del Picchia

10 03 2016

 

 

Goeldi,Oswaldo(1895-1961)pescador,1973,xilo,25x37Pescador, 1973

[Tiragem póstuma por Reynal]

Oswaldo Goeldi (Brasil, 1895-1961)

Xilogravura policromada

 

 

Destino

 

Menotti del Picchia

 

 

Amanhã eu vou pescar.

 

Há um peixe fatalizado

que a Ritinha vai guisar

na panela de alumínio

que brilha mais que o luar.

Hoje ele está no seu líquido

e opaco mundo lunar,

pequena seta de prata

furando a carne do mar.

 

Qual será? O bagre flácido

de cabeça triangular?

O lambari que faísca

como uma mola a vibrar?

O feio e molengo polvo,

monstruoso, tentacular?

O peixe-espada, de níquel,

a viva espada do mar?

 

Hoje estão vivos e lépidos

os lindos peixes do mar.

Amanhã…

 

Nem pensem nisso!

 

Amanhã eu vou pescar…

 

 

Em: Entardecer, Menotti del Picchia, São Paulo, MPM propaganda: 1978, p. 55.





“Cavalhadas”, texto de Eduardo Frieiro

2 02 2016

 

 

Cavalhada, Antonio Poteiro, 1980. Acrílica sobre tela, 90 x 140 cmCavalhada, 1980

Antônio Poteiro (Brasil, 1925)

acrílica sobre tela, 990 x 140 cm

 

 

Cavalhadas

 

Eduardo Frieiro

 

 

“Chegara o dia dezesseis de julho. Nesse dia realizavam-se no Carmo grandes festividades religiosas e profanas em honra da padroeira da Vila. Salvas de arcabusaria e roqueiras anunciaram o alvorecer. Às nove horas, missa oficiada a dois coros de música. Depois, procissão. Logo era esperar pelo melhor da festa: as cavalhadas, em que se imitavam torneios entre Cristãos e Mouros, com o sabor das histórias de Carlos Magno e os doze pares da Princesa Floripes.

Numa larga praia do ribeirão, construíra-se a praça para as cavalhadas, rodeada de palanques de pau roliço, enfeitados de colchas, bandeirolas e folhagens. Às duas da tarde já todos os lugares estavam tomados pelos moradores da vila e pela muita gente que viera dos arredores convidada pela fama dos festejos. O Governador, que presidia à justas figurando o Imperador Carlos Magno, com seus doze pares de França, ocupava o palanque principal, ornamentado com especial aparato, como convinha à pessoa de tão grande senhor. No lado oposto, erguia-se o palácio do Almirante Balão, encarnado na pessoa de José Gomes Vilarinho. Violante era a bela Floripes, destinada a ser raptada por um paladino cristão.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

As cavalhadas começavam pelo jogo das canas, exercício cavalheiresco em que se usavam adargas e lanças sem ponta, de pau frágil, que nos embates se partiam facilmente. Dezesseis cavaleiros, entre Cristãos e Mouros, vestidos os primeiros de azul e os outros de vermelhos, formavam as quadrilhas que participavam do combate simulado. Entravam às duas de cada vez, a um sinal de lenço dos padrinhos. Depois de correrem em parelhas encontradas, os cavaleiros divertiam-se a brandir as espadas, caracoleando e fazendo caprichosas evoluções com suas montarias vistosamente ajaezadas.  Agrupados depois em dois bandos, um em cada metade da praça, frente a frente, tomavam as canas e disparavam a galope, tomavam as canas e disparavam a galope atirando-as ao ar um para o outro. Faziam a volta da arena e retomavam seus lugares. Ao passar o bando que galopava pelo outro, este carregava a rédea solta e atirava as canas, que se deviam esquivar sempre com a adarga.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Dava remate às cavalhadas o rapto da Princesa Floripes. Simulado um breve recontro entre os soldados do Almirante Balão e os paladinos de Carlos Magno, invadiam estes o alcácer do infiel e traziam de lá a peregrina donzela que achara graça aos olhos dum bravo par de França.”

 

 

Em: O mameluco Boaventura, de Eduardo Frieiro, São Paulo, Edições Saraiva, s/d, Coleção Saraiva, volume 166, 3ª edição, páginas 98- 102.

 

 





Turner, anotações de Murilo Mendes

28 01 2016

 

 

111turnePaisagem com rio e baía ao fundo, 1835-40

Joseph Mallord William Turner (GB, 1775-1851)

óleo sobre tela, 93 x 123 cm

Museu do Louvre, Paris

 

 

♦  Vive? Pseudônimo, isolado numa casa de Chelsea, domínio da desordem e da poeira. O irmão de Ruskin refere que nunca viu nada tão impressionante “desde Pompéia”.

 

♦  Ignoram-no os acadêmicos ou não. Entre sábado e segunda-feira eclipsa-se na periferia londrina, instala-se nos bordéis: decifrará ou não o enigma do sexo, suas cores mordentes?

 

♦  Habita, familiar, a faixa do relâmpago, as ruínas do maremoto, a chama extinta, o reino das ondas giróvagas, o balanço dos navios correlativos, a fantasmagoria de Veneza que dorme esquecida em si própria, auto-espectra, a subversão da luz. Não “representa” coisa alguma. O pincel clandestino precede a marcha do impressionismo.

 

♦  É William Turner. A luz interna e a luz externa conjugam-se no seu quadro, onde a manhã anoitece.

 

1973

 

Em: Transístor, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980, p. 217.