“na hora de pôr a mesa, éramos cinco: o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu. depois, a minha irmã mais velha casou-se. depois, a minha irmã mais nova casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco, menos a minha irmã mais velha que está na casa dela, menos a minha irmã mais nova que está na casa dela, menos o meu pai, menos a minha mãe viúva. cada um deles é um lugar vazio nesta mesa onde como sozinho. mas irão estar sempre aqui. na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco. enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco”
Em junho, o livro do mês de meu grupo de leituras foi Olhai os lírios do campo de Érico Veríssimo. Algumas de nós já haviam lido a obra na adolescência, mas agora a história de Eugênio, Olívia e Eunice foi mais impactante porque amadurecemos. Todos gostaram da leitura, ainda que a parte final do enredo tivesse se prolongado mais do que é esperado na literatura contemporânea e o tom moralista da trama tenha deixado alguns um tanto desapontados. Aliás o próprio Érico Veríssimo na apresentação desta edição diz:
“Há em Olhai os lírios do campo uma filosofia salvacionista barata que me faz perguntar a mim mesmo como pude escrever tais coisas, mesmo levando-se em conta o fato de haver atribuído essa filosofia a personagens do livro.”
Hoje temos um Brasil diferente do retratado neste romance de 1938. Provavelmente escrito pouco tempo antes do lançamento. Uma época controversa na Europa e no Brasil com o crescimento do Nazismo e o estabelecimento da ditadura de Vargas. Há uma passagem que me levou a ponderar sobre nosso mundo, hoje. Veríssimo narra uma pequena reunião numa residência particular, onde um pintor, convidado de honra, expõe sua visão sobre a Europa. Presentes, três ou quatro personagens, inclusive Eugênio que se mantém calado, que recitam suas posições políticas defendendo esta ou aquela opinião. Esta é uma conversa marcante no livro, praticamente a meio caminho de seu desfecho. Momento onde Veríssimo exemplifica pontos de vista políticos em existência no país, sem defender opiniões. Marquei páginas, parágrafos e parágrafos. Este foi um dos meios ele usou para trazer ao leitor uma visão das correntes existentes naquele momento. Interessante perceber que este instrumento da escrita foi aos poucos abandonado por escritores contemporâneos. Nossos diálogos hoje, são menores, e menos didáticos. Não obstante, fiquei curiosa de ver como nosso pequeno grupo de leitores iria se aproximar desse momento do livro, já que atualmente estamos cautelosos para explicitar qualquer opinião política, quer sobre o Brasil ou guerras europeias, oriente médio ou qualquer outro lugar que tome cinco minutos do noticiário local. Aqui estão alguns parágrafos de Olhai os lírios do campo.
“…nossa sociedade vai sendo aos poucos solapada pelo bolchevismo. O plano é diabólico. Não é só a literatura que prepara terreno para o amor livre, para o ateísmo, para a imoralidade e para a revolução comunista. É o cinema também, é o amoralismo dos filmes: divórcios, histórias escabrosas, músicas sensuais, danças lúbricas, nudismo, anedotas canalhas, bebedeiras, crimes, suicídios… O cinema explora tudo isso. O público vai ficando impregnado”
………..
“Não entendo essas histórias de Platão. Comigo é no fascismo. Mussolini disciplinou a Itália. Hitler reergueu a Alemanha. Disciplina! Construir uma nação é quase o mesmo que construir um grande edifício. É preciso primeiro um plano, uma ideia. Depois, bom material de resistência, bases sólidas, equilíbrio… — E beleza de linhas — acrescentou Eunice. — O fascismo é belo e vertiginoso. “Vivere pericolosamente.”
………..
“No meio da chatice da Europa decadente — falou Filipe — ergueu-se o grande arranha-céu do fascismo.” “Resta saber — disse ele — se as bases desse edifício são sólidas. Tenho graves dúvidas.…” … “O fascismo é um castelo pomposo edificado sobre areia movediça.”
É difícil imaginar alguma conversa semelhante a essa nos dias de hoje. Vivemos num mundo de censura. Se as ideias de alguém não coincidem com aquelas de seu interlocutor, será sempre melhor não pronunciá-las, pois não haverá qualquer escuta. As pessoas preferem se afastar a ouvir o que não condiz com sua preferência. Como consequência todos se calam. Foi isso exatamente o que aconteceu no meu grupo de leitura. A fala sobre o posicionamento político não aconteceu. Nenhum dos membros trouxe para consideração este ou outro diálogo sobre a política da época. E foram algumas páginas. Triste constatação.
Esta é uma hora penosa. Vergonhosa para quem está acostumado a lidar com ideias. Tenho muita pena que tenhamos tanto medo de nos expressar.
Em: O Espelho, revista de literatura, modas, indústria e artes, 4 de setembro de 1859, página 21.
Francisco de Paula Brito ( RJ 1809 – RJ 1861) – tipógrafo, editor, jornalista, escritor, poeta, dramaturgo, tradutor e letrista. Foi aprendiz na Tipografia Nacional. Trabalhou em seguida, em 1827 no Jornal do Comércio. Em 1831 passa a livreiro e editor com Tipografia Fluminense de Brito & Cia. Em 1833 lança o jornal O Homem de Cor, primeiro jornal brasileiro contra o preconceito racial. É na sua editora que se forma a “Sociedade Petalógica”, grupo de poetas, compositores, atores, líderes da sociedade, ministros de governo, senadores, jornalistas e médicos que “constituíam movimento romântico de 1840-60” Por outro lado, a tipografia de Paula Brito serviu também de ponto de encontro entre músicos populares [ Laurindo Rabello e Xisto Bahia, por exemplo] e poetas românticos. A combinação produziu muitas parcerias musicais, principalmente no gênero das modinhas, que serviriam de embrião para a música popular urbana, popular no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX.
Obras:
Anônimas, poesia, 1859
O triunfo dos indígenas, teatro, sd
Os sorvetes, teatro, sd
O fidalgo fanfarrão, teatro, sd
A revelação póstuma, conto, 1839
A mãe-irmã, conto, 1839
O Enjeitado, conto
A marmota na Corte, periódico humorístico, 1849
A Maxambomba, teatro
A mulher do Simplício, ou A fluminense exaltada, periódico humorístico, 1832
Ao dezenove de outubro de 1854, dia de S. Pedro de Alcântara, nome de S. M. o Sr. D. Pedro II, poesia
Biblioteca das senhoras, 1859
Elegia à morte de Evaristo Xavier da Veiga, poesia, 1837
Fábulas de Esopo para uso da mocidade, arranjadas em quadrinhas, poesia, 1857
Monumento à memória do brigadeiro Miguel de Frias Vasconcellos e de seu irmão Francisco de Paula, 1859
Norma, teatro, 1844
Oferenda aos brasileiros, sd
Os Puritanos, teatro 1845
Poesias de Francisco de Paula Brito, poesia, 1863
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Pierre Lachambeaudie (França, 1807 – 1872) foi um escritor de fábulas francês.
“Era Primavera e eu estava em Siena. Entretido o dia inteiro em minudentes pesquisas nos arquivos da cidade, eu costumava flanar à noitinha, após o jantar, pelo caminho agreste de Monte Oliveto, onde, ao crepúsculo, grandes bois brancos, jungidos arrastavam, como nos velhos tempos de Evandro, um carro tosco de rodas maciças. Os sinos da cidade anunciavam a morte serena do dia; e a púrpura do ocaso baixava com melancolia majestosa sobre a cadeia de colinas rasas. Quando já os negros esquadrões de pegas se haviam apossado das muralhas, só, no céu de opala, um gavião volteava, de asas imóveis, por sobre um roble isolado.
Eu caminhava de encontro ao silêncio, à solidão e aos inofensivos espectros que avultavam à minha frente. Insensivelmente a maré da noite inundava os campos. O olhar profundo das estrelas tremeluzia no céu. E, nas sombras, ao redor das moitas, os pirilampos faziam palpitar os seus fachos amorosos.”
Em: Opoço de SantaClara: contos, Anatole France, tradução de João Guilherme Linke, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira: 1978, p. 3
Antes de ficar famoso pelo sucesso do livro “O código da Vinci”, o escritor Dan Brown foi um cantor pop. Um de seus álbuns solo chamava-se “Anjos e Demônios”.
“Muito tempo antes que descobrissem que ele tinha dois filhos com mulheres diferentes, um em Drimoleague e o outro em Clonakilty, o padre James Monroe usou o altar da igreja de Nossa Senhora, Estrela do Mar, paróquia de Goleen, West Cork, para denunciar minha mãe com puta.”
John Boyne em: As fúrias invisíveis do coração, Rio de Janeiro, Companhia das Letras: 2017, página 13, primeira frase, primeiro capítulo.
Lady Lever Art Gallery, National Museums Liverpool
“Literatura e poder não se separam. A literatura americana é lida através do mundo não só por seu valor inerente, mas porque o resto do mundo sempre lê a literatura dos impérios. A novidade é que a maneira americana de ensinar a escrever está começando a se espalhar globalmente. A oficina da escrita, com suas premissas não testadas, se espalhou para a Grã-Bretanha e Hong Kong, um modelo de pedagogia que também é uma lição prática de como o poder se propaga e se acoberta.”
Viet Thanh Nguyen
Em: “Viet Thanh Nguyen Reveals How Writers’ Workshops Can Be Hostile“, The New York Times, 26/04/2017
No ano passado Mario Vargas Llosa foi indagado sobre os livros favoritos que recomendaria para leitura. Aqui está a seleção.
1 — Mrs. Dallowayde Virgínia Woolf
2 – Lolita de Vladimir Nabokov
3 – Coração das trevas de Joseph Conrad
4 – Trópico de Cancerde Hanry MillerO palhaço
5 – Auto da fé de Elias Canetti
6 – O grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald
7 – Doutor Jivago de Boris Pasternak
8 – O leopardo de Giuseppe Tomasi de Lampedusa
9 — O palhaço de Heinrich Böll
Já leram? Confesso que não li todos. Não li o livro de Canetti, de Böll, de Lampedusa e só vi o filme sobre o livro de Pasternak. E vocês? O que leram?