Nossa mesa, José Luís Peixoto

1 05 2025

Retrato de M. V. Dobuzhinsky à mesa, 1913

Boris Kustodiev (Rússia, 1878-1927)

óleo sobre tela

 

 

“na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco”

 

José Luís Peixoto





Poema com pena, de Almir Correa

17 12 2024
Poema com pena

Almir Correa

 

Fiz um poema

e não sei se vale a pena

poemar.

É um poema com pena

pena do céu

pena da terra

pena do mar.

Não tem mais pena de índio

Porque índio já não se acha em nenhum lugar.

Mas ainda tem

pena de arara azul

pena de galinha sem cabeça

pena de pato pateta.

Tem tanta pena

pena até de travesseiro.

Só não tem pena nenhuma do burro

porque burro não tem pena.

 

Em: Poemas Malandrinhos, Almir Correa, São Paulo, Atual:1992

 





Conversas ontem e hoje

12 07 2024

A discussão, 1890-1895

Louis Moeller (EUA, 1855-1930)

óleo sobre tela, 46 x 61 cm

Metropolitan Museum, NYC

 

 

 

Em junho, o livro do mês de meu grupo de leituras foi Olhai os lírios do campo de Érico Veríssimo.  Algumas de nós já haviam lido a obra na adolescência, mas agora a história de Eugênio, Olívia e Eunice foi mais impactante porque amadurecemos. Todos gostaram da leitura, ainda que a parte final do enredo tivesse se prolongado mais do que é esperado na literatura contemporânea e o tom moralista da trama tenha deixado alguns um tanto desapontados.  Aliás o próprio Érico Veríssimo na apresentação desta edição diz: 

“Há em Olhai os lírios do campo uma filosofia salvacionista barata que me faz perguntar a mim mesmo como pude escrever tais coisas, mesmo levando-se em conta o fato de haver atribuído essa filosofia a personagens do livro.”

Hoje temos um Brasil diferente do retratado neste romance de 1938.  Provavelmente escrito pouco tempo antes do lançamento.  Uma época controversa na Europa e no Brasil com o crescimento do Nazismo e o estabelecimento da ditadura de Vargas. Há uma passagem que me levou a ponderar sobre nosso mundo, hoje.  Veríssimo narra uma pequena reunião numa residência particular, onde um pintor, convidado de honra, expõe sua visão sobre a Europa. Presentes, três ou quatro personagens, inclusive Eugênio que se mantém calado, que recitam suas posições políticas defendendo esta ou aquela opinião. Esta é uma conversa marcante no livro, praticamente a meio caminho de seu desfecho.  Momento onde Veríssimo exemplifica pontos de vista políticos em existência no país, sem defender opiniões.  Marquei páginas, parágrafos e parágrafos.  Este foi um dos meios ele usou para trazer ao leitor uma visão das correntes existentes naquele momento. Interessante perceber que este instrumento da escrita foi aos poucos abandonado por escritores contemporâneos.  Nossos diálogos hoje, são menores, e menos didáticos.  Não obstante, fiquei curiosa de ver como nosso pequeno grupo de leitores iria se aproximar desse momento do livro, já que atualmente estamos cautelosos para explicitar qualquer opinião política, quer sobre o Brasil ou guerras europeias, oriente médio ou qualquer outro lugar que tome cinco minutos do noticiário local. Aqui estão alguns parágrafos de Olhai os lírios do campo.

“…nossa sociedade vai sendo aos poucos solapada pelo bolchevismo. O plano é diabólico. Não é só a literatura que prepara terreno para o amor livre, para o ateísmo, para a imoralidade e para a revolução comunista. É o cinema também, é o amoralismo dos filmes: divórcios, histórias escabrosas, músicas sensuais, danças lúbricas, nudismo, anedotas canalhas, bebedeiras, crimes, suicídios… O cinema explora tudo isso. O público vai ficando impregnado”

………..

“Não entendo essas histórias de Platão. Comigo é no fascismo. Mussolini disciplinou a Itália. Hitler reergueu a Alemanha. Disciplina! Construir uma nação é quase o mesmo que construir um grande edifício. É preciso primeiro um plano, uma ideia. Depois, bom material de resistência, bases sólidas, equilíbrio… — E beleza de linhas — acrescentou Eunice. — O fascismo é belo e vertiginoso. “Vivere pericolosamente.”

………..

No meio da chatice da Europa decadente — falou Filipe — ergueu-se o grande arranha-céu do fascismo.“Resta saber — disse ele — se as bases desse edifício são sólidas. Tenho graves dúvidas.…” … “O fascismo é um castelo pomposo edificado sobre areia movediça.”

 

 

 

 

 

 

É difícil imaginar alguma conversa semelhante a essa nos dias de hoje. Vivemos num mundo de censura.  Se as ideias de alguém não coincidem com aquelas de seu interlocutor, será sempre melhor não pronunciá-las, pois não haverá qualquer escuta. As pessoas preferem se afastar a ouvir o que não condiz com sua preferência. Como consequência todos se calam.  Foi isso exatamente o que aconteceu no meu grupo de leitura. A fala sobre o posicionamento político não aconteceu. Nenhum dos membros trouxe para consideração este ou outro diálogo sobre a política da época. E foram algumas páginas. Triste constatação. 

Esta é uma hora penosa.  Vergonhosa para quem está acostumado a lidar com ideias.  Tenho muita pena que tenhamos tanto medo de nos expressar.





A flor e a nuvem, fábula de Lachambeaudie e Paula Brito

25 01 2021
 
 
A flor e a nuvem

 

Paula Brito

 

[ Fábula de Lachambeaudie]

 

Reina o estio.  — No vale

Lânguida flor emurchece

E  chama, p’ra socorrê-la

Uma nuvem, que aparece.

 

“Tu que do Aquilão nas asas

Vais pelo espaço a correr,

Vê que de calor me abraso,

Vem, não me deixes morrer.

 

“Com essas águas, que levas

A minha dor, refrigera.”

“— Tenho missão mais sagrada,

Agora não posso — espera.”

 

Disse e foi-se!… De abrasada

Cai e espira a flor tão bela:

Volta a nuvem e despeja

Quanta água tinha sobre ela…

 

Era tarde!…

 

MORALIDADE

 

Quase sempre

Quando um desditoso chora,

Rara vez no mundo encontra

Remédio ao mal que o devora;

 

Mas quando sucumbe ao peso

Da desgraça que o persegue,

Mudam-se as cenas — louvores

Então não há quem lhe negue.

 

Mas que vale esse aparato

Da verdade ou da impostura?

Nem lírios, nem goivos tiram

Os mortos da sepultura.

 

Em: O Espelho, revista de literatura, modas, indústria e artes, 4 de setembro de 1859, página 21.

 

 

Francisco de Paula Brito  ( RJ 1809 – RJ 1861) –  tipógrafo, editor, jornalista, escritor, poeta, dramaturgo, tradutor e letrista.   Foi aprendiz na Tipografia Nacional.   Trabalhou em seguida, em 1827 no Jornal do Comércio. Em 1831 passa a livreiro e editor com  Tipografia Fluminense de Brito & Cia.  Em 1833 lança o jornal O Homem de Cor, primeiro jornal brasileiro contra o preconceito racial.  É na sua editora que se forma a “Sociedade Petalógica”, grupo de poetas, compositores, atores, líderes da sociedade, ministros de governo, senadores, jornalistas e médicos que “constituíam movimento romântico de 1840-60”  Por outro lado, a tipografia de Paula Brito serviu também de ponto de encontro entre músicos populares [ Laurindo Rabello e Xisto Bahia, por exemplo] e poetas românticos.  A combinação produziu muitas parcerias musicais, principalmente no gênero das modinhas, que serviriam de embrião para a música popular urbana, popular no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX.

 Obras:

Anônimas, poesia, 1859

O triunfo dos indígenas, teatro, sd

Os sorvetes, teatro, sd

O fidalgo fanfarrão, teatro, sd

A revelação póstuma, conto, 1839

A mãe-irmã, conto, 1839

O Enjeitado, conto

A marmota na Corte, periódico humorístico, 1849  

A Maxambomba, teatro   

A mulher do Simplício, ou A fluminense  exaltada, periódico humorístico, 1832  

Ao dezenove de outubro de 1854, dia de S. Pedro de Alcântara, nome de S. M. o Sr. D. Pedro II, poesia   

Biblioteca das senhoras, 1859  

Elegia à morte de Evaristo Xavier da Veiga, poesia, 1837  

Fábulas de Esopo para uso da mocidade, arranjadas em quadrinhas, poesia, 1857  

Monumento à memória do brigadeiro Miguel de Frias Vasconcellos e de seu irmão Francisco de Paula, 1859  

Norma, teatro, 1844  

Oferenda aos brasileiros, sd   

Os Puritanos, teatro 1845  

Poesias de Francisco de Paula Brito, poesia, 1863  

 —–

Pierre Lachambeaudie (França, 1807 – 1872) foi um escritor de fábulas francês.





Flanando em Siena, texto de Anatole France

10 12 2020

Uma leitora, 1996

Francine Van Hove (França, 1942)

óleo sobre tela

 

 

“Era Primavera e eu estava em Siena. Entretido o dia inteiro em minudentes pesquisas nos arquivos da cidade, eu costumava flanar à noitinha,  após o jantar, pelo caminho agreste de Monte Oliveto, onde, ao crepúsculo, grandes bois brancos, jungidos arrastavam, como nos velhos tempos de Evandro, um carro tosco de rodas maciças. Os sinos da cidade anunciavam a morte serena do dia; e a púrpura do ocaso baixava com melancolia majestosa sobre a cadeia de colinas rasas. Quando já os negros esquadrões de pegas se haviam apossado das muralhas, só, no céu de opala, um gavião volteava, de asas imóveis, por sobre um roble isolado.

Eu caminhava de encontro ao silêncio, à solidão e aos inofensivos espectros que avultavam à minha frente. Insensivelmente a maré da noite inundava os campos. O olhar profundo das estrelas tremeluzia no céu. E, nas sombras, ao redor das moitas, os pirilampos faziam palpitar os seus fachos amorosos.”

Em: O poço de Santa Clara: contos, Anatole France, tradução de João Guilherme Linke, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira: 1978, p. 3





Curiosidade literária

19 03 2020

 

 

 

show de rockIlustração Maurício de Souza.

 

 

Antes de ficar famoso pelo sucesso do livro “O código da Vinci”, o escritor Dan Brown foi um cantor pop.  Um de seus álbuns solo chamava-se “Anjos e Demônios”.

 

 

441ca88b-4742-4061-96f5-75a043269eb5

 





A intrigante primeira frase…

27 04 2019

 

 

 

mass-jose-gallegos

Missa, s.d.

José Gallegos y Arnosa (Espanha, 1859 – 1917)

óleo sobre tela, 51 x 71 cm

 

 

“Muito tempo antes que descobrissem que ele tinha dois filhos com mulheres diferentes, um em Drimoleague e o outro em Clonakilty, o padre James Monroe usou o altar da igreja de Nossa Senhora, Estrela do Mar, paróquia de Goleen, West Cork, para denunciar minha mãe com puta.”

 

 

John Boyne em: As fúrias invisíveis do coração, Rio de Janeiro, Companhia das Letras: 2017, página 13, primeira frase, primeiro capítulo.





Minutos de sabedoria: provérbio chinês

15 11 2018

 

Alphonse Mucha, Reverie 1896,Revêrie, de Alphonse Mucha, 1896.

 

“Um pouco de perfume sempre fica na mão de quem oferece flores.”

 

Provérbio chinês





Literatura e poder — Viet Thanh Nguyen

4 05 2017

 

 

(c) Lady Lever Art Gallery; Supplied by The Public Catalogue FoundationNapoleão Bonaparte lendo sua carta de abdicação

George Richmond (GB, 1809-1896)

óleo sobre tela

Lady Lever Art Gallery, National Museums Liverpool

 

 

“Literatura e poder não se separam.  A literatura americana é lida através do mundo não só por seu valor inerente, mas porque o resto do mundo sempre lê a literatura dos impérios.  A novidade é que a maneira americana de ensinar a escrever está começando a se espalhar globalmente. A oficina da escrita, com suas premissas não testadas, se espalhou para a Grã-Bretanha e Hong Kong, um modelo de pedagogia que também é uma lição prática de como o poder se propaga e se acoberta.”

 

Viet Thanh Nguyen

 

 

Em: “Viet Thanh Nguyen Reveals How Writers’ Workshops Can Be Hostile“, The New York Times, 26/04/2017

Para o artigo inteiro, aqui.





Nove livros recomendados por Mário Vargas Llosa

29 04 2017

 

 

Michael Rohani. Retrato de MushkaRetrato de Mushka

Michael Rohani (GB, contemporâneo)

 

 

No ano passado Mario Vargas Llosa foi indagado sobre os livros favoritos  que  recomendaria para leitura. Aqui está a seleção.

1 — Mrs. Dalloway de Virgínia Woolf

2 –  Lolita de Vladimir Nabokov

3 –  Coração das trevas de Joseph Conrad

4 – Trópico de Cancer de Hanry MillerO palhaço

5 – Auto da fé de Elias Canetti

6 – O grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald

7 – Doutor Jivago de Boris Pasternak

8 – O leopardo de Giuseppe Tomasi de Lampedusa

9 —  O palhaço de Heinrich Böll

 

Já leram?  Confesso que não li todos.  Não li o livro de Canetti, de Böll, de Lampedusa e só vi o filme sobre o livro de Pasternak.  E vocês?  O que leram?

Salvar