A palavra é tão sublime,
tem tamanha divindade,
que deveria ser crime
usá-la contra a verdade.
(Luiz Evandro Inocêncio)
A palavra é tão sublime,
tem tamanha divindade,
que deveria ser crime
usá-la contra a verdade.
(Luiz Evandro Inocêncio)
Talvez nunca mais se ouvisse
falar em guerra ou maldade
se todo mundo aderisse
ao cultivo da amizade.
(Eno Teodoro Wanke)
Capa de revista, 1939
EM CAMINHO
Zalina Rolim
SOU filha de lavradores;
Moro longe da cidade;
Amo os pássaros e as flores
E tenho oito anos de idade.
Quereis seguir-me à campina?
A tarde convida e chama,
O calor do sol declina,
E o horizonte é um panorama.
Neste samburá de vime
Levo coisa apetitosa;
mas, ai! que ninguém se anime
A meter-lhe a mão curiosa.
É o jantar do papaizinho;
Manjares de fino gosto;
Carne, legumes, toucinho,
Tudo fresco e bem disposto.
Papai trabalha na roça;
O dia inteiro labuta;
Tem a pele rija e grossa
E a alma afeita à luta.
Mas leal, franco, modesto
Como ele, não há no mundo:
Vive de trabalho honesto,
Cavando o solo fecundo.
Acorda ao nascer da aurora,
Abre a janela de manso,
E o campo e os ares explora
Da vista aguda num lanço.
Depois, nos ombros a enxada,
Abraça a Mamãe, sorrindo,
Beija-me a face rosada
E vai-se ao labor infindo.
Em casa também se lida
Daqui, dali, todo o instante,
Que o trabalho é lei da vida
E nada tem de humilhante.
Depois do trabalho, estudo;
Abro os meus livros e leio;
Eles me falam de tudo
O que eu desejo e receio.
Contam-me histórias bonitas,
Falam da terra e dos ares,
De vastidões infinitas,
De rios, campos e mares.
Mamãe diz que são modelos
De amigos leais e finos;
Que a gente deve atendê-los
Como aos maternais ensinos.
E agora, adeus, até breve.
Eis-me de novo a caminho:
Não esfrie o vento leve
O jantar do papaizinho.
Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo — nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.
Professora alfabetizadora transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.
Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.
Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.
Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.
Obras:
1893 – O coração
1897 – Livro das Crianças
1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)
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–
Henriqueta Lisboa
–
–
Coraçãozinho que bate
tic-tic
Reloginho de Papai
tic-tac
Vamos fazer uma troca
tic-tic-tic-tac
Relógio fica comigo
tic-tic
dou coração a Papai
tic-tic-tac.
Henriqueta Lisboa (MG 1901- MG 1985), poeta mineira. Escritora, ensaísta, tradutora professora de literatura, Com Enternecimento (1929), recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras. Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.
Obras:
Fogo-fátuo (1925)
Enternecimento (1929)
Velário (1936)
Prisioneira da noite (1941)
O menino poeta (1943)
A face lívida (1945) — à memória de Mário de Andrade, falecido nesse ano
Flor da morte (1949)
Madrinha Lua (1952)
Azul profundo (1955);
Lírica (1958)
Montanha viva (1959)
Além da imagem (1963)
Nova Lírica ((1971)
Belo Horizonte bem querer (1972)
O alvo humano (1973)
Reverberações (1976)
Miradouro e outros poemas (1976)
Celebração dos elementos: água, ar, fogo, terra (1977)
Pousada do ser (1982)
Poesia Geral (1985), reunião de poemas selecionados pela autora do conjunto de toda a obra, publicada uma semana após o seu falecimento
–
Giuseppe Artidoro Ghiaroni
–
Meu pai está tão velhinho,
tem a mão branca e comprida,
parecendo a sua vida,
longa vida que se esvai.
–
E eu o lembro quando moço
de uma atlética altivez.
Ah! Tinha força por três!
Você se lembra, papai?
–
Menino, ouvia dizer
que você era um gigante.
Eu ficava radiante
e também me agigantava.
–
Porque toda madrugada,
eu quentinho do agasalho,
ao sair para o trabalho
o gigante me beijava.
–
Sua grande mão de ferro
parecia leve, leve
naquela carícia breve
que da memória não sai.
–
Depois… um beijo em mamãe
e o meu gigante partia.
E a casa toda tremia
com os passos de papai.
–
Mas agora o seu retrato
muito moço, muito antigo,
se parece mais comigo
do que mesmo com você.
–
Você já lembra vovô
e, à medida que envelhece,
papai, você se parece
com mamãe, não sei por quê.
–
Você se lembra, papai?
Quando mamãe, de repente,
caiu de cama, doente,
era o pai quem cozinhava.
–
Tão grande e desajeitado
a varrer… Quando eu o via
de avental, papai, eu ria;
eu ria e mamãe chorava.
–
Eu quis deixar o ginásio
para ganhar ordenado,
ajudar meu pai cansado,
mas tal não aconteceu.
–
Papai disse estas palavras:
Sou um operário obscuro,
mas você terá futuro,
será melhor do que eu.
–
Eu? Melhor que este velhinho
a quem devo o pão e o estudo?
Que é pobre porque deu tudo
à Família, à Pátria, à Fé?
–
Meu pai, com todo o diploma,
com toda a universidade,
quisera eu ser a metade
daquilo que você é.
–
E quero que você saiba
que, entre amigos, conversando,
meu assunto vai girando
e no seu nome recai.
–
Da sua força, coragem,
bondade eu conto uma história.
Todos vêem que a minha glória
é ser filho de meu pai.
–
“Um dia eu fui tomar banho
no rio que estava cheio.
Quando a correnteza veio,
vi a morte aparecer.
–
Papai saltou dentro d’água
nadando mais do que um peixe,
salvou-me e disse:_ Não deixe!
Não deixe mamãe saber!”.
–
Assim foi meu pai, o forte
que respeitava a fraqueza.
Nunca humilhou a pobreza,
nunca a riqueza o humilhou.
–
Estava bem com os homens
e com Deus estava bem.
Nunca fez mal a ninguém
e o que sofreu perdoou.
–
Perdoa então se lhe falo
Daquilo que não se esquece.
E a minha voz estremece
e há uma lágrima que cai.
–
Hoje sou eu o gigante
e você é pequenino.
Hoje sou eu que me inclino.
Papai… a bênção, papai.
–
–
Giuseppe Artidoro Ghiaroni – Nasceu em Paraíba Do Sul, (RJ), no dia 22 de fevereiro de 1919. Jornalista, poeta, redator e tradutor; Depois de ter sido ferreiro, “office-boy” e caixeiro, passou a redator do “Suplemento juvenil ” iniciando-se assim no jornalismo de onde passou para o Rádio distinguindo-se como cronista e novelista. Faleceu em 2008 aos 89 anos.
Obras:
O Dia da Existência, 1941
A Graça de Deus, 1945
Canção do Vagabundo, 1948
A Máquina de Escrever, 1997
Pai — nome bem pequenino
Que encerra tanto valor:
Traduz confiança, carinho,
Força, Bondade e Amor.
(Walter Nieble de Freitas)

Amanhecer, ilustração Maurício de Sousa.
Cantagalo… O galo canta
e, na campina louçã,
desprende a voz na garganta,
saudando a luz da manhã.
(Álvaro Faria)
Estória
( para pequenos e grandes)
Martins d’ Alvarez
À sombra do tamarindo,
vovozinha, bem sentada,
vai de alfinetes cobrindo
o papelão da almofada.
O neto deixa o brinquedo,
chega-se de alma curiosa,
nos bilros buscando o enredo
da renda maravilhosa.
Sutil, entre dois extremos,
uma conversa se agita:
— Vovó, como é que aprendemos
Fazer renda, assim, bonita?
— Ora, benzinho, aprendendo…
Aprendendo devagar…
Até acabar sabendo,
até um dia acertar.
— Pois me ensine, vovozinha!
Garanto que hei de aprender.
— Ensinarei, calunguinha,
quando aprenderes a ler.
— Mas vovó não disse, um dia,
que vovozinho morreu
pelo muito que sabia…
Por que demais aprendeu?
— Morreu porque foi ferido
No amor próprio, meu bebê!
— Então, o vovô querido
não só amava a você?
Vovó fez cara de chiste,
mas, sua fronte pendeu…
Soltou um suspiro triste,
quedou-se … e não respondeu!
(Fortaleza, Ceará, 1932)
Em: Poesia do cotidiano, Fortaleza, Ceará, Editora Clã: 1977
José Martins D’Alvarez (CE 1904) Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmacia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras. Nasceu na cidade de Barbalha, Estado do Ceara, em 14 de setembro de 1904. Filho de Antonio Martins de Jesus a de Antonia Leite da Cruz Martins. Fez os estudos primários na sua cidade natal, os secundários, no Liceu do Ceará. Depois de formado em Odontologia. Transferiu em 1938 sua residência para o Rio de Janeiro, onde exerceu, além de atividades na imprensa, atividades no magistério superior.
Obras:
“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930, poesia
“Quarta-feira de cinzas”, 1932, novela
“Vitral”, 1934, poesia
“Morro do moinho” 1937, romance
“O Norte Canta”, 1941, poesia popular
“No Mundo da Lua”, 1942, poesia para crianças
“Chama infinita, 1949, poesia
“O nordeste que o sul não conhece 1953, ensaio
“Ritmos e legendas” 1959, poesias escolhidas
“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967, poesias escolhidas
“Poesia do cotidiano”, 1977, poesia

Ilustração: Mabel Rollins Harris
Como é belo ver a planta
que abre flores nos caminhos,
nas horas em que Deus canta
pela voz dos passarinhos!
(José Lucas de Barros)
Vemos no verde esperança,
No azul, nosso céu de anil,
No perfil de uma criança
O futuro do Brasil!
(Oscar Crepaldi)