Fivela de cinto dourada do século VII, encontrada no cemitério de navios de Sutton Hoo, em Suffolk na Inglaterra. Museu Britânico.
Fivela de cinto dourada do século VII, encontrada no cemitério de navios de Sutton Hoo, em Suffolk na Inglaterra. Museu Britânico.
Retrato de Mickey, esposa do pintor
Bernard Fleetwood-Walker (Inglaterra, 1893 – 1965)
óleo sobre tela,
William Powell Frith (Inglaterra, 1819-1909)
óleo sobre tela, 102 x 142 cm
Coleção Particular
Foto da coluna Ancelmo Gois do jornal O GLOBO: Prato da Cia Vista Alegre.
Foi com muito pesar que vi hoje no jornal O GLOBO, do Rio de Janeiro, na coluna do jornalista Ancelmo Gois, a foto acima de um prato da prestigiada companhia portuguesa de porcelanas, Vista Alegre. Por seu desenho, o prato reforça atitudes que testemunhei, quando morei em Portugal, e que preferi deixar de lado ou ignorar, por achar que eram só as mentes pequenas que as abrigavam. Falo de atitudes que demonstram uma perene má vontade dos portugueses, principalmente dos mais abastados, com o Brasil e brasileiros. Esses sentimentos afloraram quando reconheci que na chamada “homenagem ao Rio de Janeiro” o desenho do prato fotografado, no tradicional azul e branco, mostra vinhetas com revolveres como se essas armas fossem uma característica carioca. Essas pequenas vinhetas preconceituosas me lembraram de outros pequenos incidentes, semelhantes, que testemunhei nos anos que morei em Coimbra. Fiquei, na época, pasma de sentir uma surda mas presente intolerância lusitana com o Brasil, uma espécie de desagravo que não entendo e não me parece conveniente a nenhum dos dois países.
O prato, como explicado no jornal, foi feito para comemorar o Rio de Janeiro, cidade fundada por portugueses que, quase 500 anos depois, retém características muito chegadas às das cidades de além-mar. O Rio de Janeiro, tanto a cidade quanto o estado, é um dos locais no mundo que melhor demonstra a colonização portuguesa. Nossas similaridades são inesgotáveis desde localização de igrejinhas nos topos das montanhas, ao calçamento de pedrinhas portuguesas que desafiam a lógica e a praticidade. Da língua que falamos e com a qual nos comunicamos, ao bacalhau que comemos no Natal e na Páscoa. O Rio de Janeiro é, pode-se dizer, um tributo vivo à cultura portuguesa. Aqui estão as raízes de tudo que os portugueses semearam. Do bom e do que não presta.
Ao contrário da proximidade emocional, política e social que existe entre a Inglaterra e os Estados Unidos, e aqui posso falar com familiaridade sobre os dois países, Portugal parece evitar cumplicidade semelhante com o Brasil, uma cumplicidade que em geral existe entre membros da mesma família e amigos, aquela que acredita no respeito mútuo. O sentimento que existe entre britânicos e norte-americanos rende inimaginável que, digamos, a Royal Crown Derby, importante fábrica de porcelana inglesa, produza semelhante desenho em seus pratos comemorativos sobre Nova York, mesmo que legislação a sobre o uso de armas de fogo nos Estados Unidos seja completamente diferente daquela encontrada em solo inglês. É um descompasso, é revoltante que essa propaganda contra o Rio de Janeiro, contra o Brasil, esteja veiculada a uma das mais importantes marcas de porcelanas portuguesas (eu ia dizer do mundo, mas a minha revolta pede que eu diminua o tamanho da Vista Alegre, afinal a mentalidade da companhia parece pequena).
Convido brasileiros e portugueses esclarecidos que mostrem o seu desgosto com esse golpe baixo contra a imagem do Rio de Janeiro. Completamente desnecessário. E seria bom que os portugueses que demonstram preconceitos contra brasileiros, que se olhem no espelho, porque muito do ruim que acontece por cá teve origem, tem raízes e encontra alma gêmea em Portugal. Uma boa ideia seria não comprar a porcelana Vista Alegre. Afinal, há outras porcelanas no mundo tão boas quanto ou até melhores.
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Mary Bell Eastlake (Canadá, 1864-1951)
óleo sobre tela, 68 x 72 cm
National Gallery of Canada, Ottawa
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Maria Alexandra Eastlake (née Bell) estudou em Montreal com Robert Harris; em Nova York, na Art Students League com William Chase (c. 1885); e na Académie Colarossi. Em 1886 foi contratada para pintar uma série de obras para clientes norte-americanos em Nova York. Viajou para a França e Inglaterra (1890) e Paris em 1891. Tornou-se um membro da equipe de Victoria School of Art, de Montreal, em 1892. Ela foi para a Inglaterra e se estabeleceu em St. Ives, onde conheceu e se casou com o pintor Inglês Charles H. Eastlake. Viajou extensivamente na Europa e Ásia, e em 1939 o casal voltou para Montreal e depois Almonte.
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Charles Blackman (Austrália, 1928)
Esmalte sobre papel colado em placa, 98 x 130 cm
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O inglês é uma língua prática e precisa. À maneira do português do Brasil incorpora expressões estrangeiras com facilidade mas, diferente da nossa língua, cada palavra adquirida recebe um significado bem preciso, específico. Sinto essas diferenças diariamente em conversa com meu marido, que além de ter o inglês como língua nativa e ser professor de literatura americana, ao tentar se expressar em português considera o que falamos extraordinariamente vago; enrola-se com os nossos sujeitos ocultos e com as diferenças que umas poucas letras no final das palavras podem fazer — letras que qualquer americano ignoraria num diálogo informal. Falo dos femininos e masculinos, da conjugação verbal que permite a ocultação do pronome pessoal [porque este já está incorporado na conjugação] e assim por diante. Acabo de me lembrar mais uma vez desse contraste entre as duas línguas, quando procurei usar a palavra ‘proustiana’. Com a manha de quem passou a vida entre as duas línguas decidi ir ao dicionário para ver o significado em português. Aqui ‘proustiano’ tem unicamente a ver com a “capacidade de se recuperar fato retidos na memória à maneira de Proust”, enquanto que em inglês ‘proustiano’ já deixou de lado sua simbiose com o escritor francês, e passou a significar uma memória involuntária qualquer. Demonstração exemplar das diferenças entre essas línguas. ‘Proustiana‘, como memória involuntária é a maneira de narrar usada por Hilary Mantel em Um experimento amoroso [Record: 1999].
O romance narra vida de Carmel McBain e de sua vizinha, Karina, nem sempre amiga, mas sempre colega dos bancos escolares, meninas que nasceram no norte da Inglaterra, na região próxima a Manchester, no seio de famílias da classe média baixa, pobre, operária e católica. Famílias que se sacrificam, cada qual à sua maneira, para educar as filhas e lhes dar meios de uma ascensão social mais veloz. De maneira proustiana, desordenada, ora na adolescência, ora na primeira infância, acompanhamos Carmel desde os primeiros anos escolares até o amadurecimento da fase adulta. Hilary Mantel é escritora de palavra precisa, texto sucinto, e uma enorme capacidade de escolher o detalhe certo para com ele traçar um mundo de inferências que dão profundidade ao texto e empurram a narrativa para frente. Não dá vontade de se deixar de lado a história, relutantemente apaga-se a luz antes de dormir; por outro lado, leva-se o livro na bolsa para aproveitar os 20 minutos no transporte público.
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Romances de amadurecimento em geral são menos complexos do que este. Tradicionalmente, essas histórias têm como personagem principal um jovem adolescente, O apanhador no campo de centeio, de Salinger vem à mente. Mas, na última década, tive o prazer de ver essa produção literária centrada em meninas adolescentes, na literatura para adultos. [Outro romance que aborda esse tema, já resenhado aqui é obra do escritor peruano Alonso Cueto: O sussurro da mulher baleia]. Hilary Mantel no entanto não se detém em uma única experiência de ritos de passagem, já que acompanha a vida de Carmel desde os primeiros dias na escola. Por isso mesmo, quando finalmente nos deparamos com climax narrativo dessas memórias nossa surpresa, que foi cuidadosamente elaborada, traz a profundidade de anos de conhecimento da vida através dos olhos de nossa heroína.
Crescer, amadurecer emocionalmente, não é fácil. O mundo não é aconchegante, a vida é cheia de decepções. Famílias com boas intenções nem sempre se sensibilizam às dificuldades do crescimento, principalmente quando estão vivendo no limite, trabalhando horas exageradas, economizando todos os centavos. Além disso, há as barreiras que cada sociedade impõe: classe social, religião, origem, sotaques. Diferenças que para alguém de fora podem parecer irrelevantes, para quem vive rodeada desses valores parece muito difícil libertar-se deles. Carmel e Karina têm que se submeter aos desejos de seus pais. Karina é obrigada a ajudar em casa, sua mãe trabalha dois turnos. A Carmel, por outro lado, não é permitido o trabalho doméstico. A pressão é para que estude. Ambas sofrem. Exclusão, buling, anomalias alimentares, tudo está presente nesses anos. Tudo isso e a religião católica, que para essas meninas não ajuda. A história se passa na década de 1960, quando a pílula já estava disseminada na Inglaterra e há liberdade sexual para as jovens mulheres. Como cada uma resolve seus sentimentos em relação ao sexo e à religião, acaba por demonstrar os valores que permaneceram no amadurecimento.
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O título, Um experimento amoroso, que parece tão abstrato, aplica-se aos diversos tipos de amor por que os personagens passam, do amor maternal ao sexual. Hilary Mantel narra com um ritmo pulsante até o final, mesmo com as idas e vindas ao passado próximo e ao passado longínquo. Algumas decisões de Carmel, que parecem insignificantes, no final nos levam ao retrato detalhado da personalidade da jovem. Esse é também um bom retrato da Inglaterra dos anos 60 do século passado, assim como do distanciamento natural entre pais e filhos. As dúvidas de Carmel e de suas amigas nos lembram das grandes mudanças nos últimos 5o anos. Para melhor, sem dúvida. Mas essas mudanças podem ter sido simplesmente externas. Os seres humanos me parece que permaneceram os mesmos. Recomendo sem restrições esse romance reflexivo, intenso e sedutor.
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Michael de Bono (Grã-Bretanha, 1983)
óleo sobre tela
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Beryl Cook (Inglaterra, 1926-2008)
silkscreen, 61 x 56cm
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Armindo Rodrigues
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Esta gente que vai e vem,
de cá para lá,
de lá para cá,
que se cruza comigo,
que esbarra comigo,
que tem com certeza
os seus dramas iguais aos meus,
as suas esperanças iguais à minhas,
não sabe nada da minha vida,
nem eu sei dos seus segredos.
Cada um segue absorto em si
como se fosse de olhos fechados
e não tivesse as mãos para dar
a outras mãos desamparadas.
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Em: Voz arremessada no caminho; poemas, Armindo Rodrigues, Lisboa: 1943, p. 52
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Elizabeth Adela Stanhope Forbes (Canadá, 1859-1912)
aquarela, 61 x 43 cm
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Elizabeth Stanhope Forbes nasceu em Kinston, Ontário, Canadá em 1859. Foi educada artisticamente na Inglaterra onde permaneceu a maior parte de sua vida. Em 1889 casou-se com o pintor Stanhope Forbes. Teve um filho, Alec, em 1893. Morreu em 1912.