Resenha: O colibri, de Sandro Veronesi

14 04 2025

Moça lendo, 1876

Attilio Baccani (Itália, 1844-1889)

óleo sobre madeira, 53 x 42 cm

 

 

Acabo de ler O colibri do escritor italiano Sandro Veronesi, tradução de Karina Jannini [Editora Autêntica Contemporânea: 2024] obra que recebeu o Prêmio Strega (Itália), em 2020. O autor já havia recebido o Strega em 2006 pelo livro Caos calmo  publicado no Brasil em 2007. Trata-se da história de vida de Marco Carrera: seus sucessos, atribulações, amigos, amores, filha, neta, uma narrativa que cobre o período de vida adulta do protagonista. Costumo gostar de ficção que se metamorfoseia em biografia de um personagem fictício, gente comum. Duas obras que considero excelentes nesse gênero são: Os diários de pedra, da escritora canadense  Carol Shields, que recebeu os prêmios Pulitzer e National Book Critics Circle, 1995 e As aventuras de um coração humano, do escritor britânico  William Boyd. Dois livros que me emocionaram quando seus protagonistas chegaram ao final da vida.  Essas narrativas demonstram algo que o próprio Sandro Veronesi diz desejar retratar: “o heroísmo da vida comum”.   O propósito é que o leitor consiga se ver ali, como pessoa comum, como  sua própria vida também é repleta de aventuras, obstáculos que parecem intransponíveis, requerendo decisões hercúleas.  Demonstrar como a vida não é linear, mas tecida de vai vens, de erros e acertos.  Veronesi consegue transmitir isso, consegue mostrar como a vida de Marco Carrera também é heroica.  No entanto, por mais que eu simpatizasse com seus enfoques, problemas, empecilhos e me surpreendesse com as reviravoltas daquela vida, esse médico oftalmologista, não me emocionou nem durante, nem ao fim de sua jornada. Vamos então ao que me foi problemático. Tudo se resume a uma questão de estilo.

A maior restrição que tive a essa obra, e não é a única, foi o exagero de informação transmitida ao leitor.  A verbosidade de Veronesi [rara de encontrar na literatura atual] faz a prosa pesada, tediosa. Um bom editor teria aconselhado o escritor a cortar vários excessos. Vejamos: um email entre irmãos sobre os móveis herdados dos pais, mostra um interminável rol de poltronas e sofás que jamais terão importância no texto.

 

 

2 sofás dois lugares Le Bambole, metal, couro cinza, poliuretano, Mario Bellini para B&B, 1972 (20.000 €) 4 poltronas Amanta,* fibra de vidro e couro preto, Mario Bellini para B&B, 1966 (4.400 €) 1 poltrona Zelda, madeira tingida em tom jacarandá e couro em cor natural, Sergio Asti, Sergio Favre para Poltronova, 1962 (2.200 €) 1 poltrona Soriana, aço e couro anilina marrom, Tobia e Afra Scarpa para Cassina, 1970 (4.000 €) 1 poltrona Sacco,* poliestireno e couro marrom, Gatti, Paolini e Teodoro para Zanotta, 1969 (450 €) 1 poltrona Woodline, madeira curvada a quente e couro preto, Marco Zanuso para Arflex, 1965 (1.000 €) 1 mesinha de café Amanta, fibra de vidro preta, Mario Bellini para B&B, 1966 (450 €) 1 mesinha baixa 748, teca marrom, Ico Parisi para Cassina, 1961 (1.100 €) 1 mesinha baixa Demetrio 70, plástico laranja, Vico Magistretti para Artemide, 1966 (150 €) 1 mesa La Rotonda, cerejeira natural e cristal, Mario Bellini para Cassina, 1976 (4.000 €) 1 estante modular Dodona 300, plástico preto, Ernesto Gismondi para Artemide, 1970 (4.500 €) 2 estantes modulares Sergesto, plástico branco, Sergio Mazza para Artemide, 1973 (1.500 €)

 

 

Informação que não leva a lugar nenhum.  Não leva a NADA! É prosa auto condescendente, discurso empolado, que se repete adiante na lista de livros de ficção científica também da mesma herança.  Teria o objetivo de encantar o leitor com a raridade dos livros encontrados?  Se foi essa a intenção, não funcionou. Seria o caso de o autor precisar mostrar conhecimento nesse campo, para quê?  E para quem? Ocorre, então, a ideia do intelectual demonstrando pesquisa sobre uma era. Necessidade de mostrar conhecimento.  Mas o romance não é uma tese de mestrado ou documento de pós graduação. Para quem ele está exibindo esse conhecimento?

 

 

 

 

 

Outro aspecto da verbosidade é o detalhismo com que descreve locais.  Concordo que a Itália tem alguns dos mais deliciosos e sedutores espaços, praças, recantos de todo mundo; mas a proposta dessas descrições não parece ser só a caracterização do carinho que Marco Carrera tem pelos locais por onde perambula.

 

 

De fato, um dos lugares mais bonitos do mundo, isto é, o chamado Granarone2 do Palazzo Caffarelli (bonito não pelas intrínsecas qualidades arquitetônicas, que não tem, mas por sua posição, que domina todo o lado sudoeste da colina do Campidoglio até o rio Tibre, ou seja, a área em que se encontram as ruínas dos templos de Jano, de Juno Sóspita, da Esperança, de Apolo Sosiano, de Santo Homobono e do Pórtico Republicano no Fórum Holitório, além da basílica de São Nicolau em Cárcere e da Rocha Tarpeia em sua totalidade e de três quartos do Teatro de Marcelo; na Idade das Trevas, tornara-se pasto para cabras, e por isso foi rebatizada de “Monte Caprino”; no final do século XVI, foi requalificada pela construção, justamente em seu ponto mais alto, do Palazzo Caffarelli no Campidoglio, por parte da antiga e homônima família da nobreza municipal romana; em meados do século XIX, foi adquirida, com palácio e tudo, pelos prussianos, e por eles enriquecida com outros edifícios mais simples, entre os quais o mencionado Granarone, para onde foi transferido o Instituto Germânico de Arqueologia; depois, em 1918, após a derrota do Império Prussiano, inteiramente readquirida pela municipalidade de Roma), além de servir como sede da Advocacia Capitolina, naqueles anos abrigava o departamento da Casa Comunal,onde os atos judiciários são conservados e notificados aos interessados. Em outras palavras, as pessoas que eram objeto de alguma queixa, denúncia ou de ações judiciárias tinham de retirá-las ali, no Granarone.

 

 

Essas observações todas nos são dadas ainda nas primeiras cinquenta páginas do livro.  É um problema que quase pede uma leitura dinâmica.  Mas não é só.  A narrativa se torna tão conturbada quanto a vida de Marco, pela forma não linear da exposição.  Saltitamos do passado recente ao presente ao passado longínquo. E todos os possíveis meios de comunicação são utilizados, de e-mails a mensagens nos celulares e depoimentos. É um leque imenso que se abre de diferentes estilos de prosa. De novo, fica a sensação do autor querer demonstrar suas habilidades.  O que não deveria ser necessário, não é marinheiro de primeira viagem. Já é altamente reconhecido. 

 

 

 

 

Sandro Veronesi consegue,  ao final,  seu objetivo: reconhecermos que a vida de uma pessoa comum, pode ser heroica; e provavelmente é. A vida de qualquer um de nós pode ser essa vida heroica. Só a partir do meio do livro, a leitura parece mais amigável.  Os olhos correm com maior facilidade sobre o texto.  Mas no final, antes de fechar o livro, voltei a ter essa sensação de que o autor precisava demonstrar o subtexto da obra, as origens do que o levara a escrever, no capítulo chamado Dívidas: um capítulo inteiro de notas e explicações, de onde veio essa ideia, que conto o autor leu que o inspirou para qual capítulo e o máximo da auto condescendência, quando cita a si mesmo!  Como é mesmo que ele faz? Vejam:

 

 

No capítulo “Urania”, a escrita a lápis no frontispício do romance de ficção científica é algo verdadeiro, referente a mim mesmo, e foi adaptado para a obra. Na realidade, foi meu pai, enquanto eu nascia não me lembro mais em qual hospital, em Florença, que escreveu estas palavras no frontispício do romance da coleção Urania que estava lendo…

 

 

Não gostei.  Estou surpresa que tenha recebido o maior prêmio de literatura da Itália. Das cinco estrelas, máximo de pontos que dou aos livros neste blog, dei duas.  Conheço leitores que deram quatro estrelas e alguns que gostariam de ter subtraído uma ou duas estrelas abaixo de zero.  Esse não é um livro para um leitor iniciante. Estou surpresa de ver tantas resenhas enaltecendo O colibri. Não recomendo.

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Imagem de leitura: Gustave Lino

10 04 2025

Interior com jovem lendo, 1933

Gustave Lino (França-Argélia, 1893-1961)

óleo sobre tela, 200 x 181 cm





Um livro clássico: Mark Twain

7 04 2025

Menina lendo livro, 2015

Michael Pracht (EUA, contemporâneo)

óleo sobre tela, 61 x 91 cm

“Um clássico é um livro que todos gostariam de ter lido e que ninguém quer ler.”

Mark Twain





Caratatena, poesia de Raul Bopp

5 04 2025

Leitora de livraria

David Hatfield (EUA, 1940)

 

Caratatena

 

Raul Bopp

 

Na praça. De tarde. Há batuque; Tambores.

Domingo de festa de São Benedito,

O sol se mistura com um sorriso na alegria de Caratatena,

Toda engravatada de bandeirolinhas.

E os negros chegam na “chegança”. O carimbó toca apressado

É domingo de festa de São Benedito.

 

Na boca do mato, de pouco em pouco, espouca um foguete.

Vem chegando a procissão, com o santo no andor, enfeitado de fita

E, num passo grave desfilam as velhas de olhos lúgubres, conversando com Deus:

“não deixem cair em tentação. Amém”.

 

As contas do meu rosário

São balas de artilheria

Se Deus não viesse ao mundo, meu Jesus,

Tristes de nós, que seria!

 

Na velha capela da praça bate o sino:

“Quem dá, dá; quem não dá, não tem nada que dá.”

 

Em: Poemas para a Infância: antologia escolar, editado por Henriqueta Lisboa, s/d, São Paulo: Edições de Ouro, p. 40-41.

 





Palavras para lembrar: Jane Austen

4 04 2025

Tarde de domingo

Michael Peter Ancher ( Dinamarca, 1849 – 1927)

óleo sobre tela

 

 

“Uma pessoa, seja homem ou mulher, que não tenha prazer num bom romance, deve ser um insuportável idiota.”

 

Jane Austen





Poesia… e poesias…

3 04 2025
Ilustração, Théophile-Alexandre Steinlen (França, 1859-1923)

 

 

 

Recentemente me perguntaram como vejo a influência dos mais de trinta anos, passados fora do Brasil.  Influenciaram minha escrita?  Estávamos num podcast e eu não havia me preparado para essa pergunta.  Não soube responder de pronto, principalmente porque eu nunca havia considerado a questão. 

A poesia me acompanha desde criança.  Para mim, ler poesia é um prazer, mas não leio livros inteiros.  Leio um poema aqui,  outro acolá.  Sou leitora promíscua e constante.  Tenho poetas preferidos.  Nos Estados Unidos, depois que me casei com um professor universitário de literatura americana, fui me familiarizando com a poesia do país, e em paralelo com os poetas ingleses, para além dos grandes nomes.  Tive sorte de também conhecer dezenas  de poetas vivos, contemporâneos., com quem convivi em encontros de escritores.  Nos EUA, morei fora do eixo cultural centralizado em Nova York —  mas sempre na costa leste, que por sua própria história mantém mais elos culturais com a Grã-Bretanha do que o resto do país. E a vida cultural no RTP [Research Triangle Park] foi rica, graças às várias e respeitáveis universidades ali concentradas [N.C. State, North Carolina, Duke, Wake Forest, Shaw, Saint Augustine, William Peace, Campbell e outras].

 

 

 

A carta de amor, 1911

George Lawrence Bulleid (Inglaterra,1858-1933)

aquarela sobre papel

 

 

 

Nunca pensei que meu primeiro livro fosse de poemas.  O que me atrai nessa escrita?  Ser sucinta, expressar pensamentos, estados d’alma, ponderações. Aquilo que me intriga e fascina.  Isso é poesia para mim.  Seu valor está na brevidade, chamando o leitor ou o ouvinte para reflexão.  E tem que ter cadência, ritmo.  Rimas ocasionalmente bem-vindas, mas não necessárias.  

Desde que retornei ao Brasil, ampliei meu contato com os nossos poetas, com a poesia contemporânea. Desconhecia muitos.  O que herdei do meu contato com a poesia anglo-americana, talvez seja a preferência pela ordem direta, pela simplicidade da imagem. Guardo, sim, sinais das dezenas de anos de imersão total no inglês. Anos sem uma palavra em português: lendo e escrevendo nessa língua.  Publicando nos jornais.  Sinto falta às vezes da precisão da língua inglesa.  Mantenho a escrita intimista, típica de muitos dos meus poetas favoritos. No inglês são, de fato, os líricos, tanto antigos quanto os da segunda metade do século XX, que mais me tocam: Frost, St. Vincent Milay, Sexton, Lowell, T. Hughes, W.C. Williams, Wallace Stevens, Dunbar. No Brasil, ah, são muitos,  conhecidos e não tão conhecidos: Drummond, Bandeira, Quintana, Murilo Mendes, Meireles.

Somos o resultado das nossas preferências; esponjas absorvendo sempre aquilo que nos fascina, agrada, intriga.  Como não ter um influência estrangeira nessas circunstâncias?  Mas é de perspectiva.  A língua em uso é bem brasileira, culta, mas brasileira.

 

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2025

 

 

Para quem não conhece, acima meu primeiro livro À meia voz. em breve Casa Vazia estará nas livrarias, ainda sem data.  Mas À meia voz, o livro com que me lancei com poesias variadas, está na Amazon tanto em papel quanto em ebook.  Será um prazer conversar com você sobre a obra.





Imagem de leitura: Willem Geets

2 04 2025

Uma jovem lendo

Willem Geets (Bélgica, 1838-1919)

óleo sobre tela, 81 x 65 cm





Um pendant de Renoir

30 03 2025

A lição de escrita, 1905

Pierre-Auguste Renoir (França, 1841-1919)

óleo sobre tela

The Barnes Foundation, Filadélfia, PA

A lição de escrita, c. 1905

Pierre-Auguste Renoir (França, 1841-1919)

óleo sobre tela, 46 x 55 cm

A ser leiloado em 9-4-2025, Christie’s de Paris

um dos quadros do colecionador: Henri Cannone





Imagem de leitura: Pierre-Auguste Renoir

30 03 2025

A lição de escrita, c. 1905

Pierre-Auguste Renoir (França, 1841-1919)

óleo sobre tela, 46 x 55 cm

A ser leiloado em 9-4-2025, Christie’s de Paris

um dos quadros do colecionador: Henri Cannone

 

 





Todo mundo lê!

28 03 2025
Ilustração, Doreen Edmond.