Retrato de Paulina Viola de Boer, 1944
Hans van Meegeren (Holanda, 1889 -1947)
óleo sobre tela, 115 x 117 cm
“Meus livros são água; as obras dos grandes gênios são vinho — todo mundo bebe água.”
Mark Twain
Retrato de Paulina Viola de Boer, 1944
Hans van Meegeren (Holanda, 1889 -1947)
óleo sobre tela, 115 x 117 cm
Mark Twain
Senhora idosa e menino à luz de vela
Mathias Stom (Holanda(?) Bélgica (?), c. 1600 — depois de 1652)
óleo sobre madeira, 58 x 71 cm
Birmingham Museums Trust, Birmingham, Inglaterra
Jorge de Lima
Põe azeite na tua lamparina
Para que a treva eterna se retarde.
A tarde há de ensombrar a tua sina
E a Morte é indefectível como a tarde.
Observa: a sua luz não tem o alarde,
Que as combustões de súbito confina.
O fogaréu indômito ilumina,
Mas, quase sempre, em dois instantes arde.
A lamparina, entanto, muito calma,
— Luz pequenina, que parece uma alma,
Que à Grande Luz celestial se eleva –,
Espera nesse cândido transporte,
Que, extinto sendo o azeite, chegue a Morte,
Que a luz pequena para a Grande leva.
Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 52
René Magritte (Bélgica, 1898-1967)
óleo sobre tela
LACMA, Los Angeles County Art Museum
Siem Sigerius é um grande matemático especializado na teoria dos nós e reitor de uma universidade holandesa. É também um dos narradores de Bonita Avenue, assim como seu principal personagem. Ainda que ele divida com Joni, sua enteada e Aaron o namorado dela a apresentação ao leitor dos eventos que levaram ao colapso da família, é seu o papel principal dessa obra.
Diz a teoria dos nós que : “O artesão que faz uma trança, uma rede, ou alguns nós estará preocupado, não com questões de medidas, mas com aquelas de posição: o que ele vê ali é a maneira na qual os fios estão entrelaçados”. [Wikipédia] Como um bom entendedor de nós, e de seus emaranhados, Siem, na segunda metade da obra quando começa a perceber a teia em que ele se encontrava, começa a desatar um a um os nós que estruturavam as relações familiares. Até o momento em que precisa ele mesmo desaparecer. Desse ponto de vista seu suicídio é previsível. E para os que acham que posso estar revelando segredos, acalmem-se: o suicídio é contado logo no início do livro. Pois não só a narrativa é baseada em três vozes, como ela é apresentada no presente e no passado sem qualquer ordem que possa ser detectada pelo leitor.
Bonita Avenue não é para o leitor de coração fraco, ou do que gosta de uma narrativa linear. Nem é para o leitor que deseja simplesmente se divertir. Temos que trabalhar o cérebro para seguir essa trama espetacular, confusa, estranha e, sobretudo questionadora dos comportamentos modernos, pós-internet. No coração dessas questões está o hábito do consumo de pornografia na rede, assim como a questão curiosa sobre a imagem das mulheres e homens que se expõem em sites pornográficos: são ou não profissionais da prostituição? Os atores pornográficos são exibicionistas? E suas identidades podem de fato se manter desconhecidas? A identidade na rede é uma das questões levantadas nessa obra abrangente sobre a vida moderna.
A história circula em volta da família Sigerius entre os anos de 1980 e 2000. É uma família moderna. Segundo casamento de ambas as partes com filhos dos compromissos anteriores. Também é uma família disfuncional. Seus personagens são fascinantes e incluem além do matemático conhecido mundialmente, um fotógrafo, uma marcineira e uma atriz pornô. Há referências ao judô, a doenças mentais e sobretudo à indústria pornográfica na internet. A família não é feliz. A época em que foi mais feliz se resume aos anos passados na Califórnia, em Berkeley, num endereço na Bonita Avenue.
Peter Buwalda
Peter Buwalda tem uma maneira singular de narrar. Paga seus tributos à literatura do século XIX dando-se ao trabalho de apresentar personagem por personagem logo no início da obra. Mas são poucos. Isso contribui para a sensação de claustrofobia, e também para dar a impressão de que o enredo não progride. O que lembra de novo as obras do século XIX, em particular a afirmação da escritora inglesa Geoge Eliot em relação à linha do tempo de uma obra: “O melhor fogo não é o que se acende mais rapidamente.” Buwalda toma seu tempo e diferente da literatura mais tradicional apresenta seus personagens com viés: todos parecem caracterizados pelos seus piores aspectos, como se os víssemos só pelo lado B de suas personalidades. Outro artifício é a apresentação de um enredo simples centrado na família, mas contado com tantas interferências de fatos irrelevantes, anedotas, histórias paralelas que parece chegar ao essencial paulatinamente, comendo pelas beiradas.
Uma história espetacular, em que personagens fora da norma nos convidam a reflexões nem sempre fáceis. É violenta. Ocasionalmente bastante gráfica, inclusive na pornografia. Mas não é para qualquer um. Você precisa gostar de uma história apresentada de maneira complexa, não linear e com final em aberto. Fora isso, magistral.
Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)
óleo sobre tela, 46 x 55 cm
Museu van Gogh, Amsterdã
Marialzira Perestrello
I
Já te conhecia tanto, poeta danado!
Num mundo de demônios
Só Théo era teu anjo.
Visitando esses quadros,
caminho em tua vida.
1887, 1888, Boulevard de Clichy,
essa paisagem, esse bosque tranquilo,
essa sombra, essa luz,
tu, impressionista calmo, aceito.
Onde teu mundo caótico?
Depois,
árvores ameaçadas,
céus em fogo em Saint Remy-Provence.
Nesse auto-retrato
braço e paleta unidos, fundidos.
Ah! Vincent!
pintavas com tua própria alma.
Em: Mãos dadas, Marialzira Perestrello, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1989, p. 15
A ruazinha, [ou Vista de uma rua de Delft], 1658
Johannes Vermeer (Holanda, 1632-1675)
óleo sobre tela, 54 x 44 cm
Rijksmuseum, Amsterdã
Este é um dos pouco quadros que podem ser atribuídos sem qualquer questionamento ao pintor holandês do século XVII, Johannes Vermeer. Sua provenance é impecável, desde o momento que foi vendido em 1696 em Amsterdã, já mais de vinte anos após a morte do pintor. A tela está assinada, abaixo da janela. Veja abaixo:
Caso não tenha percebido: I. VMeer [Johannes Vermeer]
A tela é um retrato do cotidiano de uma rua pacata, tão a gosto do mercado holandês da época. Representa duas casas uma ao lado da outra com uma passagem entre elas para outro sítio ao fundo, onde podemos ver uma casa, parede caiada e uma vista parcial de uma janela. Ainda que não se saiba nada a respeito dos moradores desses locais, podemos ter uma ideia das atividades anônimas, da vida dos habitantes: uma senhora, à beira da rua, na porta de casa, borda, serze ou cose à mão. Está vestida à moda, com gorro segurando os cabelos, saia comprida, tamanquinhos de uso diário. Usa uma pequena capa de proteção contra o frio sobre os ombros, tradicional da época. Ela se encontra dentro de casa, acima do degrau que separa a residência da rua cuja calçada é revestida de lajotas de cerâmica ou pedras formando um jogo de losangos de cores diferentes. Não podemos ver nada além de uma sombra horizontal no interior da casa. A janela à direita, pintada de vermelho alaranjado, mostra um belo desenho dos painéis de vidros decorativos na parte superior e tem a banda de madeira escancarada, mostrando duas fechaduras de ferro negro. A janela aberta deixa que a luz do dia penetre no interior da casa. Logo abaixo da janela há um aro de metal para que se atrele as rédeas de um cavalo ou animal de carga.
Ao centro duas crianças, um menino e uma menina, se entretêm na calçada, logo abaixo das duas janelas fechadas, pintadas em tom esverdeado, pintura já bastante gasta, ao nível da rua. Elas brincam parcialmente debaixo de um banco fixado à parede externa da casa: o menino estendido com o corpo inteiramente na calçada, enquanto a menina, de costas para o espectador, se ajoelha no meio fio, com os pés no calçamento da rua, que apresenta revestimento semelhante ao pé de moleque: pedras arredondadas de tamanhos desiguais, que, como são pintadas por Vermeer, auxiliam na leitura de profundidade da cena. Muito têm-se discutido sobre essas janelas fechadas. A impressão que temos é que elas desafiam a lógica, não mostram uma maneira coerente de serem abertas. As fechaduras de ferro parecem indicar que as janelas abririam de encontro uma à outra.
Dois portais à esquerda, em arco, fazem parte de uma parede de tijolos, antiga com algumas irregularidades na argamassa. Terminavam em arco seria melhor dizer. Uma com a porta fechada de cor escura pertence à casa de janelas azuis à esquerda. Junto ao muro desta casa cresce uma bela videira que sombreia a janela aberta ao nível da rua. Há um banco de madeira no local que provavelmente desfruta da mesma sombra, a certas horas do dia e que também define a fachada da casa separando-a do portão fechado. Ao longo da casa de janelas azuis um banco semelhante ao da casa à direita do beco, mostra que nesse local, nessa época pode ter sido de praxe a existência desses bancos para o descanso ao fim do dia, para uma conversa com os vizinhos. A outra porta, mais à direita, já teve seu arco modificado, como podemos ver, com a estrutura do arco aparecendo acima do portal retangular, modificando o que havia no passado. Essa abertura mostra uma longa passagem, para um local atrás das casas. No meio do caminho, uma mulher atarefada, de touca, vestida com uma blusa vermelha e de avental, lava roupa numa barrica, duas vassouras estão encostadas no muro. Ao fundo, vemos a janela de outra casa, branca, mais adiante, que está com suas janelas fechadas. Um pouco acima vemos uma profusão de telhados e chaminés, que indicam uma área de construções com grande densidade. Pode ser qualquer hora do dia. O céu azul mostra algumas nuvens sem previsão de chuva.
Vermeer não foi o único pintor da época a retratar edifícios da cidade. Pieter de Hooch e outros também se dedicaram a cenas semelhantes, cenas da vida cotidiana ao ar livre..
Figuras bebendo no pátio, 1658
Pieter de Hooch (Holanda, 1629-1684)
óleo sobre tela, 68 x 58 cm
National Gallery of Scotland, Edinburgh
Acima vemos uma tela de Pieter de Hooch em que está representada outra passagem, do pátio onde amigos tomam uma cerveja até a rua ao fundo. Essa passagem também tem um arco na entrada. Leva a mesma data da tela de Vermeer, aqui, no entanto, a arquitetura parece mais rica. Pode ser uma parte mais abastada da cidade. Note-se a pedra chave do arco, decorada com o que parece ser o relevo de alguma figura mitológica. Além disso, houve durante a construção dessa passagem preocupação em fazer a entrada decorativa, já que tijolos vermelhos se intercalam com o que parece ser faixa de reboco. Acima uma placa com alguns dizeres e ainda mais acima temos a vista parcial de uma janela redonda, um óculo, provável fonte de luz para uma escada interna. O pátio também mais rico do que as construções de Vermeer se mostra pavimentado com lajotas de cerâmica de duas cores. A janela aberta à esquerda, serve curiosamente de cabide para um paletó de um uniforme de guarda, talvez de um dos clientes da taverna. Uma treliça com uma planta trepadeira — possivelmente uma videira, protege os convivas do sol. O dia está claro com poucas nuvens no céu. Ao fundo vemos uma rua e do outro lado uma residência que tem uma árvore na calçada. A árvore, com uma copa compacta, determina a estação do ano retratada, verão. Uma menina brinca com seu cachorrinho enquanto à direita uma mulher, talvez a dona da taverna ou a moça que serve os clientes parece atenta ao que os senhores sentados desejam.
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Pesquisas sobre o verdadeiro endereço das casas retratadas em A ruazinha têm sido feitas desde 1921, quando o Rijksmuseum adquiriu a tela de Vermeer. Em novembro do ano passado o museu, um dos mais importantes do mundo, revelou que depois de uma longa e detalhada pesquisa nos anais dos impostos sobre imóveis e sobre permissões para aberturas e para fechamentos de canais na cidade de Delft, finalmente conseguiram identificar a localização dos imóveis retratados na tela de Vermeer.
Para nos auxiliar no reconhecimento da cena, uma fotografia foi feita incluindo crianças brincando na calçada e uma sombra de mulher trabalhando ao fundo da passagem entre as casas, próxima a uma barrica. Uma mulher cose à janela da casa à direita na posição em que havia uma mulher bordando no portal de casa. Esta casa não é original. Foi demolida e no local construída outra casa no século XIX. Quase quatrocentos anos separam a tela de Vermeer das casas encontradas hoje. Muitas modificações podem ser vistas nos prédios retratados. Mas ainda há muito em comum. Professor Frans Grijzenhout, da Universidade de Amsterdã, descobriu a rua através dos livros de impostos de 1667. Hoje essas casas ocupam os números 40 e 42 da Vlamingstraat, em Delft.
A pesquisa também revelou que a casa da direita pertencia à tia de Vermeer, viúva, meia-irmã de seu pai, chamada Ariaentgen Claes van der Minne. Com uma família de cinco filhos, ela vendia tripas para sobreviver, e a ruazinha ao lado de sua casa era conhecida como a Passagem das Tripas. Sabe-se também que a mãe de Vermeer morava no mesmo canal, na diagonal dessa casa. É provável que o pintor estivesse bem familiarizado com a casa representada na tela e que provavelmente tinha memórias associadas a esse local.
Essa é uma descoberta que traz um pouco mais de luz à vida de Johannes Vermeer, um dos pintores com pouquíssimas telas conhecidas e um enigmático vazio a respeito de sua vida privada. Pouco sabemos dele. E só há aproximadamente 35 telas conhecidas de sua autoria. Ficará para os estudiosos preencher os vazios dessa biografia. Esse é só um dos muitos passos pela reconstrução do passado.
Anjo da anunciação, 1506, Gerard David (c. 1455-1523), óleo sobre madeira, Metropolitan Museum, N.Y.
Mulher à janela, com vasilha de cobre, maçãs e faisão, 1663
Gerrit Dou (Holanda, 1613-1675)
óleo sobre madeira, 38 x 27 cm
Museu Fitzwilliam, Cambridge, GB
William Osler (1849-1919)
Retrato de Marie Jeanette de Lange, 1900
Jan Toorop (Holanda, 1858-1928)
óleo sobre tela
Rijksmuseum, Amsterdam