Dia de Tiradentes, 21 de abril, quadrinhas para uso escolar

20 04 2012

Liberdade ainda que tardia…

Dia de Tiradentes

quadrinhas para comemorar o Dia de Tiradentes

Por ter sido descoberto

Por Pedro Alvares Cabral,

O Brasil, caros colegas,

Pertenceu a Portugal.

Ouvi dizer que homens bravos.

Chefiados por Tiradentes,

Receberam nesse tempo,

O nome de inconfidentes.

Os nossos inconfidentes

Nutriam um ideal:

Desejavam separar

O Brasil de Portugal.

Joaquim Silvério dos Reis

Traiu os inconfidentes,

Destruindo dessa forma,

O sonho de Tiradentes.

No dia Vinte-e-Um de Abril,

Sob vivas estridentes,

Foi, no Rio de Janeiro,

Enforcado Tiradentes.

O exemplo que Tiradentes

Nos deu a Vinte-e-um de Abril

É a página mais linda

Da História do Brasil.

Quadrinhas para uso escolar de Walter Nieble de Freitas.





Quadrinhas contando o Descobrimento do Brasil — uso escolar

22 03 2012

Para firmar o comércio

Das Índias e Portugal,

Uma esquadra foi entregue

A Pedro Álvares Cabral.

Eram treze embarcações

Com brancas velas de pano

Que iriam concretizar

Velho sonho lusitano.

Ao chegar às costas da África,

Cabral ordenou que a frota

Desviasse das calmarias

Que estavam em sua rota.

Assim procedeu a esquadra,

Para a Vinte e Dois de Abril

Chegar nesta linda terra

Hoje chamada Brasil.

Esse fato aconteceu

No ano de mil e quinhentos:

Um grande feito na História

Dos grandes descobrimentos.

Walter Nieble de Freitas

Em: 1000 Quadrinhas Escolares, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Editora Difusora Cultural: 1965.





O índio, poesia de Robert Preis

13 03 2012

O atirador de arco, 1925

Vicente do Rego Monteiro ( Brasil,1899-1970)

óleo sobre tela, 108 x 137 cm

Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife


O índio

Robert Preis

O índio, elemento

tão sensível e frágil

das matas tropicais!

Como poderia resistir

à legião de

conquistadores,

donatários,

donos de engenhos,

bandeirantes,

capitães de mato,

desembargadores,

grileiros,

coronéis,

generais,

parlamentares,

escritores românticos,

entre outros,

quando cada um destes grupos

já é de morte?

4/9/97

Em: Transpondo fronteiras, Robert Preis, Niterói, Ed. Muiraquitã:1999

Robert Preis nasceu na Alemanha em 1934. Bacharel e licenciado em história, pós-graduado em língua alemã e doutor em linguística, todos cursos na Universidade de São Paulo.





Uma boa ação do Presidente Nilo Peçanha, texto escolar

6 03 2012

No tempo das diligências, 1971

Haydéa Santiago (Brasil, 1896 –1980)

óleo sobre tela, 48 x 55 cm

Uma boa ação do Presidente Nilo Peçanha

Seja sempre patriota

Nilo Peçanha foi um dos grandes vultos fluminenses. Natural de Campos, sua vida foi um exemplo de amor ao trabalho e de dedicação ao serviço da Pátria. De origem humilde, atingiu aos mais altos postos da política e da administração, pois foi deputado, senador, ministro, presidente do Estado do Rio, vice-presidente e presidente da República. E morreu pobre, mas cercado da admiração de seus conterrâneos.

Nilo Peçanha era um homem simples e bondoso. Vou contar-lhes um episódio, relatado por Assis Cintra, que bem exprime o quanto era generoso o seu coração.

“Indo ele, certa vez, presidir a uma solenidade, a sua carruagem atropelou um garoto imprudente, filho de uma lavadeira.

O presidente mandou parar a carruagem, desceu dela, apanhou o garoto nos braços, e deu ordens ao condutor que rumasse para uma casa de saúde. Lá chegando, entregou o pequeno ao gerente do Hospital e ordenou-lhe que chamasse com urgência um operador para cuidar da criança. Não poupassem despesas. E mandassem ao Palácio, diariamente, notícias do doente. Todas as despesas por sua conta.

Depois de curado, o menino foi com a mãe ao Catete.  Nilo Peçanha recebeu a lavadeira e o garoto:

— Este menino está na escola senhora?

— Não, Sr. Presidente.

—  E por que? É um garoto inteligente.  Deve ir para a escola.

— Sr. Presidente, o meu filho é que carrega a roupa que lavo, entregando-a aos fregueses.  Não o pus na escola por esse motivo.

— Pois o seu filho fica por minha conta.  O menino é vivo e aproveitável.

Assim, o Presidente pôs no Colégio Pedro II o garoto que muito prometia. Quando deixou a presidência da República, Nilo Peçanha continuou a custear a educação do filho da lavadeira. Terminados os preparatórios, já moço, o protegido de Nilo Peçanha procurou-o, pedindo que lhe indicasse uma escola superior: Direito, Medicina, Engenharia…

Nilo respondeu:

— Você escolha a carreira que quiser.  Não me deve nada.  Quis aproveitar a sua inteligência em favor da Pátria. Se me é grato, seja sempre patriota.”

Em: Vamos estudar? Theobaldo Miranda Santos, para a 3ª série do curso primário,Rio de Janeiro, Agir:1957.

—————–

O texto acima vem acompanhado dos seguintes ítens, para uso na sala de aula:

Vocabulário:

Humilde = modesto

Postos = cargos, posições

Conterrâneos = pessoas que residem na mesma terra ou estado.

Episódio = fato, acontecimento

Relatado = narrado, contado

Solenidade = cerimônia

Vivo = esperto, inteligente

Em favor = em benefício

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QUESTIONÁRIO

Quem foi Nilo Peçanha? Que aconteceu quando ele ia presidir a uma solenidade? Que fez Nilo Peçanha?  Que aconteceu depois?  Que respondeu Nilo Peçanha ao seu protegido?

Retrato de Nilo Peçanha, 7º Presidente do Brasil

Auguste Petit (França, 1844 — Brasil, 1927)

óleo sobre tela, 65 x 54 cm

Museu de História e Artes do Estado do Rio de Janeiro, Niterói.





Brasil, um país destinado a voar: Bartolomeu de Gusmão

23 01 2012

Bartolomeu de Gusmão, 2009

J. G. Fajardo (Brasil, 1960)

óleo sobre tela

Antes, muito antes de Santos Dumont inventar o avião, já tínhamos uma tradição de conquista do ar.  Devemos isso ao padre e cientista brasileiro Bartolomeu de Gusmão que foi capaz de surpreender a Europa com sua máquina de voar. E só porque seu balão não foi aceito pela ignorante sociedade portuguêsa da época,  não quer dizer que não tenhamos orgulho desse nosso gênio.  Não há na história da conquista do ar quem não comece essa saga com a “Passarola” de Bartolomeu de Gusmão.  A decisão de D. João V, O Magnânimo,  de sucumbir às crendices do povo, às maledicências de uma sociedade dominada pela falta de conhecimento e pelo medo religioso ainda enraizado por uma Inquisição que cismava em permanecer viva,  nada têm a ver como a nossa memória cultural. Bartolomeu de Gusmão deve ser lembrado nas nossas escolas e universidades por sua insistência, a todo custo,  na pesquisa científica.  Se D. João V tivesse tido um pouco mais de coragem de enfrentar sua corte e os jornais, Portugal teria passado para a história mundial não só como o país das grandes descobertas marítimas, mas também o país da conquista dos ares.  Infelizmente esse título acabou sendo dado à França, quando 74 anos depois dos experimentos de Bartolomeu de Gusmão,  os irmãos Montgolfier conseguiram voar uma balão, em Annonay, em 1783.  Por isso, lembro a todos, o texto abaixo impresso para a 4ª série  das escolas primárias, em 1954, quem foi o nosso padre voador!

Reconstituição artística da apresentação de Bartolomeu de Gusmão à corte portuguêsa.

O Padre Voador



Bartolomeu Lourenço de Gusmão nasceu em Santos, em 1685.  Aos quinze anos, seguiu para Coimbra a fim de iniciar seus estudos de teologia.  Terminando o curso, tornou-se padre, e logo nos primeiros anos notabilizou-se pelo seu imenso saber e pela sua grande eloquência. Dedicou-se especialmente ao cultivo das ciências físicas e naturais. Mas o que imortalizou o seu nome foi a máquina de voar de sua invenção.

Recomendado por D. Isabel, rainha de Espanha, Bartolomeu de Gusmão tornou-se capelão-fidalgo de D. João V, rei de Portugal. Interessou-se este pelos estudos e pesquisas do jovem sacerdote, principalmente pela invenção de sua máquina voadora, cuja construção foi custeada pelo tesouro real.

No dia 8 de agosto de 1709, presentes o rei, a corte e de curiosos, foi realizada a primeira experiência do aeróstato de Bartolomeu.  O aparelho que tinha a forma de uma balão, com o seu inventor à bordo, elevou-se suavemente do pátio do castelo de S. Jorge, permaneceu algum tempo no ar e, em seguida desceu no terreiro do Terreiro do paço.

Outras experiências, bem sucedidas, foram realizadas com o aparelho, para júbilo do seu inventor e despeito dos invejosos que, para ridicularizar Bartolomeu, passaram a chamá-lo de “Padre Voador” e repr4esentar o seu aparelho por uma pássaro, a que deram o nome de “Passarola”.

Seus inimigos foram mais longe.  Aproveitando-se da ignorância do povo, começaram a apregoar que o “Padre Voador” era feiticeiro com ligações com o demônio…

E tais mentiras espalharam a respeito de Bartolomeu que o próprio D. João V, seu protetor, resolveu não mais auxiliá-lo. Entre as críticas maldosas que surgiram na imprensa da época figuravam versos como estes:

Com que engenho te atreves, brasileiro,
A voares no ar, sendo rasteiro,
Desejando ave ser, sem ser gaivota?
Melhor te fora, na região remota
Onde nasceste, estar com siso inteiro!

Abandonado pelo rei, escarnecido pelo povo, desprezado pelos amigos, Bartolomeu de Gusmão viu-se na triste contingência de fugir para a Espanha, onde foi acolhido por seu irmão frei João de Santa Maria.

Consumido pelo desgosto e atacado de súbita enfermidade, o “Padre Voador” morreu, a 19 de novembro de 1724, no hospital de Misericórdia de Toledo.

Findou seus dias esquecido todos e na mais extrema miséria.

Em: Terra Bandeirante, 4º ano, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1954.





A dura vida em Santo André da Borda do Campo, texto de Viriato Corrêa

9 01 2012

Descobrimento do Brasil.

As constantes reclamações, que temos todo o justo direito de fazer sobre os impostos no Brasil, associadas à próxima data de aniversário da cidade de São Paulo, me levaram a pensar hoje nos ensaios de Viriato Corrêa, em particular neste que reproduzo aqui sobre os impostos do vilarejo de Santo André da Borda do Campo em meados do século XVI, quando o Brasil tinha um pouco mais de 50 anos de existência.  Resolvi postá-lo, porque gosto desse excelente escritor e o ensaio  me lembra e espero que faça o mesmo a vocês, das dificuldades que os nossos antepassados tiveram ao se estabelecerem nesse Eldorado.  Sei muito bem que comemora-se o aniversário de Santo André da Borda do Campo  em abril — fundada em 1553 este ano ela comemora 459 anos de idade.   No entanto, Santo André da Borda do Campo exerce um grande fascínio para mim, o fascínio do desconhecido, do mistério, já que o vilarejo desapareceu em 1560 e há muito pouca informação sobre sua localização original.

A dura vida em Santo André da Borda do Campo

Viriato Correia

Desde que o Brasil é Brasil não houve certamente multas mais extorsivas que as que se cobraram na vila remota de Santo André da Borda do Campo.

Ao mais ligeiro golpe de vista pelas atas da municipalidade do rude arraial de João Ramalho, o leitor se escandaliza diante da disparidade das multas, comparada com o valor do dinheiro naquela longínqua quadra quinhentista.

Quer sobre a vila de Santo André, quer sobre a vida de João Ramalho, anda a história ainda às tontas.

João Ramalho tem sido tudo na história, ao sabor dos historiadores.  Para uns foi o precursor de Colombo, pisando em terras americanas antes que as caravelas do navegador genovês fundeassem nas águas das Antilhas.  Para outros é o náufrago que ao Brasil aportou naqueles dias sombrios em que o Portugal deixou a terra de Santa-Cruz em pleno abandono.  Para Cândido Mendes não é outro senão o muito conhecido bacharel da Cananéia, que a história até hoje não pode conhecer definitivamente.  Uns dizem-no fidalgo da casa real, outros afirmam-no aventureiro e ignorante.  O que ele é, até hoje, nestes dias de pesquisas, é um ponto de interrogação.

O arraial de Santo André continua com a mesma sorte de seu fundador.  Ninguém sabe em que ponto do planalto paulista João Ramalho fundou o seu povoado.

Até hoje não se pode determinar o lugar preciso em que existiram os primeiros fundamentos do mais antigo dos núcleos populosos de S. Paulo.

João Ramalho e seu filho

[DETALHE]

Wasth Rodrigues (Brasil, 1891-1957)

óleo sobre tela

Museu Paulista, São Paulo, SP

Que ambos existiram – o arraial e o fundador – é que não há mais dúvida.  Para muitos o arraial de Santo André da Borda do Campo não era mais que uma furna de bandidos, um numeroso rancho de malfeitores, colocados no planalto paulista, logo após as muralhas da cordilheira do Mar, ali vivendo como salteadores terríveis, escravizando indígenas, de arcabuz e flechas impedindo que alguém transpusesse os sertões incultos.  João Ramalho não era mais que o maioral dessa quadrilha.

É possível, é mesmo quase certo, que a população que fervia nas ruas de Santo André não fosse a mais dócil e a mais proba daqueles tempos ásperos.

Não seria possível existir no coração da selva, numa quadra de aventura e de fome de riquezas, uma população de santos.  As surpresas da floresta desconhecida, as emboscadas dos índios indomáveis e principalmente o ambiente da época, haviam de tornar os homens afoitos e bravios.

Mas a verdade é que Santo André da Borda do Campo teve uma organização social e uma organização política.  Ninguém hoje pode duvidar disso, depois que o sr. Washington Luis fez publicar as velhas atas da municipalidade do remoto arraial de João Ramalho.

Em Santo André não mandava quem queria, nem João Ramalho era o poder autoritário e supremo.  Havia uma municipalidade, havia um poder legislativo, havia o que hoje chamamos prefeito e que, naquele tempo, era chamado juiz.

A lei tinha um rigor feroz; os assuntos públicos um tom de seriedade que hoje absolutamente não existe nas mais perfeitas sociedades organizadas.

Em Santo André da Borda do Campo os deveres de um vereador eram coisas rigorosamente sérias.  Basta citar este caso hoje surpreendente para nós: os vereadores sofriam multas quando não compareciam às sessões da Câmara.

A moradia em Santo André não era para qualquer pé rapado.  Ninguém punha a trouxa às costas e entrava sem mais aquela no arraial, para morar.  Devia pedir licença à Câmara e obtê-la.  Em 1556, consta de uma ata da vila, Manuel Ribeiro, que já possuía “casa, roças, vaca e mulher” no povoado, requeria aos vereadores que o “assentassem por morador”.

Se se não entrava sem licença, sem licença também não se saía.  Havia multas rigorosas para os transgressores.  De uma ata de 1555 consta que Francisco Alves requerera permissão para viver algum tempo no campo.

Entre nós, em pleno século XX, o pistolão destrói o rigor das multas impostas pelas municipalidades.

Em muitas localidades do interior os amigos do chefe político não pagam impostos e multas.

Ilustração de trabalho escravo feito por índios.

No arraial de João Ramalho o caso era seríssimo.  Uma multa imposta era uma multa paga.  Não havia empenho capaz de demovê-la. O almotacel João Pires Gago, por desleixo, não mandou limpar os monturos das ruas.  Multaram-no em quinhentos réis.  O pobre diabo fez tudo para livrar-se da pena.  Nada conseguiu.  E, como não tinha dinheiro para pagá-la, viu-se obrigado a fugir.

Diante das atas da municipalidade de Santo André da Borda do Campo o que mais espanta não é o rigor das leis: é o vulto, o extorsivo vulto das multas que se impõem ao povo.

É necessário que nos reportemos à época.

No período quinhentista o dinheiro não tinha o mesmo valor de hoje. Basta dizer que a descoberta da América não custou muito mais de sete contos de réis ao governo da Espanha.  Um cruzado era uma quantia fabulosa.

Cabral quando fez a viagem às Índias, da qual resultou a descoberta do Brasil, ganhava regiamente.  Vencia, pela viagem de ida e volta, a soma incrível de quatro contos de réis.  Cada um dos comandantes das naus recebia um conto e duzentos, ida e volta.  Os pilotos ganhavam duzentos mil réis pela viagem; os marinheiros quatro mil réis por mês; e os soldados dois mil réis apenas.

Fernão de Magalhães não descobriu para Portugal o estreito que tem o seu último nome, porque el-rei d. Manuel não lhe quis gratificar com seis escudos, cerca de nove mil e seiscentos réis na moeda atual.
Na época em que o povoado de João Ramalho floresceu, o governador geral do Brasil percebia dos cofres públicos o imenso ordenado de trinta e três mil trezentos e trinta e três réis mensais.  O bispo não recebia mais que a metade.  O oficial do governador geral só recebia quinhentos réis por mês e vivia como um príncipe.

Ruínas de Santo André da Borda do Campo, aquarela de Miguel Dutra.

Na própria vila de Santo André os ordenados eram apertadíssimos.  O prefeito ganhava oitocentos réis por ano (dois cruzados).  O porteiro da Câmara satisfazia-se com quatrocentos réis anuais.

Numa quadra em que os valores eram esses, as multas impostas pelas municipalidades deviam ser relativas aos valores.  Não o eram em Santo André.

As penas impostas pela Câmara são as mais díspares.  Um tostão, naquela época tomava o vulto de muito dinheiro. Era quanto pagava o vereador que não comparecia a uma sessão da Câmara.

Certamente não existiram no Brasil taxas mais pesadas que as da vila ramalhense.  Tem-se a impressão de que a municipalidade, não podendo arcar com os encargos normais por falta de numerário, quer arrancar, seja como for, o pelo do povo.

A vila de João Ramalho, ao fundo da floresta paulista, era pobre.  A municipalidade tinha que refletir a pobreza da vila.  O patrimônio municipal, em 1556, constava apenas de uma balança, de pau, um peso de ferro de quatro arráteis, dois taipais com seus aparelhos e um machado grande de carpinteiro.  Em 1557 era mais rica.

Tinha a mesma balança, os mesmos taipais, e tudo isso agora acrescido com três agulhas e uma medida de três alqueires e o fabuloso saldo de quatrocentos réis em dinheiro.

Desenho refletindo como seria uma aldeia por volta de 1560.

Apesar de pobre, a municipalidade andreense fazia empréstimos aos seus munícipes preeminentes.  Em 1556 emprestou a João Fernandes – o Gago – a quantia de quatrocentos réis.

Aquele machado de que se fala acima era a caução que João Fernandes deixou, ao receber o grande empréstimo.  No mesmo ano emprestou três cruzados a Paulo Proença.  No ano seguinte João Pires Gago, conseguia, com a caução de um arcabuz, o empréstimo de mil e duzentos réis.

Parece que esse estado de penúria explica de alguma maneira o exagero das multas impostas em Santo André.  Se se não extorquir o povo, os cofres municipais nunca terão dinheiro.

As penas são horríveis.  Na vila a criação de vacas e porcos, dia a dia aumenta.  Os bichos vivem a estragar as roças da redondeza.  A Câmara toma uma medida enérgica contra o abuso, em 1556.  Pelo animal que for recolhido ao curral do Conselho pagará o dono cem réis por cabeça.  Mais tarde o imposto é diminuído, aos reclamos do povo.  A vaca desce a cinqüenta réis e o porco a um vintém.

Os índios das florestas vizinhas fazem, de quando em quando, surpresas desagradáveis à vila, destruindo o que podem.  Todo o mundo é obrigado a recolher, à tardinha, o gado às fortificações. O criador desleixado pagará cem réis por animal.

Cem réis é uma das penas menores impostas em Santo André da Borda do Campo, no tempo em que o ordenado maior era o do prefeito (juiz) e não ia além de oitocentos réis anuais.

João Ramalho aponta o caminho de Piratininga a Martim Afonso de Souza, c. 1912

Benedito Calixto ( Brasil, 1853-1927)

Palácio de São Joaquim

Rio de Janeiro

As taxas são sempre de quinhentos réis para cima.  O morador que se retirava da vila, sem licença, pagava quinhentos réis ao voltar.  Quando pusesse raízes de mandioca a fermentar nas fontes públicas entrava com dez tostões para os cofres municipais.

Era uma multa horrível.  Talvez possa ser explicada pelas razões da saúde pública: a mandioca, antes de fermentada, é um veneno terrível.

Ao fiscal da Câmara, que deixava de cumprir o seu dever, obrigava-se a entregar ao município a soma de quinhentos réis.  Foi a pena imposta ao almotacel João Pires Gago, por não ter mandado “ha limpar monturos”, pena que, por pesada, o fez fugir da vila.

Santo André, plantada à porta do campo paulista, na virgindade inculta dos sertões americanos, vivia numa constante ameaça de ataques. A mata, em redor, era a hostilidade dos índios.  Não se podia deixar a vila desprevenida.  Mas acontecia que os lavradores seguiam todos para as roças, deixando nas casas apenas as crianças e os enfermos.  A Câmara tomou medidas contra a negligência.  Designou as turmas de lavradores a trabalhar e as turmas que ficariam guardando o povoado.  A transgressão custava cento e cinqüenta réis.

As noções de higiene moderna já eram conhecidas no agrupamento humano que João Ramalho fundou.

Hoje, depois de quatro séculos, a trinta minutos do Rio de Janeiro, os médicos da profilaxia rural não conseguiram ainda que a população dos subúrbios compreendesse a necessidade das sentinas.  Nem as fossas simples, cavadas no solo, quer o suburbano usar.
Em Santo André da Borda do Campo, em mil quinhentos e tantos, havia o abuso das fossas.

Há uma ata de 1557, em que os edis, reunidos, impõem a multa de dez tostões a quem fizer privadas dentro dos muros da vila.
No Brasil, em defeitos administrativos, não há nada de novo. O atraso dos governos para com o funcionalismo público, que muita gente supõe ser coisa moderna, é velhíssimo.

Já a municipalidade de Santo André vivia em atraso.  Conhece-se um requerimento do escrivão Gaspar Nogueira solicitando pagamento dos seus ordenados esquecidos.  Devia-lhe a Câmara mil, cento e sessenta réis, dos quais ele já havia recebido oitocentos.

Há quem afirme que o desfalque é, no Brasil, uma criação da República.  Tem quatro séculos. Nasceu com os nossos primeiros vagidos.

Em 1555, em Santo André da Borda do Campo, deu-se um desfalque.  De uma ata constam sérias medidas tomadas contra o procurador João Fernandes, que teve a clamorosa improbidade de não entrar para os cofres municipais com a soma de cinqüenta réis, de uma multa que cobrou.

Sempre a multa! A municipalidade de Santo André da Borda do Campo foi a mais extorsiva criadora de impostos que houve no Brasil.

*****

Em: Terras de Santa Cruz: contos e crônicas da História Brasileira, Viriato Corrêa, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira: 1956





Os sinos de Mariana — Revista Kósmos, Maio 1907 — texto de Mário Behring

2 10 2011

Vista Parcial de Mariana – MG, 2010

Baptista Gariglio Filho (BH, Brasil, 1961)

óleo sobre tela,  70x90cm

http://www.gariglio.cjb.net/

Os sinos de Mariana

Mário Behring

No dia 30 de junho de 1743 grande era o movimento na Vila Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo, hoje cidade arquiepiscopal de Mariana.

Após três meses de permanência, seguia o Bispo do Rio de Janeiro, D. Frei João da Cruz que viera em correição às Minas, para Camargos.

Várias providências haviam sido tomadas pelo prelado nesses três meses, a fim de regularizar a situação do clero na Vila, sendo uma delas a demissão do vigário da vara Padre Dr. Francisco Pinheiro da Fonseca que menos curava das almas do que dos seus negócios particulares, antes do temporal, que do espiritual, pecado que era aliás de todo o clero das Minas, interessado em quanta especulação surgisse para atrair o ouro que fartamente fluía  das catas riquíssimas.

Esse Padre, por isso que fazia vista grossa aos pecados dos seus paroquianos, era tido e havido na conta de um excelente homem, tendo uma grande roda de amigos aos quais agravou a decisão violenta do Bispo, resolvendo-se tirar dela uma vingança pública.

E com tal segredo a prepararam que nada transpirou por entre o povo.

A 20, pela manhã, pôs-se em marcha a comitiva do Bispo – No momento da partida porém, quando os sinos se preparavam para saudar  o seu pastor com os seus costumados cortejos e repiques (1) deram os sineiros pela falta de todos os badalos dos quatro sinos da matriz e do da capela de São Gonçalo.

Célere chegou ao Bispo a notícia do acontecido e voltando então outra vez para Mariana mandou tirar os badalos restantes das demais Igrejas, interditando os templos de toda a Freguesia.

O ouvidor da Vila Rica, Caetano Furtado de Mendonça (2) mandou logo que teve conhecimento do fato, tirar quatro devassas pelas autoridades eclesiásticas.  A primeira pelo próprio Bispo, a segunda pelo Vigário da vara, a terceira pelo Cônego Domingos Lopes e a quarta pelo Vigário de Antônio Dias, Padre Félix Simões.

Dessas devassas resultou para o juízo eclesiástico a convicção de culpa de várias pessoas importantes da Vila e assim, para que não escapassem à pronúncia, o Padre Domingos Lopes reuniu um grande corpo de clérigos armados de clavinas, pistolas e catanas pondo cerco à Vila para efetuar as prisões.

À frente de um troço armado o Padre Domingos Lopes, cuja casa servia de quartel general, invadiu as residências dos culpados, prendendo o Bacharel Manuel Ribeiro de Carvalho, advogado nos Auditórios da Vila, Domingos Pinto Coelho, José de Almeida Costa, o Licenciado em farmácia Manoel Peixoto de Sampaio e Manuel Pinto da Rocha, conseguindo outros fugir a coorte clerical e refugiar-se em lugar seguro.

Paisagem de Mariana, Minas Gerais, 1995

Carlos Bracher ( Brasil, 1940)

óleo sobre tela, 81 x 100 cm

Realizada a prisão desses acusados, mandou o Bispo carregá-los de ferros, metendo-os no tronco da cadeia, como se costuma fazer aos escravos, (3).

Enquanto isso se dava, na casa Juiz de Fora, José Pereira de Moura, aparecia uma carta anônima dizendo o local em que se achavam os badalos subtraídos.

Dirigindo-se com alguns oficiais de justiça a um córrego que atravessava o pasto da Vila, constatou o Juiz de Fora a presença dos badalos que foram logo restituídos à autoridade eclesiástica.

Resolveu o Bispo que fossem os presos transportados para o Rio de Janeiro e para isso organizou um corpo de 20 clérigos armados que deveriam vencer o ordenado de 200 oitavas de ouro cada um a custa da fazenda dos culpados.

A isso porém se opôs o ouvidor Furtado de Mendonça, dizendo que tendo os presos entreposto recurso de sua pronúncia para o juízo da Coroa, deviam permanecer na cadeia da Vila até final decisão.

Animados com as primeiras violências não se quiseram sujeitar os clérigos à decisão do Ouvidor , e combinaram um assalto à cadeia para arrancando à viva força os presos, seguirem para o Rio , conforme determinara o Prelado.

Ânimo resoluto e decidido não se acorbadou o Ouvidor: antes determinou imediatamente ao  Juiz de Fora que fizesse guardar a cadeia por oficiais de justiça bem armados e estabelecesse rondas na Vila, até que se acalmasse aquela paixão eclesiástica.

Não se conteve o Padre Domingos Lopes, generalíssimo dos Padres belicosos.

E tais censuras dirigiu ao Ouvidor que este em carta dirigida à Corte assim se expressava:

“Não sofre demora a satisfação do castigo porque se os juízes da Coroa de Vossa Majestade houverem de ser descompostos nos provimentos dos recursos por esses Padres desavergonhados e enfronhados nas suas ordens, que lhes parece de tudo são isentos nos seus desaforos, não haverá Juiz da Coroa, que com medo de sua venenosa língua e pena se atreva a valer com a proteção Real aos oprimidos vassalos de Vossa Majestade”…

Essa questão entre o Ouvidor de um lado e o Bispo e Vigário da vara de outro, agravou-se dentro em pouco por motivo de um conflito de jurisdição.

Morrera um clérigo que deixando alguns bens em um testamento secular, as justiças eclesiásticas fizeram o seqüestro nesses bens. 

Paisagem de Mariana, 1977

Inimá de Paula (Brasil, 1918-1999)

óleo sobre tela  69 x 90 cm

Interpuseram os herdeiros recurso para o Ouvidor que lhes dando razão decidiu em seu favor a causa. 

Não cumpriu porém a decisão o Vigário da vara e na réplica usando de expressões pelo ouvidor julgadas desrespeitosas, retorquiu, chamando-o atrevido e petulante; não se calou o vigário da vara redargüindo com outras e equivalentes injúrias o que lhe valeu ser autuado pelo Ouvidor e condenado a multa de 200 oitavas de ouro em proveito da Fazenda Real.

A intimação dessa sentença mandou-a fazer o Ouvidor pelo seu escrivão no palácio episcopal.

Seguiu ele a cumprir o mandado e passado algum tempo vieram dizer ao Ouvidor que o Bispo prenderá o escrivão em palácio. 

Encolerizado, reuniu Furtado de Mendonça os oficiais de justiça e marchou para a residência do bispo, onde chegado mandou, tendo-lhe previamente posto cerco, uma intimação ao prelado para que desse imediata liberdade ao funcionário da justiça sob pena de ir arrancá-lo à força.  

Com o cerco começou a juntar-se povo defronte do palácio, chovendo comentários como soe sempre acontecer nessas ocasiões. 

O Bispo, em resposta, mandou dizer ao Ouvidor que em sua casa só entrava quem ele permitisse; que o escrivão não estava constrangido: aguardava somente um outro escrivão eclesiástico para dar contra fé do seu mandado.  Com isso e saindo o escrivão, retirou-se o Ouvidor, endereçando o Bispo à Corte longa queixa, contra Furtado de Mendonça.

Informada favoravelmente pelo governador Gomes freire de Andrade, saiu triunfante o Bispo da questão, sendo removido o Ouvidor.

A questão do furto dos badalos foi cometida então ao Juiz de Fora que abriu nova devassa, verificando a inocência de alguns dos que o Bispo prendera anteriormente como culpados.

Provaram as indagações tratar-se de uma simples vingança do Padre Francisco da Costa de Oliveira, já falecido em 1745, quando se concluiu a devassa, que o Bispo não admitira a exames, talvez por ser íntimo do ex-vigário do Dr. Francisco Pinheiro da Fonseca.

Também concorrera para o furto o Padre Antônio Sarmento.

Contra Miguel Pinto da Rocha um dos anteriormente presos havia indícios de cumplicidade visto como antes do fato ele assoalhara que os sinos da cidade calar-se-iam no dia da partida do Bispo. 

Quanto ao boticário Manuel Peixoto de Sampaio, sabia-se ser amicíssimo do ex-vigário, “ser homem arrogante, insolente” tendo tido um atrito com o Bispo que o coagira a firmar um termo de deixar o concubinato em que publicamente vivia.

A cerca deste último era opinião do Juiz de Fora que embora sobre ele não recaíssem mais que vagos indícios, devia ser retirado das Minas e mandado para outra capitania…

E eis aí como terminou essa questão, vencendo em toda a linha o clero, fazendo recuar os representantes da Justiça d’ El Rei.

Partiu para o Rio vitorioso o Bispo D. Frei João da Cruz; passados anos demitiu-se do cargo e ao retirar-se para o Reino julgou ser conveniente ao serviço de Deus, carregar com todas as alfaias, ornamentos e prataria comprados com a renda do Bispado e ainda com o espólio do seu antecessor D. Frei Antônio de Guadalupe, ação por sem dúvida merecedora de que aqui a rememoremos, (4) arrancando-a a injusto olvido. 

Maio – 907

— — — — — — — — — —

(1) Consulta do Conselho Ultramarino de 16 de Abril de 1744.

(2) Cartas de 6 e 25 de Agosto de 1743.

(3) Carta do Ouvidor de Vila Rica, Caetano Furtado de Mendonça para a Corte.

(4) Carta do Cabido da Sé do Rio de Janeiro, 6 de Abril de 1751.

[Texto integral, em domínio público,  mas com grafia atualizada para facilitar a leitura.   As ilustrações não pertencem ao texto original, são obras posteriores ao texto, paisagens da cidade mineira onde esses fatos aconteceram.  Mantive as maiúsculas como no texto ainda que seu uso seja irregular.  Estão de acordo com o texto original.]

Em:  Kósmos, revista artística, científica e literária, Ano IV, número 5, Maio de 1907, Rio de Janeiro.





José Bonifácio de Andrada e Silva, texto de Gilberto Freyre

6 09 2011

José Bonifácio de Andrada e Silva

Oscar Pereira da Silva ( Brasil, 1867-1939)

Museu do Ipiranga, São Paulo

Ainda a propósito de José Bonifácio

Gilberto Freyre

O Serviço que José Bonifácio prestou ao Brasil, dando à independência da Colônia de Portugal um sentido de todo diferente das independências das colônias da Espanha, foi imenso.  Sua grandeza cresce com o tempo.

Haveria, o Brasil, tal como existe hoje, tão plural e tão uno, se no momento justo não tivesse agido, máscula e decisivamente, sutil, e quase femininamente, juntando a arte dos grandes políticos à firmeza de ânimo dos grandes homens, contra os radicais de sua época, contra os desvairados “nacionalistas” do seu tempo, contra os furiosos antieuropeus dos seus dias, esse brasileiro tão da sua Província, tão do seu burgo sem que tais apegos o impedissem de considerar o futuro nacional, considerando, em seu vasto conjunto, a nova pátria, por ele organizada?

Para assegurar-se a unidade desse conjunto, impunha-se a solução monárquica;  e o sagaz Andrada, mais desdenhoso do que ninguém, de títulos e de comendas, foi a solução porque se bateu.  Soube fugir à tentação das popularidades fáceis, entre os radicais mais ruidosos, que o cercavam: radicais então simplistamente republicanos, sem se aperceberem que o seu simplismo ideológico de imitadores dos vizinhos da já fragmentada América Espanhola, era para o perigo que nos conduzia: o da fragmentação.  O da desunião: brasileiros contra brasileiros.  O do separatismo: em vez de um Brasil só, vários Brasis Estados.  Uma América Portuguesa ainda mais dividida que a Espanhola em repúblicas inimigas umas das outras.

Houvesse educação cívica no Brasil de hoje, e o culto a José Bonifácio seria o maior culto nacional.  Pois deveria haver no Brasil um dia de J. Bonifácio tão civicamente significativo como o dia da Independência ou o dia da Bandeira.  Ou antes: o dia da Comemoração da  Independência deveria ser principalmente no Brasil o dia de José Bonifácio.

Não se compreende que a sua vida não esteja dramatizada num filme que ao valor artístico juntasse o cívico e através do qual crianças, adolescentes, adultos se inteirassem do que houve de mais expressivo nessa vida de autêntico grande homem, tão a serviço do Brasil.  Não se compreende que suas idéias, suas iniciativas, seus projetos inspirados num lúcido amor pela pátria que organizou sem repudiar Portugal, nem aguçar-se em detrator dos portugueses não sejam temas mais freqüentes para composições escolares, teses universitárias, ensaios que as universidades, as academias, os institutos consagrassem com seus melhores lauréis.  Tão pouco se compreende que o Itamarati deixe de projetar no estrangeiro figura tão completa de estadista, salientando-se, em publicações em várias línguas, ter sido o patriarca da Nação brasileira, como só depois dele o da República Chinesa, o da Tchecoslováquia, o da União Indiana, um homem de ciência, um humanista, um sábio, um “scholar”, embora, em dias difíceis, soldado.  Mas como homem público eminentemente civil.  Como homem público, a negação do caudilho.  Também a negação, do politiqueiro, do demagogo, do adulador, quer de ricos, quer de multidões com sacrifício da “sã política”.  Aquela “sã política” que só se sente comprometida com os grandes interesses gerais; nunca com os simplesmente privados ou de facção.

[Texto publicado originalmente no Jornal do Comércio (Recife) em 17/01/1965].

Em:  Pessoas, coisas e animais, Gilberto Freyre,  coletânea de Edson Nery da Fonseca, São Paulo, MPM Proganda: 1979.





Fitas Verdes na comemoração da Independência do Brasil

30 08 2011


Paço de São Cristóvão, 1817

Thomas Ender (Áustria, 1793-1875)

Laços de fitas

Viriato Corrêa

—  Fitas,  arranja-me fitas verdes para toda esta gente, disse D. Pedro jovialmente, tocando no braço de dona Leopoldina.

—  Vou buscá-las.

E, risonha, a princesa deixou o grande salão burburinhante, em caminho da alcova.

Naquela noite, de 14 de setembro de 1822, o palácio de São Cristóvão estava num pruido febril de festa e novidade.

Ao escurecer D. Pedro havia voltado de São Paulo e, como por milagre, a cidade inteira soube que o príncipe, nas colinas do Ipiranga, tinha dado o grito da Independência.

Aquilo estalara na cidade como uma bomba.  Os salões da Boa Vista encheram-se num momento.  Os grandes vultos da propaganda correram a ouvir do próprio imperador os pormenores do gesto emancipador.

D. Pedro, com uma alegria de rapaz e aquelas maneiras democratizadas que ele tinha nos seus momentos de júbilo, contava a sua grande revolta ao receber de Paulo Bregaro, o correio que José Bonifácio lhe enviara, as notícias das cortes de Lisboa:  o seu movimento imediato e espontâneo em arrancar do chapéu o tope português gritando “Independência ou Morte”; os transportes da comitiva ao ouvir o brado libertados; a marcha galopante para São Paulo; os delírios do povo paulista naquela mesma noite no teatro da Ópera; o hino que ele mesmo escrevera e que a platéia com ele cantara, alucinadamente; os vivas do padre Ildefonso Xavier, aclamando-o rei do Brasil, enfim, a sua viagem para o Rio, vitoriado por toda a parte.

Dona Maria Leopoldina de Áustria (Viena, 1797- Rio de Janeiro,  1826)

Primeira Imperatriz-consorte do Brasil, esposa de D. Pedro I

Rainha-consorte de Portugal

Arquiduquesa da Áustria

Née: Dona Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena

A fisionomia dos patriotas fulgurava.

José Bonifácio envolvia-o num olhar de ternura emocionada.  Gonçalves Ledo, nervoso, agitado movia eloquentemente o braço, a cada passagem vibrante da narrativa.  Frei Sampaio devorava-o com o olhar em fogo.  Cunha Barbosa esticava-se nas pontas dos pés, a mão ao pavilhão da orelha para ouvir melhor.  Nóbrega veio colocar-se mais perto para não perder uma palavra da narrativa.  José Clemente, calmo, com aquele ar de serenidade inalterável, de quando em quando, traía-se por um fulgor mais vivo nos olhos.  Não havia quem não sentisse naquele instante um grande fogo na alma.

A princesa voltou com as mãos cheias de fitas verdes.

D. Pedro tomou um dos laços da mão da esposa, oferecendo-o a José Bonifácio.

—  Foi a cor que escolhi para a bandeira – o verde.  Ponha o laço no braço.

Dona Leopoldina começou a distribuir as fitas.  Todos se curvaram respeitosamente.

Entre a figura serena da princesa e a figura vibrante do príncipe havia uma diferença profunda no desenrolar daquele movimento político de emancipação.  Dona Leopoldina era a amiga incondicional do Brasil.  Desde o primeiro momento da propaganda que ela se tinha colocado espontaneamente ao lado da Independência.  Enquanto D. Pedro, aquela sua cabeça de vento, ora bandeava para um lado, ora para o outro, ora cedendo às exigências de Avilez e da divisão portuguesa, ora tendo gestos imprevistos de simpatia pelos brasileiros, ela, com uma ternura religiosa pela paz em que lhe nasceram os filhos, esteve sempre ao lado da grande aspiração política do Brasil.

A vitória dos campos do Ipiranga era principalmente dela, da sua habilidade, da sua candura, do seu coração, em torcer o príncipe tão leviano e tão estouvado, para um feito tão alto.

Dom Pedro I, o Libertador do Brasil  ( Queluz, 1798 – Queluz, 1834)

Primeiro Imperador do Brasil

Pedro IV de Portugal

[Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon]

Pintura de Benedito Calixto ( Brasil, 1853-1927)

óleo sobre tela, 1902

Todos que ali estavam sabiam do papel que ela tivera.

A cena de quatorze dias atrás era conhecida nas suas minúcias.  O ministério de José Bonifácio tinha-se reunido para conhecer as exigências das Cortes de Lisboa.  Essas exigências eram tão prementes, que só um golpe de independência poderia resolvê-las.  O velho Andrada conclui pela separação definitiva do Brasil de Portugal e todos, inclusive a princesa, aplaudem a decisão.  É preciso mandar um emissário a D. Pedro, em São Paulo.  Paulo Bregaro  é chamado.  José Bonifácio entrega-lhe os papéis, recomendando:

—  Se não arrebentar uma dúzia de cavalos no caminho nunca mais será Correio; veja o que faz.

E, quando o oficial vai montado para partir, dona Leopoldina assoma as escadas de pedra do palácio, detendo-o com um gesto:

—  Falta ainda isto.

E, a sua carta, carta escrita pela sua própria mão, dirigida ao marido, aconselhando-o, pedindo-lhe que fizesse imediatamente a Independência do Brasil.

Os salões continuavam a encher.  A todo o momento carros paravam à escadaria do palácio.

A noite estava fria.  Chuviscava.  Pelas janelas via-se o clarão longínquo da cidade que começava a iluminar-se festivamente.

D. Pedro passeava pelo salão radiosamente.  Estava de uma alegria como nunca se tinha visto.  Ora passava o braço aos ombros de José Bonifácio, ora aos de Gonçalves Ledo, ora ia conversar com frei Sampaio, ora atender à reverência de um patriota que entrava.  Tinha-se a impressão de que ali não estava o príncipe que havia acabado de fundar um império, mas um homem como outro qualquer, um excelente camarada que se democratizava em abraços e rompantes festivos.

Paço de São Cristóvão, c. 1835-1840

Barão Karl Robert Planitz ( Alemanha, 1804- Brasil, 1847)

Gravura aquarelada

Nas salas agora, quase que ninguém se podia mover. D. Pedro lançou os olhos pelo salão em que se reuniam os vultos da propaganda e exclamou:

—  Mas nem todos têm o distintivo da Independência!

E, com a jovialidade dos seus vinte e quatro anos, voltou-se para a esposa num momento de intimidade encantadora:

—  Os laços foram poucos.  Não haverá mais fitas verdes no palácio?!

Dona Leopoldina sorriu.  Chegou-se-lhe até perto e disse-lhe baixinho aos ouvidos:

—  Não há.

Mas seguiu em rumo da alcova.  Abriu as gavetas do primeiro móvel, remexeu-as.  Não havia fitas.  Foi a outras gavetas, a mais outras, a mais outras.  As fitas que encontra não são da cor do distintivo.

E vai sair e fechar a porta quando os seus olhos se voltam para a sua larga cama estendida no quarto.  Os grandes travesseiros de cambraia estão enfeitados de fitas verdes.  Aproxima-se e nervosamente arranca as fitas uma por uma, pedaço a pedaço, sem deixar um só.

E entra no salão com uma alegria de criança, segurando a mão do marido:

—  Arranjei as fitas.

Há uma exclamação de contentamento em toda a sala.  Com um leve tom de rosa no rosto a princesa conclui:

—  Tirei-as dos travesseiros de minha cama.

No movimento instintivo toda a gente baixa respeitosamente a cabeça, numa reverência de profunda emoção.  Que alma maravilhosa tinha aquela mulher que amava tanto o Brasil a ponto de oligar candidamente à intimidade recatada dos travesseiros de sua cama!

Ninguém se sente com ânimo de merecer tão alta honra.  Há um ligeiro silêncio, uma ligeira indecisão.

Antonio Menezes de Vasconcelos Drummond avança um passo.  Dona Leopoldina oferece-lhe o laço de fita.  Ele beijou-o num respeito comovedor:

—  Obrigado, majestade! Era verdade.  Ninguém se havia lembrado que já não mais estava ali a arquiduquesa d’ Áustria e sim a soberana do Brasil.

E todos avançam.  Dona Leopoldina distribui as fitas.  A cada laço que entrega um beijo estala,  o beijo da ternura, o beijo da gratidão, a única e mais bela homenagem que aqueles patriotas podiam, naquele momento, prestar aquele imenso coração de mulher.

Em: Terras de Santa Cruz: contos e crônicas da história brasileira, Viriato Corrêa,  São Paulo, Civilização Brasileira: 1956.

 

Manuel Viriato Correia Baima do Lago Filho (Pirapemas, MA 1884 — Rio de Janeiro, RJ 1967) – Pseudônimos: Viriato Correia, Pequeno Polegar, Tibúrcio da Anunciação. Diplomado em direito, jornalista, contista, romancista, teatrólogo, autor de literatura infantil e crônicas históricas, professor de teatro, membro da ABL e político brasileiro.

 

Obras:

Minaretes, contos, 1903

Era uma vez…, infanto-juvenil, 1908

Contos do sertão, contos, 1912

Sertaneja, teatro, 1915

Manjerona, teatro, 1916

Morena, teatro, 1917

Sol do sertão, teatro, 1918

Juriti, teatro, 1919

O Mistério, teatro, 1920

Sapequinha, teatro, 1920

Novelas doidas, contos, 1921

Contos da história do Brasil, infanto-juvenil, 1921

Terra de Santa Cruz, crônica histórica, 1921

Histórias da nossa história,crônica histórica, 1921

Nossa gente, teatro, 1924

Zuzú, teatro, 1924

Uma noite de baile, infanto-juvenil,1926

Balaiada, romance, 1927

Brasil dos meus avós, crônica histórica, 1927

Baú velho, crônica histórica, 1927

Pequetita, teatro, 1927

Histórias ásperas, contos, 1928

Varinha de condão, infanto-juvenil, 1928

A Arca de Noé, infanto-juvenil, 1930

A descoberta do Brasil, infanto-juvenil,1930

A macacada, infanto-juvenil, 1931

Bombonzinho, teatro, 1931

Os meus bichinhos, infanto-juvenil, 1931

No reino da bicharada, infanto-juvenil, 1931

Quando Jesus nasceu, infanto-juvenil, 1931

Gaveta de sapateiro, crônica histórica, 1932

Sansão, teatro, 1932

Maria, teatro, 1933

Alcovas da história, crônica histórica, 1934

História do Brasil para crianças, infanto-juvenil, 1934

Mata galego, crônica histórica, 1934

Meu torrão, infanto-juvenil,1935

Bicho papão, teatro, 1936

Casa de Belchior, crônica histórica, 1936

O homem da cabeça de ouro, teatro, 1936

Bichos e bichinhos, infanto-juvenil, 1938

Carneiro de batalhão, teatro, 1938

Cazuza, infanto-juvenil, 1938

A Marquesa de Santos, teatro, 1938

No país da bicharada, infanto-juvenil, 1938

História de Caramuru, infanto-juvenil, 1939

O país do pau de tinta, crônica histórica, 1939

O caçador de esmeraldas, teatro, 1940

Rei de papelão, teatro, 1941

Pobre diabo, teatro, 1942

O príncipe encantador, teatro, 1943

O gato comeu, teatro, 1943

À sombra dos laranjais, teatro, 1944

A bandeira das esmeraldas, infanto-juvenil, 1945

Estão cantando as cigarras, teatro, 1945

Venha a nós, teatro, 1946

As belas histórias da História do Brasil, infanto-juvenil, 1948

Dinheiro é dinheiro, teatro, 1949

Curiosidades da história do Brasil, crônica histórica, 1955

O grande amor de Gonçalves Dias, teatro, 1959.

História da liberdade do Brasil, crônica histórica, 1962





Quadrinhas para crianças: Independência do Brasil — de Walter Nieble de Freitas

29 08 2011
Bandeira do Brasil em mosaico.

Quadrinhas para celebrar a Independência do Brasil

                                                 Walter Nieble de Freitas

A Pátria meus coleguinhas

É o recanto onde nascemos;

É a Família, o Lar, a Escola…

É a Terra onde vivemos!

Foi a Sete de Setembro

Que a nossa Terra Natal

Se libertou para sempre

Do jugo de Portugal!

Nas colinas do Ipiranga,

D. Pedro, o bravo Regente,

Transformou a nossa Terra

Num país independente!

Bandeira colorida, 2007

Zilando Freitas ( Brasil, contemporâneo)

tecido em nós,  100 x 140 cm

http://zilandofreitas.blogspot.com

O grande Pedro Primeiro

Com bravura sem igual,

Proclamou a Independência

De nossa Terra Natal.

Viva o Sete de Setembro!

Viva o povo brasileiro!

Viva a nossa Independência!

Viva D. Pedro Primeiro!

Foi “Independência ou Morte!”

O brado forte e altaneiro

Que libertou para sempre,

O meu Torrão Brasileiro.

Viva a Semana da Pátria!

Salve o povo brasileiro!

Viva a nossa a Independência!

Salve D. Pedro Primeiro!

Em: 1000 Quadrinhas escolares, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Difusora Cultural:1965.