A boa literatura: Raphael Montes

22 10 2015

 

 

Wiggins, Toby, Natalie-Reading-50-x-40-cm-20-x-16-inches-oil-on-canvasNatalie lendo

Toby Wiggins (GB, contemporâneo)

óleo sobre tela, 80 x 50 cm

Coleção Particular

www.tobywiggins.co.uk

 

 

A boa literatura investiga a alma humana e seus desejos mais recônditos.”

 

Raphael Montes

 

Em: “Escritores jovens”, Raphael Montes, O Globo, 21/10/2015, 2º caderno, página 8.





Berço, poesia de Stella Leonardos

7 07 2015

 

vintage.baby.02

 

Berço

 

Stella Leonardos

 

 

Foi vime que nasce à toa

Debruçado na lagoa,

Colhido de manhã cedo.

Já viu garça azul que voa,

Já viu rastro de canoa,

Já escutou vento e arvoredo.

Por isso a fragrância boa,

Esse cheiro de segredo.

 

 

Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p.11





Escritores, o público e o marketing

11 05 2015

 

 

Ernest-Hemingway-001O escritor Ernest Hemingway.

 

Hemingway gostava de se fazer fotografar não só em tronco nu, mas em tronco nu e ao lado de mulheres bonitas. Teve muitas. Perdeu para o dramaturgo Arthur Miller, que sem nunca se ter deixado fotografar em tronco nu casou com Marilyn Monroe. Quer Hemingway quer Miller tiveram uma intensa vida mundana e sentimental, mas ficaram ambos atrás, mesmo muito atrás, de Truman Capote. Capote era tão frívolo que inclusive se vangloriava disso.

 

Essa citação vem de uma divertida coluna de José Eduardo Agualusa sobre o que esperamos dos nossos escritores.  Vale a pena os cinco minutos dedicados à leitura:

 

Escritores Pelados, José Eduardo Agualusa, O Globo, 11/05/2015, 2º caderno, página 2.  Clique AQUI





As doces rosas-dos-ventos, poesia de Stella Leonardos

1 05 2015

 

 

vendedor-de-cataventos, sérgio bastosVendedor de cataventos, Sérgio Bastos.

 

 

As doces rosas-dos-ventos

 

Stella Leonardos

 

 

— Onde estás, vendedor de pirulitos,

Fazedor das ventoinhas de papel?

Daqueles cataventos tão bonitos?

Daquelas gostosuras cor de mel?

Tu que adoças as ruas com teus gritos

E que marcas os ventos nas calçadas:

Me dá de novo os sonhos infinitos

Das tuas rosas que são quase aladas!

— Queres minhas ventoinhas? Há-de tê-las.

Criança grande! Por que te agradam tanto?

— Não são ventoinhas: são almas de estrelas

De um céu ingênuo que foi céu de encanto.

 

 

Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p.79





Imagem de leitura — Théo Van Rysselberghe

28 04 2015

 

 

GideetcieA reunião [A reunião literária], 1903

Théo Van Rysselberghe (Bélgica, 1862-1926)

óleo sobre tela

Museum voor Schone Kunsten – Ghent, Bélgica

 

O escritor André Gide com a cabeça apoiada na mão direita, ouve a leitura, à direita.

Émile Verhaeren, em sua própria casa em Saint-Cloud, lê  Felix Le Dantec.

Francis Vielé-Griffin, Henri-Edmond Cross também presentes.

Maurice Maeterlinck com os braços cruzados sobre o espaldar da cadeira onde Gide está sentado.

Félix Fénéon de pé em frente à lareira.

Henri Ghéon e Stuart Merrill

 





10 regras para o escritor, por Zadie Smith

27 01 2015

 

ournal des Dames et des Modes (1811).Ilustração do Journal des Dames et des Modes, 1811 (França)

 

Zadie Smith, autora de  Sobre a Beleza, tem 10 conselhos para quem deseja ser escritor:

 

1 – Ainda criança trate de ler muitos livros. Passe mais tempo fazendo isso do que qualquer outra atividade.

2 – Já adulto, tente ler seu próprio trabalho como uma pessoa estranha o faria, ou melhor, como faria o seu inimigo.

3 – Não romantize a sua vocação.Você ou escreve bem, boas frases, ou não escreve. Não há isso de estilo de vida de escritor.  O que importa é o que você deixa escrito no papel.

4 – Evite seus pontos fracos.  Mas não se convença de que o que você não consegue fazer não vale a pena fazer.  Não esconda as dúvidas que você tem sobre sua própria capacidade com a máscara do desprezo.

5 – Deixe um bom tempo entre escrever alguma coisa e editá-la.

6 – Evite grupinhos, turmas e bandos. A presença de um grupo não irá fazer a sua escrita melhor do que ela é.

7 – Trabalhe em um computador que não esteja ligado à internet.

8 – Proteja o tempo e o espaço em que você escreve. Mantenha todo mundo do lado de fora, até mesmo as pessoas que lhe são mais caras.

9 – Não confunda honrarias com realizações.

10 – Fale a verdade através de qualquer uma das roupagens com que ela venha, mas diga a verdade. Resigne-se à tristeza pela vida inteira, por do não estar nunca satisfeito.

 

The Guardian





Generosidade, poesia de Cyra de Queiroz Barbosa

10 09 2014

 

 

gb_panneau aPanneau decorativo, 1921

Guttmann Bicho (Brasil, 1888-1955)

óleo sobre tela, 153 x 148 cm

MNBA — Museu Nacional de Belas Artes, RJ

 

 

Generosidade

 

Cyra de Queiroz Barbosa

 

à tia Nida

 

Os gatos da vizinhança

faminto, órfãos, pelados,

achavam pouso e aconchego

junto dela em nossa casa,

Mimoso, Dina, Miquito,

tantos outros — nem me lembro!

Ah! tinha a gata Pretinha

que lhe dava tão fecunda

cada vez ninhada inteira.

 

Era leite no pratinho

ou dado na mamadeira.

Enroscavam-se na colcha

de retalhos costurados,

cresciam e para ela

de miau! Miau! Miau!

serenata era cantada.

 

Não só de gatos gostava

a boa titia Nida.

Seus sobrinhos eram seus filhos

e mais outro de outro sangue

em amor reconheceu.

Por eles se abriu em risos

por eles muito sofreu.

Nada pedindo ou cobrando,

generosamente dando

a vida — tudo o que tinha —

para quem nem era seu.

 

 

Em: Moenda: painéis e poemas interiorizados, Cyra de Queiroz Barbosa, Rio de Janeiro, Rocco:1980, pp. 49-50





Cantiga, poema de Jair Amorim

6 09 2014

 

moça com sombrinha, Neysa McMein,AmericanMagazine 1925-08Moça com sombrinha, Ilustração de Neysa McMein, American Magazine, Agosto de 1925 [DETALHE].

 

 

Cantiga

 

Jair Amorim

 

Pensamento, pensamento,

mais veloz que um pé de vento

mais sonhador que um detento

mais duro que um sofrimento

mais forte que um juramento

mais feroz e violento

que o pranto de um sentimento.

Pensamento, pensamento,

cadê forças, onde o alento,

para tirar um momento

a amada do pensamento?

 

Em Canto Magro, Jair Amorim, EFES: 1995 (?), p. 41

 

 

Jair Pedrinha de Carvalho Amorim (ES 1915 – SP 1993) poeta, compositor e jornalista.





O escritor-fantasma ou o “ghost-writer” em foco

1 08 2014
???????????????????????????????Ilustração de Maurício de Sousa.

 

Uma entrevista no The Guardian da semana revela que um dos escritores-fantasmas mais bem sucedidos  na Inglaterra está lançando um livro onde promete contar detalhes da carreira, no livro Confessions of a Ghost Writer.  Andrew Crofts menciona que muitos dos livros que frequentam as listas dos Mais Vendidos em qualquer país são em boa parte escritos por escritores-fantasmas, ou para quem quer usar a expressão inglesa, ghost writer. Também faz revelações sobre os contratos de pagamentos mencionando que um profissional bem sucedido pode esperar até 33% do valor de adiantamento de um livro a ser publicado, mais royalties.  Mas que todos os contratos são negociáveis e que em períodos de recessão econômica um escritor pode até aceitar a módica quantia de 10% do adiantamento de um livro,

O livro promete ser interessante porque cada vez mais esses escritores são usados principalmente por indivíduos de sucesso em profissões que nada tem a ver com a escrita e que gostariam de escrever memórias, manuais ou até mesmo livros de autoajuda.

Além disso, ouvi dizer recentemente,que muitos dos autores extremamente populares, de ficção, desses que vendem milhões de exemplares a cada título publicado de uma vez por ano tem verdadeiras “fábricas” de livros, com escritores contratados que produzem as histórias a partir de um roteiro que lhes é entregue.   Vou esperar para ler o livro, mas achei essas informações já bastante reveladoras do que pode vir por aí.





A mochila, poesia de Reynaldo Valinho Alvarez

30 06 2014

 

 

elizabeth beckerIlustração de Elizabeth Becker.

 

 

A mochila

Reynaldo Valinho Alvarez

 

Carrego na mochila, entre outros trastes,

três ou quatro verdades importantes.

O resto é de mentiras. São contrastes

que entrego às outras partes contrastantes.

A lira não me vale. São desastres

o que encontro nos outros caminhantes.

Na terra devastada, erguem-se as hastes

das lanças e dos canos fumegantes.

A mochila me pesa. As três verdades

ou quatro, já não sei, não pesam tanto,

mude-se o tempo e mudem-se as vontades.

O que me dói ou pesa, ou o que é um espanto

é que um modesto grama de inverdades

valha um tonel de torpe desengano.

 

 

Em: Galope do tempo, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro: 1997, p. 55