Pralapracá, poesia de Cassiano Ricardo, uso escolar

30 03 2012

Desconheço a autoria dessa ilustração.

Pralapracá

Cassiano Ricardo

E começa a longa história

do navio que ia e vinha

pela estrada azul do Atlântico:

Ia, levando pau-brasil

e homens cor da manhã, filhos do mato,

cheios de sol e de inocência;

vinha trazendo delegados…

Ia, levando uma esperança;

vinha trazendo foragidos de outras pátrias

para a ilha da Bem-aventurança.

Ia levando um grito de surpresa;

————- da terra criança;

e vinha abarrotado de saudade

————–portuguesa…

Em: Martim Cererê de Cassiano Ricardo, Rio de Janeiro, José Olympio: 1974

Cassiano Ricardo Leite (São José dos Campos, 26 de julho de 1895 — Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1974) foi um jornalista, poeta e ensaísta brasileiro.

Obras:

Dentro da noite, poesia, 1915

A flauta de Pã, poesia, 1917

Jardim das Hespérides, poesia, 1920

Atalanta, poesia, 1923

A mentirosa de olhos verdes, poesia, 1924

Borrões de verde e amarelo, poesia, 1925

Vamos caçar papagaios, 1926

Martim Cererê, poesia, 1928

Canções da minha ternura, poesia, 1930

Deixa estar, jacaré, poesia, 1931

O Brasil no original,  crítica, teoria e história literárias, 1937

O Negro na Bandeira, crítica, teoria e história literárias, 1938

Pedro Luís: visto pelos modernos, crítica, teoria e história literárias, 1939

Academia e a poesia moderna, crítica, teoria e história literárias, 1939

Marcha para Oeste, crítica, teoria e história literárias, 1942  

O sangue das horas, poesia, 1943

Paulo Setúbal, o poeta,  crítica, teoria e história literárias,  1943

A academia e a língua brasileira, crítica, teoria e história literárias, 1943

Um dia depois do outro (1944-1946),  poesia 1947

Poemas murais, 1947-1948, poesia, 1950

A face perdida, poesia, 1950

Vinte e cinco sonetos, poesia, 1952

Poesia na técnica do romance, crítica, teoria e história literárias, 1953

O Tratado de Petrópolis, crítica, teoria e história literárias, 1954

Meu caminho até ontem, poesia, 1955

O arranha-céu de vidro, poesia, 1956

João Torto e a fábula : 1951-1953, poesia 1956

Pequeno Ensaio de Bandeirologia, crítica, teoria e história literárias, 1956

Poesias completas, poesias,  1957

Poesia, poesia,  1959

Martins Fontes, 1959

Homem Cordial, crítica, teoria e história literárias,  1959

Montanha russa, poesia, 1960

A difícil manhã, poesia, 1960

O Indianismo de Gonçalves Dias, 1964

A floresta e a agricultura, crítica, teoria e história literárias, 1964

Algumas Reflexôes Sobre Poética de Vanguarda, 1964

Poesia praxis e 22, crítica, teoria e história literárias, 1966

Jeremias sem-chorar (1964)

Viagem no tempo e no espaço (Memórias) poesia, 1970

Serenata sintética, poesia XX

Sobreviventes, mais um poema Circunstancial , poesia, 1971

Seleta em Prosa e Verso, miscelânea, 1972

Sabiá e sintaxe, crítica, teoria e história literárias,  1974

Invenção de Orfeu (e outros pequenos estudos sobre poesia), poesia, 1974





Quadrinha do cuidado na rua

29 03 2012

Minie e Clarbela atravessam a rua, ilustração de Walt Disney.

A segurança no trânsito,

Sabem todos muito bem,

Não só cabe aos motoristas,

Cabe aos pedestres também.

(Walter Nieble de Freitas)





Poesia infantil: Tempestade, de Henriqueta Lisboa

19 03 2012

Ilustração Magret Boriss.

Tempestade

Henriqueta Lisboa

— Menino, vem para dentro,

Olha a chuva lá na serra,

Olha como vem o vento!

—  Ah! Como a chuva é bonita

E como o vento é valente!

—  Não sejas doido, menino,

Esse vento te carrega,

Essa chuva te derrete!

— Eu não sou feito de açúcar

Para derreter na chuva.

Eu tenho força nas pernas

Para lutar contra o vento!

E enquanto o vento soprava

E enquanto a chuva caía,

Que nem um pinto molhado,

Teimoso como ele só:

— Gosto de chuva com vento,

Gosto de vento com chuva!

Henriqueta Lisboa (MG 1901- MG 1985), poeta mineira. Escritora, ensaísta,  tradutora professora de literatura,  Com Enternecimento (1929), recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras.  Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.

Obras:

Fogo-fátuo (1925)

Enternecimento (1929)

Velário (1936)

Prisioneira da noite (1941)

O menino poeta (1943)

A face lívida (1945) — à memória de Mário de Andrade, falecido nesse ano

Flor da morte (1949)

Madrinha Lua (1952)

Azul profundo (1955);

Lírica (1958)

Montanha viva (1959)

Além da imagem (1963)

Nova Lírica ((1971)

Belo Horizonte bem querer (1972)

O alvo humano (1973)

Reverberações (1976)

Miradouro e outros poemas (1976)

Celebração dos elementos: água, ar, fogo, terra (1977)

Pousada do ser (1982)

Poesia Geral (1985), reunião de poemas selecionados pela autora do conjunto de toda a obra, publicada uma semana após o seu falecimento.





Poesia infantil: Lengalenga do Vento — Maria Alberta Menéres

14 03 2012

Lengalenga do Vento
 

Maria Alberta Menéres

 –

Andava o senhor vento

um dia pelo mar

encontrou um barquinho:

– Senhor vento, que força!

Olhe que me vai afundar!

 –

Andava o senhor vento

correndo pelo pinhal

quando ouviu um cuco:

– Senhor vento, que força!

Não me faça mal…

 –

Andava o senhor vento

soprando sobre o rio

encontrou uma gaivota:

– Senhor vento, que força!

Faz-me tanto frio!

 –

Andava o senhor vento

a deslizar sobre a neve

quando ouviu um floco:

– Senhor vento, que força!

Sinto-me tão leve!

 –

Andava o senhor vento

passeando no mês de Maio

quando ouviu um menino:

– Senhor vento, que bom!

Lá vai o meu papagaio!

 –

Maria Alberta Rovisco Garcia Menéres de Melo e Castro (Portugal, 1930)  nasceu na cidade de Vila Nova de Gaia.  É professora, jornalista e escritora.  Sua obra inclui poesia, contos,  hisstórias em quadrinhos,  teatro, novelas, e adaptação de clássicos da literatura.

Obras

Ficção

O Poeta Faz-se aos 10 Anos, 1973

A canção do vento, 1975

Hoje há Palhaços , 1977

Primeira Aventura no País do João, 1977

À Beira do Lago dos Encantos, 1995

Intervalo, 1952

Cântico de Barro, 1954

A Palavra Imperceptível, 1955

Oração de Páscoa, 1958

Água – Memória, 1960

Os poemas Escolhidos, s/d

A Pegada do Yeti, 1962

Poemas Escolhidos, 1962

Os Mosquitos de Suburna, 1967

Conversas em Versos , 1968

O poema O disse ao poema, 1974

O Robot Sensível, 1978

Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, 1982

Semana sim,semana não,semana pumbas,1998

Clarinete

Figuras Figuronas, 1969

A Pedra Azul da Imaginação, 1975

A Chave Verde ou os Meus Irmãos, 1977

Semana Sim, Semana Sim, 1979

O Que É Que aconteceu na Terra dos Procópios, 1980

Um Peixe no Ar, 1980

O Trintão Centenário, 1984

Dez Dedos Dez Segredos, 1985

À Beira do Lago dos Encantos, 1988

Quem faz hoje anos, 1988)

Colecção “1001 Detectives– 15 volumes (em colaboração com Natércia Rocha e Carlos Correia), entre 1987/92

Sigam a Borboleta, 1996

100 Histórias de Todos os Tempos, 2003

Passinhos de Mariana, Edições Asa, 2004

“Camões, o Super Herói da Língua Portuguesa” 2010

Outra vez não!





Quadrinha infantil da primeira refeição

13 03 2012

Frutas da estação, ilustração Maurício de Sousa.

Todo dia de manhã,

Na primeira refeição,

Você deve comer sempre

Uma fruta da estação.

(Walter Nieble de Freitas)





A rua onde eu morava, texto de José Carlos Serrano Freire — uso escolar

13 03 2012

A rua onde eu morava

A rua onde eu morava era muito alegre!

Era tão alegre que só consigo me lembrar dos dias de muito sol e noites enluaradas. Acho que não chovia naquela época.

Mas também acho que são sempre assim as ruas das crianças.

Todo mundo se conhecia, todo mundo era amigo. Às vezes nós brigávamos, mas logo logo fazíamos as pazes.  Criança é assim mesmo, não tem tempo para ficar com raiva.

Nossas brigas eram sempre por motivos nobres: alguém palmeou a mais no jogo de bola de gude; bateu com muita força na hora do pega-ladrão; não quis ficar colado na hora de pegar a bandeirinha e outras coisas dessa gravidade.

Minha rua era muito feliz, porque nós não sabíamos perceber a infelicidade.

Era sempre festa. Os amigos estavam sempre juntos. Tinha o Zezinho, o garoto rico da rua, filho da dona Olga, uma portuguesa durona; tinha a Lucinha, que todo mundo queria namorar.  Tinha o Manteiga, o Saião, o Manel Gordo (era assim mesmo, ninguém conseguia chamá-lo de Manoel), tinha o Boca de Sapo e o Meleca, entre outros. Que turma!

Na minha rua era sempre época de alguma coisa.

Tinha a época de soltar pipas, de manjar balão, de rodar pião, de jogar bola ou búrica, de roubar goiaba. De futebol não, era sempre época.

Em frente da casa onde eu morava tinha um pé de manacá, que é um arbusto sempre florido e muito perfumado.  De tanto vovó falar que gostava dele, sempre que vejo um pé de manacá, eu lembro da vovó.

Na hora de manjar balão, tinha sempre um engraçadinho para contar uma história de lobisomem ou de mula-sem-cabeça.  Era terrível.

Engraçado, agora apercebo, parece que não se fala mais em lobisomem ou mula-sem-cabeça.  Será que eles também acabaram?

Quase no final da minha rua, tinha um morro onde, lá em cima tem, até hoje, a igreja de Santa Catarina.

Nós costumávamos subir até certa altura, levando um pneu. Chegando lá, um de nós se acomodava dentro do pneu e os outros empurravam ladeira abaixo.  Ah!  não tinha coisa melhor. Você rodava, rodava, rodava e chegava lá embaixo tonto, tonto e quase vomitando.

Certo dia, o Manel Gordo resolveu experimentar a brincadeira.  Todos nós empurramos o gordo pra dentro do pneu e… lá foi ele. A barriga do Manel parece que esparramava para os lados do pneu e ele esticava os braços pedindo para parar. Não tinha jeito. Só conseguiu parar dentro de uma poça de lama. Rapidinho alguém acabou com a nossa brincadeira.

Tenho muitas histórias da minha rua para contar.  Só não tenho quem queira ouvir.  Ninguém tem tempo. É uma pena, porque a minha rua tinha muitas histórias interessantes.

Tomara que os adultos deixem as crianças de hoje construírem ruas felizes também.

Em: Cheiro de Manacá, José Carlos Serrano Freire, Rio de Janeiro, Editora Caetés: 1998

José Carlos Serrano Freire (Brasil) Professor, Bacharel em Direito, Trainer em Programação Neurolinguística, palestrante, escritor, Diretor do Instituto Prof Serrano Freire.

Obras:

Afinal… Por que os nossos alunos não aprendem

Seja o professor que você gostaria de ter

Sou professor, 2002

Como não matar seu cliente de raiva, 2008

Feliz vida nova, 2001

Cheiro de Manacá, 1998

Um anjo em minha vida

Meu amigo Paulinho, 2003

Os amigos do Paulinho

A rua onde eu morava, 2004

A arte de falar em público





O lobisomem, texto de Gustavo Barroso

9 03 2012

O lobisomem

Gustavo Barroso

Uma das crenças mais corriqueiras dos nossos sertões é, certamente, a dos lobisomens. Raro é o homem do nosso campo, maximé nas regiões do Nordeste, que piamente não acredita nas façanhas dos lobisomens.

Na sua opinião, todos os homens muito pálidos, opilados, que eles chamam de “amarelos”, “empambados” ou “comelonges”, transformam-se em lobisomens nas noites de quinta para sexta-feira.  Para esse efeito, viram a roupa às avessas, espojam-se sobre o estrume de qualquer cavalo ou no lugar em que este espojou.  Crescem-lhe logo as orelhas, que caem sobre os ombros e se agitam como asas de morcegos. A cara torna-se horrível, meia de lobo, meia de gente. E os infelizes saem correndo pelas estradas, loucamente, a rosnar, cumprindo o seu fado.

Contam no sertão cearense que uma mulher era casada com um homem “amarelão” e ia uma feita de viagem com ele, a pé, por um lugar deserto. Era noite de quinta para sexta-feira e fazia luar. Estavam hospedados debaixo de uma árvore, onde tinham pendurado as redes. Alta noite, ela, acordando, viu o esposo levantar-se e entrar no mato. Pensou que ele fosse a qualquer necessidade e não ligou importância ao fato. Tornou a adormecer. Acordou com o barulho que em torno fazia uma fera e viu, horrorizada, o monstro meio lobo, meio gente, que avançou para ela e lhe dilacerou furiosamente o xale de lã vermelha com que se cobria. Gritou, apavorada, pelo marido, que custou muito a aparecer.  O tal monstro, felizmente, fugiu ao seu primeiro grito.

O esposo disse não acreditar na história e que tudo não passara de um sonho. Entretanto, ao outro dia, chegando em casa, o homem dormia a sesta. Ela olhou-o uma vez, ao passar junto da sua rede.  Estava de boca aberta e entre os dentes havia fiapos de lã vermelha do seu xale. Fora ele o lobisomem.

Em: Criança Brasileira: admissão e 5ª série, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1949.

Vocabulário:

Corriqueiras – comuns; habituais

Maximé – principalmente

Piamente – ingenuamente

Espojam-se – lançam-se; rebolam-se

Estrume – esterco, dejeções

Feita – ocasião, vez

Gustavo Dodt Barroso (Fortaleza, CE, 1888 — Rio de Janeiro, RJ, 1959) Advogado, professor, político, contista, folclorista, cronista, ensaísta e romancista. Membro da Acadêmia Brasileira de Letras.





As fabulosas ilustrações em silhueta, da série “Vamos Estudar?”

7 03 2012

Menina na cozinha com bandeja para o chá.

Os livros escolares de Theobaldo Miranda Santos, que foram usados por muitas das escolas primárias brasileiras nas décadas de 1940, 50 e 60, publicados pela editora Agir, têm, de vez em quando, algumas das mais deliciosas ilustrações em silhueta, como o exemplo acima de uma menina na cozinha.  Não me lembro de ter estudado nos livros desse autor, apesar deles terem algumas facetas que me são extremamente familiares, principalmente a divisão de cada capítulo, com exercícios e pequenos parágrafos que eram usados como ditado.  Minha memória sobre textos escolares que usei na escola municipal é muito vaga, só me lembro mesmo com uma antologia de textos literários. Mas como tenho um grande número dos livros de Theobaldo Miranda Santos, posso me deliciar com essas ilustrações e gostaria de dividir esse prazer com vocês.  Talvez elas venham a acender uma fagulha de boas recordações para quem estudou com elas.

Na venda, na quitanda, no armazém…  Menina fazendo compras.

Em nenhum, absolutamente nenhum dos volumes de Vamos estudar?  — quer seja a edição para o estado do Rio de Janeiro, quer seja para o Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais, tenho livros para cada um desses estados  — em lugar algum há a indicação de autoria dessas ilustrações quadradinhas, de crianças em ação.  Já revirei a internet à cata de informações sobre sua autoria e ainda não achei nada.  Sei de uma coisa, no entanto, são americanas. Isso é simples de decidir, afinal de contas há em uma dessas tetéias a representação de uma vidraça quebrada próxima a um menino com o uniforme e o bastão de basebol.

Menino com uniforme de basebol e bastão.

Todas elas aparecem sem texto de referência, sem título e acredito que tivessem sido usadas para exercícios de redação, ora de narração, ora de descrição.  Coletei simplesmente nove dessas ilustrações que apareceram através das diversas séries primárias, às vezes em tamanho grande, às vezes do tamanho de um selo, preenchendo espaço.

Menino no balanço com cachorrinho.

Vez por outra elas aparecem com uma moldura negra bem grossa, ou aparecem como essa aí em cima sem qualquer moldura.  Mas parecem ser todas da mesma autoria.  Pelas características do desenho elas me parecem ter sido feitas nos anos da década de 1930.

Menino brincando com gatinho, jogando bola.

Essas ilustrações mostram crianças em atividades que poderiam ser aplicadas a qualquer criança na época.  Brincar com o gato, andar de balanço, fazer uma compra para a mamãe, estudar, ler com a família, fazer um piquenique.

Reunião com a família.

Acredito que a editora tenha comprado um grupo de 9 ou até 10 ilustrações diferentes com todos os direitos e as tenha espalhado nos livros escolares mais ou menos umas 5 ou 6 por livro.  Não eram as únicas ilustrações dos livros dessa série.  Muito pelo contrário.  Esses livros eram preenchidos com bons textos e muitas, muitas ilustrações em geral tendo a ver com a lição em questão.  Mas essas se destacam.

Menino estudando na escola.

Gosto muito do detalhe do aquário na janela.  Isso me lembra das nossas plantinhas que tínhamos que manter viva.  Espero que os peixinhos das escolas americanas tenham tido mais sorte do que os nossos feijões crescendo no algodão tiveram.  Mas reparem bem as roupas, isso é década de 1920-30.

Mãe e menino fazendo um piquenique.

Quem souber onde achar informações sobre essas ilustrações eu adoraria saber.  Só mesmo por uma questão de curiosidade.  Afinal tenho certeza de que aqui mesmo, entre os visitantes desse blog, há de haver muita gente que se lembra dessas imagens.  Muitos devem ter crescido com elas.  Vamos descobrir?





A raposa furta e a onça paga, fábula brasileira, texto de Câmara Cascudo

5 03 2012

Ilustração de uma outra fábula da coletânea de Perry.

A raposa furta e a onça paga

A raposa viu que vinha vindo um cavalo carregado com cabaças cheias de mel de abelhas.  Mais que depressa deitou-se no meio da estrada, fingindo-se de morta.  O tangerino parou e achou o bicho muito bonito.  Não tendo tempo de esfolar, para aproveitar o pelo, sacudiu a raposa no meio da carga e seguiu viagem.  Vai a raposa e se farta de mel, pulando depois para o chão e ganhou o mato.  O homem ficou furioso mas não viu mais nem a sombra da raposa.

Dias depois a raposa encontrou a onça que a achou gorda e lustrosa.  Perguntou se ela descobrira algum galinheiro.

— Qual galinheiro, camarada onça, minha gordura é de mel de abelha que dá força e coragem.

— Onde você encontrou tanto mel?

— Ora, nas cargas dos camboeiros que passam pela estrada.

— Quer me levar, camarada raposa?

— Com todo gosto.  Vamos indo…

Levou a onça para a estrada, depois de muita volta, e ensinou a conversa.  A onça deitou-se e ficou estirada, dura, fazendo que estava morta.  Quando o comboeiro avistou aquele bichão estendido na areia, ficou com os cabelos em pé e puxou logo pela sua garrucha.  Não vendo a onça bulir, aproximou-se, cutucou-a com o cabo do chicote e gritou para os companheiros:

— Eh lá!  Uma onça morta!  Vamos tirar o couro.

Meteram a faca com vontade na onça que, meio esfolada, ganhou os matos, doida de raiva com a arteirice da raposa.

Em: Contos tradicionais do Brasil (folclore), Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Edições de Ouro: 1967

——-

Como Câmara Cascudo lembra essa fábula é muito conhecida na Europa, tanto na península ibérica como no norte da Europa, como na Rússia.  A versão mais popular no entanto é da raposa e do lobo.  A raposa faz o mesmo, finge-se de morta e é jogada numa carroça de peixes.  Farta-se com os peixes…  Daí por diante segue exatamente igual só que no lugar da onça brasileira, temos o lobo, que imita as ações da raposa e se dá mal.





Pássaro livre, poesia infantil de Sidónio Muralha

7 02 2012

Pássaro livre 

Sidónio Muralha

Gaiola aberta.

Aberta a janela.

O pássaro desperta.

A vida é bela.

A vida é boa.

Voa, pássaro, voa.

 –

Em:  A dança dos picapaus, Sidonio Muralha, Nórdica: 1985, Rio de Janeiro.

Sidónio Muralha nasceu em Lisboa, em 1920.  Faleceu no Brasil em 1982.