Silêncio, José Saramago

21 06 2025
Não conheço a autoria dessa imagem.  Só há uma fonte na internet para ela.  Reproduzida muitas vezes.  Não confio. Tenho a impressão de que é feita por IA, ainda que alguns atribuam a um pintor do final do século XIX.  Nem vou mencionar seu nome para evitar que um rumor se propague.  Totalmente fora de seu estilo.   É no entanto uma interessante superimposição ao texto que segue. Serve também para alertar a todos vocês que aqui aparecem que há horas em que temos que confiar nos nossos instintos. 

 

“O som do relógio, que expulsara o silêncio, morria em vibrações cada vez mais ténues e distantes. Depois de apagar todas as luzes, Justina foi sentar-se numa cadeira, perto da janela que dava para a rua. Gostava de ali estar, imóvel, desocupada, as mãos abandonadas no regaço, os olhos abertos para a escuridão, à espera nem ela sabia de quê. A seus pés veio enroscar-se o gato, seu único companheiro de serões. Era um animal tranquilo, de olhos interrogadores e andar sinuoso, que parecia ter perdido a faculdade de miar. Aprendera com a dona o silêncio e, como ela, a ele se abandonava.”

 

 

Em: Claraboia, José Saramago, Cia das Letras.  Original de 1953, publicação póstuma em nova edição. 

 





Árvores: texto de Peter Wohlleben

20 06 2025

Ilustração gerada por IA.

“Uma árvore normal estende seus galhos até alcançar a altura da ponta dos galhos de uma vizinha do mesmo tamanho. Não vai além disso porque o espaço (e o local de melhor incidência de luz) já está ocupado. Depois fortalece os galhos que expandiu, e a impressão é de que existe uma verdadeira briga lá em cima. No entanto, desde o início, um par de árvores amigas de verdade cuida para que nenhum galho grosso demais se estenda na direção da outra. Elas não desejam tirar nada uma da outra, por isso só engrossam os galhos e os esticam na direção das “não amigas”. Esses pares de árvores mantêm uma ligação tão íntima pelas raízes que às vezes até morrem juntos.”

Em: A vida secreta das árvores, Peter Wohlleben, tradução de Patê Risssatti, Rio de Janeiro, Sextante: 2017





Um livro de impacto: J. D. Salinger

18 06 2025

Orgulho, 1977-78

Jack Beal (EUA, 1931-2013)

pastel on placa artística,101 x 81cm

 

 

“O que verdadeiramente tira o meu fôlego é um livro que, quando você termina de ler, deseja que o autor que o escreveu fosse seu grande amigo e que você pudesse chamá-lo ao telefone, a qualquer hora que desejasse.”

J. D. Salinger, O apanhador no campo de centeio

Tradução: Ladyce West




O tempo (t) uma questão de inadequação da linguagem… texto de Carlo Rovelli

17 06 2025
Chico Bento na escola, ilustração de Maurício de Sousa.

 

 

“… o que “é real”? O que “existe”? A resposta é que essa é uma pergunta mal formulada, quer dizer tudo e nada. Porque o adjetivo “real” é ambíguo, tem uma infinidade de significados. O verbo “existir” tem ainda mais. À pergunta: “Existe um boneco cujo nariz cresce quando conta mentiras?”, pode-se responder: “Claro que existe! É o Pinóquio!”; ou então: “Não, não existe, é apenas uma fábula inventada por Collodi”. As duas respostas estão corretas, porque usam o verbo “existir” com significados diferentes. Há tantas maneiras de se dizer que uma coisa existe: uma lei, uma pedra, uma nação, uma guerra, um personagem de uma comédia, um deus de uma religião a qual não professamos, o deus de uma religião em que acreditamos, um grande amor, um número… cada um desses entes “existe” e “é real” num sentido diferente do outro. Podemos nos perguntar em que sentido algo existe ou não (Pinóquio existe como personagem literário, não no registro civil italiano), ou se uma coisa existe num sentido determinado (existe uma regra que proíbe fazer roque no jogo de xadrez depois de mover a torre?). Perguntar-se “o que existe?” ou “o que é real?” em geral significa apenas se perguntar como queremos usar um verbo e um adjetivo.6 É uma questão gramatical, não sobre a natureza.”

 

Em: A ordem do tempo, Carlo Rovelli, tradução de Silvana Cobucci, Ed. Objetiva: 2018





Palavras para lembrar: C. S. Lewis

14 06 2025

Bailarina com tutu, lendo

Louise Amélie Landré (França, 1852- 1934)

óleo sobre tela, 37 X 53 cm

 

 

“Você nunca conseguirá me dar uma xícara de chá grande bastante ou um livro longo suficiente para me agradar.”

 

C. S. Lewis

 





“Nada nos satisfaz”, Michel de Montaigne

7 06 2025
DETALHE  (veja tela inteira abaixo)

Emina, lembranças do Oriente

Louis-Emile Pinel de Grandchamp (França, 1831-1894)

óleo sobre tela 

 

 

Nada nos satisfaz

 

Michel de Montaigne

 

Se ocasionalmente nos ocupássemos em nos exa­minar, e o tempo que gastamos para controlar os outros e para saber das coisas que estão fora de nós o empregás­semos em nos sondar a nós mesmos, facilmente sentiríamos o quanto todo esse nosso composto é feito de peças frágeis e falhas. Acaso não é uma prova singular de imperfeição não conseguirmos assentar o nosso contentamento em coi­sa alguma, e que, mesmo por desejo e imaginação, esteja fora do nosso poder escolher o que nos é necessário? Dis­so dá bom testemunho a grande discussão que sempre houve entre os filósofos para descobrir qual é o soberano bem do homem, a qual ainda perdura e perdurará eterna­mente, sem solução e sem acordo: Enquanto nos escapa, o objecto do nosso desejo sempre nos parece preferível a qualquer outra coisa; vindo a desfrutá-lo, um outro desejo nasce em nós, e a nossa sede é sempre a mesma. (Lucrécio).
Não importa o que venhamos a conhecer e des­frutar, sentimos que não nos satisfaz, e perseguimos cobi­çosos as coisas por vir e desconhecidas, pois as presentes não nos saciam; em minha opinião, não que elas não te­nham o bastante com que nos saciar, mas é que nos apo­deramos delas com mão doentia e desregrada: Pois ele viu que os mortais têm à sua disposição praticamente tudo o que é necessário para a vida; viu homens cumulados de riqueza, honra e glória, orgulhosos da boa reputação de seus ftlhos; e entretanto não havia um único que, em seu foro íntimo, não se remoesse de angústia e cujo cora­ção não se oprimisse com queixas dolorosas; compreendeu então que o defeito estava no próprio recipiente, e que esse defeito corrompia tudo de bom que fosse colocado de fora em seu interior (Lucrécio).
O nosso apetite é indeciso e incerto: não sabe con­servar coisa alguma, nem desfrutar nada da maneira certa. O homem, julgando que isso seja um defeito dessas coi­sas, acumula e alimenta-se de outras coisas que ele não sabe e não conhece, em que aplica os seus desejos e espe­ranças, honrando-as e reverenciando-as; como diz César: Por um vício comum da natureza, acontece termos mais con­fiança e também mais temor em relação às coisas que não vimos e que es­tão ocultas e desconhecidas.

 

Michel de Montaigne, Ensaios

 





Minutos de sabedoria: Shopenhauer

6 06 2025

Menino lendo

Francesc Domingo Segura (Espanha-Brasil,1893-1974)

óleo sobre tela, 74 x 60 cm 

 

 

“Devemos abster-nos, na conversação, de observações críticas, mesmo que sejam as mais bem intencionadas, pois magoar as pessoas é fácil; difícil, se não impossível, é melhorá-las.”

 

Arthur Shopenhauer

Arthur Shopenhauer
(1788-1860)





A felicidade … Carlos Drummond de Andrade

3 06 2025
Ilustração C. Crompton

 

“Que a felicidade não dependa do tempo, nem da paisagem, nem da sorte, nem do dinheiro.
Que ela possa vir com toda simplicidade, de dentro para fora, de cada um para todos.
Que as pessoas saibam falar, calar, e acima de tudo ouvir.
Que tenham amor ou então sintam falta de não tê-lo.
Que tenham ideais e medo de perdê-lo.
Que amem ao próximo e respeitem sua dor.
Para que tenhamos certeza de que:
“Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.”

 

Carlos Drummond de Andrade





Sabedoria felina: Takashi Hiraide

29 05 2025

Gatos e relógio, 1965

Emanoel Araújo (Brasil, 1940)

xilogravura policromada, 92 x 40 cm

 

 

“Os gatos que saem das casa não duvidam nem por um instante de cruzar fronteiras que só existem para os humanos.”

 

Takashi Hiraide, em O gato que nos visitou





A frase musical, Marcel Proust

27 05 2025

Natureza morta com instrumentos musicais e livros, c. 1650

Bartholomeo Bettera (Itália, 1639-1699)

óleo sobre tela

Museu de Israel, Jerusalém

 

 

Que belo diálogo ouviu Swann entre o piano e o violino no começo do último trecho! A supressão das palavras humanas, longe de deixar ali reinar a fantasia, como se poderia crer, a tinha eliminado: jamais a linguagem falada foi tão inflexivelmente fatal, jamais conheceu a tal ponto a pertinência das perguntas, a evidência das respostas. Primeiro o piano solitário se queixou, como um pássaro abandonado da sua companheira; o violino escutou-o, respondeu-lhe como de uma árvore vizinha. Era como no princípio do mundo, como se ainda não houvesse senão os dois sobre a face da Terra, ou antes, era naquele mundo fechado a tudo o mais, construído pela lógica de um criador e onde para todo o sempre só os dois existiriam: aquela sonata. Era um pássaro? Era a alma ainda incompleta da pequena frase, era uma fada, esse ser invisível e choroso, cuja queixa o piano em seguida ternamente redizia? Seus gritos eram tão súbitos que o violino devia precipitar-se sobre o seu arco para os recolher. Maravilhoso pássaro! O violinista parecia querer encantá-lo, amansá-lo, capturá-lo. Já havia passado para a sua alma, já a pequena frase evocada agitava, como ao de um médium, o corpo verdadeiramente possuído do violinista.

 

Marcel Proust, em: No caminho de Swann, volume I da obra Em busca do tempo perdido, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana.