Bloco de Carnaval
Edésio Esteves (Brasil, 1916)
óleo sobre tela, 60 x 73 cm
“Se a única coisa que de o homem terá certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano.”
Graciliano Ramos
Bloco de Carnaval
Edésio Esteves (Brasil, 1916)
óleo sobre tela, 60 x 73 cm
Graciliano Ramos
Graciliano Ramos (1892-1953)
Menina com a máscara
Adilson Santos, (Brasil, 1944)
óleo sobre tela

Padre lendo
Ferdinand Hodler (Suíça, 1853-1918)
óleo sobre tela, 71 x 51 cm
“O livro nas mãos do padre foi como isca para os olhos de Antonio José Bolívar. Pacientemente, esperou até que o padre, vencido pelo sono, o deixasse cair de um lado.
Era uma biografia de são Francisco, a qual ele examinou furtivamente, sentindo que ao fazê-lo cometia um pequeno roubo.
Juntava as sílabas, e à medida que o fazia, o desejo de compreender tudo o que havia naquelas páginas o levou a repetir a meia voz as palavras capturadas.
O padre despertou e observou, divertido, Antonio José Bolívar com o nariz metido no livro.
— É interessante? — perguntou.
— Desculpe, eminência. Mas eu o vi dormindo, e não quis incomodá-lo.
— Interessa-lhe? — repetiu o padre.
— Parece que fala muito de animais — respondeu timidamente.
— São Francisco amava os animais. Amava todas as criaturas de Deus.
— Eu também gosto deles. À minha maneira. O senhor conhece são Francisco?
— Não. Deus me privou de tal prazer. São Francisco morreu há muitíssimos anos. Quer dizer, deixou a vida terrena e agora vive eternamente junto ao criador.
— Como sabe disso?
— Porque li o livro. É um dos meus preferidos.
O padre enfatizava suas palavras acariciando a rafada brochura. Antonio José Bolívar o olhava enlevado, sentindo a coceira da inveja.
— O senhor leu muitos livros?
— Uma porção. Antes, quando ainda era jovem e meus olhos não se cansavam, devorava toda obra que parasse em minhas mãos.
— Todos os livros tratam de santos?
— Não. No mundo há milhões e milhões de livros. Em todas as línguas, e abrangem todos os temas, inclusive alguns que deveriam estar proibidos aos homens.
Antonio José Bolívar não entendeu aquela censura e continuou com os olhos cravados nas mãos do padre, mãos gorduchas, brancas sobre a brochura escura.
— De que falam os outros livros?
— Já lhe disse. De todos os temas. Há livros de aventuras, de ciência, histórias de seres virtuosos, de técnica, de amor…
O último interessou-lhe. Conhecia do amor aquilo que ouvia nas canções, especialmente nos pasillos cantados por Jurito Jaramillo, cuja voz de guaiaquilenho pobre às vezes escapava de um rádio de pilhas tornando os homens taciturnos. Segundo os pasillos, o amor era como uma picada de um inseto invisível, mas procurado por todos.
— Como são os livros de amor?
— Temo que não possa lhe falar disso. Não li mais que um par.
— Não importa. Como são?
— Bem, contam a história de duas pessoas que se conhecem, se amam e lutam para vencer as dificuldades que os impede de ser felizes. ”
Em: Um velho que lia romances de amor, Luís Sepúlveda, tradução de Josely Vianna Baptista, São Paulo, Editora Ática: 1995, pp 42-43.
Ilustração de Duy Huynh.
Em: A última palavra, Hanif Kureishi, São Paulo, Cia das Letras:2016, p.254
Leitora
Saturno Buttò (Itália, 1957)
óleo sobre tela
Markus Herz
Ilustração de Jack Potter, anúncio da Coca-cola, Praia de Copacabana, RJ, ao fundo, 1960.
“… O terrorismo é uma estratégia de fraqueza adotada por aqueles que carecem de acesso ao poder de fato. Ao menos no passado, seu funcionamento era resultado mais da disseminação do medo do que de danos materiais significativos. Terroristas normalmente não têm o poder de derrotar qualquer exército, de ocupar um país ou de destruir cidades inteiras. Em 2010, enquanto a obesidade e doenças relacionadas a esse mal mataram cerca de 3 milhões de pessoas, terroristas mataram 7.697 indivíduos em todo o mundo, a maioria deles em países em desenvolvimento. Para um estadunidense ou europeu mediano, a Coca-cola representa um perigo muito mais letal do que a Al-Qaeda.
Como, então, terroristas conseguem dominar as manchetes e mudar a situação política em todo o mundo? Provocando nos inimigos uma reação desmedida. Na essência, o terrorismo é um show. Os terroristas encenam um tenebroso espetáculo de violência que captura nossa imaginação e nos transmite a sensação de estar escorregando de volta ao caos medieval. Em consequência, os Estados frequentemente se sentem obrigados a reagir ao teatro do terrorismo com um show de segurança, orquestrando imensas exibições de força, como a perseguição a populações inteiras ou a invasão de países estrangeiros. Na maioria dos casos, essa reação exacerbada representa um perigo muito maior a nossa segurança do que aquele decorrente de atentados terroristas.”
Em: Homo Deus, Yuval Noah Harari, tradução de Paulo Geiger, Cia das Letras: 2016, pp 27- 28.

Nissaka-shuku, estação 25, das 58 estações da Estrada Tokaido, 1834
Ando Hiroshige (Japão, 1797-1858)
Xilogravura policromada
Ruth Ozeki
A promessa, 1950
René Magritte (Bélgica, 1898-1967)
guache e lápis sobre papel, 36 x 45 cm
« …Pela primeira vez na História, quando governos, corporações e indivíduos privados avaliam o futuro imediato, muitos não pensam na guerra como um acontecimento provável. As armas nucleares tornaram uma guerra entre superpotências um ato louco de suicídio coletivo e com isso forçaram as nações mais poderosas da Terra a encontrar meios alternativos e pacíficos de resolver conflitos. Simultaneamente, a economia global abandonou as bases materiais para se assentar no conhecimento. Antes, as principais fontes de riqueza eram os recursos materiais, como minas de ouro, campos de trigo e poços de petróleo. Hoje, a principal fonte de riqueza é o conhecimento. E, embora se possam conquistar poços de petróleo na guerra, não se pode conquistar conhecimento dessa maneira. Desde que o conhecimento se tornou o mais importante recurso econômico, a rentabilidade da guerra declinou e as guerras tornaram-se cada vez mais restritas àquelas regiões do mundo – como o Oriente Médio e a África Central – nas quais as economias ainda são antiquadas, baseadas em recursos materiais.”
Em: Homo Deus, Yuval Noah Harari, tradução de Paulo Geiger, Cia das Letras: 2016, pp 24-25
Uma leitura ao pé do fogo
William Mulready ( GB, 1786 – 1853)
óleo sobre madeira, 37 x 30 cm
Jane Austen
Momento à sós, 2010
Linda Apple (EUA, contemporânea)
óleo sobre tela, 20 x 20 cm
“Assim, dos vinte aos trinta anos trabalhei duro de manhã até a noite e todo o meu tempo era utilizado para conseguir pagar as dívidas. Quando me lembro dessa época, só me vem à cabeça que eu trabalhei muito. Imagino que a vida das pessoas normais na casa dos vinte seja mais divertida, mas quase não tive condições de aproveitar a juventude por falta de tempo e dinheiro. Mas mesmo nessa época eu lia livros sempre que conseguia. Por mais que estivesse ocupado, por mais que a vida fosse difícil, a leitura continuou sendo uma grande alegria para mim, assim como a música. Ninguém podia tomar de mim essa alegria.”
Em: Romancista como vocação, Haruki Murakami, tradução: Eunice Suenaga, Alfaguara: 2017, p.24.