Leitora na grama
Karin Jurick (EUA, contemporânea)
“É uma estupidez não ter esperança.”
Ernest Hemingway
Leitora na grama
Karin Jurick (EUA, contemporânea)
Ernest Hemingway
Lírio do convento, 1891
Marie Spartali Stillman (GB, 1844 – 1927)
aquarela
Ashmolean Museum, Oxford
Leio por volta de quarenta e cinco livros de ficção por ano. E muitos livros de não ficção. Livros de ficção recentes têm tido muito pontos em comum, temas que estão em pauta, aparecem com maior frequência. Assim aos poucos, se não tomo nota dos personagens, daquilo que achei interessante, acho difícil voltar e me lembrar exatamente do que li em que livro. Faço parte de três grupos de leitura e nem sempre o que leio é algo que eu teria escolhido. Portanto nem sempre os autores são conhecidos meus, ou nem sempre trata-se de temas e minha preferência. Não me importo com isso, porque quero que a leitura abra meus horizontes. No entanto, à medida que o tempo passa, acho que meu sistema de anotações sobre o que estou lendo está se tornando obsoleto.
Com isso me mente procuro um sistema um pouco mais fácil. No kindle, onde leio provavelmente metade dos livros, é mais fácil marcar e fazer notas e depois resgatá-las, separá-las. Selecionar por temas é importante. Uma coisa que sempre me dá dor de cabeça é guardar o nome dos personagens. Conheço leitores que fazem isso com cuidado. Não consigo. Então saí pela internet à procura de sistemas de anotações de livros. Hoje mostro o sistema de Bobbie Powers, que li no Medium. Vou tentar e digo depois se funcionou.

Ele usa três passos: asterisco, sublinhar, e notas nas páginas finais do livro.
Com o asterisco, esse sinal gráfico em forma de estrela, é usado para passagens que ele considera importantes. Se for muito importante, ele coloca um círculo ao redor do asterisco. Esses asteriscos com círculo em geral são o que irá para as páginas em branco no final do livro.
Sublinhar é para citações ou ideias importantes que deveriam ser lembradas palavra por palavra. Sublinhar é uma coisa muito pessoal. Às vezes marca-se uma passagem porque ela lembra outro livro, ou uma situação pela qual já passamos. É muito pessoal.
Notas no final do livro, marcando a página onde são encontradas, elas são, de fato, a sua experiência ao ler, aquilo que você acho importante anotar, porque está certo de que faz parte do que o livro quis trazer à tona.
Bobbie Powers ainda anota no rodapé, o significado de palavras que encontrou no texto cujo significado procurou no dicionário..
Lista de personagens – Vou tentar essa maneira na minha próxima leitura. Com uma adição: no avesso da capa detrás vou escrever o nome dos personagens, para que na hora da conversa sobre o livro eu não fique procurando: “aquela menina loura que era aborrecia muito porque chorava a toa…” esperando que alguém me ajude com o nome… .Teresa!” Pois é, vamos ver se funciona.
Para você ler o artigo de Bobbie Powers na íntegra, clique aqui: Use this Simple Technique to Get More Out of Every Book You Read
Jovem lendo
Jean-Pierre Alaux (França, 1925)
litografia, 50 x 67 cm
Zalkind Piatigorsky

Joan lendo “Memórias de uma gueixa”, 2007
Anthony Zierhut,(EUA, contemporâneo)
sketch
Ronaldo Wrobel
Leitura de verão
Jennifer Young, (EUA, contemporânea)
óleo sobre madeira, 15 x 15cm
Mário Lúcio Sousa
Mário Lúcio Sousa (1964)
Um canto confortável, 1887
Charles Courtney Curran (EUA, 1861–1942)
óleo sobre tela, 22 x 30 cm
Ralph Waldo Emerson
Ralph Waldo Emerson (1803 – 1882)
Descanso
Witha Lacuesta (Alemanha-EUA, contemporânea)
aquarela
Ernest Hemingway
Ilustração, Walter Crane, 1878.
Henry David Thoreau
Henry David Thoreau (1817 -1862)
Devaneio
Sabrina Bizien (França, contemporânea)
acrílica, 15 x 15 cm
Marcel Proust
Senhora lendo jornal
Emilio Grau Sala (Espanha, 1911 – 1975)
óleo sobre tela, 60 x 72 cm
“À direita do velho Gabriel, com os olhares paralelos, presos em pontos abstractos e desfocados, estavam os irmãos. Os seu olhares eram iguais, mas não viam o mesmo. Eram o mesmo olhar a ver duas coisas. Durante os meses em que estava parado, era, os irmãos que tomavam conta do lagar. Sempre juntos, sempre um ao lado do outro, envelheceram ao mesmo tempo: tinham a mesma curva nas costas, o mesmo andar pouco ligeiro e, sem que o soubessem, o mesmo número exacto de cabelos brancos na cabeça. Já tinham passado muito mais de setenta anos da manhã de agosto em que, ao mesmo tempo, nasceram, rasgando a mãe por dentro à sua passagem. Contavam os mais velhos, que tinham ouvido dos seus pais, que, assim que lhes cortaram os cordões umbilicais, a mãe os olhou e viu ainda que eram siameses. Morreu alguns minutos depois, sem dizer uma palavra. O seu enterro foi seguido por toda a vila e sentido como uma tragédia entre as maiores. Todas as pessoas da vila davam os pêsames ao pai dos irmãos, pela esposa e pelos filhos, pois todos cuidaram que crianças assim não medravam. Mas, no momento em que a mãe era enterrada, os meninos dormiam sobre três cobertores dobrados, no quarto do pai, ao lado da cama onde a mãe se esvaíra em sangue. De pele muito enrugada, os meninos dormiam , com as mãos que tinham unidas levantadas sobre o lençol que os cobria, como num orgulho inocente de serem irmãos. E, sob o olhar preocupado das pessoas, cresceram como crescem as crianças. Com os anos, muitos lhes quiseram analisar as mãos e todos se arrepiavam com o que viam: a mão direita de um e a mão esquerda do outro estavam unidas pelo dedo mindinho. Tinham as mãos muito elegantes, finas, dedos longos, mas a partir da última norça do mindinho, os seus dedos fundiam-se e terminavam numa só unha. Todos os que viam isto inventavam maneiras de os separar, mas o mais insistente foi o homem de arrancar dentes com o alicate. Inflamado, dizia conhecer homens que tinham cortado muitas pernas e muitos braços na guerra, e que tinha lido muitos livros com desenhos mesmo, e que cortar um dedo a uma criança é mais fácil do que podar uma parreira. E o pai dos irmãos perguntou-lhe e como é que eu decido qual deles é que fica sem dedo? E o homem de arrancar dentes com um alicate, imediato, respondeu já tinha pensado nisso, o mais justo é cortar o dedo aos dois. O pai dos irmãos olhou-o por um instante e não voltou a falar com ele. ”
Em: Nenhum olhar, José Luís Peixoto, Dublinense: 2018, páginas 17 e 18.