Sublinhando…

12 06 2022

Lendo na cama

Carolyn Anderson (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela

“Chorar por papai passou a ser sua profissão, sua identidade, sua persona. Anos depois, ao refletir sobre a parcela política  no interior da qual havíamos  todos vivido (o marxismo e o Partido Comunista), e ao dar-me conta de que as pessoas que trabalhavam como bombeiros, padeiros ou operadores de máquinas de costura haviam se percebido com pensadores, poetas e eruditos pelo fato de serem membros do Partido Comunista, entendi que mamãe havia assumido sua viuvez de forma bastante semelhante. Sua viuvez a elevava a seus próprios olhos, tornava-a uma pessoa espiritualmente relevante, emprestava riqueza a seu pesar e retórica à sua fala. A morte de papai se transformou numa religião que oferecia cerimônia e doutrina.  Mulher-que-perdeu-o-amor-de-sua-vida passou a ser sua  ortodoxia: a ela, prestava uma atenção talmúdica.”

Em: Afetos ferozes, Vivian Gorick, tradução de Heloísa Jahn, apresentação de Jonathan Lethem, São Paulo, Todavia: 2019, p: 80.





Sublinhando…

8 06 2022

Leitura à beira-mar

Bea Gold (EUA, 1927)

gravura

“Chegamos à rua 69, viramos à esquina e avançamos para a entrada do auditório Hunter. As portas estão abertas. Dentro, duzentos ou trezentos judeus ouvem os depoimentos que comemoram sua história inenarrável. Esses depoimentos são a cola que os gruda. Rememoram e convencem. Curam e conectam. Permitem que as  pessoas encontrem seu próprio  sentido.”

Em: Afetos ferozes, Vivian Gorick, tradução de Heloísa Jahn, apresentação de Jonathan Lethem, São Paulo, Todavia: 2019, pp: 52 e 53





Sublinhando…

25 05 2022

Jacqueline lendo

Albert André (França, 1869-1954)

óleo sobre tela

 

“… a paixão primeira não pela voz, mas pelos olhos fala.”

 

Olavo Bilac, Poema V, Via Láctea.

 

 





Sublinhando…

17 05 2022

 Notícias da manhã, ou Peggy Bacon lendo

Alexander Brook (EUA, 1898-1980)

óleo sobre tela,  24 x 18 cm

 

“A ciência é muito mais do que a apreciação e a aplicação de sua linguagem técnica à explicação dos fenômenos naturais. A beleza da ciência está em seu poder de nos aproximar da Natureza.”

 

 

Marcelo Gleiser

 

Em: A dança do universo: dos mitos de criação ao Big Bang, Marcelo Gleiser, São  Paulo, Companhia das Letras: 2006, 10ª reimpressão, Companhia de Bolso, página 183.





Sublinhando…

1 04 2022

Pausa

Carlos Ygoa (Espanha, 1963)

óleo sobre tela,  130 x 97 cm

“Somos como o narrador na terceira pessoa de um romance [ …] é ele que decide e conta, mas não é possível interpela-lo nem questioná-lo. Não tem nome nem é um personagem, ao  contrário do que relata na primeira pessoa; portanto damos crédito a ele e dele não desconfiamos; não sabemos por que sabe o que sabe e por que  omite o que omite e cala o que cala e por que está capacitado para determinar o destino de todas as suas criaturas, e mesmo assim não pomos em dúvida o que diz…”

Em: Berta Isla, Javier Marías, Tradução Eduardo Brandão, São Paulo, Companhia das Letras: 2020, p.123





Minutos de sabedoria: Ambrose Bierce

30 03 2022

Lendo, 1982

Tatiana Yablonskaya (Ucrânia, 1917-2005)

óleo sobre tela

“Paciência: uma forma menor de desespero, mascarada de virtude.”

Ambrose Bierce

Ambrose Bierce (1842- c.1913)




Palavras para lembrar: Daniel Pennac

17 02 2022

No café

Ricardo Sanz (Espanha, 1957)

óleo sobre tela, 116 x 89 cm

“O tempo de ler, assim como o tempo de amar, aumentam o tempo de vida.”

Daniel Pennac





Dois escritores bretões: Renan e Chateaubriand, Afonso Arinos de Melo Franco

10 02 2022

A leitora

Jean-Louis Mendrisse (França, 1955)

óleo sobre tela

 

 

“Curioso contraste o que separa os dois heróis literários da Bretanha, Renan e Chateauberiand! O primeiro, exibindo uma descrença levada quase à volúpia, era, no fundo, um crente — mais que isso, um crédulo — nas pretendidas verdades da razão e da precária ciência do século XIX. Sua obra confiantemente afirmativa (embora animada do mais soberano espírito negativista) está hoje muito retificada, muito desautorada pelos modernos estudos de História e de Filologia.  Nos seus solenes volumes, que eram o orgulho de nossos avós, há muito bagaço, muita sugestão aventurosa, muita improvisação. Fica, é claro, o escritor, grande e sofrido, que respeito, embora não o ame especialmente.  Fatiga-me a sua solenidade arredondada e fria; parnasianismo da prosa. De qualquer forma, o papa do agnosticismo dispunha de uma espécie de sólida fé negativa. Chateaubriand, ao contrário, homem de crença profunda, foi sempre atraído pelo assombramento do nada, a obsessão do esvaimento constante de tudo, pelo silêncio vertiginoso do Tempo. Lembro especialmente duas passagens das Memórias em que essa consciência da inutilidade da vida é quase fisicamente dolorosa: a evocação dos reis de França sepultados em Saint-Denis, e a descrição do enterro de Lafayette, passando pelos boulevards parisienses. São duas páginas em que o desespero do nada, que é a vida, domina inteiramente o fervor do crente. Chateaubriand é o anti-Renan; é o crente angustiado pela dúvida, enquanto o outro é o descrente convencido das verdades racionais. O crente, procura sofrendo; o descrente pensa que tudo encontrou.”

 

 

Em: A alma do tempo: memórias, Afonso Arinos de Melo Franco, Rio de Janeiro, editora José Olympio: 1979, volume II, páginas 428-9.

 





Palavras para lembrar: Umberto Eco

8 02 2022

Retrato de Mimi Gross Grooms, 1966

Benny Andrews (EUA, 1930-2006)

óleo sobre papel colado em placa, 37 x 29 cm

 

 

“Todos os grandes escritores são grandes leitores de dicionários: eles nadam através das palavras.”

 

Umberto Eco





O cotidiano, Sayaka Murata

5 02 2022

À beira d’água, 1929

Lucien Jonas (França,1880-1947)

óleo sobre tela , 50 x 65 cm

 

 

 

“Eu, porém, continuo repetindo aquela mesma cena. Desde então, já vi a mesma manhã 6.607 vezes.

Coloquei os ovos delicadamente dentro da sacola. São os mesmos ovos que vendi ontem, mas diferentes. A Senhora Cliente insere os mesmos hashis dentro da mesma sacola de ontem, recebe as mesmas moedas e sorri para a mesma manhã,”

 

Em: Querida Konbini, Sayaka Murata, tradução de Ruth Kohl, São Paulo, Estação Liberdade: 2018, p. 74.