A cozinha do escritor, Patrick Modiano

29 01 2022

Homem lendo jornal, 1992

Bruno Vekemans (Bélgica, 1952-2019)

serigrafia

 

 

A cozinha do escritor

 

Aquilo que eu mais amo na escrita é o devaneio que a precede. A escrita em si, não, não é muito agradável. Deve-se materializar o sonho na página, assim que se saia do devaneio. Às vezes penso, como é que os outros fazem? Como esses outros autores que, como Flaubert o fazia no século XIX, escrevem e reescrevem, reformulam, reconstroem, e vão condensando a partir da primeira versão até que não reste finalmente quase nada na versão final do livro? Isso soa-me muito assustador. Pessoalmente, contento-me em fazer as correções num primeiro esboço que se assemelha a um desenho que foi feito de uma vez só. Estas correções são numerosas e ligeiras, como uma acumulação de atos de microcirurgia. Sim, é preciso medidas drásticas como faz um cirurgião, ser frio o suficiente com o seu próprio texto de uma ponta à outra, corrigindo, suprimindo, enfatizando. Às vezes basta riscar algumas palavras numa página para que tudo mude. Mas é essa a cozinha do escritor, que é suficientemente chato para os outros.

 

Patrick Modiano, in ‘Entrevista (2014)





Minuto de sabedoria: Ian McEwan

18 01 2022

Estudo sob as árvores, 1861

Daniel Huntington (EUA, 1816 – 1906)

óleo sobre tela, 30 x 25 cm

Metropolitan Museum

 

 

“A felicidade é uma coisa ocasional, um relâmpago de calor.”

 

Ian McEwan

 

 

Ian McEwan (Inglaterra, 1948)





Palavras para lembrar: Emily Dickinson

12 01 2022

Nos degraus

Monica Castanys (Espanha, 1973)

óleo sobre tela

 

“Nunca escrevo meu nome nos livros que compro até que os tenha lido, porque só então posso chamá-los meus”

Emily Dickinson





Natalinas: Thomas Monson

16 12 2021

Lendo na poltrona com gato, 2009

Joe Hindley (EUA, 1949)

óleo sobre tela

“O Natal é o espírito de dar sem um pensamento de obter. É felicidade porque vemos alegria nas pessoas. É esquecermo-nos a nós próprios e encontrar tempo para os outros. É descartar as coisas sem sentido e sublinhar os verdadeiros valores.”

Thomas Monson





Férias, texto Tahar Ben Jelloun

14 12 2021
Tintin vai viajar, ilustração de Hergé.

“Não gosto de férias. Devo dizer que não sinto necessidade delas, já que não trabalho com as mãos. Nem mesmo sei o que é tirar férias. Parece que é descansar, mudar de ritmo e de hábitos. Não tenho vontade disso. Meu ritmo é o que é. Lento e sem surpresas. Maus hábitos estão mais para manias, e tenho medo de perdê-los se, como todo mundo, sair de férias no mês de agosto. Meus hábitos me suportam e me ajudam a me suportar. Eles são simples e eu só peço uma coisa: que não os perturbem, que me deixem com eles do jeito como são.

Todos os que partem pelas estradas ao mesmo dia e na mesma hora têm também suas manias: ser como todo mundo, agir como os outros, não perder nada da empolgação coletiva, um modo de se tranquilizarem, de garantir que não vão morrer sozinhos ou idiotas. Não é o meu caso. Morrer idiota ou inteligente tanto faz!

Não gosto de férias porque não gosto de viajar. Correr para uma estação carregando uma mala pesada numa das mãos, uma bolsa na outra, as passagens entre os dentes, fazer fila num aeroporto para despachar a bagagem, suportar o nervosismo dos veranistas que têm medo de avião ou que se sentem obrigados a levar consigo a avó, que está perdendo a memória e adoraria ficar em casa com suas pequenas manias, ser acotovelado por um grupo de desportistas descuidados, partir atrasado, chegar exausto numa hora impossível, procurar um táxi… tudo isso eu deixo para vocês e prefiro me recolher num canto da casa, para escutar o silêncio e sonhar com os amores cruéis…”

 

Em: O primeiro amor é sempre o último — contos, Tahar Ben Jelloum, tradução de Joana Angélica d’Ávila Melo, Rio de Janeiro, Editora Vieira Lent: 2002, pp 60-1





Natalinas: C. S. Lewis

23 11 2021

Jovem leitora, 2007

Auke Leistra (Holanda, 1958)

“Quando amadurecemos, a lista de desejos para o Natal fica mais curta, e o que realmente desejamos, não é possível comprar.”

C. S. Lewis







Natalinas: Machado de Assis

20 11 2021

Lendo no ateliê do artista

Barry Thomas (EUA, 1961)

óleo sobre tela

“Mudaria o Natal, ou mudei eu?”

Machado de Assis





Palavras para lembrar: P. G. Wodehouse

30 09 2021

Família à beira-mar

Anthea Craigmyle (GB, 1933- 2016)

óleo sobre placa, 20 x 20 cm

“Não há mais certa base para uma boa amizade do que o gosto mútuo da literatura.”

P. G. Wodehouse





Remorso, Aldous Huxley

24 09 2021

Romance à beira-mar

Charles Wynne Nicholls (Irlanda, 1831-1903)

óleo sobre madeira, 21 x 27 cm

“Todos os moralistas estão de acordo em que o remorso crônico é um sentimento dos mais indesejáveis. Se uma pessoa procedeu mal, arrependa-se, faça as reparações que puder e trate de comportar-se melhor na próxima vez.  Não deve, de modo nenhum, pôr-se a remoer suas más ações. Espojar-se na lama não é a melhor maneira de ficar limpo.”

Aldous Huxley

Em: Admirável mundo novo, Aldous Huxley; tradução Vidal de Oliveira, 22ª edição, São Paulo, Globo: 2014. Prefácio, p.7





Palavras para lembrar: Doris Lessing

14 09 2021

Este é o nosso canto, 1873

Sir Lawrence Alma Tadema (Holanda-Inglaterra, 1836-1912)

óleo sobre madeira, 56 x 47 cm

Museu Van Gogh, Amsterdam

 

 

“Pais deveriam deixar livros em todos os cantos rotulados ‘proibido’, se quisessem que seus filhos lessem.”

 

Doris Lessing