“Richard então se lembra de que, passeando entre videiras com um colega vienense por ocasião de um simpósio no sul da Áustria, o colega de repente se deteve, inspirou profundamente o ar e perguntou-lhe se também ele estava sentindo o cheiro: o siroco vem da África, disse, atravessa os Alpes e, às vezes, chega mesmo a trazer consigo areia do deserto. E, de fato, nas folhas das videiras podia-se ver uma fina camada de poeira avermelhada vinda da África. Richard passou o dedo por uma das folhas e notou como aquele pequeno gesto de súbito deslocava seu ângulo de visão e seu senso de medida.”
Em: Eu vou, tu vais, ele vai, Jenny Erpenbeck, tradução de Sergio Tellaroli, Cia das Letras: 2024
Duas notas:
1 – Esse talvez tenha sido o livro que li em 2025 que mais me impactou. Certamente estaria entre os três primeiros do ano passado, no início do ano. Recomendo. Esse meu final de ano foi tão conturbado, e ainda não está normal, que nem a lista dos melhores do ano eu fiz. Que vergonha!
2 – Conheci o Siroco no ano em que morei na Norte da África acompanhando meu marido professor convidado pela Universidade de Oran. É realmente um fenômeno sem igual. O céu se torna avermelhado com o colorido do sol se pondo. É a nuvem de areia do deserto que passa muito acima da terra, em direção à Europa. Deixa, de fato, uma finíssima camada de pó (não é areia) avermelhado ao longo do caminho que faz em direção norte.
“É muito possível, porque nunca na minha vida encontrei moças tão deliciosas como naqueles dias em que estava com uma pessoa muito grave, de quem não podia separar-me apesar dos mil pretextos que inventava; em Paris, alguns anos depois da minha primeira viagem a Balbec, ia eu de carro com um amigo de meu pai quando vi uma mulher andando muito depressa na escuridão da noite; ocorreu-me que seria tolice perder por uma questão de cortesia a minha parte de felicidade na única vida que sem dúvida existe; desci sem desculpa alguma e lancei-me em busca da desconhecida; perdi-a num cruzamento de ruas, dei com ela no seguinte, e afinal, sem fôlego, me vi cara a cara com a velha sra. Verdurin, da qual eu sempre fugia, e que me disse, muito contente e admirada: “Que amabilidade a sua, correr para vir cumprimentar-me!”
Em: À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana