Tobias Marcier (Brasil, 1948-1982)
aquarela, 28 x 37 cm
Anne Redpath (Escócia, 1895-1965)
aquarela sobre papel
Nem todo livro de ficção fica conhecido pelo estilo poético do autor, pelo torneio de frases. O de Fredrik Backman será lembrado pelo oposto: consegue extrair grandes emoções, através da narrativa fria e impassível detalhando as idiossincrasias de um personagem carrancudo e sem senso de humor. Talvez por isso, esse improvável herói literário consiga desde o primeiro capítulo cativar o leitor. Todos nós conhecemos alguma versão de Ove. Quem não tem na família, no bairro, no emprego, algum conhecido que mantém hábitos de pensamento e ação rígidos? Os cinquenta e nove anos de posicionamentos imutáveis são a coluna dorsal de Ove, o homem simples que habita essas páginas. Suas verdades incontestáveis e valores incorruptíveis são a essência do seu caráter.
Apesar de sua postura irredutível sobre muitos aspectos do dia a dia, Ove é capaz de grandes paixões. Paixões cegas, que não admitem qualquer desvio. Elas podem ser pela marca de um carro ou por uma mulher. Através dessas paixões conhecemos a lealdade desse herói escandinavo. Nos apaixonamos por ele assim como Sonja, sua esposa, o fez.
Quando encontramos Ove, ele está deprimido. Aposentado aos cinquenta e nove e viúvo, sente o peso da solidão. Tudo o que deseja é seguir o caminho dela. No outro lado. A vida perdeu a razão de ser. Planeja cuidadosamente um suicídio. Depois outro e ainda outro, mas é interrompido cada vez pela mão do acaso, na figura de vizinhos bisbilhoteiros, que parecem tão determinados nas suas demandas quanto ele na sua decisão. Porque se trata de pessoa tão meticulosa, o dar errado de cada tentativa é inesperado. Narrado com objetividade a situação leva o leitor a rir. Não só a sorrir. Mas rir. Com gosto. Divertido.
No entanto, logo depois, nas conclusões dos capítulos somos presentados com um pensamento de Ove, sucinto, que exprime sua dor, seu amor, a falta que Sonja lhe faz. E do riso brotam as lágrimas. Com a mesma facilidade.
Fredrik BackmanUm homem chamado Ove demonstra a necessidade humana de ser útil, e de ser membro de um grupo. Na falta do amor, amigos mostram como a nossa presença é importante para o melhor desempenho deles. Mesmo o mais turrão dos homens, a pessoa menos gentil de um grupo, tem com que contribuir para o bem estar de todos e de si próprio. Essa é uma história que faz bem à alma e nos eleva. Acabamos a leitura com a lembrança do que nos faz humanos. Poucas histórias conseguem isso. Divertido e sensível, recomendo a todos, homens e mulheres, jovens ou anciãos. É tempo de lembrar do nosso mais importante quinhão: a cooperação. E de sua consequência, a aceitação.
Conny Lehmann (Alemanha, 1967)
aquarela sobre papel, 45 x 61 cm
Comprei esse livro porque achei a descrição da trama imperdível. Além disso, minha curiosidade havia sido instigada porque soube que a autora Ayelet Waldman participou da FLIP em 2015. O eixo principal dessa história é o retorno ao seu próprio dono de um medalhão com o desenho de um pavão que havia sido roubado durante a Segunda Guerra Mundial. Este medalhão fazia parte de um grupo de objetos, que haviam sido confiscados pelos nazistas, das família judias.
Achei interessante a história que trazia um novo elemento para a ficção literária sobre a Segunda Guerra. A guerra em si chegava ao fim em 1945 quando sabemos do trem repleto de tesouros confiscados na Hungria. Um dos soldados americanos responsável pelo trem é o foco da narrativa na primeira parte do livro. Por uma série de peripécias, Jack, acaba sendo o guardião do medalhão. E, à beira da morte, pede à sua neta que descubra os verdadeiros donos da joia.
A segunda parte se dedica à procura da pessoa ou de seus descendentes proprietários do medalhão: a melhor parte do livro. E na terceira e última parte, vemos a história dos proprietários da peça. Com essa estrutura o livro funciona como três contos diferentes, com leves ligações entre eles. São épocas, personagens e mistérios diferentes. A terceira parte me pareceu entediante. A razão é simples: no afã de ser precisa sobre a psicanálise, Ayelet Waldman dedica muito texto ao processo de análise da neurastenia, em 1913.
Ayelet Waldman
Aliás, já no início da trama, quando a ação ainda se passa em Salzburg, na Áustria, há diálogos cuja intenção é divulgar para o público em geral, os costumes e festividades judaicos. Isso contribuiu para diálogos forçados e aquém da realidade informal dos soldados americanos. Há outras formas de se passar informações culturais ou de época que causam menor intervenção no texto.
Ao que eu saiba, este é o único livro da autora traduzido no Brasil. Difícil justificar então seu convite para participar da FLIP. Não deve ter sido por esta obra.
Antigo Beco do Sapoti, Bairro do Bonfim, Salvador, 1945
Libindo Ferraz (Brasil, 1877-1951)
Aquarela sobre papel, 33 x 45 cm
Túnel Alaor Prata, 1952
[popularmente conhecido como Túnel Velho]
Yoshia Takaoka (Japão/Brasil, 1909-1978)
Aquarela sobre papel, 45 x 55 cm
Preparando-se para um pesadelo, 1859
Frederick Smallfield (Grã-Bretanha, 1829-1915)
Aquarela, 25 x 34 cm
Marie Spartali Stillman (Inglaterra, 1844-1927)
aquarela, guache e têmpera sobre papel, 57 x 43 cm
Delaware Art Museum
Beto Candia (Brasil, contemporâneo)
aquarela e bico de pena sobre papel