Irmão menor — poesia infantil de Pedro Bandeira

24 06 2012

Meninos brigando, 1911, ilustração de Leyendecker para a revista americana Saturday Evening Post.

Irmão menor


Pedro Bandeira


Irmão menor
É pior
que catapora
irmãozinho
é pior do que carniça,
É pior do que injeção.


Mexe no que é meu,
rabisca meu caderno,
perde meu carrinho,
e eu fico de castigo
se lhe dou um safanão.

É praga, é prega,
é sarampo, é varicela!

E não venha
achar estranho,
só porque dei uma surra
no danado do moleque
que xingou o meu irmão.


Eu posso xingar,
Os outros não.





Uma belíssima propaganda bancária, em FLASHMOB

24 06 2012



Tenham todos um bom domingo!





Trova (Quadrinha) da boa sorte

23 06 2012

Pato Donald encontra um sinal de sorte, ilustração Walt Disney.

A sorte tem seus encantos,
seus agrados, seus engodos;
às vezes agrada a tantos,
mas jamais agrada a todos

(Amália Max)





Oscar Pereira da Silva um homem de seu tempo

22 06 2012

Capa da Revista LIFE, de setembro de 1928, por Russell Patterson (EUA, 1893-1977)

Zeitgeist  é uma palavra alemã largamente adotada, assim mesmo, em alemão, nas cadeiras humanísticas para expressar o espírito de uma época, representado pelo clima cultural, intelectual, espiritual, ético e político de um grupo de pessoas, de nações.   [A pronúncia é: ”zaitgaist”]. Para quem lida com a história da arte, da arquitetura, das manifestações artísticas e culturais em geral, essa palavrinha é um sinal taquigráfico indicando uma semelhança de pensamentos, comportamentos, de estética.  Já usamos essa expressão muitas vezes aqui no blog, mas como faz parte de um jargão profissional é interessante lembrá-lo principalmente quando nos deparamos com uma semelhança de imagens.

O conceito de zeitgeist é importante para o estudo da história da arte porque auxilia na determinação das fontes inspiradoras dos artistas.  Desde que o mundo é mundo, desde a  Grécia, de Roma, da Idade Média, Renascença, e aí por diante que pintores, escultores, artistas gráficos, se inspiram na obra de seus antecessores.  Às vezes as inspirações são óbvias, às vezes precisa-se de muito tempo e pesquisa para provarmos que este pintor ou aquele escultor estava familiarizado com o trabalho de um determinado antecessor.  Muitos e muitos estudiosos passam um bocado de tempo tentando re-organizar o passado para melhor compreender como se manisfesta ou como se perpetua uma determinada tendência nas artes.  E é sobre essa divulgação de formas e conceitos que hoje examino um trabalho de Oscar Pereira da Silva, um dos nossos grandes pintores do século XX.

Recentemente estive, por razões diversas, verificando as imagens gráficas das capas de partituras de músicas populares, para piano e canto do início do século XX.  Passei horas e horas em grande deleite, observando o trabalho de muitos artistas gráficos anônimos e alguns bastante conhecidos.  Até que me deparei com a capa para a música Dear Heart, de 1919.  Não sei se foi um grande sucesso na época, mas achei referências a ela na web.  Com música de W. C. Polla and Willard Goldsmith, e letra de Jean Lefarve, a partitura foi publicada em 1919 pela C. C. Church and Co. de Hartford, Connecticut.  Se você quiser ouvir a música, clique aqui.

Dear Heart, 1919. de Jean Lefarve e W. C. Polla and Willard Goldsmith, ilustração de Rolf Armstrong.

A ilustração da partitura acima é de Rolf Armstrong.  Foi usada na capa da revista americana Metropolitan de 1919.  Nela vejo uma bela melindrosa que olha diretamente para mim, o leitor, enfentiçando-me com seus grandes e amendoados olhos azuis.  O turbante cor de laranja esconde os cabelos negros, cortados à la garçonne típicos da época, deixando entrever mechas, coquetemente enroscadas no que se denominava “pega rapaz“, que é aquela mecha de cabelos em forma de vírgula.  A rosa vermelha próxima ao nó do turbante compensa a longa linha do pescoço e reflete o carmim da boca entreaberta, convidativa, que parece dizer que essa melindrosa está pronta para se divertir, para sair dançando o charleston. Ela é misteriosa e sedutora.

Assim que bati com os olhos na capa dessa partitura me lembrei do quadro na Pinacoteca do Estado de São Paulo, Mulher com turbante, de Oscar Pereira da Silva, com uma moça semelhante. Não me lembrava da data, mas eu sabia que Oscar Pereira da Silva já havia falecido por volta dos anos 40.  Há exatamente 11 anos entre a capa da revista Metropolitan, da partitura para Dear Heart e o quadro brasileiro.  Lá está o mesmo espírito, o retrato do mundo pre-Segunda Guerra Mundial.  Melindrosas eram o tema nas artes gráficas através desses anos todos,  como a capa da revista Life, desenhada por Russell Patterson e publicada em setembro de 1928, reproduzida acima, demonstra.

Mulher com turbante, 1930

Oscar Pereira da Silva (Brasil,1867-1939)

óleo sobre tela, 41 x 33 cm

PESP — Pinacoteca do Estado de São Paulo

Há semelhanças bastante perceptíveis.  Uma melindrosa, morena, com olhos azuis, rasgados e brilhantes de excitação olha diretamente para o observador.  Um turbante cor de laranja esconde seu cabelo escuro, cortado a la garçonne, com  sensuais mechas encaracoladas próximas às orelhas.  Na versão brasileira a melindrosa tem os lábios da cor do fundo do quadro, e um sorriso mais aberto, mais convidativo à diversão.  No lugar da rosa da capa acima, temos um ombro nu, sensual, que ajuda como a rosa anteriormente a compensar a longa linha de um pescoço colossal.  A versão tropical é muito mais exuberante, menos misteriosa mas tão sedutora quanto sua companheira americana.

Sabemos que no Rio de Janeiro do início do século XX o piano ainda era um instrumento encontrado na maioria das casas da classe média, com moçoilas casadouras.  Mesmo no início do século XX, muitas famílias ainda mantinham saraus e todas as moças da casa aprendiam a tocar piano. Muitas dessas partituras vinham do exterior.  Oscar Pereira da Silva conhecia bem esse hábito dos saraus.  Há um de seus quadros na Pinacoteca do Estado de São Paulo, A hora de música , reproduzido abaixo, que mostra exatamente esse uso do piano na família.

Hora de música, 1901

Oscar Pereira da Silva (Brasil,1867-1939)

óleo sobre tela

Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Oscar Pereira da Silva foi um pintor que pemaneceu dentro dos parâmetros da pintura histórica e realista, não abrindo espaço em sua produção para as “novidades” das técnicas mais modernas.  Foi um retratista, um pintor de cenas históricas e sempre teve uma boa e tradicional clientela que o manteve produzindo até o fim.  Suas pinturas de gênero tendem a ser bastante detalhistas e é realmente só na maturidade que vemos um trabalho como A mulher com turbante, que tem uma leveza de traço, uma rapidez de pincelada, que se deve muito mais aos moldes modernos de pintura do que ao realismo minucioso ao qual Oscar Pereira da Silva é sempre associado.

Agora, levando em consideração a popularidade de certas canções, e a familiaridade do pintor e de todos na época com partituras para piano, a pergunta a fazer é:

Oscar Pereira da Silva conhecia essa capa de música?  Ou é isso simplesmente Zeitgeist?

©Ladyce West,2012





A vida em Piratininga, texto de Otoniel Mota

22 06 2012

Roça, s/d

Rui de Paula (Brasil, 1961)

óleo sobre tela, 70 x 100 cm

A vida em Piratininga

Otoniel Mota

Pelo arraial vagam em promiscuidade bois, cavalos, porcos e ovelhas, a se roçarem nas paredes frágeis dos casebres de pau-a-pique. As paredes da Cadeia e da Casa de Conselho vivem por eles maltratadas, pois lhes servem de tábuas de arrebentar carrapatos.

Galinhas cocoricam, grasnam patos, grugulejam bandos de perus.  Ladram cães meio selvagens, que, às vezes, estraçalham rebanhos de ovelhas e não poupam bezerros. O Conselho vota leis severas contra eles e seus donos, pena de morte para os cães e degredo para os donos, em caso de reincidência.

Partem reclamações de todos os lados, por parte de roceiros, contra o gado solto que lhes vai estragar as plantações. Pedem-se editais para que esse gado se feche ou venha pastoreado. Vacas e bois ameaçam as vidas dos que vão para a lavoura.

Pela manhã o sino tange para a missa. Depois, a escola para os pequenos e a roça para os adultos. À tarde o sino da recolhida.

Ao morrer do dia, os macucos, empoleirados, soltam seus pios merencórios, como gemidos de saudade. Os urus e os intans na capoeira, os chororós à beira do capo respondem-se por todos os recantos. Bandos de pássaros verdes – araras, papagaios, maitacas, maracanãs, araguaris, tirivas, jandaias, periquitos e tuins – numa algazarra infernal, revoam de capões em capões, baixam aos milharais e afinal recolhem-se às matas e capoeiras.

Silvam flechas e estalam pelotadas.

De raro em raro, o som plangente de uma vila. Mais ao longe, a dança, o canto monótono dos selvagens, composto apenas de três ou quatro notas.

É evidente que, a princípio, não havia iluminação alguma a não ser a da lua e das estrelas. Só mais tarde é que se cuidou de lampiões alimentados com óleo de peixe e presos às paredes das habitações.

Em: Terra Bandeirante: 4º ano, Theobaldo Miranda Santos,  Rio de Janeiro, Agir:1954

Vocabulário:

Vagam — andam sem destino

Em promiscuidades — misturados, unidos desordenadamente.

Severas — rigorosas.

Degredo — pena de desterro ou exílio.

Reincidência — repetição.

Editais — avisos oficiais, ordens escritas do governo.

Tange — toca, bate.

Merencórios — tristes, melancólicos.

Plangente — que chora, triste

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O texto acima, de um livro usado nas escolas do Estado de São Paulo na década de 1950, é acompanhado do seguinte questionário para ser respondido pelos estudantes:

Que vagam pelo arraial?

Que fazem com as paredes da Cadeia?

Que fazem os outros animais?

Que vota o Conselho?

De onde partem as reclamações?

Que se pedem e que se fazem?

Que há ela manhã?

E à tarde?

Que acontece ao morrer do dia?

A princípio havia iluminação?

E mais tarde?





Imagem de leitura — Henrique Manzo

22 06 2012

Leitura, s/d

Henrique Manzo (Brasil, 1896-1982)

óleo sobre tela, 38 x 32 cm

Coleção Particular

Henrique Manzo nasceu em São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo.  Estudou no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo onde foi  aluno de Panelli, Antônio Quadrenchi e Alfredo Norfini. Foi pintor, desenhista, restaurador e cenógrafo. Como cenógrafo trabalhou no Teatro Carlos Gomes no Rio de Janeiro.  E morou no Rio de Janeiro em 1917-18.  Mas sua vida profissional em todas as várias facetas se desenrola principalmente na cidade de São Paulo onde foi pintor e restaurador do Museu Paulista (Hoje Museu do Ipiranga), professor da Escola Paulista de Belas Artes e participante ativo dos Salões Paulistas de Belas Artes.  Faleceu na cidade de São Paulo, em 1982.





Quadrinha da ciranda de amores

22 06 2012

Magali tem ciúmes, ilustração de Maurício Sousa.

Eu morro por Filomena,

Filomena por Joaquim,

Joaquim por Madalena

e Madalena por mim.

(Belmiro Braga)





Palavras para lembrar — Oprah Winfrey

21 06 2012

Leitura, 2005

Igor Zhuk (Ucrânia, 1971)

óleo sobre tela, 50 x 70cm

www.zhuk-art.com

“Os livros foram o meu passe para a liberdade. Aprendi a ler aos três anos, e logo descobri que havia um mundo inteiro a ser conquistado além do nosso sítio no Mississipi”.

Oprah Winfrey





Pensando o espaço urbano verde: escola de design arte e mídia em Cingapura

21 06 2012

Escola de Design, Arte e Mídia da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura.

Um dos telhados verdes mais impressionantes é o da Escola de Design, Arte e Mídia da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura.  O edifício com uma forma orgânica não deixa que se perceba a altura de cinco andares do edifício.  A vegetação se mistura à paisagem.  Natureza e alta tecnologia se encontram para solucionar de maneira criativa o impacto do edifício na área à sua volta.

Outro ângulo do edifício da Escola de Design, Arte e Mídia da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura.

Não parece haver uma separação distinta entre o jardim e o edifício: formas e espaços são fluidos, e o jardim parece abraçar o imóvel, cuja fachada é inteiramente de vidro.  Esse telhado de vegetação permite temperaturas mais estáveis, tanto no inverno quanto no verão, evitando os extremos. A luz é abundante vindo através das  paredes de vidro que dão para a praça interna.  Dentro das salas ela é difusa e filtrada através da folhagem no entorno do prédio.

As paredes de vidro proporcionam uma troca visual entre o espaço interior e o exterior permitindo que os usuários experimentem simultaneamente o edifício, a paisagem à sua volta e a praça interior como espaços fluidos.

Vista da praça interior do edifício.

Os telhados verdes fazem as curvas do edifício se sobressaírem.   Além de estabilizarem a temperatura: isolando o edifício, resfriando o ar à sua volta e colhendo chuva para a irrigação dos jardins, eles servem também como espaços de encontro informais.

Os acabamentos são intencionalmente despojados para atuar como um pano de fundo para a arte, mídia e projetos de design. Paredes de concreto e colunas, cimento, areia, pisos, grades de madeira, tudo numa paleta neutra que ajuda a definir os espaços interiores que variam em forma e tamanho.

Tradução e adaptação do artigo em INHABITAT.





Feira moderna de Caruaru, poema de Domingos Pellegrini, Jr.

21 06 2012

Cabras, arte africana, sem autoria.

Feira moderna de Caruaru

Domingos Pellegrini Jr.

1

A carne-de-sol na sombra

das barracas de alvaiade

Quarenta cachorros magros

Ninguém pode ter piedade

C’uma costela de vaca

a fome toca rabeca

no coração da cidade.

A feira dura três dias

não deixa sobra nenhuma

Cada velho cada menino

é doutor de economia.

Um cego vendendo um bode

garante que produz leite

coalhada até requeijão

— Mas, cego, como é que pode?

O cego apenas responde:

— Hoje quem faz propaganda

não aceita discussão.

2

Mas cadê aquela feira

que irmão abraçava irmão

Fateira entregava a concha

pra mexer no caldeirão

Feirante botava a fruta

na boca do cidadão

Se não gostou, não comprava

Se azedou, devolvia

Se não vendia, era dado

Freguês pagava outro dia

Morria, era perdoado

Hoje são outros 500

São outros tempos, meu mano

O cego vendeu o bode

— Vendi, e sem garantia

Tinha mais de 30 anos

não vive mais 30 dias

Negócio tipo moderno.

Hoje aqui ninguém mais fia.

Quem pode, financia.

Quem não pode, vá pro inferno.

Em: Poesia viva 2: a diversidade de nosso tempo na visão de cada poeta, coord. e sel. Moacyr Félix, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira:1979